quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mapa do Tesouro


Mapa do Tesouro

O barbeiro seguia puxando conversa sobre assuntos banais enquanto tesourava minha barba, mas eu mal conseguia prestar atenção no que dizia. Minha atenção era para um senhor, aparentemente entre os 80 e 90 anos, sentado na cadeira ao lado, enquanto o assistente do barbeiro, um sujeito naturalmente lento para trabalhar, cortava com ainda mais calma, delicadeza até, seu cabelo.

A pele queimada de sol e bastante enrugada, fina a ponto da quase transparência, deixando entrever veias verde-azuladas... Mas foi seu rosto que mais captou meu olhar. Fui atraído para seus olhos, sentindo todo o mundo calar à minha volta; as risadas do barbeiro e seu assistente dando lugar a um zumbido quanto mais eu aprofundava no mundo particular do senhor... olhos que pareciam longe, com um não sei quê de tristeza. Observando-o, a impressão era de presença-ausência, desconexão de tudo ao seu redor, um constante zumbido no que tangia a imersão no social, apenas uma máquina que funcionava em modo automático, que já não conseguia discriminar nada ao seu redor. Procurei por algum cuidador à vista, e até deduzi que fosse parente do barbeiro ou seu assistente, já que não conseguia imaginar que aquele senhor estivesse lá por conta própria.

Imaginei que ele estivesse com as faculdades de comunicação comprometidas, e talvez por isso tão alheio, sem nem abrir a boca. A tristeza que deduzi em seu olhar provavelmente nada mais seria que um viés meu, já que de seus olhos provavelmente não saia nada similar a emoções tão manjadas pelo verbo. Comecei a me compadecer do isolamento que os idosos são submetidos quando seu corpo, eles mesmos, perdem a capacidade de se comunicar.

Mas então o barbeiro fala ao seu assistente: “a costeleta dele tá muito grossa, corta mais”. O senhor afirma vigorosamente com a cabeça e diz em voz bem clara: “é mesmo!”.

Fiquei encantado. O que descortinava à minha frente não era uma vida castrada pela biologia decadente, mas talvez uma vida cansada, assombrada por infinitos fantasmas. O que olhava aquele senhor quando mirava tão longe? Nadando nesses pensamentos, seu olhar distante ganhou outro contexto. Ele não estava incapaz de se comunicar... Comecei a interpretar um homem exausto pelo peso dos anos, pelas diversas colisões com outras vidas, seus olhos como que observando os cacos/peças de todas essas interações espalhadas à sua frente, e que talvez ele não tivesse uma cola em forma de sentido para unir aquilo tudo. Imaginei que provavelmente ele nem estaria cônscio disso, mas como se fosse algo informe, uma espécie de angústia indefinida, como as quimeras de Baudelaire que usam pessoas como transporte sem elas notarem.

Saindo do porto de seus olhos, alcancei as águas de seu rosto. Seu maravilhoso rosto. Como uma obra de Arte entalhada em mármore, delineavam-se linhas de expressão, tornando dura sua face, forte apesar da fragilidade do que, no restante, era um corpo quase raquítico. Diversas comparações verbais me vieram naquele momento, metáforas buscando capturar a sensação de deslumbramento. Parecia uma teia, sim, mas depois descobri que aquele rosto era, na verdade, um mapa. Um mapa para as emoções daquele senhor, daquele homem... daquele ser humano. Um caminho para todos aqueles cacos aos quais me referi.

Independente dessas emoções não serem tanto algo com que nascemos, mas que vamos aprendendo a chamar de nosso ao longo da vida, aquelas linhas de expressão me levaram a passear nesse pensamento de mapas de emoções expressas. Todos os momentos que sorriu, que franziu a testa, que chorou... todas as emoções e interações que teve com os outros ficaram cravadas em seu rosto na forma de uma frequência acumulada.

Um bebê não possui linhas de expressão, ao menos não marcantes ou facilmente visíveis. Essas linhas ficam perceptíveis apenas quanto mais as pessoas envelhecem. É no convívio com outros, familiares e eventualmente um círculo social mais extenso, que vamos aprendendo as formas de contrair e relaxar o rosto para expressar alguma emoção que aprendemos a chamar seja de amor, tristeza, medo, surpresa, ou qualquer outro estado emocional que discriminamos. Seu rosto era como uma massa de modelar que assumiu a forma das emoções que expressou enquanto vivia. Enquanto vive. Mais até do que um mapa para suas emoções, seu rosto era um mapa para sua vida, uma paisagem.

Essas contrações e relaxamentos musculares moldam o rosto como argila, dizendo sobre seus donos de forma sutil, elegante, bela à sua maneira comedida e respeitosa. Mas é também sinal de bagagem, algo de que as pessoas parecem escapar nos dias de hoje. Não sei se como uma forma de máscara que grita “leveza!” para chamar atenção de pessoas que carregam suas próprias cruzes, ou se por outro profundo motivo social, ou mesmo algo relacionado meramente à estética, o caso é que as linhas de expressão não são apreciadas como sinal de beleza, externa pelo menos. Complicadas cirurgias e produtos inovadores prometem extinguí-las da vista dos outros. O caso é que esconder essa história escrita à faca do tempo na pele é como uma forma de esconder a si mesmo, vender-se como uma promessa, uma propaganda de uma história menos densa e que promete menos cobrança, menos peso. A demanda do belo hoje exige algo que se possa largar com mais facilidade, que se adapte melhor às mudanças abruptas nas contingências de um mundo frenético demais para seus habitantes, que digam rápido a que vieram, sem segredos ou complicações. A baixo livros longos e repletos de reviravoltas; bem vindos catálogos de lojas.

