quarta-feira, 15 de abril de 2015

Notas Sobre um Pouco de Nada

Notas sobre um pouco de nada.


Reencontrei uma antiga carta sua ao vagar por meio de páginas que hoje se tornaram proibidas. Reencontrei, de leve, a sensação da nossa relação. Era pautada nas entrelinhas, em fronteiras dificilmente perceptíveis entre estados incoerentes na turva visão que criava de possíveis consequências.
Não peço perdão pela falta de clareza pois acredito ser isso exatamente o que estou procurando. Apesar de fascinado pela lógica e a Razão, e entender como ela pode explicar muitas coisas, às vezes acho que um relato distorcido por percepções poéticas carregadas de caos trazem um tom sincero mais próximo das vibrações produzidas por olhares, toques, beijos, abraços, ou mesmo por falas isoladas que carregam uma inadvertida profundeza de sentido. Criaturas fadadas à linguagem, parecemos incapazes de expressar muito do que sentimos, talvez porque sentimos que nada poderia fazer verdadeiro jus às ondas de digressões emocionais que constantemente passeiam, como fumaça, dentro dos limites etéreos de uma “mente” ou algo parecido.
A coerência não respeita o que senti... ou o que sinto. É um esforço que exaure, este que dita a procura de explicações, apesar de, no fim das contas, ser um esforço construtivo na contínua reformulação de seu próprio parecer. A coerência agora me parece tão alheia que não sei bem quem é você. Não, não sou eu. Ou pode ser, na medida em que no você e eu construo mais um eu, um que não existe se considerarmos que existir é um modo constante e fixo de ser. Nesse caso, curto Raul Seixas e sua vibe de metamorfose ambulante. Ele sabia do que estava falando. Ou não. Pode ser mais legal não saber. E mais incoerentemente coerente também.
Divaguei...
Então, não sei bem quem é esse você que está passeando comigo na escrita desse texto. Pode ser você que vi hoje de relance e logo desviei o olhar. Pode ser você e sua dialética de frieza, carinho e incerteza. Pode ser ainda você que parece buscar em diferentes perfumes um tipo de personalidade que melhor define sua não-definição. Acho que a única coisa que posso dizer sobre você é que você sumiu. Você desapareceu em meio à névoa do entorpecimento, do café, do cigarro. Você foi desaparecendo em meio às páginas de livros em que, por ventura, acabava por te encontrar, apenas para te perder de novo.
Você é um pouco minha pra sempre, e eu um pouco seu pra sempre. Talvez seja só isso. Talvez seja muito mais. Mas não iremos descobrir. Você teve medo do que via em mim, e confesso que tive um pouco de medo do que vi em você. Durante anos nos esbarramos em limites que, apesar de tênues, não ousamos ultrapassar. Durante anos, você foi uma prisão. Agora não sei onde estamos...
Te vejo sumindo em diferentes tonalidades, ondulando no ritmo melancólico estabelecido pela valsa do acaso. Mas você está perdendo as gradações. Logo, o que sobrará será a mera replicação invertida de sua imagem na minha retina, até que se mistura a outras que não vocês...
É isso... não é você... são vocês. Vocês podem ser muitas pessoas, mas também pode ser uma só. Ou uma classe que associo a algumas pessoas. Acho que nunca te vi, ou te senti, embora tivesse momentos em que tivesse a impressão tácita de ter captado você. Mas logo você se escondeu de novo. Momentos de euforia e desejo desenfreados davam lugar a ponderações sem sentido, e no carinho que não pude te oferecer, você buscou além. Você encontrou outras pessoas que te liam como eu antes lia. Ou eu apenas não conseguia ler a língua em que você tinha sido traduzida.
Pensei em chamar esse texto de “Notas sobre um pouco de você”. Sabe por quê não o fiz? Porque você é nada... Está a se misturar a uma gama de influências, e finalmente acoplar seu lugar enquanto peça no meu quebra-cabeça, formando o provisório retrato de quem sou. Nisso, você perderá a evidência que ganhou em mim. E não foi apenas culpa minha, se é que alguém tem culpa. Você também quis ir embora. Nada mais de choros, nada mais de indignação ou alfinetadas. Apenas... adeus.
Não que eu não sinta sua falta. É só por senti-la que perdi meu tempo com essas palavras. No entanto, acho que, se por acaso eu reler esse texto daqui alguns anos, nem serei capaz de identificar quem você é. Essa noção se perderá na sobreposição de outros “você”. Pode ser que eu consiga, no entanto, interpretar esse você como sendo outra pessoa. Mas sim, você tem razão: as pessoas passam, a dor também. Logo, só sobrará o fato de que “você morreu em mim”. Mas que bom. Não se constrói sem destruir.

