Crítica:
Divertida Mente (Inside Out / 2015 / EUA)
Direção:
Pete Docter
Nesse bizarro processo
que é a criação artística, Pete Docter fazia parte da crise na qual a Pixar entrou
desde que passou a repetir fórmulas ou criar projetos de qualidade duvidosa, e,
procurando uma nova história, olhou para sua própria filha, indagando sobre as
malucas mudanças comportamentais na pequena, e se perguntou sobre o turbilhão
que estaria acontecendo “dentro dela”, e como seria se essas emoções todas
fossem personificadas. Tem-se o alicerce que embasou esse soberbo Divertida Mente, com sua energia
peculiar, seus dramas carregados, seu visual engenhoso e reflexões complexas
entremeadas em sentimentos profundos. É Arte do mais alto nível.
Na animação,
acompanhamos os “processos internos” envolvidos em uma garotinha de 11 anos,
Riley, seus pensamentos, memórias, devaneios, sonhos, tudo no comando das
emoções mais basais: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojo e Medo, aqui
personificados. Quando Riley muda de cidade e começa a ter seus primeiros
embates com um mundo além do abençoado globo protetor em que vivia, todos os
seus “trabalhadores internos” se desorganizam, colocando nas mãos das Emoções a
difícil tarefa de manter o bem-estar da garota quando tudo parece estar
desabando.
Em primeiro lugar, é
interessante como os realizadores transformam as Emoções em figuras
tridimensionais e dinâmicas que podem até viver para cumprir seus papéis, mas não
são reduzidas a meros estereótipos que, ou gritariam o tempo todo, no caso a
Raiva, ou seriam pateticamente neuróticos, como poderia ser o Medo. Aliás, o
longa apresenta grande maturidade ao evitar qualquer estereótipo maniqueísta e
criar uma narrativa sem vilão ou mesmo personagem mais “maligno”, possuindo, ao
contrário, figuras que se encontram em complexas situações e fazem o que está
ao seu alcance para manter a si e aos seus entes queridos bem, ou, no caso dos
habitantes do mundo interno de Riley, para prezar pelo bem-estar da garota.
Nessa linha de se opor a estereótipos, a própria Riley surge com uma garota sem
qualquer caractere sexista ou fragilidade atribuída ao fato de ser menina,
aparecendo, ao invés disso, como uma figura com graus de independência
(surpreendente para seus 11 anos), que ama hóckei e apresenta uma maturidade
que consegue deixar entrever tanto assertividade, quanto espaço para crescer
ainda mais.
Ao invés, então, de uma
história em moldes tão tradicionais, Divertida
Mente ancora visualmente cada processo emocional envolvido na narrativa
através de um design de produção
espetacular que guia o espectador através das ruas e aposentos apertados de uma
cinzenta São Francisco, enquanto o descontentamento crescente de Riley pode ser
retificado a partir de um figurino que abole as roupas coloridas para trocar
por moletons escuros, ao passo em que o design
dos personagens também contribui para desenvolvê-los, como a barba sempre
por fazer do Pai, ou a barriga proeminente da Mãe. Nesse aversivo ambiente
externo, o mundo interno de Riley surge com uma criatividade ímpar que é uma
das principais qualidades da obra, traduzindo complexos conceitos abstratos em elementos
visuais que ainda funcionam de forma extremamente orgânica. As memórias de
longo prazo formam um engenhoso labirinto, enquanto um enorme abismo guarda
tudo aquilo que foi esquecido, tendo entre o topo e o fundo desse abismo a
colossal caverna do subconsciente com todos os medos mais profundos e
irracionais de Riley, num nível de surrealismo que casa com aquele dos
pensamentos abstratos, onde conceitos absurdos ganham formas e dimensões
próprias naquela que é uma das sequências mais hilárias do filme, sem contar o
brilhantismo da fábrica de sonhos, um dos meus elementos favoritos do longa,
por sinal. E esses foram apenas elementos soltos daquele que é um dos universos
mais criativos desenvolvidos em uma animação há anos (ou qualquer filme,
diga-se de passagem).
