Melhores
Filmes 2015
Construir
essa lista é uma tarefa bastante ingrata, apesar de divertida, para quem
escreve ou para quem lê. Ingrata porque não tem a mesma graça, convenhamos, ler
uma lista dessas que simplesmente liste os melhores filmes do ano sem uma ordem
“de preferência”; já quando se estabelece uma ordem, há uma série de questões a
se considerar: o que faz com que o filme X seja melhor do que o filme Y? Mad Max – Estrada da Fúria não tem
simplesmente nada a ver com Selma, e
ambos os filmes alcançam brilhantemente suas propostas. Por quê um seria melhor
do que o outro? É simplesmente por quê “eu gostei mais”? Não, não curto isso.
Dessa
forma, a ordem de preferência em que listarei as seguintes obras seguem um
critério mais específico. Não quer dizer que eu goste mais de Blind do que de Divertida Mente, por exemplos, mas a ordem se dá na medida em que,
segundo as minhas análises de cada filme, consegui enxergar uma maior habilidade
dos respectivos realizadores em se utilizar dos meios audiovisuais para
trabalhar não apenas a trama, mas o modo como o espectador percebe e se envolve
com essa, é manipulado pelos elementos cinematográficos presentes. Ainda,
levei em consideração o critério do quanto esses filme ousam em relação uns
aos outros à forma como trabalham associações viciadas do espectador comum e,
por vezes, torcem as estruturas mais comuns do fazer cinematográfico para
conseguirem resultados mais inovadores/interessantes.
Dito
isso, e ainda antes de começar a lista, gostaria de dizer que 2015 foi um ano
em que assisti um número menor de filmes, e assim, obras que aparecem em
diversas listas podem não estar aqui pelo simples fato de que ainda não as
conferi, como, por exemplo, Carol, Os Oito Odiados ou Adeus à Linguagem. Além disso, os filmes aqui listados lançaram
comercialmente no Brasil em 2015, mas podem ter lançado antes em seus países de
origem (exemplo, Selma e Foxcatcher).
Um
brevíssimo texto acompanha cada filme, remetendo ao link de uma crítica mais
completa, caso eu tenha escrito.
1. Sicario – Terra de Ninguém
Esse novo filme de Denis Villeneuve
trata da questão da luta contra o narcotráfico a partir de uma abordagem mais visceral do que
racional. O cineasta se utiliza de uma série de estratégias audiovisuais além
de truques de roteiro que desafiam o aconchego do espectador comum e sua
relação com o Cinema para proporcionar uma experiência que perturbe num nível
irracional, e assim nos aproxime da sensação de caos experimentada por aqueles
personagens.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/10/critica-sicario-terra-de-ninguem.html
2. Blind
O filme de Eskil Vogt prima por,
diferente do que se declaram diversas obras “cult”, ser realmente intimista. Vogt se utiliza de
estratégias audiovisuais e num ousado uso da montagem para trabalhar a
percepção do espectador, colocando-o no lugar de uma mulher adulta-jovem recém
cega e deprimida.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/08/analise-blind-blind-2015-holanda.html
3. Que Horas Ela Volta?
O badalo todo não é à toa. Anna Muylaert
conseguiu criar uma obra-prima com um termômetro social preciso, captando o
choque de gerações em um país em constante mudança, através de uma narrativa
que se constrói com parcimônia, e cujas maiores críticas se dão não de uma
forma agressiva, mais sim a nível mais pessoal, levando o espectador a encarar
as interações construídas no Brasil a partir de um prisma que enfoca os
problemas a construção “psicológica” desses problemas, totalmente intrincadas
na sociedade.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/08/analise-que-horas-ela-volta-que-horas.html
4. Divertida Mente
Depois de um tempo capengando, a Pixar
conseguiu produzir um filme singelo em termos de criatividade e ambição
temática, usando os meios visuais não apenas para deslumbrar com invencionismos
e piadas divertidas, mas também para situar o espectador emocionalmente naquele
mundo.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-divertidamente-inside-out-2015.html
5. Mad Max – Estrada da Fúria
Filmaço nervosíssimo de ação, Mad Max – Estrada da Fúria chuta de lado
diversas convenções narrativas e cria uma obra prima que funciona de modo
independente de nossas expectativas, ao mesmo tempo que, de forma
predominantemente visual, aborda diversas e fascinantes questões sociais e
mitológicas em um universo absurdo que reflete muito da humanidade.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/05/critica-mad-max-estrada-dafuria-mad-max.html
6. Nós Somos as Melhores!
Enquanto a maioria dos filmes suecos
trabalham seus temas mais a nível melancólico, Nós Somos as Melhores! encanta justamente por uma abordagem
inocente, brincando com as sensações do espectador ao nos colocar em um mundo
frio e tristonho apenas para nos fazer apaixonar por personagens tão adoráveis
em suas complexidades de pré-adolescentes rebeldes e docemente incoerentes.
