sábado, 5 de agosto de 2017

Crítica: Baby Driver


Crítica:

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017)

Direção: Edgar Wright

Enquanto assistia Em Ritmo de Fuga, ficava imaginando como uma simples ida à padaria deve ser uma experiência singular no dia a dia de Edgar Wright. Pessoas cruzando seu caminho, cachorros latindo, buzinas, um zippo estalando enquanto acende um cigarro, a baforada do escapamento de um ônibus, e todas as imagens e sons que são estendidas aos seus pés qual um tapete vermelho devem representar instrumentos em uma irresistível orquestra audiovisual, enquanto o cineasta projeta para si mesmo um filme composto com todas essas possibilidades estéticas.

Mas talvez a imagem de um maestro não seja a ideal para pensar em Wright. Imagino que a figura do DJ lhe faça mais jus, e Em Ritmo de Fuga é um belo exemplo do que seria um DJ audiovisual: Wright usa elementos da cultura pop tal qual um músico faria com discos diversos, e cria mixagens e harmonias com o que lhe é possível desse material que recolhe.

E isso é um ponto importante a se focar. Talvez nem mesmo os documentários dirigidos por Chris Marker ou Harun Faroki, que compunham um todo orgânico a partir de imagens de arquivo, se adequem tanto à ideia de alguém que mixa e remixa imagens e sons. Não se trata de uma reconstrução temática a partir da justaposição de imagens, mas de uma construção audiovisual imersiva que se preocupa em englobar todas as sensações possíveis na experiência cinematográfica, usando elementos da cultura pop como samples: a mixagem da música incidental e do som organicamente com eventos diegéticos, narrativos e referências culturais. É como se ele fizesse uma composição harmônica a partir de pontos já bem explorados pelo Cinema e pela cultura pop de forma geral ao colocar todos esses elementos para funcionar em sintonia.

Nesse sentido, mesmo a desgastada trama hollywoodiana é parte importante do processo, pois entra como elemento pop de onde o diretor tira os ingredientes para seu remix. O cineasta não tenta esconder o clichê de sua narrativa, mas parece buscar provar que, como o crítico Roger Ebert uma vez disse, o que importa é menos sobre o que o filme é, mas mais como ele é sobre aquilo que é. Ou seja, Wright nos mostra que, nas mãos certas, mesmo o desgastado ganha uma sonoridade nova, um gingado moderno.

O fato de Baby (Ansel Egort), o protagonista, ter o hábito de gravar diálogos que escuta em seu dia a dia e remixá-los soa como uma piscadela esperta do próprio diretor. De certa forma, é o que ele está fazendo e o que fez sempre, de modos idiossincráticos, em todos os seus trabalhos. E o fascinante é que cada um de seus filmes funciona em um ritmo próprio a partir de seu tema, englobando-o sensorialmente.­ No caso, o tema de Em Ritmo de Fuga é a dança entre imagem e som, a música estabelecendo a cadência do corte. Até mesmo a figura de Baby é capaz de ecoar uma existência que se pauta em ritmos e batidas, algo que Wright busca ressaltar a partir de um design de som que nos posiciona na perspectiva do protagonista, mesmo a ponto de, quando ele está sem seus fones de ouvido, ouvirmos o constante zumbido que lhe incomoda, sendo esse um detalhe sonoro que ganha mais ou menos evidência dependendo do nível de tensão que o cineasta deseja, em uma impecável lógica narrativa.

Ao desenvolver o personagem com base na música e na sonoplastia, Wright cria em Baby uma presença que desafia o cansaço nos olhos (e ouvidos) de um cinéfilo. Pode ser que seu arco dramático seja por demais desgastado, com a única diferença de ter a babyface de Egort e não o rosto empedrado de Ryan Gosling em Drive. E Wright afirma o clichê, explorando-o no que tem de possibilidades audiovisuais, driblando nosso ceticismo. Assim, quanto mais nos tornamos íntimos do personagem, percebemos que isso não ocorre apenas pelo carisma do ator e muito menos por diálogos expositivos que o desvendam, mas sim por motivos estéticos que acompanham seu movimento, tornando a experiência mais próxima das sensações do que de uma descrição racional, chegando ao ponto de nossos olhos marejarem facilmente quando ele consegue escutar uma música pela vibração de uma caixa de som.

