Uma Última Dose de Uísque
Pensou ela ao se sentar
na sala de estar, copo de uísque no móvel do lado da poltrona. Revólver na mão.
Sempre se vangloriou de
uma capacidade de ir em frente com qualquer coisa, desde que a fizesse por
impulso. O Acaso então tomaria as rédeas da narrativa. Fosse mandar uma
mensagem difícil ou tomar uma decisão que mudaria sua vida, era sempre um
exercício divertido, esse de deixar o Acaso narrar, fazer uma coisa difícil sem
pensar, e ver como se desenrola a história.
Foi pensando nisso,
nessa sua capacidade, que comprou o revólver. Pensaria que, como qualquer outra
coisa, poderia pressionar o cano contra a testa e puxar o gatilho, sem se dar
tempo pra raciocínio. Simplesmente fazer. Poderia fazer, mas já sente as garras
da fuga a lhe puxar os ombros. Não teria narrativa depois pro Acaso criar, ao
menos não uma com ela enquanto personagem. Começa a montar um conto com essas
reflexões, algo que alguns poderiam chamar de sublimação, mas que na verdade
era fuga cuspida e escarrada. Nada de palavras rebuscadas. Não para ela.
A dificuldade não
estava no que viria depois de puxar o gatilho. Se fosse uma preocupação com a
dor, ela já sabia o ponto exato em que se atirar para acabar de vez com
qualquer resquício de consciência, em um micro segundo. E não existia
preocupação com o pós-vida. A existência de qualquer plano superior sempre lhe
pareceu forçada, um grito de desespero contra a futilidade da existência. Mais
um analgésico ao qual ela não se dava ao luxo.
Ela tinha tido papel na
condução do trem que descarrilhou. Péssima metáfora, aliás. O modo como as
coisas deram errado não se parece com um trem que descarrilha, não com algo
súbito assim, mas com algo que aos poucos vai perdendo a vitalidade, a força, a
vontade de mudar. Ou talvez ela nunca tenha tido tal força. E não é também que
toda a culpa seja sua. Na real, não é de ninguém. Não existem vilões nem
mocinhos, culpados ou inocentes. Existem apenas pessoas vivendo suas vidas,
fazendo o melhor que podem para que as coisas façam um mínimo de sentido, para
que abrir os olhos pela manhã valha a pena, nem que seja um pouco. Não poderia
então culpar algum ser humano específico, mas sim as colisões que teve com
esses seres humanos. Logo ela, que acreditava ser uma amante das “colisões da
vida”, esses eventos sangrentos e fascinantes que no fim das contas criavam
histórias belíssimas, trágicas, maravilhosas. Aqui ela se admite derrotada,
alguém que não conseguiu sobreviver a colisões. Talvez não tivesse estrutura
para tal, e de fato o histórico de sua vida não foi um que lhe ensinou a dar e
receber carinho, e nem a dar e receber a desgraça. Ela não aprendeu como os
outros, mas tentou alcançá-los com o bonde já a correr longe.
Cansa. Cansa muito ter
que correr para aprender coisas que ninguém ensina, coisas que se aprendem
vivendo, interagindo. Mas ela interagiu com pessoas que já sabiam dessas coisas,
mesmo que soubessem muito pouco sobre si mesmas. Elas precisaram dela,
precisavam que ela fizesse sua parte, que ela gritasse para elas suas falas,
que ela lhes desse a deixa para continuarem atuando nesse teatro de interações.
Mas ela mesma não sabia as falas, não sabia direito nem o seu papel. Anos de
observação e uma pseudo-análise crítica da vida lhe serviram de muito pouco.
Mais do que fazer dela uma exímia conhecedora teórica da vida humana, das
interações, essa observação virou uma máscara, algo a ser exibido, escondendo por
trás um rosto perplexo ao pelo menos se ver parte de uma interação. A
perplexidade pode ter lhe cegado também. Mais uma hipótese.
E é tudo o que ela tem:
hipóteses. Hipóteses sobre o que poderia ter sido e, mais importante, sobre o
que foi. Nem ela sabe o que foi. Mas, sendo todos atores, como já dito, e sendo
que a grande função do ator, já diziam os grandes, não era agir, mas reagir,
ela não soube reagir. Não soube fazer sua parte. Não sabia, não conseguia. Sua
vida lhe passou pelos olhos como um filme, mas não era esse filme o irreal. Ela
era o irreal. O real era sempre o que estava através da tela cinzenta de seus
olhos, não o que havia por trás. O real era sempre inalcançável, remoto, e,
como já dizia Melville, o ser humano sempre amou o remoto. Apesar das
controvérsias consigo mesma, e apesar de não senti-lo, ela também era humano. E
talvez tenha sido esse amor ao remoto que lhe conduziu até aqui, com esse
revólver na mão.
Talvez amar o remoto
tenha feito com que a vida fosse assim mesmo: remota. Engraçado que ela tenha
se construído em interações profundas e complexas, mas interações que
aconteceram predominantemente dentro de si, no Imaginário, onde os atores do
mundo real atuavam em um nível mais profundo de ficção, um em que nada
acontecia, ou poderia acontecer. Os embates violentos desses atores entoavam
canções homéricas que nunca, jamais, seriam escutadas por ninguém, talvez nem
mesmo por ela, que na constante perplexidade de estar diante de um embate, não
soube como reagir.
Ela achou, por muito
tempo, que realmente fazia parte dos embates. Descobriu bem depois que não, que
esteve sozinha o tempo todo. Se houve interação, se houve embate, só se deram
num nível subliminar, invisível aos olhos, inaudível aos ouvidos, insensível ao
toque, mas turbulento o suficiente para parecem reais. Eram ficções, mentiras,
tramas confusamente construídas a partir de uma teia de desejos, insatisfações,
sonhos e medos profundos, medos que ficavam guardados dentro de portas de vidro
fosco nos seus corredores internos.
A ficção era sua via de
comunicação com o real, mas tinha o preço de transformar tudo em ficções
também. Ela construiu uma armadilha para si, sem nem mesmo saber. Construiu enquanto
fugia, e foi confortável durante um bom tempo, enquanto ela se mantinha segura dentro das amarras protetoras da solidão. Mas quando o real bateu na porta, e
ela quis reagir, percebeu-se então prisioneira de si mesma, e as coisas só lhe
chegavam filtradas pela ficção. Não enxergava o real, e vivia presa com a
mentira de si mesma, incapaz de tocar o mundo e ser tocada por ele.
Não foi capaz de
continuar. Nenhum homem é uma ilha, como afirmou John Donne, e mesmo que tenha
durante anos se construído para ser uma ilha, não era mais capaz de sustentar
essa auto-ilusão.
Agora sim. Toma mais
uma dose de uísque, pressiona o cano do revólver contra a testa. Está frio, mas
ela não se importa, porque talvez essa seja a única coisa verdadeira que tenha
feito na vida.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia,
24 de maio de 2015

