segunda-feira, 27 de junho de 2016

Crítica: Hardcore: Missão Extrema


Crítica:

Hardcore: Missão Extrema (Hardcore Henry / 2015 / EUA, Rússia)

Direção: Ilya Naishuller

Nessa cultura pop em que estamos imersos, com tecnologia pululando em todos os lugares e em cada vez maior número de mãos, sua inserção na Arte se torna quase obrigatória, assim como os ramos da Arte perdem cada vez mais as barreiras que as qualificam. É desse pool genético que nasce Hardcore: Missão Extrema, onde as brincadeiras de Go-Pro se encontram com os games em First Person Shooter (FPS) e inova até mesmo as incursões cinematográficas no mundo em primeira pessoa, como já haviam feito nos found-footage (como Atividade Paranormal) ou experimentos como Enter The Void.

O que Hardcore: Missão Extrema faz é aumentar à enésima potência a velocidade desse liquidificador cultural, enquanto conta a história de Henry, que acorda para descobrir-se meio humano, meio robô e sem memória, já obrigado a fugir de um exército que tenta assassiná-lo.

Seguindo uma estrutura clássica hollywoodiana, estabelecendo bem distintamente primeiro, segundo e terceiro atos, com clímax e tudo mais, só que sabendo se revirar e brincar dentro da forma sem ultrapassá-la, Hardcore: Missão Extrema obviamente pega emprestado também a estrutura dos jogos de videogame, sendo talvez o exercício mais interessante nesse sentido desde Scott Pilgrim – Contra o Mundo. O Jimmy de Sharlto Copley serve como maior veículo nesse quesito, já que surge sempre como um deus ex machina para Henry e lhe dá coordenadas para a próxima missão (ou fase/level, se preferirem). Enquanto serve de exercício intertextual (afinal, o germe do filme está mesmo nos games), esse diálogo com os videogames define o tom da narrativa e se coloca junto de uma geração acostumada, e talvez criada, dentro do universo dos games, e não demora para que nos sintamos à vontade, suspendendo diversas descrenças que a priori poderiam nos afastar do filme.

Enquanto lida com um exército de super-humanos, um vilão maníaco com poderes sobrenaturais inexplicáveis (algo que sempre pareceu praxe nos games), passagens secretas, e uma motivação óbvia na forma de uma princesa em apuros para o protagonista, Hardcore: Missão Extrema abraça seus clichês de videogames até mesmo em seus aspectos negativos, e não surpreende certo machismo fetichista no filme (as mulheres sempre aparecem como vítimas ou prostitutas), o que acaba sendo seu ponto mais fraco. E mesmo com isso, é entregando-se de corpo e alma à brincadeira que a equipe tem uma liberdade de movimento admirável, sendo que até mesmo o processo de habituação do espectador à forma do que está assistindo pode bem servir de elemento funcional narrativo, como a confusão sentida pelo próprio espectador quando da primeira sequência de ação, num processo que pode emular a confusão do próprio Henry. E se a equipe se diverte fazendo o herói passar por alguns perrengues enquanto se habitua ao seu corpo, não tarda para que Henry assuma a posição de máquina mortífera que lhe é devida, num ponto em que estamos já acostumados com o estilo do filme e podemos curtir tudo sem enjoos ou dores de cabeça.

E aqui que o filme encontra sua força: nas sequências de ação. Assumindo o universo diegético como um parque de diversões, a equipe explora com primor as possibilidades de cada ambiente, cada ângulo de porrada ou uma possibilidade de usar uma granada de forma não-convencional, e fazendo isso num crescendo de absurdo que habitua-nos a entrar no jogo de forma gradativa, cada vez mais nos surpreendendo e aceitando aquilo tudo com mais entusiasmo, até o ponto em que Copley entra com uma motocicleta dentro de uma vã em movimento e vibramos com isso. Aliás, o controle que a equipe tem sobre nós é tão preciso que em dois momentos do filme é fácil perceber o coração parando como em um estado de suspensão diante do que veremos em seguida: a segunda vez em que um personagem rouba um mecanismo de dentro de outro (sério, isso acontece mais de uma vez) e quando Henry injeta adrenalina em si mesmo. Junte a isso uma trilha sonora incidental que varia do eletrônico mais baladístico até um blues maroto, e receba um clímax que nos dá tudo que promete em violência e um plot twist que nos faz repensar om olhos mais trágicos o que assistimos.

E é com esse plot twist que o roteiro de Ilya Naishuller (também o diretor) e Will Stewart engrossa a emoção envolvida em um projeto onde o drama não parece ter tanto lugar. O que não significa que Henry seja unidimensional, e é até muito gratificante perceber-nos nos importando com um personagem que não tem fala alguma, numa decisão que aproxima-o dos protagonistas mudos de videogames FPS, mas facilmente poderia torná-lo mais robótico e menos interessante. Além disso, Henry não é interpretado por algum ator, mas seus movimentos são gravados por diversos cameramans diferentes, o que talvez sirva até para nos aproximar dele, dado que estamos presos ao seu ponto de visto. De qualquer forma, há certo carisma nele, e é notável como a trilha sonora brega sentimentalóide que toma conta quando ele se aproxima da esposa Estelle (Haley Bennett) se torna certeira para que possamos nos comover com o momento e sentir um pouco da motivação dele, algo também perceptível em um flash de uma cena de sexo entre os dois, quando o teto de vidro cobre-se de gotas de chuva que parecem estrelas. E como já comentado, o plot twist dá uma dimensão ao que vimos que enriquece a obra indubitavelmente em termos de impacto emocional.

Mas o filme é mesmo de Sharlto Copley que, também produtor executivo, deita e róla enquanto Jimmy, em suas diversas facetas. Assumindo todo o exagero grotesco que marca seus diversos trabalhos, e até mesmo os enriquece (vide Elysium), Copley abraça a faceta “Copley” e demonstra tanto vigor nas sequências de ação como um lado palhaço essencial para o personagem, encarnando seja um motoqueiro maconheiro ou um mendigo maluco com olhos injetados, urgência e o sotaque britânico que dá o charme final ao personagem. Copley é tão bom, aliás, que não falta nem mesmo peso dramático a Jimmy, e seu último momento em cena é também um dos mais comoventes do longa.

Enfim, Hardore: Missão Extrema é voltado completamente para a diversão nesse diálogo com a mídia dos games e as novas tecnologias do mercado, se tornando uma experiência marcante, frita e completamente enlouquecida no processo. Certamente uma experiência para viver de novo.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 27/06/2016