Angrboda
Ao amigo Gabriel Caetano de Queiroz
“How far are we from dying?
Is it merely at an end?”
canção “Evening Over Rooftops”,
Edgar Broughton Band
O ar está espesso como mel, enquanto o Rei anda na
varanda de seu palácio em cima do cume, observando as casas ensombreadas pelo
início da noite, tetos e mais tetos se estendendo até a curva do horizonte, sob
um céu vermelho-fogo, vermelho-sangue que se deitava sobre todas aquelas vidas,
manta sombria do Destino a descer sobre seu reino e sua alma, retificando as
perturbações que lhe assomam o espírito. As palavras de um de seus poetas
pessoais, Broughton, produzidas recentemente a pedido especial do Rei, não lhe
deixa a cabeça (“Exôdo? Fuga? Ou era apenas para meus olhos?”), se misturando à
esfumaçada imagem do Oráculo que consultou algumas horas atrás, suas palavras
ribombando como trovões em seu ser: “Um esplendor externo. Junto a um Ragnarök
todo seu”. Ele acha ter compreendido as palavras, e é isso o que tanto lhe
perturba.
Precisa de um uísque. Liga o computador atrelado à vidraça
na extremidade da varanda, acionando um dos mordomos. Bebe uma dose generosa da
bebida de sua coleção particular, sorvendo cada gole como se fosse um purgante
e, embora não estivesse surtindo efeito desejado (ou talvez justamente por
isso), enche o copo novamente, apoiando-se no parapeito e observando toda a
extensão daquele reino. Sente-o como parte inerente sua, como se cada metro
quadrado daquela terra fosse inexorável a si. Um reino que ele governava desde
que herdou o trono, aos 19 anos, mesma época em que começaram os ataques de
Angrboda, o dragão vermelho-ouro das profecias mais antigas de seus
antepassados, criatura majestosa que periodicamente atacava seu reino,
destruindo fábricas, colheitas, lares, vidas...
Há 33 anos ele governava o reino, e há 33 anos lutava
contra Angrboda. Para ser sincero, não se lembra de muito antes disso. Seus
anos de juventude formam um borrão nas suas memórias, resquícios de eventos e
sensações misturados disformemente nos becos do passado. Ao que conta, é a
batalha de uma vida. E por muitos desses anos, sente que foi um Rei justo,
sempre com compaixão por seus súditos, um senso de unidade que possui com todos
aqueles seres humanos, com vidas tão únicas, esperanças idiossincráticas,
amores tempestuosos, sentimentos íntimos protegidos do crivo alheio, como que
por receio de julgamentos que diminuíssem o som daqueles trovões internos que
balançavam cada um privadamente. Olhava para camponeses, operários, mordomos,
cozinheiros, servos e servas sexuais, faxineiros, sua rainha e seu filho, além
de todas as crianças que pululavam pelo reino... olhava tudo isso com doçura
capaz de enxergar mesmo os atos mais contraditórios como belos justamente por
serem humanos. Talvez tenha essa tendência por ter sido embebido em poesia
desde os anos primevos, quando convivia com sua nobre e falecida mãe, passeando
pelos então claros e vibrantes jardins do reino, só sabia que sentia uma
gratidão profunda por isso, junto também com um respeito e amor ao pai por ter
lhe ingressado nos mistérios da Ciência, desde as mais distantes galáxias, até
o mais profundo dos oceanos, mas principalmente, das leis que governam o
comportamento humano. Talvez por isso tudo seja um soberano tão amado.
Mas o reino não guardava os esplendores de outrora.
Lutas e mais lutas foram travadas contra Angrboda, mas a criatura, fora das
leis naturais da Ciência, não pertencentes aos limites do Universo conhecido,
obra de puro Caos, paulatinamente aparecia e lhe destruía o reino. O Rei já
organizara expedições para encontrar o lar da criatura, se deparando com um
antro de radiação venenosa envolto em pura energia. Não matéria. Energia. E por
anos a fio o Rei e seus exércitos confrontaram o dragão, armas laser, tanques
de guerra, desintegradores atômicos, e muito mais, incapazes de ultrapassar a
pele espessa. As perdas humanas nessas batalhas se tornaram enormes, e o Rei
decidiu seguir esse caminho sozinho, iniciando assim uma caçada brutal e
solitária. Aos poucos, Angrboda passou a ser seu oxigênio, cada átomo de seu
corpo lembrando-se constantemente dessa tarefa. Aos poucos, apesar de manter
seu senso humanista e sempre que possível passar tempo com seus súditos, o
reino foi convertendo-se em montanhas e montanhas de sucatas, se tornando uma
espécie de ferro-velho envenenado que cobria os céus com uma névoa
vermelha-tóxica. O desmazelo que a estrutura física do reino passou a
evidenciar era um contraponto de um universo muito mais rico que se construía
sob a pele do Rei...
O Rei era o coração do reino, o centro nervoso de tudo
o que lá acontecia. Mas quanto mais o reino caía, mais seus aposentos privados,
antes limitados ao essencial, passavam a esbanjar mapas, esqueleto de armas,
diagramas, livros e mais livros abertos em diferentes páginas, um em cima do outro,
além de desenhos de Angrboda por todos os cantos. O coração falhando, todos os
órgãos de um corpo passam a arrefecer. Os passos nas ruas do reino adquiriam um
aspecto arrastado, os olhares cada vez mais fitavam o chão. A rainha, sem dizer
palavra, mudou-se para os aposentos de hóspedes, e passava mais tempo
distraindo-se com servos e servas sexuais.