domingo, 5 de abril de 2015


Crítica:

O Ano Mais Violento (A Most Violent Year / 2015 / EUA) dir. J.C. Chandor

por Lucas Wagner

É curioso que, mesmo divergindo em praticamente todos os aspectos, este O Ano Mais Violento possua uma essência similar àquela do filme anterior de J.C. Chandor, Até o Fim: ambos tratam de homens lutando por sua integridade (física e/ou psicológica) enquanto sofrem constantes ataques de seus ambientes. Mas, enquanto no longa anterior víamos Robert Redford batalhando por sua vida enquanto à deriva no mar, aqui o protagonista interpretado por Oscar Isaac é levado aos seus limites psicológicos para conseguir manter sua integridade moral em um meio corrupto e corruptor. Uma prova de habilidade de Chandor de trabalhar um centro temático dentro de enredos absolutamente distintos.

Se passando em Nova York no ano de 1981, considerado o mais violento da História da cidade, o roteiro de Chandor acompanha o dono de uma companhia de distribuição de combustível, Abel Morales (Isaac), que, às vésperas de fechar uma promissora compra de uma propriedade, começa a enfrentar diversos eventos estressores que ameaçam colapsar tanto o seu negócio quanto a transparência ética e moral que busca manter em sua profissão. Assim, Morales é obrigado a lidar com uma investigação de seus negócios, um processo legal, caminhões de combustíveis sendo roubados, competidores gananciosos, discordâncias da esposa quanto ao modo como lida com a empresa, e ainda um empregado que reagiu a um roubo de caminhão e escapou, inadivertidamente sujando o nome da companhia.

Demonstrando esmero na reconstrução do período histórico, O Ano Mais Violento aposta numa montagem com planos longos e movimentos de câmera lentos, angustiando o espectador, além de utilizar aspectos do ambiente para fins de construção de atmosfera, algo que o diretor de fotografia, Bradford Young, entende muito bem ao usar predominantemente tons sépia e sombras na composição dos planos, emulando tensão e diversos aspectos obscuros dos personagens e situações, ao passo em que as cenas externas cobertas pela neve e lama contribuem para uma sensação de melancolia que coaduna com a trilha sonora de Alexander Ebert ao buscar ressaltar um sentimento de solidão (como fez em Até o Fim) que isola ainda mais Abel em suas lutas, um isolamento que ecoa nos planos abertos que Chandor utiliza em momentos específicos para filmá-lo. E se esse isolamento é foco, a sensação de estar encurralado é alcançada pelo diretor quando filma diversos personagens em planos onde esses aparecem nos cantos extremos dos quadros, numa composição desequilibrada por demais incômoda.

Tais sensações desconfortáveis, até angustiantes, buscadas pelos realizadores não são menos do que adequadas ao projeto, que se trata de um homem “íntegro” sendo testado até os limites de suas posições ideológicas. Afinal, Abel se orgulha de (como acredita) ter crescido profissionalmente com seu próprio esforço, sem recorrer à ajuda criminosa ou atalhos nas leis para tal, galgando degraus de ser um “mero” motorista de caminhão para se tornar uma figura tão forte e admirada. E, de todas as maneiras possíveis, Abel parece buscar manter essa persona de sucesso, desde o uso de uma indumentária elegante e por vezes imponente, até ao evitar usar sua língua original (o espanhol) durante a maior parte do tempo, como se desfazer-se de sua identidade como imigrante fosse parte essencial de uma imagem bem sucedida. Mesmo sob essa perspectiva, é bacana observar como o homem se mantém gentil com seus funcionários e colegas, buscando encorajá-los ao mesmo tempo em que não raro faz uso de afirmações verbais sobre enfrentamento de dificuldades e ser capaz de crescer por si mesmo sem perder a integridade moral.

