quarta-feira, 30 de setembro de 2015






       Com um dia cheio atrás de si, mas um sorriso no rosto por ter cumprido tudo aquilo que se propôs, Ele chegava na cantina da faculdade e reencontrava seus companheiros, animado com a perspectiva de trocar alguns diálogos equilibrados entre a futilidade e o profundo, tudo isso entre baforadas e mais baforadas de cigarros. Mas tinha um elemento surpresa no ambiente: Ela estava lá.

       Apesar da leve titumbeada a priorística, Ele se refez do impacto e, tão logo a cumprimentou, sem tentar ler qualquer profundidade no “Oi, tudo bem”, encontrou seu lugar entre seus semelhantes e pôs-se a prosear, lutando para não desviar a pupila para o canto onde Ela estava. O comportamento humano tem dessas: a pessoa acredita-se curada, vacinada contra qualquer que seja a contingência que a derrubou, de cama, agonizante, mas basta dividir o mesmo espaço físico com alguém que já tenha lhe servido de veículo de complexas sensações para que a realidade descarte todas confabulações verbais que alguém pode criar para preencher o vão da distância, e todo o corpo passa a responder a estímulos mais poderosos que o verbo.
    
       De qualquer forma, Ele não tardou a entreter-se com seus semelhantes, e qualquer vibração que tenha havido naquele breve reencontro, passou-lhe despercebida, cessando quase completamente quando Ela partiu. Ele sabia, porém, que havia tido vibrações, só conseguiu evitá-las, e torcia para que não voltassem à distância, gritando por atenção. Enquanto esse devaneio lhe ocupava uma parte da cabeça, ele manteve o foco no social, acreditando-se praticamente livre do perigo.
      
     Indo em direção ao carro, Ele foi agarrado pelas mãos invisíveis do subliminar, as vibrações produziram tremores íntimos catastróficos, e, qual uma marionete, ele foi levado para os degraus onde, anos antes, haviam trocado os primeiros diálogos, impressões, presentes, beijos, e também o primeiro “adeus”. Tirou uma foto que, mostrando um livro aberto em suas mãos e parte da paisagem do lugar, agora noturno, dizia claramente que Ele a esperava. Minutos depois, Ela chega, ofegante, jogando sua bolsa e papéis ao chão, envolvendo-o em seus braços, tremendo, coração pulsando qual uma bomba, lágrimas a lhe correr pela face.
     
     Ele ficou sem saber o que fazer, meio lisonjeado, meio assustado com aquela reação efusiva. “É tão estranho ver você e não te abraçar”, disse Ela, voz abafada pelo encontro de sua boca ao pescoço dEle. Logo que se desvencilhou, disse que já tinha que ir embora, ao que Ele ordena “Não, você vai ficar aqui. Não estou brincando”, num comportamento completamente atípico à sua pessoa que, no entanto, saiu muito natural.
      
      Sentaram-se, trocando ideias que variavam em profundidade, muitas vezes causos que preencheram a distância dos meses em que não se viam, novidades da vida e outras potocas. Outro diálogo ocorria simultaneamente, num nível mais profundo, quando, no meio de sua falas e risadas, sua mãos se encontraram, passaram a brincar de entrelaçar os dedos, passear por braços, coxas, barrigas, como se fossem completamente desconectados dos seres falantes que tagarelavam. Era o corpo agindo por condicionamento, ignorando qualquer racionalização que eles poderiam ter descrito em todo o tempo distante. Quase como peças que se encaixam umas nas outras, um imã encontrando metal, ou qualquer metáfora que sirva para satisfazer impulsos de corroer algo com o verbo.
      
     Suas pernas se enroscam, a perna esquerda dEla passando por cima da direita dEle, cuja perna esquerda se acomodou embaixo da direita dEla.
     
      As falas foram rareando. Ela passava o dedo pela mão dEle, notando com o canto do olho o sorriso que Ele dava, e perguntou “O quê?”, recebendo em resposta apenas uma cabeça que balançou levemente da esquerda para a direita, sorriso nos lábios, olhos nos dEla, sustentando o olhar. Ela aconchega seu corpo ao dEle. Ele enlaça sua cintura. Ela beija sua boca e logo desvia o olhar, como uma criança que fez algo que sabia que não deveria mas que não podia resistir. Ele pega seu queixo, vira sua face e os lábios se encontram, num beijo efusivo, profundo, longo e lento, envolvendo cada segundo com as línguas que se reencontravam, dialogando na língua que apenas as línguas conhecem, nascem sabendo.

      Passam longos minutos que parecem segundos, conversando na linguagem natural dos amantes, deixando o corpo conversar da maneira como nasceu para conversar. Vão em direção ao carro, mãos se encontrando no escuro do caminho, silêncio em suas bocas, bocas que se encontram novamente no escuro do carro, adiando o desencontro que ocorrerá dentro em pouco, o Real batendo na porta do Imaginário através das ligações da mãe dEla, avisando que já chegou, que lhe espera e que é para Ela andar logo. Quando ocorre o desencontro, Ela deixa o carro como que retirada à força, quebrando o contato.
     
      O cheiro dEla impregna o corpo dEle. Foda tomar banho numa situação assim. Parece errado, uma afronta ao que acabou de acontecer. Comenta isso com Ela, pelo celular. “Meu cheiro vai voltar a você, e o seu cheiro voltará a mim”. É o mais honesto que podem dizer quanto à sua interação. Há muita coisa entre eles, não sabem o que viveram ou que vivem, muito menos o que viverão. Só sabem que, contra qualquer força da Razão, volta e meia voltarão aos braços um do outro. É um evento fatal que, compreendem cada vez mais, não adianta lutar. Mais humilde é aceitar.
       
     Despedem-se. Até quando, não podem dizer. Ele pôe seus fones de ouvido e deixa que o saxofone de Dexter Gordon preencha os cantos de seu ser, colocando um cobertor sobre as memórias recentes e a incerteza sobre tudo o que aconteceu. “Não explique”, disse o sax. “Tudo bem”, repete Ele, sem abrir a boca.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 21/09/2015