quinta-feira, 11 de junho de 2015


Crítica:

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World / 2015 / EUA) dir. Colin Trevorrow

Jurassic World chega carregado de um hype que mistura desconfiança e nostalgia. Afinal, grande parte do público jovem adulto cresceu tendo em Jurassic Park, de Steven Spielberg, um dos primeiros grandes filmes com que tiveram contato (me incluo). Mas a promessa de relembrar um pouco a inocência da infância vem com a sombra de que o filme não fizesse jus às nossas doces memórias, se tornando apenas um exercício de frustração ao ver algo querido numa roupagem imbecil. O temor é justo, mas felizmente não se concretiza.

Apresentando a novidade de finalmente vermos o parque aberto e funcionando, Jurassic World ganha pela dinamicidade com que explora as atrações e a própria estrutura do parque, com seus transportes futuristas que reforçam o caráter de ficção científica do projeto, além de evidenciar anos da mais refinada engenharia e arquitetura, usando todos os meios possíveis para colocar o público em maior contato com os dinossauros, mas em segurança, com corredores que se camuflam de troncos e veículos transparentes giratórios que colocam as pessoas lado a lado com as criaturas, sem contar o tanque que abriga o Mosassauro. O parque acaba aparecendo como uma mistura de Disneylândia e Sea World (com elementos que lembram o recente Tomorrowland), só que elegante em suas cores claras porém sóbrias, mesmo nos ambientes mais burlescos (como a Margaritaville), evidenciando também a magnitude do investimento do parque ao acoplar hotéis à ilha.

O diretor Colin Trevorrow coaduna o senso de maravilhamento dessa visita ao parque ao desenvolvimento da trama que se passa nos bastidores, onde um dinossauro criado geneticamente a partir do genótipo de vários outros, Indominus Rex, escapa do seu cativeiro. Se a princípio tal dinossauro faz torcer o nariz, aos poucos começa a fazer sentido e enriquecer o filme, em especial se mantermos em mente que se trata de um parque temático fantástico em tempos onde as pessoas são bombardeadas por novidades a cada segundo, consequentemente se chocando cada vez menos, e assim, o desenvolvimento de criaturas maiores e mais assustadoras seria um investimento cabível caso a Ciência já fosse capaz de tal criação. Aliás, esse detalhe temático representa uma capacidade admirável dos realizadores em usar a ficção científica para uma leitura mais crítica das sociedades capitalistas modernas. É uma pena, no entanto, que Trevorrow não demonstre a maturidade necessária para equilibrar os dois seguimentos narrativos antes do choque, e o suspense da trama do Indominus Rex é constantemente frustrado pelo retorno ao segmento dos garotos visitando o parque, dado que o diretor não parece nem tentar usar esses momentos de calmaria para gradualmente aumentar a tensão para a chegada do Indominus, numa oportunidade narrativa lamentavelmente desperdiçada.

Trevorrow que, recém saído da direção do sensível Sem Segurança Nenhuma, acaba fazendo um desfavor ao tentar dar carga dramática ao relacionamento dos dois irmãos que visitam o parque, numa subtrama que soa terrivelmente aborrecida. O diretor se mostra muito mais competente é mesmo nas várias sequências de ação, onde emula Spielberg com eficácia através de longos travellings horizontais que acompanham a correria, e closes com contra-plongê (câmera apontando de baixo para cima) no rosto dos heróis, além, é claro, dos generosos planos aéreos com sua ampla perspectiva da ação, alcançando uma intensidade reforçada pela belíssima trilha de Michael Giacchino, com os temas clássicos e outros novos que o estabelecem como um John Williams melhorado. Os efeitos especiais também não decepcionam pelo cineasta não aderir somente ao CGI, e usar animatrônicos nos planos fechados, dando um efeito muito mais realista, como nos originais. Na construção da tensão, no entanto, Trevorrow está terrivelmente aquém de Spielberg, e Jurassic World falha basicamente em todos os momentos que tenta construir um clima de suspense palpável como o do filme de 1993.

Mesmo assim, é elegante o modo como Trevorrow homenageia o longa original, sem nunca soar óbvio, mas a partir da sutileza de movimentos de câmera, logo após a escapada do Indominus, que lembra a “dança” dos velociraptors com os garotos na estupenda sequência da cozinha no original, ou como Indominus dá um poderoso rugido bem no lugar onde T-Rex dá sua rosnada final lá em 1993. E se citei os velociraptors, o diretor reconhece que estes sempre foram os principais astros de Jurassic Park, e os engloba numa trama que pode soar besta ao tirar parte de sua brutalidade, mas até que funciona narrativamente. Mais admirável, no entanto, é como o cineasta apresenta Indominus de uma forma praticamente idêntica ao que os raptors eram apresentados no original, parafraseando quase fala por fala, para logo em seguida trazer os queridos predadores em sua roupagem atual.

Uma roupagem que, se funciona, em grande parte é devido à seriedade com que Chris Pratt interpreta Owen, o treinador dos velociraptors. Aliás, Pratt mais uma vez demonstra seu talento para personagens de ação, explorando o pragmatismo de Owen misturado ao mesmo ar canastrão que tanto divertiu em Guardiões da Galáxia. Já Bryce Dallas Howard toma conta de um bom arco dramático como Claire, desenvolvendo a transformação de mulher calculista e controladora para uma tremenda chutadora de bundas com uma segurança rara à atriz, sendo auxiliada por um figurino completamente branco que, junto à chapinha impecável, a princípio lhe transformam quase num robô futurista, para, no fim, mudar de modo a emular algo como Ellen Ripley. Mas é mesmo o sempre genial Irrfan Khan o responsável pelo papel mais tridimensional, o investidor Masrani, variando de uma descontração tremendamente divertida para uma postura séria e tensa.

Sem esquecer do valor nostálgico do que está trabalhando, Trevorrow revisita ambientes do falido parque de Hammond, e enriquece sua trama ao relembrar a tragédia das mortes ocorridas no filme original (aqui, usar uma camiseta com o símbolo do Jurassic Park é quase uma ofensa), além de conferir o fascínio infantil por dinossauros na pele do garotinho interpretado por Ty Simpkins, reforçando a já alta nostalgia do público que era criança quando do lançamento do longa de Spielberg, e, por conta deste, acabou se apaixonando pelos bichos (me incluo de novo).

No fim, muitos reclamarão, outros se entregarão à diversão descompromissada. Assistir Jurassic World com os olhos críticos em Jurassic Park certamente será frustrante. Melhor é aproveitar a nostalgia e lembrar o tanto que velociraptors são legais.

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