Assim, vê-lo sofrendo baques cada vez mais fortes que parecem querer forçá-lo a atitudes que condena (ao mesmo tempo em que assumir uma postura criminosa enquanto sofre uma investigação não seria sábio), e ainda sofrer conseqüências de atitudes impensadas por parte de terceiros (como o empregado que reage ao assalto), parece fazer com que cada plano de ação pareça fútil, e que circunstâncias agressivas e incontroláveis aparecerão de qualquer maneira. Ainda, seu comportamento moral parece ser constantemente repreendido, mesmo por sua mulher, Anna, como sendo algo um tanto quanto pueril, ao mesmo tempo em que talvez seja justamente essa postura de integridade moral que faz com que Abel receba apoio e admiração mesmo por parte daqueles que querem derrubá-lo.

E se citei Anna, vale dizer que o seu relacionamento com o marido é um dos aspectos mais curiosos do projeto. Interpretada pela linda Jessica Chastain com uma postura sempre altiva, reforçada pela indumentária colada que ressalta sua imponência ao desenhar sua volumosa figura corporal (sem falar nos generosos decotes estrategicamente usados), Anna parece ao mesmo tempo olhar o marido como um filhote de cachorro que não sabe bem como sobreviver a um mundo selvagem e com um carinho e amor talvez atribuídos justamente a essa “inocência” de Abel. Aliás, vindo de uma família de criminosos, não surpreende que essas características de Abel possam vir como um respiro, apesar de Anna constantemente apresentar a possibilidade de recorrer a seus familiares para ajudá-los. Mais importante é como Anna compreende a postura do marido e, se muitas vezes bate de frente com suas visões, outras apenas o consola com afeto, mas nunca demonstrando o menor sinal de fraqueza (atentem para o momento em que limpa os olhos molhados depois de segurar as lágrimas em uma intensa briga com o marido). Interessante, aliás, que a residência do casal traga um equilíbrio entre suas personalidades: a ostensividade do imóvel e a porta de cor azul (atribuída aos figurinos de Anna) dividem lugar com as vidraças constantes que representam a transparência de Abel.

É fascinante, aliás, o cuidado com que Chandor filma o casal. Estabelecendo bem sua dinâmica na cena em que atropelam um animal e tomam atitudes dissimilares em relação a isso, Chandor apresenta o mesmo minimalismo que tanto enriqueceu seu projeto anterior ao demonstrar precisão em planos atentos a detalhes em suas reações. Quando Abel demonstra, simultaneamente, imponência e gentileza em sua fala dirigida a executivos de bancos, Anna dá um sorriso de orgulho, enquanto um sorriso parecido aparece logo após demonstrar um pragmatismo muito diferente do marido em um momento específico, quando parece sentir ter mostrado “quem tem razão”. Além disso, a mise en scène desenvolvida pelo diretor e o elenco é certeira em gestos discretos mas reveladores, como os olhares de canto de olho divididos entre Anna e Abel, demonstrando uma parceria tácita e uma “leitura de pensamentos” digna de um casal íntimo, intimidade essa ressaltada pelo conforto físico que parecem sentir um com o outro, em brincadeiras descontraídas ou gestos de carinho isolados. Essa inteligência da mise em scène pode ter ênfase no tratamento ao casal, mas se expande para demonstrar aspectos sutis de muitas relações, com destaque para o momento em que o advogado Andrew Walsh (Albert Brooks) coloca a mão no ombro de Abel quando se dirigem a uma reunião possivelmente estressante, como se demonstrando companheirismo mas também uma tentativa de acalmar Abel, que poderia agir explosivamente nessa situação.

