Nó
Com um dia cheio atrás de si, mas um sorriso no rosto por ter cumprido tudo aquilo que se
propôs, Ele chegava na cantina da faculdade e reencontrava seus companheiros,
animado com a perspectiva de trocar alguns diálogos equilibrados entre a futilidade
e o profundo, tudo isso entre baforadas e mais baforadas de cigarros. Mas tinha
um elemento surpresa no ambiente: Ela estava lá.
Apesar da
leve titumbeada a priorística, Ele se refez do impacto e, tão logo a
cumprimentou, sem tentar ler qualquer profundidade no “Oi, tudo bem”, encontrou
seu lugar entre seus semelhantes e pôs-se a prosear, lutando para não desviar a
pupila para o canto onde Ela estava. O comportamento humano tem dessas: a
pessoa acredita-se curada, vacinada contra qualquer que seja a contingência que
a derrubou, de cama, agonizante, mas basta dividir o mesmo espaço físico com
alguém que já tenha lhe servido de veículo de complexas sensações para que a
realidade descarte todas confabulações verbais que alguém pode criar para preencher
o vão da distância, e todo o corpo passa a responder a estímulos mais poderosos
que o verbo.
De qualquer
forma, Ele não tardou a entreter-se com seus semelhantes, e qualquer vibração
que tenha havido naquele breve reencontro, passou-lhe despercebida, cessando
quase completamente quando Ela partiu. Ele sabia, porém, que havia tido
vibrações, só conseguiu evitá-las, e torcia para que não voltassem à distância,
gritando por atenção. Enquanto esse devaneio lhe ocupava uma parte da cabeça,
ele manteve o foco no social, acreditando-se praticamente livre do perigo.
Indo em direção ao carro, Ele foi agarrado
pelas mãos invisíveis do subliminar, as vibrações produziram tremores íntimos
catastróficos, e, qual uma marionete, ele foi levado para os degraus onde, anos
antes, haviam trocado os primeiros diálogos, impressões, presentes, beijos, e
também o primeiro “adeus”. Tirou uma foto que, mostrando um livro aberto em
suas mãos e parte da paisagem do lugar, agora noturno, dizia claramente que Ele
a esperava. Minutos depois, Ela chega, ofegante, jogando sua bolsa e papéis ao
chão, envolvendo-o em seus braços, tremendo, coração pulsando qual uma bomba,
lágrimas a lhe correr pela face.
Ele ficou
sem saber o que fazer, meio lisonjeado, meio assustado com aquela reação
efusiva. “É tão estranho ver você e não te abraçar”, disse Ela, voz abafada
pelo encontro de sua boca ao pescoço dEle. Logo que se desvencilhou, disse que
já tinha que ir embora, ao que Ele ordena “Não, você vai ficar aqui. Não estou
brincando”, num comportamento completamente atípico à sua pessoa que, no
entanto, saiu muito natural.
Sentaram-se,
trocando ideias que variavam em profundidade, muitas vezes causos que
preencheram a distância dos meses em que não se viam, novidades da vida e
outras potocas. Outro diálogo ocorria simultaneamente, num nível mais profundo,
quando, no meio de sua falas e risadas, sua mãos se encontraram, passaram a
brincar de entrelaçar os dedos, passear por braços, coxas, barrigas, como se
fossem completamente desconectados dos seres falantes que tagarelavam. Era o
corpo agindo por condicionamento, ignorando qualquer racionalização que eles
poderiam ter descrito em todo o tempo distante. Quase como peças que se
encaixam umas nas outras, um imã encontrando metal, ou qualquer metáfora que sirva
para satisfazer impulsos de corroer algo com o verbo.
Suas pernas
se enroscam, a perna esquerda dEla passando por cima da direita dEle, cuja
perna esquerda se acomodou embaixo da direita dEla.
As falas
foram rareando. Ela passava o dedo pela mão dEle, notando com o canto do olho o
sorriso que Ele dava, e perguntou “O quê?”, recebendo em resposta apenas uma
cabeça que balançou levemente da esquerda para a direita, sorriso nos lábios,
olhos nos dEla, sustentando o olhar. Ela aconchega seu corpo ao dEle. Ele
enlaça sua cintura. Ela beija sua boca e logo desvia o olhar, como uma criança
que fez algo que sabia que não deveria mas que não podia resistir. Ele pega seu
queixo, vira sua face e os lábios se encontram, num beijo efusivo, profundo,
longo e lento, envolvendo cada segundo com as línguas que se reencontravam,
dialogando na língua que apenas as línguas conhecem, nascem sabendo.
Passam
longos minutos que parecem segundos, conversando na linguagem natural dos
amantes, deixando o corpo conversar da maneira como nasceu para conversar. Vão
em direção ao carro, mãos se encontrando no escuro do caminho, silêncio em suas
bocas, bocas que se encontram novamente no escuro do carro, adiando o
desencontro que ocorrerá dentro em pouco, o Real batendo na porta do Imaginário
através das ligações da mãe dEla, avisando que já chegou, que lhe espera e que
é para Ela andar logo. Quando ocorre o desencontro, Ela deixa o carro como que
retirada à força, quebrando o contato.
O cheiro
dEla impregna o corpo dEle. Foda tomar banho numa situação assim. Parece
errado, uma afronta ao que acabou de acontecer. Comenta isso com Ela, pelo
celular. “Meu cheiro vai voltar a você, e o seu cheiro voltará a mim”. É o mais
honesto que podem dizer quanto à sua interação. Há muita coisa entre eles, não
sabem o que viveram ou que vivem, muito menos o que viverão. Só sabem que,
contra qualquer força da Razão, volta e meia voltarão aos braços um do outro. É
um evento fatal que, compreendem cada vez mais, não adianta lutar. Mais humilde
é aceitar.
Despedem-se.
Até quando, não podem dizer. Ele pôe seus fones de ouvido e deixa que o
saxofone de Dexter Gordon preencha os cantos de seu ser, colocando um cobertor
sobre as memórias recentes e a incerteza sobre tudo o que aconteceu. “Não
explique”, disse o sax. “Tudo bem”, repete Ele, sem abrir a boca.
Lucas Wagner Alves Ribeiro
Nunes
Goiânia, 21/09/2015