O senhor já tinha ido embora há bastante tempo, chapéu de palha na cabeça e guarda chuva na mão, quando o barbeiro levanta minha cadeira, barba feita e cabelo cortado, me arrancando de meus devaneios. “Pronto, Lucas. Nó, sua barba tá foda, vai deixar as mina tudo louca, irrul!”, diz ele, enquanto me observo no espelho, sorrio e penso: “a barba tá foda mesmo.”.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
10/12/2015



Crítica: Corra!


Crítica:

Corra! (Get Out / 2017 / EUA)

Dir. Jordan Peele

Me vejo em dificuldades em discutir o que quero nesse filme sem abordar aspectos delicados da trama. Por isso, já digo de antemão que o texto contém spoilers e que muitos podem preferir lê-lo após assistirem ao filme.

Corra! é o filme certo na hora certa.

Em ano que Moonlight, de Barry Jenkins, é oscarizado e é possível enxergar uma superfície onde o Cinema hollywoodiano abre as portas para questões raciais, a velha máxima de Vladimir Maiakovski me vem à mente: “não há arte revolucionária sem forma revolucionária”. O diálogo de Jenkins em questões raciais se dá abraçando formas estabelecidas de gênero sem questionar como essa forma indaga o seu próprio conteúdo. Por isso mesmo é tão curioso que em Corra! o cineasta Jordan Peele consiga realizar um exercício de gênero tão marcante ao mesmo tempo em que o próprio fato de posar com uma forma estabelecida sirva de potencial revolucionário. A relação forma-conteúdo aqui se dá com maior força do que no vencedor do Oscar 2017.

Corra! é explicitamente um filme de suspense que bebe nas fontes de um Alfred Hitchcock ou John Carpenter, abraçando esse teor sem a vergonha com que Hollywood parece encarar o fato de “ser um filme de gênero”. Aqui, a sutileza divide seu lugar com explícitos acordes agudos de violinos, a câmera de Peele desliza sobre o espaço diegético sempre de maneira evocativa, explorando as possibilidades dramáticas que se escondem em olhares e falas. Nisso, Peele, enquanto roteirista e diretor, consegue a proeza de que seu suspense funcione em vários níveis, seja no incômodo cotidiano do racismo disfarçado da família da namorada de Chris (Daniel Kaluuya) ou nas camadas mais explícitas onde a paranoia se confunde com a realidade.

O termômetro político/social de Peele não poderia ser mais perfeito, e é esse o grande ponto de seu filme. Corra! é uma obra que se veste da normalidade estética justamente para questioná-la. Peele se insere num meio que até hoje tem visto poucos cineastas negros, o do Cinema de gênero, mas o implode, não aceitando o papel de puro entretenimento. Na medida em que sua obra não apenas abraça e se afunda nos mais clássicos caminhos do suspense, Peele olha para esse lugar e põe os dedos nas feridas que se abrem a essa oportunidade, voltando um olhar crítico para o status cult neoliberal, o olhar do branco que não admite uma culpa histórica e busca sobrepujar as contradições de seu lugar. Nisso, Peele é mais radical do que Jenkins em Moonlight: entra no sistema e o torce a seu favor.

Pois a própria temática de Corra! grita as contradições que o racismo neoliberal busca esconder. O branco, perdoado por si mesmo de sua historicidade, enxerga as potencialidades do corpo negro como um campo fértil a ser explorado. Agora não se trata mais de um uso explícito de sua força física, mas de uma apropriação em meios culturais e artísticos. As falas da família de Rose (Allison Williams) abundam nessa exploração maçante do corpo negro (“negros estão na moda agora”, “o que você tem a dizer sobre a experiência do afro-americano no século XXI?”, etc), e o desvelar da trama não esconde que a apropriação contemporânea do corpo negro, no campo que fede a neo-liberalismo, se dá pelo espaço que esse corpo tem a explorar. O que Hudson (Stephen Root) quer de Chris são seus olhos, sua ferramenta artística, com a qual, como fotógrafo, expõe a melancolia e as contradições dentro da experiência de ser negro; Hudson deseja tal sensibilidade, o poder experimentar essa vivência e discutí-la em sua estética.

Nisso, as camadas metafóricas de Corra! pulsam com vitalidade crescente. A única arma que Chris tem disponível é uma câmera. Num mundo imerso em imagens que pululam incessantemente, o seu uso pode ser a denúncia final e força máxima de expressão. Além disso, outro recurso usado por Chris é tampar seus ouvidos com algodão para se proteger da hipnose de Missy (Catherine Keener), e não é à toa que o algodão era uma das maiores mercadorias do Sul dos EUA: poderíamos ler que Chris se apropria de sua historicidade para conseguir vencer os invasores brancos, esses sim inconscientes de sua história. São tão inconscientes que, numa das piscadelas mais sagazes de Peele, os negros cujos corpos são tomados são sempre usados em trabalhos subalternos, não raro em indumentárias tipicamente sulistas. O corpo negro, de Chris, é constantemente tocado, experimentado, para se ver como então se poderá usá-lo tal como era feito com escravos.

Jordan Peele, entrando num espaço historicamente branco, se inebria nele para questionar as contradições mais básicas, mas ainda assim não tão superficiais, que abundam nesse lugar. Questiona o verdadeiro lugar que o Cinema feito por pessoas negras está tendo junto ao público e a festivais cheios da mesma “boa vontade cult neoliberal” como um Oscar. O questionamento do “lugar de fala” não se dá em bases acríticas, como tão comumente visto e versado em mídias sociais, mas é apropriado dentro de seu próprio espaço artístico, o Cinema.

Retornando a Maiakovski, o revolucionário se dá aqui imiscuindo-se no estabelecido, entrando na zona de conforto e lhe arrancando as entranhas.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 25/05/2017