Mas, de tudo, talvez o mais surpreendente quanto a O Ano Mais Violento diga respeito à maturidade do roteiro de Chandor no tratamento daquele universo e seus personagens. Sim, Abel pode ser moralmente admirável, mas muitas vezes seus atos denotam certa inocência, e uma descoberta específica no fim do terceiro ato (que não revelarei aqui, é claro) representa um golpe certeiro quanto ao modo como via seus negócios e seu sucesso (aliás, será o nome do personagem mera coincidência com o irmão de Caim?). E, se Anna já aparece como uma figura ambígua, todos os outros personagens adquirem personalidades multifacetadas que fogem de estereótipos facilmente atribuíveis. O procurador local, por exemplo, poderia ser um perfeito exemplo de vilão, mas aparece como uma figura gentil que está apenas fazendo seu trabalho, ao passo que ladrões demonstram receio em travar um tiroteio pelo perigo de ferir civis, e os concorrentes de Abel nunca são abertamente hostis (e às vezes nem encobertamente), e mesmo executivos de banco podem demonstrar uma assertividade e bondade raras nesse ramo. Se esses personagens agem de forma “repreensível”, não é por serem maus, mas por estarem fazendo o “necessário” para sobreviver em um meio tão aversivo como aquele.

Não é a toa que um dos melhores planos do filme traga sangue e combustível em um mesmo enquadramento, com Abel adotando uma postura fria e cuidando do vazamento do segundo líquido, como se refletindo a lição que aprendeu durante a projeção. Por mais que não se deseje isso, quando se está no mundo de negócios, seja de combustível ou qualquer outro, a violência sempre é um efeito colateral. 

- Outros textos meus sobre filmes dirigidos por J.C. Chandor:



Análise:

Interestelar (Interstellar / 2014 / EUA) dir. Christopher Nolan

por Lucas Wagner

2001 – Uma Odisséia no Espaço, Contato e Gravidade iniciam com uma visão do planeta Terra visto do espaço. Já Interestelar abre com a melancólica imagem de uma estante empoeirada repleta de livros sendo gradualmente soterrados por poeira...

A comparação é inevitável. Todos são filmes que não apenas apresentam um louvável embasamento científico, mas que se utilizam de sua trama de ficção científica para promover profundas reflexões acerca do Homem, sua finitude, complexidade, fraquezas e também sua tenacidade. Mas enquanto os três primeiros começam diminuindo o ser humano ao mostrar seu cárcere em um pálido ponto azul no Universo, o último mistura melancolia e esperança quando mostra a chave para o futuro da humanidade, que reside no conhecimento, sendo gradualmente consumida pelo fruto da ignorância que tanto marca sua passagem por aqui. E é essencialmente sobre isso que Christopher Nolan aqui tanto fala: esperança por uma espécie fadada à autodestruição mas que tem na Ciência sua mais poderosa ferramenta para conseguir sobressair-se.

O citado embasamento científico da obra consegue alicerçá-la em um universo temático perfeitamente realista, onde até os mais absurdos dos eventos recebe uma explicação científica palpável. É bacana ainda que esse embasamento se estenda, como os citados filmes no primeiro parágrafo, à ausência de som no vácuo do espaço, com Nolan, assim como Cuarón em Gravidade, extraindo efeitos dramáticos desse recurso, dando mais impacto e angústia a uma sequência de perseguição ou a uma explosão do que se as filmassem pelas vias mais comuns, ou mesmo ao apenas permitir que sejamos engolfados pela imensidão do Universo.

No entanto, o mais gratificante é observar como Nolan não apenas apresenta conceitos científicos tão fascinantes como wormwholes, singularidade, relatividade, buracos negros, etc, como ainda explora a fundo cada um, movendo a narrativa de modo que possa envolvê-los ao todo da trama, intrincando-a gradualmente quanto mais esses conceitos se manifestam fisicamente aos personagens. Aliás, é curioso como o filme nunca parece almejar ser um espetáculo visual, mas apresente efeitos especiais perfeitamente funcionais quanto aos objetivos de servir como veículos para as teorias que explicitam visualmente.

