Crítica:
Em
Ritmo de Fuga
(Baby Driver, 2017)
Direção: Edgar Wright
Enquanto
assistia Em Ritmo de Fuga, ficava
imaginando como uma simples ida à padaria deve ser uma experiência singular no
dia a dia de Edgar Wright. Pessoas cruzando seu caminho, cachorros latindo, buzinas,
um zippo estalando enquanto acende um
cigarro, a baforada do escapamento de um ônibus, e todas as imagens e sons que
são estendidas aos seus pés qual um tapete vermelho devem representar
instrumentos em uma irresistível orquestra audiovisual, enquanto o cineasta projeta
para si mesmo um filme composto com todas essas possibilidades estéticas.
Mas
talvez a imagem de um maestro não seja a ideal para pensar em Wright. Imagino
que a figura do DJ lhe faça mais jus, e Em
Ritmo de Fuga é um belo exemplo
do que seria um DJ audiovisual: Wright usa elementos da cultura pop tal qual um músico faria com discos
diversos, e cria mixagens e harmonias com o que lhe é possível desse material
que recolhe.
E
isso é um ponto importante a se focar. Talvez nem mesmo os documentários
dirigidos por Chris Marker ou Harun Faroki, que compunham um todo orgânico a
partir de imagens de arquivo, se adequem tanto à ideia de alguém que mixa e
remixa imagens e sons. Não se trata de uma reconstrução temática a partir da
justaposição de imagens, mas de uma construção audiovisual imersiva que se
preocupa em englobar todas as sensações possíveis na experiência
cinematográfica, usando elementos da cultura pop como samples: a
mixagem da música incidental e do som organicamente com eventos diegéticos,
narrativos e referências culturais. É como se ele fizesse uma composição
harmônica a partir de pontos já bem explorados pelo Cinema e pela cultura pop de forma geral ao colocar todos
esses elementos para funcionar em sintonia.
Nesse
sentido, mesmo a desgastada trama hollywoodiana é parte importante do processo,
pois entra como elemento pop de onde
o diretor tira os ingredientes para seu remix.
O cineasta não tenta esconder o clichê de sua narrativa, mas parece buscar
provar que, como o crítico Roger Ebert uma vez disse, o que importa é menos
sobre o que o filme é, mas mais como
ele é sobre aquilo que é. Ou seja, Wright nos mostra que, nas mãos certas,
mesmo o desgastado ganha uma sonoridade nova, um gingado moderno.
O
fato de Baby (Ansel Egort), o protagonista, ter o hábito de gravar diálogos que
escuta em seu dia a dia e remixá-los soa como uma piscadela esperta do próprio
diretor. De certa forma, é o que ele está fazendo e o que fez sempre, de modos idiossincráticos,
em todos os seus trabalhos. E o fascinante é que cada um de seus filmes
funciona em um ritmo próprio a partir de seu tema, englobando-o sensorialmente.
No caso, o tema de Em Ritmo de Fuga é
a dança entre imagem e som, a música estabelecendo a cadência do corte. Até
mesmo a figura de Baby é capaz de ecoar uma existência que se pauta em ritmos e
batidas, algo que Wright busca ressaltar a partir de um design de som que nos posiciona na perspectiva do protagonista,
mesmo a ponto de, quando ele está sem seus fones de ouvido, ouvirmos o
constante zumbido que lhe incomoda, sendo esse um detalhe sonoro que ganha mais
ou menos evidência dependendo do nível de tensão que o cineasta deseja, em uma
impecável lógica narrativa.
Ao
desenvolver o personagem com base na música e na sonoplastia, Wright cria em
Baby uma presença que desafia o cansaço nos olhos (e ouvidos) de um cinéfilo.
Pode ser que seu arco dramático seja por demais desgastado, com a única
diferença de ter a babyface de Egort
e não o rosto empedrado de Ryan Gosling em Drive.
E Wright afirma o clichê, explorando-o no que tem de possibilidades
audiovisuais, driblando nosso ceticismo. Assim, quanto mais nos tornamos
íntimos do personagem, percebemos que isso não ocorre apenas pelo carisma do
ator e muito menos por diálogos expositivos que o desvendam, mas sim por
motivos estéticos que acompanham seu movimento, tornando a experiência mais
próxima das sensações do que de uma descrição racional, chegando ao ponto de nossos
olhos marejarem facilmente quando ele consegue escutar uma música pela vibração
de uma caixa de som.
