sábado, 31 de outubro de 2015

Crítica: Sicario – Terra de Ninguém


Crítica:

Sicario – Terra de Ninguém (Sicario / 2015 / EUA)

Direção: Denis Villeneuve

Se há algo que une obras diversas como Politécnica, Incêndios, Os Suspeitos e O Homem Duplicado é a capacidade de seu diretor, Denis Villeneuve, estabelecer uma atmosfera opressiva que vai percorrer toda a projeção, usando de elementos que vão da chuva constante até o uivo de vento gelado através de uma janela quebrada em uma sala grande para inserir o espectador em universos tristes, desesperançados e tensos como seus personagens. Assim, é surpreendente como este seu novo trabalho, Sicario, se destaque mesmo dentro de uma já tão formidável carreira, conseguindo sustentar uma tensão contínua e um senso de caos que fazem do próprio espectador um cúmplice no que está testemunhando.

Roteirizado por Taylor Sheridan (que interpretou o xerife David Hale no seriado Sons of Anarchy), Sicario segue a agente do FBI, Kate (Emily Blunt), cujo aparente destaque em suas tarefas a tornam ideal para ser recrutada por Matt (Josh Brolin), um agente de uma misteriosa força especial do governo na guerra contra o narcotráfico na fronteira entre os EUA e o México. Kate então entra num esquema obscuro e ambíguo, que a levam a questionamentos morais em uma jornada clandestina sem limites definidos.

Com uma sequência inicial estabelecedora da incerteza e crueldade que acompanha o cotidiano dos personagens daquele universo, Villeneuve é hábil ao mobilizar emocionalmente o espectador desde o ponto de partida, aumentando gradativamente a tensão de formas indiretas mas que estruturam mais o filme em uma atmosfera tensa, como ao controlar as sensações do espectador levando à impressão de estar em um território alienígena e hostil, como nos planos aéreos que enfocam solitários e peculiares morros no meio do deserto, ou na sequência noturna envolvendo visores com sensores térmicos. Juntamente com planos abertos que enfocam bairros aparentemente calmos (característica que aos poucos eliciam mais angústia, por sabermos ser a calma uma farsa), Villeneuve ainda conta com a poderosa fotografia de Roger Deakins, capaz de estabelecer um tom apocalítico ao pintar o horizonte com vermelho, amarelo e laranja intensos em momentos estratégicos, ou com a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson, que com seus acordes graves crescentes parece solidificar ainda mais a tensão, algo contribuído pelo design de som que mantém intermitentes sons de tiros como background.

Villeneuve continua mantendo a sutileza que torna seus trabalhos tão gratificantes, confiando no espectador como apreciador atento e sensível. Exemplo disso é a cena que antecede uma tortura realizada por Alejandro (Benício Del Toro), em que o vemos terminar um diálogo e pegar distraidamente um galão de água que antes estava fora do campo. Em primeiro lugar, nota-se familiaridade dele com o gesto, ao pegá-lo com bastante displicência, e em segundo, e mais importante, antecipamos a intensa tortura que ocorrerá, eliciando tensão sem nem mesmo presenciarmos a cena. E são com elementos como esses discutidos nesses dois últimos parágrafos que o cineasta e seus colaboradores são capazes de chegar a uma sequência do brilhantismo daquela que se inicia com a viagem aérea até Juarez e termina num tiroteio numa ponte, que aposta no crescendo de ação, eficiente mesmo para inserir Kate (e nós), no caos em que está mergulhando.