Mais importante do que esse embasamento, no entanto, é o claro respeito que Nolan tem pela Ciência e o método científico, algo ressaltado pela educação que o protagonista, Cooper (Matthew McGonaughey), procura dar a seus filhos, sempre buscando fazer com que não aceitem as explicações mais óbvias para os eventos que lhes chamam a atenção, mas investigá-los a fundo a partir de uma minuciosa coleta e análise de dados. Nesse sentido, é notável como a Terra onde vivem os personagens é uma com particular desprezo pela Ciência (como fica claro na cena no colégio), como se ela fosse uma entidade maldosa separada de seus pesquisadores, e não uma rica ferramenta que muitas vezes foi mal utilizada pelo Homem. O que Cooper, claramente mais instruído, busca ressaltar, são as possibilidades que são abertas pelo método científico, inclusive para o futuro da espécie, e não o que esta, tão dotada de estupidez, já fez de errado usando a Ciência. O filme, basicamente guiado pelo sentimento de esperança no conhecimento, respeitando seus alcances, por isso só já merece aplausos.

Termos esses que acabam por calcar Interestelar em uma narrativa fundamentalmente racional, o que não significa que o filme não funcione como drama humano. Aliás, é essencial que ele assim funcione. Dessa forma, é importante como Nolan dedica um bom tempo para estabelecer as relações afetivas e o companheirismo de Cooper com os filhos, algo vital para que seu arco dramático, assim como o de seus filhos, surta os devidos efeitos. Mas o mais rico nesse ponto da obra é quando o roteiro dos Nolan (Jonathan também trabalha aqui) entrelaça os aspectos emocionais dos personagens com o comportamento predominantemente racional que lhes é exigido enquanto cientistas. O choque ganha perspectivas até mesmo de cunhos éticos e morais, e discussões envolvendo a necessidade de uma postura objetiva mesmo quando profundos relacionamentos afetivos estão em jogo nunca soam gratuitas, mas são desenvolvidas com adequada sutileza, evitando qualquer tipo de resposta fácil.

A visão de Homem apresentada por Interestelar, então, é sempre justa, no sentido em que sabe dar-lhe devido valor sem exaltá-lo ao ponto da ignorância. O que seria denominado “fraqueza” humana não é mais do que sua necessidade de contato interpessoal, ou mesmo o Amor, algo que engrandece a espécie ao mesmo tempo em que a leva a se dar um significado que, no “grande esquema do Universo”, não existe. Um dos grandes trunfos do filme reside justamente em sua capacidade de explorar como o ser humano, submetido a algumas das mais fascinantes e indomáveis leis da Física, se comporta. E aqui entra novamente o seu mérito na exploração dos conceitos que propõe: como seria a reação de uma pessoa ao ver um rosto humano depois de anos de isolamento nos confins do Cosmo? Como seria saber que uma hora de sua vida, em determinado ponto do Universo, representa sete anos na vida de uma pessoa que você tanto ama? Não é a toa que o personagem Romilly se torne uma espécie de sombra de si mesmo enquanto espera, por 23 anos, que seus companheiros retornem de uma viagem que não chega a durar uma hora.

O caso é que o ser humano é uma criatura infinitamente minúscula que tem a arrogância de achar-se importante no Universo. E não é. Evidência disso é que, por mais que tenha sorrido, amado, chorado, o que quer que seja, por uma pessoa amada, esse amor não passará pelo crivo de uma lei científica. Pelo contrário: abrir mão da objetividade em prol dos sentimentos pode ser sua ruína, turvando seus horizontes de um modo que possa se convencer da veracidade de um argumento racional, vide a discussão entre Cooper e Amelia (Anne Hathaway) em certo ponto. A Razão pode ser facilmente obliterada pela mera necessidade de contato com outra ou (em caso extremos) qualquer pessoa, sendo apenas um dos elementos dos quais, vendo-se privado, faz o ser humano perder a sanidade.