Pode-se dizer que Wright remixa até mesmo a imagem de Herói do herói. Isso é ainda mais saliente quando vemos que Baby não é apenas a reprodução exata de inúmeros protagonistas hollywoodianos, mas uma brincadeira literal com eles. Durante todo o filme, o personagem de Egort caminha repetindo falas que escutou em algum lugar (na conversa de um casal, em um trecho de Monstros S.A., etc) em contextos diferentes, quase como se fosse samples do que escuta no dia a dia, assim como seus interesses são sempre circulares, desde o fascínio quase trágico por carros e iPods, indo até o extremo da similaridade física entre Debora (Lily James), a garota por quem se apaixona, e sua mãe. A forma como trabalha o personagem, como o compõe e enriquece, é reverberação da própria temática que Wright aborda em seu trabalho, uma discotecagem que vai da forma ao conteúdo do filme.

É fascinante, aliás, que o drama amoroso entre Baby e Debora, algo que, a rigor, pragmaticamente, nada mais é do que um recurso para criar urgência no terceiro ato, ainda assim funcione brilhantemente, e em especial pela cena específica na lavanderia, em um perfeito exemplo da sensibilidade estética sempre presente nos filmes de Wright. Na cena, os dois dividem os fones de ouvido, e a câmera os acompanha em movimentos que, despretensiosamente, soam como uma dança, e quando os dois param aqui e ali, olhando um para o outro, Wright tem a sapiência de cortar para planos cada vez mais fechados em seus rostos, criando uma intimidade e um ritmo próprio da relação, nos aproximando da cadência com que cada um vai crescendo aos olhos do outro, e do espectador. É uma sequência digna de doces suspiros.

Em Ritmo de Fuga é, em todos os sentidos, puro gingado. Se em Scott Pilgrim Contra o Mundo o diretor criou um marco geracional ao trabalhar uma relação estética simbiótica entre Cinema, videogames e HQs, agora seu propósito explícito é a harmonia absoluta de tudo o que ocorre na tela, e mostrar que sabe muito bem o que está fazendo. A velocidade dos cortes desafia o próprio Michael Bay em sua megalomania e freneticidade, mas aqui é feito com um apuro cujo fim é o deleite em imagem e som, a coordenação absoluta de todos os elementos cinematográficos presentes em cena. Até mesmo a batida das músicas podem acompanhar ritmicamente batidas de carros ou tiros de balas, nessa discotecagem audiovisual coordenada pelo cineasta. Em tudo isso, como não poderia deixar de ser, o cineasta usa a montagem para abusar de centenas de piadas visuais e nuances de lirismo, como no plano sequência inicial, onde Debora aparece caminhando sob um grafitti de nuvens azuis encabeçadas por um coração escarlate.

Estamos diante de uma experiência que entende que fazer Cinema não é apenas contar histórias, mas compô-las em sons e imagens. Wright cria enquadramentos portentosos como quando Baby e Debora conversam ao telefone, em planos banhados em sombras e cores sombrias, conseguindo expressar a proximidade e a distância entre os dois naquele momento, numa contradição emocional que não é tão facilmente descrita por palavras como o é por imagens. Ao mesmo tempo, é fascinante que, se pararmos para pensar, o vilão do filme tenha uma “vilania forçada”, mas que funciona tão bem justamente porque Wright construiu suas motivações singelamente ao longo de toda a narrativa em todas as cenas em que ele aparece. Assim, forçado ou não, isso não importa. O clímax banhado em vermelho e solo de Queen interessa mais, tendo sido previsto em momentos anteriores quase em tons apocalípticos.

Cineasta pós-moderno por excelência, que faz no Cinema o que um Thomas Pynchon ou um David Foster Wallace fazem na Literatura, Edgar Wright cria sensações se apropriando do bombardeamento de informações que vivemos no nosso dia a dia. Por isso mesmo, seus filmes não se desgastam, são atuais e viscerais mesmo depois de vistos e revistos.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 28/07/2017