domingo, 21 de junho de 2015


Crítica:

Divertida Mente (Inside Out / 2015 / EUA)

Direção: Pete Docter

Nesse bizarro processo que é a criação artística, Pete Docter fazia parte da crise na qual a Pixar entrou desde que passou a repetir fórmulas ou criar projetos de qualidade duvidosa, e, procurando uma nova história, olhou para sua própria filha, indagando sobre as malucas mudanças comportamentais na pequena, e se perguntou sobre o turbilhão que estaria acontecendo “dentro dela”, e como seria se essas emoções todas fossem personificadas. Tem-se o alicerce que embasou esse soberbo Divertida Mente, com sua energia peculiar, seus dramas carregados, seu visual engenhoso e reflexões complexas entremeadas em sentimentos profundos. É Arte do mais alto nível.

Na animação, acompanhamos os “processos internos” envolvidos em uma garotinha de 11 anos, Riley, seus pensamentos, memórias, devaneios, sonhos, tudo no comando das emoções mais basais: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojo e Medo, aqui personificados. Quando Riley muda de cidade e começa a ter seus primeiros embates com um mundo além do abençoado globo protetor em que vivia, todos os seus “trabalhadores internos” se desorganizam, colocando nas mãos das Emoções a difícil tarefa de manter o bem-estar da garota quando tudo parece estar desabando.

Em primeiro lugar, é interessante como os realizadores transformam as Emoções em figuras tridimensionais e dinâmicas que podem até viver para cumprir seus papéis, mas não são reduzidas a meros estereótipos que, ou gritariam o tempo todo, no caso a Raiva, ou seriam pateticamente neuróticos, como poderia ser o Medo. Aliás, o longa apresenta grande maturidade ao evitar qualquer estereótipo maniqueísta e criar uma narrativa sem vilão ou mesmo personagem mais “maligno”, possuindo, ao contrário, figuras que se encontram em complexas situações e fazem o que está ao seu alcance para manter a si e aos seus entes queridos bem, ou, no caso dos habitantes do mundo interno de Riley, para prezar pelo bem-estar da garota. Nessa linha de se opor a estereótipos, a própria Riley surge com uma garota sem qualquer caractere sexista ou fragilidade atribuída ao fato de ser menina, aparecendo, ao invés disso, como uma figura com graus de independência (surpreendente para seus 11 anos), que ama hóckei e apresenta uma maturidade que consegue deixar entrever tanto assertividade, quanto espaço para crescer ainda mais.

Ao invés, então, de uma história em moldes tão tradicionais, Divertida Mente ancora visualmente cada processo emocional envolvido na narrativa através de um design de produção espetacular que guia o espectador através das ruas e aposentos apertados de uma cinzenta São Francisco, enquanto o descontentamento crescente de Riley pode ser retificado a partir de um figurino que abole as roupas coloridas para trocar por moletons escuros, ao passo em que o design dos personagens também contribui para desenvolvê-los, como a barba sempre por fazer do Pai, ou a barriga proeminente da Mãe. Nesse aversivo ambiente externo, o mundo interno de Riley surge com uma criatividade ímpar que é uma das principais qualidades da obra, traduzindo complexos conceitos abstratos em elementos visuais que ainda funcionam de forma extremamente orgânica. As memórias de longo prazo formam um engenhoso labirinto, enquanto um enorme abismo guarda tudo aquilo que foi esquecido, tendo entre o topo e o fundo desse abismo a colossal caverna do subconsciente com todos os medos mais profundos e irracionais de Riley, num nível de surrealismo que casa com aquele dos pensamentos abstratos, onde conceitos absurdos ganham formas e dimensões próprias naquela que é uma das sequências mais hilárias do filme, sem contar o brilhantismo da fábrica de sonhos, um dos meus elementos favoritos do longa, por sinal. E esses foram apenas elementos soltos daquele que é um dos universos mais criativos desenvolvidos em uma animação há anos (ou qualquer filme, diga-se de passagem).