Kate que é uma espécie de protagonista às avessas. Incapaz de ter qualquer tipo de ação relevante durante a narrativa, seja por ser mantida sem informações, ou ser punida sempre que tenta fazer algo, Kate vai perdendo o vigor com que é apresentada no primeiro ato e é tomada por uma angústia crescente que se reflete no número de cigarros consumidos (outro ponto para a sutileza de Villeneuve) ou na face sempre contraída, quando não chorosa, em desamparo. Tirando o fato de ser estabelecida enquanto protagonista no primeiro ato, não há nada que a marque enquanto tal, num ousado processo por parte dos realizadores que vai contra os alicerces comuns de como se contar uma história. Ela acaba se tornando o reflexo do próprio espectador: jogado no meio do caos e sem qualquer ponto de apoio para se orientar naquele universo. Seu olhar é o nosso próprio, e sua função é ser um veículo para nós naquela história, o que acaba por nos tornar um cúmplice, seja do absurdo daquele universo ou de sua desestruturação pessoal.

Essa representação do caos parece ser a essência de Sicario, esse mergulho no incerto, numa espécie de inferno aleatório onde a dicotomia entre o “certo” e “errado”, “bom” ou “mal”, perde definições. Villeneuve e Sheridan reforçam essa perspectiva até mesmo ao desarmar o espectador (e Kate) entrando em contradições curiosas ao longo da narrativa: percebam como os “mocinhos” são figuras moralmente ambíguas, obscuras, ao passo em que os “bandidos”, traficantes, chefes de cartéis e mesmo policiais corruptos são retratados como figuras de família, gentis e bem educadas; ou ainda, notem como diretor e roteirista quebram uma expectativa de forma propositalmente decepcionante ao fazer suspense sobre os propósitos da força especial contra o narcotráfico, apenas para revelá-los de forma transparente e desavisada num momento aleatório. E, numa obra cujo principal antagonista, o chefe de cartel Mario Díaz, é mantido no escuro, mais como um símbolo ameaçador do que uma presença física, mas que, quando aparece, segue exatamente a tendência antes mencionada da expectativa quebrada de forma decepcionante, Villeneuve trás o absurdo ainda mais à tona ao pintar o personagem de Josh Brolin como representação do caos, uma figura que se veste de forma excessivamente descontraída mesmo nos mais formais dos ambientes, e que mantém sempre um sorriso sacana no rosto, caracteres inversamente proporcionais às do chefe de tão magnâmica missão.

É assim que Sicario funciona, invertendo ordens e quebrando padrões, fazendo com que o desconforto essencial que permeia qualquer aspecto da obra embase o padrão emocional que busca despertar no espectador, fazendo-o parte, cúmplice, daquilo que presencia, colocando-o em contato mais tácito do que racional com a aterrorizante realidade que apresenta. Um feito raro no meio cinematográfico, mas que nas mãos de um Villeneuve se mostra um evento de grandes proporções, capaz de extrair tensão mesmo das expressões faciais de seus atores: o gradualmente mais contraído e angustiado rosto de Blunt; o incongruente sorriso maroto de Brolin; e a expressão de tristeza, enfado e frieza presente no rosto marcado de Del Toro. A sensação que fica é que não há escapatória daquele universo, e que o filme nos posiciona para que vivenciemos visceralmente a opressão de uma existência engessada em meandros sombrios de canais obscuros e submersos nos recantos da Moral, sendo o sentimento de descartabilidade uma constante para aquelas pessoas, algo tão bem reconhecido pelo roteiro que desenvolve uma curiosa e ambígua relação entre Alejandro e Kate, talvez pautada na simples sensação de ser mais um objeto descartável do que uma pessoa.

De um tiroteio em uma escola de ciências exatas até aranhas gigantes, Villeneuve trás mais uma vez o Caos para sua filmografia, e entrega uma obra ímpar ao preocupar-se mais em atingir visceralmente o espectador do que evidentemente levá-lo a uma complexa reflexão intelectual. Talvez isso seja ainda mais apreciável, ainda mais brutal.

Pura obra de Arte.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
01/11/2015
Outros textos meus de filmes dirigidos por Denis Villeneuve:

domingo, 4 de outubro de 2015

Névoa



Névoa

Trem
Passando por estranhas estações
Quando pára
Deixa uns subirem
Outros descem, cansados da viagem.