Pode-se
dizer que Wright remixa até mesmo a imagem de Herói do herói. Isso é ainda mais
saliente quando vemos que Baby não é apenas a reprodução exata de inúmeros
protagonistas hollywoodianos, mas uma brincadeira literal com eles. Durante todo
o filme, o personagem de Egort caminha repetindo falas que escutou em algum
lugar (na conversa de um casal, em um trecho de Monstros S.A., etc) em contextos diferentes, quase como se fosse samples do que escuta no dia a dia,
assim como seus interesses são sempre circulares, desde o fascínio quase
trágico por carros e iPods, indo até o extremo da similaridade física entre
Debora (Lily James), a garota por quem se apaixona, e sua mãe. A forma como
trabalha o personagem, como o compõe e enriquece, é reverberação da própria
temática que Wright aborda em seu trabalho, uma discotecagem que vai da forma
ao conteúdo do filme.
É
fascinante, aliás, que o drama amoroso entre Baby e Debora, algo que, a rigor,
pragmaticamente, nada mais é do que um recurso para criar urgência no terceiro
ato, ainda assim funcione brilhantemente, e em especial pela cena específica na
lavanderia, em um perfeito exemplo da sensibilidade estética sempre presente
nos filmes de Wright. Na cena, os dois dividem os fones de ouvido, e a câmera
os acompanha em movimentos que, despretensiosamente, soam como uma dança, e
quando os dois param aqui e ali, olhando um para o outro, Wright tem a
sapiência de cortar para planos cada vez mais fechados em seus rostos, criando
uma intimidade e um ritmo próprio da relação, nos aproximando da cadência com
que cada um vai crescendo aos olhos do outro, e do espectador. É uma sequência
digna de doces suspiros.
Em Ritmo de Fuga é,
em todos os sentidos, puro gingado. Se em Scott
Pilgrim Contra o Mundo o diretor criou um marco geracional ao trabalhar uma
relação estética simbiótica entre Cinema, videogames e HQs, agora seu propósito
explícito é a harmonia absoluta de tudo o que ocorre na tela, e mostrar que
sabe muito bem o que está fazendo. A velocidade dos cortes desafia o próprio
Michael Bay em sua megalomania e freneticidade, mas aqui é feito com um apuro
cujo fim é o deleite em imagem e som, a coordenação absoluta de todos os
elementos cinematográficos presentes em cena. Até mesmo a batida das músicas
podem acompanhar ritmicamente batidas de carros ou tiros de balas, nessa
discotecagem audiovisual coordenada pelo cineasta. Em tudo isso, como não
poderia deixar de ser, o cineasta usa a montagem para abusar de centenas de
piadas visuais e nuances de lirismo, como no plano sequência inicial, onde
Debora aparece caminhando sob um grafitti de nuvens azuis encabeçadas por um
coração escarlate.
Estamos
diante de uma experiência que entende que fazer Cinema não é apenas contar
histórias, mas compô-las em sons e imagens. Wright cria enquadramentos
portentosos como quando Baby e Debora conversam ao telefone, em planos banhados
em sombras e cores sombrias, conseguindo expressar a proximidade e a distância
entre os dois naquele momento, numa contradição emocional que não é tão
facilmente descrita por palavras como o é por imagens. Ao mesmo tempo, é
fascinante que, se pararmos para pensar, o vilão do filme tenha uma “vilania
forçada”, mas que funciona tão bem justamente porque Wright construiu suas
motivações singelamente ao longo de toda a narrativa em todas as cenas em que
ele aparece. Assim, forçado ou não, isso não importa. O clímax banhado em
vermelho e solo de Queen interessa mais, tendo sido previsto em momentos
anteriores quase em tons apocalípticos.
Cineasta
pós-moderno por excelência, que faz no Cinema o que um Thomas Pynchon ou um
David Foster Wallace fazem na Literatura, Edgar Wright cria sensações se
apropriando do bombardeamento de informações que vivemos no nosso dia a dia.
Por isso mesmo, seus filmes não se desgastam, são atuais e viscerais mesmo
depois de vistos e revistos.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 28/07/2017