Mas Divertida Mente ainda prima pelos
diversos comentários sagazes que faz através das lentes da ficção, sendo o
citado labirinto das memórias de longo prazo um claro exemplo, além da semelhança
física entre os fatos e opniões na “mente”, o que inevitavelmente faz com que
sejam sempre misturados, ou mesmo ainda a importância que os realizadores dão
às chamadas memórias base, que vão compondo a personalidade de Riley. O fato do
longa ir além de si mesmo e mostrar o funcionamento dos pais da garota num
daqueles momentos onde não se sabe o que dizer a uma pequena, encanta pela complexidade
que traduz muito do universo daqueles mesmos personagens na diferença visual
entre as “mentes” de cada um, e pelo fato de cada um ter uma Emoção diferente
no comando, revelando um pouco de uma história de vida quando a Tristeza parece
estar no centro da Mãe e a Raiva no centro do Pai, diferentes da Alegria que
parece ser a principal no mundo de Riley. E num esmero caro à Pixar, os realizadores
não se contentam em simplesmente desenvolver o citado visual sombrio de São
Francisco, mas comentam a “desestruturação interna” da menina a partir da
sutileza da perda de cores na sua sala de comando, ou ainda os trabalhadores
braçais da sua “mente” que vão destruindo grandes estruturas dentro da garota.
Assim, percebe-se como
o filme promove um diálogo entre o ambiente externo e interno de Riley, numa
narrativa dialética que depende da regulação de como um influencia o outro,
algo que é bem sucedido em especial pelo fato de que passamos a nos importar
muito com Riley, tanto por ela mesma, quando pelas Emoções que batalham tanto
por ela, e assim, ver a garota sem saber como responder ao seu novo ambiente,
onde cada estímulo pôe a prova suas Emoções, se torna doloroso em especial pelo
gradual processo de apatia que vai tomando conta de Riley, e um futuro escuro de
depressão começa a se descortinar diante daquela garotinha que simplesmente não
está conseguindo se adaptar.
E é aqui que Divertida Mente se torna uma verdadeira
obra prima. A luta pela adaptação que a garota passa, com toda a desregulação
interna que sofre, é um processo de amadurecimento que cada ser humano um dia
vive, que vai permitir que as Emoções comecem a trabalhar em concordância e
revelar a importância de cada uma, já que a Alegria, por si só, não parece mais
dar conta de tudo. Aliás, o fato de a Alegria aparecer como uma personagem
deliciosa em sua empolgação mas um tanto arrogante e mesquinha, como se ela, e
apenas ela, soubesse o que é melhor para Riley, é um lance de maturidade
absurda por parte dos realizadores, que aos poucos desenvolvem melhor a
importância da Tristeza, tão apagada e perdida no início do filme, mas que aos
poucos não consegue se controlar em seus impulsos de se fazer mais vista, o
que, é claro, influencia a própria Riley. A importância da Tristeza é o cerne
temático do filme, cuja mensagem, no fim das contas, diz respeito justamente a
como essa emoção pode ser não apenas funcional, metafórica e narrativamente (é
ela quem melhor sabe sobre o funcionamento da “mente”, porque leu todos os
manuais), mas essencial ao colorir as memórias de Riley com o seu azul habitual,
dando-lhe um aspecto de nostalgia que vai guiar o seu amadurecimento e as relações
que vai travando ao longo da vida.
Divertida
Mente é, então, uma obra que alcança, visual, narrativa e
metaforicamente, uma complexa discussão sobre como amadurecer é saber enxergar
plenamente cada Emoção, e de não apenas relegar à Alegria um papel de dar cor a
uma vida, já que isso pode levar a uma existência insatisfatória ao impedir que
a vida e as interrelações construídas sejam vistas a partir de uma ótica que
melhor adere a um sentimento de perda, luto de si e dos outros, que pode muito
bem ser a melhor via de salvação nos momentos de crise. Na vida adulta, as
memórias (aqui representadas como pequenos globos) perdem a predominância do
amarelo da Alegria, e se tornam multicoloridas com aquelas cores básicas de cada
Emoção, sendo ainda interessante a percepção que Alegria chega de como, mesmo naquelas
memórias mais marcadas por sua presença, existe uma faceta azul. A Tristeza
também merece sua parcela de memórias bases.
No fim, imagina-se como
é curioso que, a partir de um olhar sutil de um pai desorientado pelas pressões
do trabalho e por uma filha que começa a enxergar a puberdade, criou-se uma
obra que não apenas salvou a Pixar do completo oblívio, mas entra no hall dos melhores (se não o melhor)
filmes de 2015, além de servir de reflexão de como as mais extraordinárias
histórias estão nos mais inadivertidos cantos do cotidiano.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
21/06/2015

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