Jogando-se em batalhas sangrentas contra Angrboda,
toda vez que ele aparecia, o Rei lançava seu corpo em direção à criatura,
usando armaduras cada vez mais leves e, como arma, apenas a espada forjada por
seus antepassados, muito antes de seu nascimento. Voando através do reino,
mergulhando em mares distantes, se enroscando dentro de cavernas esquecidas ou
nunca descobertas, homem e criatura se dilaceravam no encontro corporal que
envolvia o uso dos mecanismos mais primitivos de combate. Certa vez, o homem se
viu dentro da boca do dragão, a espada perdida na euforia da batalha, usando
nada além da força de seus braços e pernas para impedir que a boca se fechasse.
Em certo momento, ela se fechou, e o homem quase engolido, na beira da garganta
da criatura, ambos ficando imóveis assim durante um tempo, até que ele ergue-se
e sai da boca, sem dificuldade. Homem e criatura se entreolham, vibrando,
encharcados de suor, trêmulos do combate, e vão-se embora.
Aconteceram ainda muito mais combates, e estranhamente
ambos saíam ilesos, a não ser por cortes e arranhões. A brutalidade física
desses combates, a vividez desses encontros, chocavam-se contra o dia a dia
melancólico dos súditos do Rei. Os ataques ao reino, no entanto, nunca perderam
sua violência, e os destroços cada vez mais evidentes nublavam as lembranças do
reino de outrora. Foi nessa época que um dos bioquímicos mais eminentes
daquelas terras, Ziel, desenvolveu uma poção nova, que vinha trabalhando há
anos. Uma fórmula que servia como uma espécie de anti-matéria para o dragão,
capaz de reverter toda sua força e acabar com sua existência. O Rei agradeceu
sua dedicação, mas não deu muita atenção, ao menos não conscientemente. Isso
foi algumas semanas antes da noite atual.
Nesse meio tempo, mais um ataque de Angrboda ocorreu.
Depois da luta, o Rei saiu para um passeio antes tão comum, mas que há muito
não fazia. Vestiu um manto com capuz e saiu para as ruas do reino. As imagens
humanas e estruturais que via durante o passeio foram dissolvendo a anestesia,
e passaram a evidenciar ruínas metálicas para todos os lados, carros quebrados,
muitas vezes em fogo vivo, crianças subnutridas, acompanhadas por adultos ainda
mais magros, rostos sombrios pelo carvão e graxa, e também por olheiras como
sombras astrológicas sob os rostos encaveirados. Um arrepio passou a lhe
percorrer o corpo, sua pele se tornando magnetizada, seus pensamentos confusos e
sentindo o peso de algo que ainda não conseguia encontrar palavras para
descrever.
Uma garota lhe captou o olhar. Foi em direção a ela,
sentada no meio de uma rua. Era uma moça linda por baixo da imundice,
provavelmente na faixa dos vinte anos, olhos verdes pungentes e cabelo loiro,
liso e tão fino que parecia insensível ao toque. O Rei sentou-se ao seu lado e
perguntou-lhe o nome, recebendo apenas silêncio em resposta, o olhar ainda
perdido no horizonte. Olhando além de seu rosto, o Rei percebe que a garota
possuía uma enorme barriga, inchada, e uma trilha de sangue saindo do meio de
suas pernas, sujando-lhe a encardida saia, as pernas, pés, e interrompendo-se
numa massa escura logo à frente dele que, só então o Rei notou, se tratava de
um corpo coberto por uma manta. Não se atreveu a levantar o tecido, mas não conseguia
remover seus olhos dele, a não ser quando sentiu que era observado. Viu que a
moça movera a cabeça, e olhava no fundo dos seus olhos. Um arrepio ainda mais
enervante percorreu o corpo do Rei, quando ele percebia uma presença e ausência
assombrosas por trás daqueles olhos.
É lembrando-se desses olhos que ele, tomando seu
uísque e observando seu reino sob o céu vermelho, enfia a mão no bolso interno
de seu roupão, segurando o frasco com a poção, firme, forte, como se para
lembrar-se de sua existência, uma lembrança que surgia amarga. Entra em seus
aposentos abundantes de resquícios de sua obsessão. Eu sua cama Real, servos e
servas sexuais interrompem sua orgia, olhares lânguidos pousados no Rei,
chamando-o para a cama, mãos e pernas continuando a explorar os corpos alheios.
Aproveitando a passagem do Rei, que tinha que se esgueirar entre a cama e
livros e mapas espalhados, um dos servos lhe segura o pênis, enquanto duas das
servas começam a percorrer seu corpo com mãos e línguas. Logo, o Rei vai sendo
engolido por uma montanha de corpos, consumindo-o a ponto de sumir. Ele... que
não percebe o que está acontecendo... com modos suaves, afasta os homens e mulheres,
caminha até uma escrivaninha com mais um computador e senta-se, retirando um
pequeno frasco com cocaína de uma gaveta, e fazendo generosas carreiras em cima
da mesa. Os servos e servas arrastam-se languidamente pelo chão, procurando de
novo pelo corpo Real, como fios de metal atraídos por um imã. O Rei cheira
todas as carreiras, mas sua expressão não muda, seu coração não bate mais forte
e nem seu corpo vibra. As mãos sobem-lhe pelo corpo, formando uma colina
pulsante sobre um alicerce inerte. O Rei não reage a isso.
“Um Ragnarök todo seu”.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 06 de outubro de 2015