Mas nem sempre é assim. Na verdade, pode ser diferente. Interestelar é, afinal, uma obra de esperança. Como salienta o personagem de Dr. Mann (Matt Damon), é justamente a intensidade emocional que trás a figura de um rosto amado que pode servir de estimulação necessária a feitos incríveis. Pois podemos ser egoístas e mesquinhos, além de arrogantes, mas também somos capazes de sobrepor-nos a nós mesmos e encaramos as tais leis da Física, submetermo-nos a excruciantes provas em prol de atos que nem sempre se referem a nós mesmos ou mesmo àqueles mais próximos de nós. As possibilidades de alcançarmos um status de “seres de cinco dimensões” residem justamente na Ciência e em seu uso adequado, o que não vem sem sacrifícios, e talvez não exista outra espécie com alguma tenacidade capaz disso, além do Homem.

Chega a ser sintomático que Interestelar adquira uma perspectiva de Odisséia em seu cerne, no sentido de o que é uma jornada exterior que, a partir de certo ponto, se torna interior, intimista. Assim como o astronauta Bowman em 2001 alcança o infinito apenas para encontrar a si mesmo, Cooper atravessa buracos negros para, no fim das contas, encontrar um sistema ordenado que o moverá intimamente, pois de outra forma não poderia, jamais, fazer o que deve fazer para salvar a humanidade de seu declínio final. E nesse esquema, Cooper é um protagonista nolaniano por excelência, no sentido em que é marcado por um comportamento obsessivo. Só que dessa vez, diferente de outros trabalhos do cineasta, sua obsessão é pelo conhecimento e pelo afeto que sente, tornando-o uma figura humana, demasiado humana, em suas contradições e complexidades, por mais que nunca deixe de ser racional. McGonaughey entrega, então, uma performance essencial para o sucesso do filme, já que sem a intensidade sutil com que demonstra o amor de Cooper pelos filhos, sua admiração pela Ciência, e seus próprios desesperos ontológicos ao se submeter ao Cosmo, provavelmente seu personagem não seria tão comovente.

Aliás, não só McGonaughey brilha, mas todo o elenco, construindo personagens tão tridimensionais quanto possível. Hathaway faz de Amelie uma figura forte, mas melancólica pelos sentimentos que mal consegue esconder. Jessica Chastain trás intensidade à amargura de Murphy, assim como concretude para seus ambíguos sentimentos em relação ao pai. Matt Damon tem sua melhor performance em anos. Michael Caine cria Dr. Brann como uma figura extremamente trágica nos riscos que assume, onde a implacabilidade da realidade há muito o impediu de sonhar. Já David Gyassi, como o citado Romilly, amassa qualquer um com seu olhar desconsolado.

Também é belo notar como, depois de três filmes bombásticos que lhe proporcionaram uma fama de diretor de ação, Christopher Nolan se embrenhe em uma obra de quase três horas de duração e sem qualquer sobressalto, mas guiada com constante melancolia, algo refletido por uma linda trilha instrumental de Hans Zimmer, que também corta os efusivos temas de suas outras parcerias com o diretor para aqui emular sentimentos de solidão e também de mistério, chegando até mesmo a lembrar John Williams. Ainda assim, o longa não carece de sequências intensas, e Nolan mais uma vez revela-se um primor ao coadunar eventos em espaço-tempos diferentes, formando uma montagem dialética construída com cuidado e melhor analisada com mais visitas ao longa. Além disso, se o diretor ficou conhecido por suas tramas bem amarradas, Interestelar é constituído de pistas que, inteligentemente, são plantadas ainda no início do filme para construir significados complexos com o decorrer da projeção, fazendo um uso excepcional de uma temática que envolve realidades cósmicas tão diversas.

Obra que certamente crescerá com o tempo, Interestelar é uma ficção científica que emula romances de nomes como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, ambos do século XX, e alguns dos maiores gênios do gênero. Só que, ao invés do medo do século passado onde a Ciência tinha demonstrado capacidades assustadoras de destruição, aqui vemos a esperança colocada nela de único veículo de salvação de uma espécie repleta de possibilidades, mas inerentemente minúscula.