O trem pôe-se em movimento,
Deixa traço de fumaça atrás de si
Névoa que dissolve na visão
Embaçada
Daqueles deixados em suas estações.

Resta agora ir para casa,
Guardando estranhas sensações.
Depois o trem passa de novo.
Até lá,
Sossego.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 04/10/2015

sábado, 3 de outubro de 2015

Análise: Perdido em Marte (The Martian / 2015 / EUA)


Análise:

Perdido em Marte (The Martian / 2015 / EUA)

Direção: Ridley Scott

Há duas tendências promissoras em Perdido em Marte. A primeira trata-se de uma gama de novos filmes produzidos por Hollywood que adotam o humor e leveza assumidos como veículos da narrativa, não forçando para fazer algo mais sombrio, sisudo, sob a falsa noção de que isso significaria uma obra mais “importante”. A outra é ser uma ficção científica que, como os recentes Gravidade e Interestelar, dá igual peso ao termo “científica” quanto ao “ficção”, convencidos de que a Ciência pura é tão empolgante quanto os devaneios mais criativos de um roteirista.

Adaptado por Drew Goddard (do sublime O Segredo da Cabana e do seriado Demolidor) a partir do livro homônimo de Andy Weir (que confesso ainda não ter lido), Perdido em Marte conta a história do astronauta Mark Watney (Matt Damon) que se vê só e desamparado no planeta vermelho quando ele e sua equipe são pegos por uma tempestade e, em infelizes circunstâncias, ele é dado como morto. Decidido a não se entregar facilmente, o sujeito passa a usar todo o seu conhecimento científico para se sustentar em Marte até conseguir alguma maneira de voltar à Terra.

De tudo, o que mais salta aos olhos na obra é seu incontestável respeito pela Ciência, além de uma plena consciência de que, sob o crivo desta, a ficção do filme flui de forma empolgante, e não é a toa que o próprio roteirista parece animado qual uma criança com essa perspectiva (“I will Science the shit out of this”, o protagonista diz em certo momento). Assim, acompanhamos Watney enquanto começa a cultivar batatas em Marte, estabelece formas de comunicação precárias com a Terra e (pasmem) produz água, numa narrativa na qual tanto roteirista quanto diretor (Ridley Scott) compreendem ser fundamental que acompanhemos os erros e acertos graduais do astronauta para que seu sucesso jamais soe forçado.

Num filme que se propõe tal desenvolvimento, é basicamente impossível evitar um elevado grau de exposição verbal para que o espectador leigo possa acompanhar facilmente o processo. Se isso irrita, ao menos o filme encontra um recurso relativamente orgânico para se mover, e Watney começa a gravar registros em vídeos como um diário do que está fazendo em Marte, algo que serve até mesmo para que o sujeito possa manter certo grau de sanidade enquanto está sozinho no planeta. E é aqui que o filme mais precisa lançar mão do bom humor para funcionar, e Matt Damon usa sua ótima faceta cômica para poder segurar o filme em rédeas curtas, fazendo com que o humor do personagem se integre à sua personalidade e suas exposições não soem forçadas. Mas esse elemento cômico percorre todo o filme, inclusive na Terra, quando Scott faz questão de preencher o elenco com figuras como Jeff Daniels, Kristen Wiig, Donald Glover e Michael Peña, reforçando a atmosfera cômica do projeto sem que as interações entre esses personagens soem forçosamente humorísticas, já que tratam-se, afinal, de atores competentes em termos gerais, não apenas na comédia.

