quarta-feira, 24 de junho de 2015

Horizonte de Eventos



Horizonte de Eventos



As estrelas pulsavam no céu noturno. A pulsação estelar começou a entrar no ritmo dos batimentos cardíacos, enquanto a lua parecia que ia despencar sobre meu corpo a qualquer momento, naquela sua brincadeira besta de crescer mil vezes seu tamanho apenas para se encolher para o tamanho de um ervilha, logo depois. Depois de tomar papel, olhar para o céu era verificar que os astros ficavam todos de brincadeira besta. Não dá para levar a sério, e eu sei disso, mas ainda assim, fico nessa vibe louca de diálogo estelar mesquinho.

Ótimo. Essa minha fala espirituosa fez com que as estrelas começassem a rir de mim. Todas rindo, como se assistindo a um show de comédia em que eu fosse o único ator, viajando deitando aqui nesse chão duro do lado de fora do ginásio onde está rolando apresentação de algumas bandas de rock. Parece que elas acharam essa fala ainda mais engraçada do que a anterior. Genial. Bom, o efeito tá quase acabando mesmo, já se findam as doze horas desde que eu tomei o papel. “Já se findam”, uma delas diz, me remedando de forma jocosa, o que gera mais um acesso de risadas histéricas.

Noto mais uma risada, só que essa bem de perto, numa delicada voz feminina. Olho para minha esquerda, e deitada ao meu lado há uma moça de cabelos negros, toda vestida de preto, unhas negras compridas e uma pele branca como leite, lábios pintados de um intenso vermelho, sombra escura nos olhos. “Desculpa”, diz ela, “não resisti; tentei ficar quietinha mas esse seu papo com as estrelas tava genial”, e riu de curvar o corpo.

“Como assim?! Eu pensei que estava falando apenas na minha cabeça!”

“Calma, você estava sim, eu que fui intrometida”

“Não precisa mentir pra mim”, sorri, “ tomei um papel mais cedo, estou tão doidão que não distingo se estou falando pra dentro ou pra fora”

“Relaxa, o efeito já tá no fim ai, já dá pra sacar umas coisas dessas. E você estava falando dentro da sua cabeça apenas”

“Ah tá, e você estava lendo meus pensamentos então”, falei, rindo.

“É mais complicado do que isso, mas se quer colocar dessa forma...”

Deixei quieto. Vai que ela estava doidona também. Ficamos em silêncio observando as estrelas, que agora estavam caladas, como uma platéia interessada no que está acontecendo no palco.

Ela quebrou o silêncio: “Adoro as estrelas. Mas não no sentido que a maioria fala, por serem brilhantes ou algo assim. Mas por sua formação. A atração gravitacional faz com que grandes quantidades de gás desabem sobre si, e o choque dos átomos faz com que os gases se aqueçam. Eles ficam tão quentes que os átomos de hidrogênio param de se repelir e se juntam, formando hélio, e o calor liberado numa reação dessas, algo como uma explosão de uma bomba de hidrogênio, faz com que a estrela brilhe”. Olhei para o ela, que ainda fitava as estrelas, e me percebi fascinado por aquela súbita aula. Meus olhos foram atraídos pela tatuagem em seu pescoço: uma caveira com uma venda vermelha nos olhos, dedo ossudo na boca demandado silêncio. Ela continuou: “Dá pra forçar uma metáfora sobre um encontro amoroso”, olhou para mim.

Seus olhos eram inacreditáveis: duas esferas majestosamente escuras me sugando de forma irresistível. Estava completamente magnetizado por aquilo. Tudo no mundo pareceu sumir por um eterno instante. Todos os sons foram diminuídos ao mínimo, a gritaria de dentro do ginásio, os carros distantes... tudo que não fosse seus olhos simplesmente saiu de foco. “Claro, só se você for um péssimo poeta”, disse ela, me arrancando do transe, com um sorrisinho no canto do lábio.

Senti me puxarem violentamente pela jaqueta, me pondo de pé. “Finalmente te encontrei, porra! Tu sumiu por um tempão!”. Era meu amigo Ronan. Me desvencilhei dele e procurei pela garota. Mas ela tinha dsaparecido completamente, em menos de um segundo. Não tardou para que eu começasse a imaginar que ela tinha sido uma alucinação, e que eu estava ainda muito louco.

“Ground control for Major Tom!”, apelou Ronan, me sacudindo, “Tom, caralho, acorda! Tu tá bem?!”