Mas Divertida Mente ainda prima pelos diversos comentários sagazes que faz através das lentes da ficção, sendo o citado labirinto das memórias de longo prazo um claro exemplo, além da semelhança física entre os fatos e opniões na “mente”, o que inevitavelmente faz com que sejam sempre misturados, ou mesmo ainda a importância que os realizadores dão às chamadas memórias base, que vão compondo a personalidade de Riley. O fato do longa ir além de si mesmo e mostrar o funcionamento dos pais da garota num daqueles momentos onde não se sabe o que dizer a uma pequena, encanta pela complexidade que traduz muito do universo daqueles mesmos personagens na diferença visual entre as “mentes” de cada um, e pelo fato de cada um ter uma Emoção diferente no comando, revelando um pouco de uma história de vida quando a Tristeza parece estar no centro da Mãe e a Raiva no centro do Pai, diferentes da Alegria que parece ser a principal no mundo de Riley. E num esmero caro à Pixar, os realizadores não se contentam em simplesmente desenvolver o citado visual sombrio de São Francisco, mas comentam a “desestruturação interna” da menina a partir da sutileza da perda de cores na sua sala de comando, ou ainda os trabalhadores braçais da sua “mente” que vão destruindo grandes estruturas dentro da garota.

Assim, percebe-se como o filme promove um diálogo entre o ambiente externo e interno de Riley, numa narrativa dialética que depende da regulação de como um influencia o outro, algo que é bem sucedido em especial pelo fato de que passamos a nos importar muito com Riley, tanto por ela mesma, quando pelas Emoções que batalham tanto por ela, e assim, ver a garota sem saber como responder ao seu novo ambiente, onde cada estímulo pôe a prova suas Emoções, se torna doloroso em especial pelo gradual processo de apatia que vai tomando conta de Riley, e um futuro escuro de depressão começa a se descortinar diante daquela garotinha que simplesmente não está conseguindo se adaptar.

E é aqui que Divertida Mente se torna uma verdadeira obra prima. A luta pela adaptação que a garota passa, com toda a desregulação interna que sofre, é um processo de amadurecimento que cada ser humano um dia vive, que vai permitir que as Emoções comecem a trabalhar em concordância e revelar a importância de cada uma, já que a Alegria, por si só, não parece mais dar conta de tudo. Aliás, o fato de a Alegria aparecer como uma personagem deliciosa em sua empolgação mas um tanto arrogante e mesquinha, como se ela, e apenas ela, soubesse o que é melhor para Riley, é um lance de maturidade absurda por parte dos realizadores, que aos poucos desenvolvem melhor a importância da Tristeza, tão apagada e perdida no início do filme, mas que aos poucos não consegue se controlar em seus impulsos de se fazer mais vista, o que, é claro, influencia a própria Riley. A importância da Tristeza é o cerne temático do filme, cuja mensagem, no fim das contas, diz respeito justamente a como essa emoção pode ser não apenas funcional, metafórica e narrativamente (é ela quem melhor sabe sobre o funcionamento da “mente”, porque leu todos os manuais), mas essencial ao colorir as memórias de Riley com o seu azul habitual, dando-lhe um aspecto de nostalgia que vai guiar o seu amadurecimento e as relações que vai travando ao longo da vida.

Divertida Mente é, então, uma obra que alcança, visual, narrativa e metaforicamente, uma complexa discussão sobre como amadurecer é saber enxergar plenamente cada Emoção, e de não apenas relegar à Alegria um papel de dar cor a uma vida, já que isso pode levar a uma existência insatisfatória ao impedir que a vida e as interrelações construídas sejam vistas a partir de uma ótica que melhor adere a um sentimento de perda, luto de si e dos outros, que pode muito bem ser a melhor via de salvação nos momentos de crise. Na vida adulta, as memórias (aqui representadas como pequenos globos) perdem a predominância do amarelo da Alegria, e se tornam multicoloridas com aquelas cores básicas de cada Emoção, sendo ainda interessante a percepção que Alegria chega de como, mesmo naquelas memórias mais marcadas por sua presença, existe uma faceta azul. A Tristeza também merece sua parcela de memórias bases.

No fim, imagina-se como é curioso que, a partir de um olhar sutil de um pai desorientado pelas pressões do trabalho e por uma filha que começa a enxergar a puberdade, criou-se uma obra que não apenas salvou a Pixar do completo oblívio, mas entra no hall dos melhores (se não o melhor) filmes de 2015, além de servir de reflexão de como as mais extraordinárias histórias estão nos mais inadivertidos cantos do cotidiano.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
21/06/2015

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