E se citei Matt Damon, seu trabalho merece menção em uma série de outras dimensões. Adotando a descontração como essência do personagem, Damon consegue a deixa para fazer dos momentos mais tensos e sensíveis ainda mais impactantes, justamente por contrastarem tanto com o que é “normal” do rapaz. Dessa forma, quando seu rosto se encontra fechado, reflexivo, ou quando chora, podemos perceber o tumulto da solidão ou do medo tomando conta, apesar de nunca colocarmos em cheque sua dedicação, algo que um dos primeiros momentos seu em tela faz questão de garantir, quando o vemos realizando um pequeno procedimento cirúrgico em si mesmo. Os delírios de grandeza que vão tomando conta dele (“Aqui sou o primeiro em tudo”), parecem vestir bem com o que soa com uma arrogância natural do personagem que aqui, longe de um defeito, se torna divertidíssima quando Watney é levado a fazer loucuras muito por motivos de ser algo memorável, como o clímax do filme. Se tem algo no qual Damon se vê limitado, é para demonstrar o sentimento de assombro do personagem por estar só em um planeta desconhecido, mas não é tanto por culpa sua e mais pelo roteiro aparentemente não encontrar formas mais orgânicas de fazer isso do que colocar Watney falando sobre seu assombro.

Mas não só Watney é uma figura formidável. Se Perdido em Marte é um longa saturado de personagens, o que naturalmente impede que cada um tenha tratamento marcante, ao menos os realizadores são inteligentes o suficiente para buscar nos figurinos distintos alguma forma de dizer algo sobre quem são aquelas pessoas, e para isso basta observar as roupas mais antiquadas e de aparência mais pessoal de Mitch Henderson (Sean Bean), as camisetas largas e juvenis da moça de unhas pretas Mindy Park (Mackenzie Davis), qualquer elemento da indumentária de Rich Purnell (Donald Glover) ou os ternos bem cortados de Teddy Sanders (Jeff Daniels) para podermos intuir uma coisa ou outra sobre suas personalidades. Mais impressionante, no entanto, é o tratamento que os personagens recebem a nível ético e moral, sendo que o longa não possui nem mesmo um sujeito com caráter de vilão, mas todos se comportam de forma racional levando em conta as diversas variáveis envolvidas em suas missões, desde aspectos técnico-científicos até questões de relações públicas, se tornando, assim, um prazer incontestável acompanhar as discussões entre o “pragmático” Sanders e o “humanista” Henderson. Infelizmente, quando se trata da tripulação liderada por Lewis (Jessica Chastain), o filme decai no sentido em que não há absolutamente nada que nos permita realmente nos identificar com aqueles sujeitos, para todos os motivos, apáticos demais para personagens que desempenham papel tão importante no “drama humano” do filme.

Ainda assim, Perdido em Marte funciona bem durante boa parte do tempo, apenas decaindo em ritmo em um momento ou outro, além de depender excessivamente daquelas montagens com acontecimentos estendidos no tempo e uma trilha animada ao fundo, mas mantendo uma fluência elegante quando a montagem equilibra-se nas comunicações entre Terra e Marte, com pontos extras para aqueles momentos onde se dão as primeiras, e primitivas, tentativas de comunicação. Infelizmente, no entanto, o filme acaba confiando numa espécie de deus ex machina malandro quando um personagem específico entra em cena quase no início do terceiro ato com respostas que dizem respeito ao filme todo, além de abusar de uma trilha original blasé de Harry Gregson-Williams, como de praxe. Referindo-se a Ridley Scott, no entanto, Perdido em Marte não apenas é seu melhor filme desde O Gângster, de uns bons oito anos atrás, como ainda representa uma empreitada curiosa para um diretor que sempre adotou um tom sombrio em suas conhecidas ficções científicas, como Blade Runner e Alien, além de servir como um verdadeiro espetáculo visual em grande parte pela escolha do diretor em adotar uma enorme profundidade de campo para as sequências de Marte e no espaço, conferindo uma inequívoca sensação de claustrofobia inversa, ou seja, que causa angústia pela amplitude do espaço vazio.

Com uma trilha incidental absolutamente genial, em especial pelo uso certeiro de Starman de David Bowie e pela música que acompanha os créditos finais (não revelarei, vale a surpresa), Perdido em Marte talvez seja uma empreitada grande demais para suas próprias pernas, e é natural que os realizadores tropecem aqui e ali, nunca deixando, no entanto, que o longa quebre com isso.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
03/10/2015