Crítica:
Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World / 2015 / EUA) dir.
Colin Trevorrow
Jurassic World chega
carregado de um hype que mistura
desconfiança e nostalgia. Afinal, grande parte do público jovem adulto cresceu
tendo em Jurassic Park, de Steven Spielberg, um dos primeiros
grandes filmes com que tiveram contato (me incluo). Mas a promessa de relembrar
um pouco a inocência da infância vem com a sombra de que o filme não fizesse
jus às nossas doces memórias, se tornando apenas um exercício de frustração ao
ver algo querido numa roupagem imbecil. O temor é justo, mas felizmente não se
concretiza.
Apresentando a novidade
de finalmente vermos o parque aberto e funcionando, Jurassic World ganha pela dinamicidade com que explora as atrações
e a própria estrutura do parque, com seus transportes futuristas que reforçam o
caráter de ficção científica do projeto, além de evidenciar anos da mais
refinada engenharia e arquitetura, usando todos os meios possíveis para colocar
o público em maior contato com os dinossauros, mas em segurança, com corredores
que se camuflam de troncos e veículos transparentes giratórios que colocam as
pessoas lado a lado com as criaturas, sem contar o tanque que abriga o Mosassauro.
O parque acaba aparecendo como uma mistura de Disneylândia e Sea World (com
elementos que lembram o recente Tomorrowland),
só que elegante em suas cores claras porém sóbrias, mesmo nos ambientes mais
burlescos (como a Margaritaville), evidenciando também a magnitude do
investimento do parque ao acoplar hotéis à ilha.
O diretor Colin
Trevorrow coaduna o senso de maravilhamento dessa visita ao parque ao
desenvolvimento da trama que se passa nos bastidores, onde um dinossauro criado
geneticamente a partir do genótipo de vários outros, Indominus Rex, escapa do
seu cativeiro. Se a princípio tal dinossauro faz torcer o nariz, aos poucos
começa a fazer sentido e enriquecer o filme, em especial se mantermos em mente
que se trata de um parque temático fantástico em tempos onde as pessoas são
bombardeadas por novidades a cada segundo, consequentemente se chocando cada
vez menos, e assim, o desenvolvimento de criaturas maiores e mais assustadoras
seria um investimento cabível caso a Ciência já fosse capaz de tal criação.
Aliás, esse detalhe temático representa uma capacidade admirável dos
realizadores em usar a ficção científica para uma leitura mais crítica das
sociedades capitalistas modernas. É uma pena, no entanto, que Trevorrow não
demonstre a maturidade necessária para equilibrar os dois seguimentos
narrativos antes do choque, e o suspense da trama do Indominus Rex é
constantemente frustrado pelo retorno ao segmento dos garotos visitando o
parque, dado que o diretor não parece nem tentar usar esses momentos de
calmaria para gradualmente aumentar a tensão para a chegada do Indominus, numa
oportunidade narrativa lamentavelmente desperdiçada.
Trevorrow que, recém
saído da direção do sensível Sem
Segurança Nenhuma, acaba fazendo um desfavor ao tentar dar carga dramática
ao relacionamento dos dois irmãos que visitam o parque, numa subtrama que soa
terrivelmente aborrecida. O diretor se mostra muito mais competente é mesmo nas
várias sequências de ação, onde emula Spielberg com eficácia através de longos travellings horizontais que acompanham a
correria, e closes com contra-plongê
(câmera apontando de baixo para cima) no rosto dos heróis, além, é claro, dos
generosos planos aéreos com sua ampla perspectiva da ação, alcançando uma
intensidade reforçada pela belíssima trilha de Michael Giacchino, com os temas
clássicos e outros novos que o estabelecem como um John Williams melhorado. Os
efeitos especiais também não decepcionam pelo cineasta não aderir somente ao
CGI, e usar animatrônicos nos planos fechados, dando um efeito muito mais
realista, como nos originais. Na construção da tensão, no entanto, Trevorrow
está terrivelmente aquém de Spielberg, e Jurassic
World falha basicamente em todos os momentos que tenta construir um clima
de suspense palpável como o do filme de 1993.
Mesmo assim, é elegante
o modo como Trevorrow homenageia o longa original, sem nunca soar óbvio, mas a
partir da sutileza de movimentos de câmera, logo após a escapada do Indominus,
que lembra a “dança” dos velociraptors com os garotos na estupenda sequência da
cozinha no original, ou como Indominus dá um poderoso rugido bem no lugar onde
T-Rex dá sua rosnada final lá em 1993. E se citei os velociraptors, o diretor
reconhece que estes sempre foram os principais astros de Jurassic Park, e os engloba numa trama que pode soar besta ao tirar
parte de sua brutalidade, mas até que funciona narrativamente. Mais admirável,
no entanto, é como o cineasta apresenta Indominus de uma forma praticamente idêntica
ao que os raptors eram apresentados no original, parafraseando quase fala por
fala, para logo em seguida trazer os queridos predadores em sua roupagem atual.
Uma roupagem que, se
funciona, em grande parte é devido à seriedade com que Chris Pratt interpreta
Owen, o treinador dos velociraptors. Aliás, Pratt mais uma vez demonstra seu
talento para personagens de ação, explorando o pragmatismo de Owen misturado ao
mesmo ar canastrão que tanto divertiu em Guardiões da Galáxia. Já Bryce Dallas Howard toma conta de um bom arco dramático como
Claire, desenvolvendo a transformação de mulher calculista e controladora para
uma tremenda chutadora de bundas com uma segurança rara à atriz, sendo
auxiliada por um figurino completamente branco que, junto à chapinha impecável,
a princípio lhe transformam quase num robô futurista, para, no fim, mudar de
modo a emular algo como Ellen Ripley. Mas é mesmo o sempre genial Irrfan Khan o
responsável pelo papel mais tridimensional, o investidor Masrani, variando de
uma descontração tremendamente divertida para uma postura séria e tensa.
Sem esquecer do valor
nostálgico do que está trabalhando, Trevorrow revisita ambientes do falido
parque de Hammond, e enriquece sua trama ao relembrar a tragédia das mortes
ocorridas no filme original (aqui, usar uma camiseta com o símbolo do Jurassic
Park é quase uma ofensa), além de conferir o fascínio infantil por dinossauros
na pele do garotinho interpretado por Ty Simpkins, reforçando a já alta
nostalgia do público que era criança quando do lançamento do longa de Spielberg,
e, por conta deste, acabou se apaixonando pelos bichos (me incluo de novo).
No fim, muitos
reclamarão, outros se entregarão à diversão descompromissada. Assistir Jurassic World com os olhos críticos em Jurassic Park certamente será
frustrante. Melhor é aproveitar a nostalgia e lembrar o tanto que velociraptors
são legais.

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