7. O Ano Mais Violento
J.C Chandor prova mais uma vez sua
capacidade de contar histórias inesperadas com personagens complexos em um tom
minimalista que confere elegância e frescor à narrativa, além de, nessa obra em
particular, conseguir nos mobilizar num universo multifacetado a partir de
enquadramentos singulares, uso de cores e da própria ambientação como
termômetros emocionais do filme.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/04/critica-oano-mais-violento-most-violent.html
8. 14 Estações de Maria
Uma das coisas mais malignas que se pode
fazer a uma criança é dar-lhe educação religiosa, lhe extirpando a possibilidade
de desenvolver um pensamento cético saudável de curiosidade na sua relação com
o mundo. Adotando esse posicionamento, 14
Estações de Maria faz uso de uma estratégia narrativa incomum e bastante
perturbadora, mas pontual para conseguir passar, visualmente, a percepção de um
mundo rígido em dogmas absurdos que escraviza jovens “mentes”, e todas as
desgraças que essa irracionalidade induzida produz.
9. Vício Inerente
Paul Thomas Anderson sempre ousa
bastante na estrutura de seus (excelentes) filmes, e em Vício Inerente o cineasta é extremamente bem sucedido na empreitada
de criar uma obra que, mais do que qualquer proximidade com a lógica, visa desenvolver
uma experiência de puro caos, através de diálogos nonsense, uma trama incoerente, uma montagem lisérgica e diversos
efeitos de fascinante sutileza para nos colocar no mundo hippie dos EUA nos anos 70.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/03/critica-vicio-inerente-inherentvice.html
10. Ex-Machina
Alex Garland já mandava bem em seus
roteiros, e agora, na direção, se provou capaz de criar uma obra de tensão
constante a partir da relação de três personagens em um lugar isolando,
alcançando a proeza de estabelecer uma atmosfera evocativa através de minuciosa
construção audiovisual (os cenários, as cores, a mise en scéne, metáforas visuais), revelando-se mais ambicioso ao
discorrer, nas entrelinhas, sobre poderosas questões sociais, além de,
deliciosamente, nos puxar o tapete.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-ex-machina-ex-machina-2015.html
11. The Lobster
Obras que transtornam nossas associações
viciadas sempre promovem surpresas fascinantes, e The Lobster é um filme que se empenha em produzir um tom
melancólico e nos chocar com um bom humor admirável, tudo isso em uma narrativa
estruturada com perfeição ao criar um absurdo e coerente universo e funcionar
como alegoria com múltiplos significados.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/12/critica-lobster.html
12. Corrente do Mal
Como os citados Ex-Machina e Sicario, Corrente do Mal fascina por funcionar
mais em seu tom evocativo do que necessariamente pela lógica. Aliás, o filme de
David Robert Mitchell não parece se preocupar com qualquer espécie de coerência
ou cerne temático, mas mais em permitir que o espectador se indague sobre
alguma possível interpretação (enquanto talvez não exista nenhuma), a partir de
uma diversos elementos audiovisuais e decisões narrativas aparentemente
aleatórias, enquanto cria um terror belamente eficaz.
Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-corrente-do-mal-it-follows-2015.html
13. Foxcatcher – Uma História Que
Chocou o Mundo
A partir de uma pavorosa história real,
o cineasta Bennett Miller consegue desenvolver minuciosamente a relação
problemática estabelecida por três pessoas e suas graves consequências,
construídas a partir de pequenos detalhes. Nisso, Miller cria uma atmosfera
melancólica e trabalha ambientações assombrosas para nos guiar emocionalmente a
partir de representações visuais dos conflituosos sentimentos desse trio.
14. Selma
Apesar de extremamente competente nos
quesitos audiovisuais, o que mais chama atenção em Selma é mesmo a forma como a cineasta Ava DuVernay trabalha uma cinebiografia
coesa em um tempo contido (sem grandes lapsos) e com um fascinante termômetro
moral, visando mesmo nos inserir na grandiosa e intrincada questão da luta dos
negros por mais direitos nos EUA a partir de um olhar a nível do humano,
observando “falhas” de caráter e fraquezas mesmo em indivíduos do naipe de
Martin Luther King Jr., o que apenas os engradece em complexidade.
15. Cássia
Traindo o que prometi no início da lista,
o que fascina em Cássia está longe de
seus aspectos cinematográficos, mas é mais na força colossal de sua personagem
título, Cássia Eller, e os relatos emocionados que permitem uma visão ampla ao
mesmo tempo que intimista da cantora, fazendo ainda com que a trágica conclusão
de sua história sirva de espelho para problemas sociais muito presentes nos
nossos dias.
Feliz 2016 procês.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 31/12/2015















