Crítica:
Hardcore: Missão
Extrema
(Hardcore
Henry / 2015 / EUA, Rússia)
Direção:
Ilya Naishuller
Nessa
cultura pop em que estamos imersos, com
tecnologia pululando em todos os lugares e em cada vez maior número de mãos,
sua inserção na Arte se torna quase obrigatória, assim como os ramos da Arte
perdem cada vez mais as barreiras que as qualificam. É desse pool genético que nasce Hardcore: Missão Extrema, onde as
brincadeiras de Go-Pro se encontram
com os games em First Person Shooter (FPS) e inova até mesmo as incursões
cinematográficas no mundo em primeira pessoa, como já haviam feito nos found-footage (como Atividade Paranormal) ou experimentos como Enter The Void.
O
que Hardcore: Missão Extrema faz é
aumentar à enésima potência a velocidade desse liquidificador cultural,
enquanto conta a história de Henry, que acorda para descobrir-se meio humano,
meio robô e sem memória, já obrigado a fugir de um exército que tenta
assassiná-lo.
Seguindo
uma estrutura clássica hollywoodiana, estabelecendo bem distintamente primeiro,
segundo e terceiro atos, com clímax e tudo mais, só que sabendo se revirar e
brincar dentro da forma sem ultrapassá-la, Hardcore:
Missão Extrema obviamente pega emprestado também a estrutura dos jogos de videogame, sendo talvez o exercício mais
interessante nesse sentido desde Scott
Pilgrim – Contra o Mundo. O Jimmy de Sharlto Copley serve como maior
veículo nesse quesito, já que surge sempre como um deus ex machina para Henry e lhe dá coordenadas para a próxima missão
(ou fase/level, se preferirem). Enquanto serve de exercício intertextual
(afinal, o germe do filme está mesmo nos games),
esse diálogo com os videogames define
o tom da narrativa e se coloca junto de uma geração acostumada, e talvez
criada, dentro do universo dos games,
e não demora para que nos sintamos à vontade, suspendendo diversas descrenças
que a priori poderiam nos afastar do
filme.
Enquanto
lida com um exército de super-humanos, um vilão maníaco com poderes
sobrenaturais inexplicáveis (algo que sempre pareceu praxe nos games), passagens secretas, e uma
motivação óbvia na forma de uma princesa em apuros para o protagonista, Hardcore: Missão Extrema abraça seus
clichês de videogames até mesmo em
seus aspectos negativos, e não surpreende certo machismo fetichista no filme
(as mulheres sempre aparecem como vítimas ou prostitutas), o que acaba sendo
seu ponto mais fraco. E mesmo com isso, é entregando-se de corpo e alma à
brincadeira que a equipe tem uma liberdade de movimento admirável, sendo que
até mesmo o processo de habituação do espectador à forma do que está assistindo
pode bem servir de elemento funcional narrativo, como a confusão sentida pelo
próprio espectador quando da primeira sequência de ação, num processo que pode
emular a confusão do próprio Henry. E se a equipe se diverte fazendo o herói
passar por alguns perrengues enquanto se habitua ao seu corpo, não tarda para
que Henry assuma a posição de máquina mortífera que lhe é devida, num ponto em
que estamos já acostumados com o estilo do filme e podemos curtir tudo sem
enjoos ou dores de cabeça.
E
aqui que o filme encontra sua força: nas sequências de ação. Assumindo o
universo diegético como um parque de diversões, a equipe explora com primor as
possibilidades de cada ambiente, cada ângulo de porrada ou uma possibilidade de
usar uma granada de forma não-convencional, e fazendo isso num crescendo de absurdo que habitua-nos a
entrar no jogo de forma gradativa, cada vez mais nos surpreendendo e aceitando
aquilo tudo com mais entusiasmo, até o ponto em que Copley entra com uma motocicleta
dentro de uma vã em movimento e vibramos com isso. Aliás, o controle que a
equipe tem sobre nós é tão preciso que em dois momentos do filme é fácil
perceber o coração parando como em um estado de suspensão diante do que veremos
em seguida: a segunda vez em que um personagem rouba um mecanismo de dentro de
outro (sério, isso acontece mais de uma vez) e quando Henry injeta adrenalina
em si mesmo. Junte a isso uma trilha sonora incidental que varia do eletrônico
mais baladístico até um blues maroto,
e receba um clímax que nos dá tudo que promete em violência e um plot twist que nos faz repensar om olhos
mais trágicos o que assistimos.
E
é com esse plot twist que o roteiro
de Ilya Naishuller (também o diretor) e Will Stewart engrossa a emoção
envolvida em um projeto onde o drama não parece ter tanto lugar. O que não
significa que Henry seja unidimensional, e é até muito gratificante
perceber-nos nos importando com um personagem que não tem fala alguma, numa
decisão que aproxima-o dos protagonistas mudos de videogames FPS, mas facilmente poderia torná-lo mais robótico e
menos interessante. Além disso, Henry não é interpretado por algum ator, mas
seus movimentos são gravados por diversos cameramans
diferentes, o que talvez sirva até para nos aproximar dele, dado que estamos
presos ao seu ponto de visto. De qualquer forma, há certo carisma nele, e é
notável como a trilha sonora brega sentimentalóide que toma conta quando ele se
aproxima da esposa Estelle (Haley Bennett) se torna certeira para que possamos
nos comover com o momento e sentir um pouco da motivação dele, algo também
perceptível em um flash de uma cena
de sexo entre os dois, quando o teto de vidro cobre-se de gotas de chuva que
parecem estrelas. E como já comentado, o plot
twist dá uma dimensão ao que vimos que enriquece a obra indubitavelmente em
termos de impacto emocional.
Mas
o filme é mesmo de Sharlto Copley que, também produtor executivo, deita e róla
enquanto Jimmy, em suas diversas facetas. Assumindo todo o exagero grotesco que
marca seus diversos trabalhos, e até mesmo os enriquece (vide Elysium), Copley abraça a faceta “Copley”
e demonstra tanto vigor nas sequências de ação como um lado palhaço essencial
para o personagem, encarnando seja um motoqueiro maconheiro ou um mendigo
maluco com olhos injetados, urgência e o sotaque britânico que dá o charme
final ao personagem. Copley é tão bom, aliás, que não falta nem mesmo peso
dramático a Jimmy, e seu último momento em cena é também um dos mais comoventes
do longa.
Enfim,
Hardore: Missão Extrema é voltado
completamente para a diversão nesse diálogo com a mídia dos games e as novas tecnologias do mercado,
se tornando uma experiência marcante, frita e completamente enlouquecida no
processo. Certamente uma experiência para viver de novo.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 27/06/2016
