domingo, 24 de maio de 2015

Uma Última Dose de Uísque


Uma Última Dose de Uísque

Então  é isso...

Pensou ela ao se sentar na sala de estar, copo de uísque no móvel do lado da poltrona. Revólver na mão.

Sempre se vangloriou de uma capacidade de ir em frente com qualquer coisa, desde que a fizesse por impulso. O Acaso então tomaria as rédeas da narrativa. Fosse mandar uma mensagem difícil ou tomar uma decisão que mudaria sua vida, era sempre um exercício divertido, esse de deixar o Acaso narrar, fazer uma coisa difícil sem pensar, e ver como se desenrola a história.

Foi pensando nisso, nessa sua capacidade, que comprou o revólver. Pensaria que, como qualquer outra coisa, poderia pressionar o cano contra a testa e puxar o gatilho, sem se dar tempo pra raciocínio. Simplesmente fazer. Poderia fazer, mas já sente as garras da fuga a lhe puxar os ombros. Não teria narrativa depois pro Acaso criar, ao menos não uma com ela enquanto personagem. Começa a montar um conto com essas reflexões, algo que alguns poderiam chamar de sublimação, mas que na verdade era fuga cuspida e escarrada. Nada de palavras rebuscadas. Não para ela.

A dificuldade não estava no que viria depois de puxar o gatilho. Se fosse uma preocupação com a dor, ela já sabia o ponto exato em que se atirar para acabar de vez com qualquer resquício de consciência, em um micro segundo. E não existia preocupação com o pós-vida. A existência de qualquer plano superior sempre lhe pareceu forçada, um grito de desespero contra a futilidade da existência. Mais um analgésico ao qual ela não se dava ao luxo.

Ela tinha tido papel na condução do trem que descarrilhou. Péssima metáfora, aliás. O modo como as coisas deram errado não se parece com um trem que descarrilha, não com algo súbito assim, mas com algo que aos poucos vai perdendo a vitalidade, a força, a vontade de mudar. Ou talvez ela nunca tenha tido tal força. E não é também que toda a culpa seja sua. Na real, não é de ninguém. Não existem vilões nem mocinhos, culpados ou inocentes. Existem apenas pessoas vivendo suas vidas, fazendo o melhor que podem para que as coisas façam um mínimo de sentido, para que abrir os olhos pela manhã valha a pena, nem que seja um pouco. Não poderia então culpar algum ser humano específico, mas sim as colisões que teve com esses seres humanos. Logo ela, que acreditava ser uma amante das “colisões da vida”, esses eventos sangrentos e fascinantes que no fim das contas criavam histórias belíssimas, trágicas, maravilhosas. Aqui ela se admite derrotada, alguém que não conseguiu sobreviver a colisões. Talvez não tivesse estrutura para tal, e de fato o histórico de sua vida não foi um que lhe ensinou a dar e receber carinho, e nem a dar e receber a desgraça. Ela não aprendeu como os outros, mas tentou alcançá-los com o bonde já a correr longe.

Cansa. Cansa muito ter que correr para aprender coisas que ninguém ensina, coisas que se aprendem vivendo, interagindo. Mas ela interagiu com pessoas que já sabiam dessas coisas, mesmo que soubessem muito pouco sobre si mesmas. Elas precisaram dela, precisavam que ela fizesse sua parte, que ela gritasse para elas suas falas, que ela lhes desse a deixa para continuarem atuando nesse teatro de interações. Mas ela mesma não sabia as falas, não sabia direito nem o seu papel. Anos de observação e uma pseudo-análise crítica da vida lhe serviram de muito pouco. Mais do que fazer dela uma exímia conhecedora teórica da vida humana, das interações, essa observação virou uma máscara, algo a ser exibido, escondendo por trás um rosto perplexo ao pelo menos se ver parte de uma interação. A perplexidade pode ter lhe cegado também. Mais uma hipótese.

E é tudo o que ela tem: hipóteses. Hipóteses sobre o que poderia ter sido e, mais importante, sobre o que foi. Nem ela sabe o que foi. Mas, sendo todos atores, como já dito, e sendo que a grande função do ator, já diziam os grandes, não era agir, mas reagir, ela não soube reagir. Não soube fazer sua parte. Não sabia, não conseguia. Sua vida lhe passou pelos olhos como um filme, mas não era esse filme o irreal. Ela era o irreal. O real era sempre o que estava através da tela cinzenta de seus olhos, não o que havia por trás. O real era sempre inalcançável, remoto, e, como já dizia Melville, o ser humano sempre amou o remoto. Apesar das controvérsias consigo mesma, e apesar de não senti-lo, ela também era humano. E talvez tenha sido esse amor ao remoto que lhe conduziu até aqui, com esse revólver na mão.

Talvez amar o remoto tenha feito com que a vida fosse assim mesmo: remota. Engraçado que ela tenha se construído em interações profundas e complexas, mas interações que aconteceram predominantemente dentro de si, no Imaginário, onde os atores do mundo real atuavam em um nível mais profundo de ficção, um em que nada acontecia, ou poderia acontecer. Os embates violentos desses atores entoavam canções homéricas que nunca, jamais, seriam escutadas por ninguém, talvez nem mesmo por ela, que na constante perplexidade de estar diante de um embate, não soube como reagir.

Ela achou, por muito tempo, que realmente fazia parte dos embates. Descobriu bem depois que não, que esteve sozinha o tempo todo. Se houve interação, se houve embate, só se deram num nível subliminar, invisível aos olhos, inaudível aos ouvidos, insensível ao toque, mas turbulento o suficiente para parecem reais. Eram ficções, mentiras, tramas confusamente construídas a partir de uma teia de desejos, insatisfações, sonhos e medos profundos, medos que ficavam guardados dentro de portas de vidro fosco nos seus corredores internos.

A ficção era sua via de comunicação com o real, mas tinha o preço de transformar tudo em ficções também. Ela construiu uma armadilha para si, sem nem mesmo saber. Construiu enquanto fugia, e foi confortável durante um bom tempo, enquanto ela se mantinha segura dentro das amarras protetoras da solidão. Mas quando o real bateu na porta, e ela quis reagir, percebeu-se então prisioneira de si mesma, e as coisas só lhe chegavam filtradas pela ficção. Não enxergava o real, e vivia presa com a mentira de si mesma, incapaz de tocar o mundo e ser tocada por ele.

Não foi capaz de continuar. Nenhum homem é uma ilha, como afirmou John Donne, e mesmo que tenha durante anos se construído para ser uma ilha, não era mais capaz de sustentar essa auto-ilusão.

Agora sim. Toma mais uma dose de uísque, pressiona o cano do revólver contra a testa. Está frio, mas ela não se importa, porque talvez essa seja a única coisa verdadeira que tenha feito na vida.


Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 24 de maio de 2015

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