“Tô, porra, fica sussa ae. Tu não viu uma garota que tava aqui há um segundo atrás, antes de tu chegar embaçando a vida?”

 “Garota? Velho, deixa de nóia, tu tava sozinho olhando pro lado qual um besta”

“Hunf”

“Vamos, se recomponha das loucuras alucinógenas ae, e vamos voltar pra dentro”

Lá dentro, uma banda ainda tocava empolgada para uma cambada de gente já espalhada pela grama, completamente fritos ou bêbados demais. Já eram quase seis da manhã, era de se esperar. Mas me sentia bem o suficiente para uma cerveja, quente, pra variar, como se era de praxe nesses eventos. Cheguei na rodinha frita dos meus próprios amigos, todos seguindo a estereótipo do meio.

“Ai está o maluco! Um dos filhos pródigos retorna! Agora só falta encontrar o Gabo. Esses bichos fritos. Velho, preocupou geral aqui!”, gritou Larissa, me recebendo risonha depois do meu exílio.

“Tô vendo, tem um cigarro?”, ela me joga o maço, tiro um, e jogo de volta. “Valeu”. Me afasto de novo, fumando o cigarro e bebendo minha cerveja, olhando pra tudo quando é canto, antes de perceber que procurava a misteriosa.

Ronan chega do meu lado: “Não faz diferença tu vir pros esquemas se é pra ficar se alienando de todo mundo”

“Eu sei, foi mal cara, desculpa estar meio aéreo, só estava procurando por aquela mina que te falei”

“Velho, tu tava fritando no papel ainda, não esquenta.”, me avaliou com os olhos durante alguns segundos, “Tu tá bem mesmo? Talvez não devesse ter tomado papel enquanto toma aqueles remédios, e nem ainda com o perigo de ter uma crise de novo”

“Tô bem, mano, não se preocupa. Tô seguindo o que o psicólogo falou, interagindo, saindo do isolamento e tal, ele disse que ia me fazer bem. E não tive uma bad também, foi sussa”. Percebendo o olhar dele, querendo perguntar o óbvio, mas sem jeito de fazê-lo. “Também não tive uma recaída, não pensei em nada disso aí, fica tranquilo”

“Sim, eu sei... mas fiquei preocupado. Pô, tu some durante um tempão, e não faz tanto tempo assim... daquilo. Sei lá, e tomar papel ainda... esses negócios despertam coisas na gente cara, sei lá, exacerbam o que você estiver sentindo. Não acho que deveria ter tomado”.

“Calma bro, já tomei e ainda tô bem. Quer saber, to cansado, acho que quero ir embora”.

“Ok. Gabo sumiu mesmo, vou falar pra alguém dar carona pra ele se acabar aparecendo”.

No caminho pra casa do Ronan, minha cabeça estava uma loucura. Observava o céu, que já dava os primeiros sinais do dia. Não gostava de mentir pro meu amigo, mas não queria preocupá-lo mais. Pode ser que eu não tivesse tido uma bad trip, mas fiquei vagando por um monte de becos nas redondezas, fritando com um monte de coisa na cabeça, questões para as quais não tinha resposta, problemas do passado, pessoas esquecidas que estavam me assombrando. Sentia a escuridão me vestindo, e como se olhos me observassem enquanto me arrastava. Não, não estava tudo bem ainda. Eu ainda estava caminhando numa espécie de corda bamba que eu mesmo arrumei. Coloquei minha cabeça pra fora do carro e fechei os olhos, tentando respirar o ar matinal e torcendo, quase rezando, para que aquele sereno me purificasse, de alguma forma que nem eu conseguia entender.

Quando abri os olhos, vi o Gabo cambaleando num cruzamento, com os olhos vidrados e camisa ensanguentada. Gritei pro Ronan parar e ambos saímos do carro correndo para nosso amigo, que despencou em nossos braços assim que os estendemos. Ele balbuciava coisas sem sentido, olhos fixos num ponto qualquer do espaço à sua frente, rosto caoticamente manchado de vermelho, e marcas de unhas em seus braços, rosto e clavícula. Observava isso quando Ronan me puxou pela blusa, assustado, apontando para o pescoço do Gabo. Duas perfurações profundas se destacavam de um grande e roxo inchaço, sangue novo escorrendo se misturando ao seco que cobria o resto do corpo.

De repente, pensei em buracos negros.


Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 24/06/2015

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