domingo, 11 de setembro de 2016

Crítica: Café Society


Crítica:

Café Society (Idem / 2016 / EUA)

Dir. Woody Allen

É fácil cansar de Woody Allen. O mesmo jazz bebop na trilha sonora, os atores dizendo suas falas na mesma entonação característica, os enquadramentos que buscam apenas acompanhar o movimento dos personagens, as piadas intelectualizadas... mesmo os temas se repetem, e não é raro que o realizador os trate com alguma preguiça em inovar. Por isso mesmo também é fácil esquecer que o mesmo Woody Allen é capaz de se aprofundar em histórias que a princípio pareçam enfadonhas, mas que tenham muito a dizer sobre os movimentos humanos, sua aleatoriedade e contradição.

Café Society é uma dessas obras que vem para nos lembrar disso, ao contar a história de Bob (Jesse Eisenberg) e o complicado triângulo amoroso que se forma entre ele, seu tio Phil Stern (Steve Carell) e a apaixonante Vonnie (Kristen Stewart). O mais gostoso é que se trata de um filme que conquista aos poucos: flerta com o clichê, com o romântico banal e já tão explorado por Allen, gradualmente destorcendo nossos narizes céticos quanto às doçuras da paixão.

É no desfile de personagens complexos que o realizador consegue ser tão interessante. A contradição é o que move essas figuras, que hora são apresentadas de uma forma apenas para que ajam diferentemente em outro contexto. Isso confere uma humanidade invejável a cada um deles, e vamos sacando quem eles são de uma forma mais profunda, porque parecem menos personagens e mais pessoas comuns se relacionando. O elenco invejável contribui lindamente para o processo, e de uma Blake Lively a um Steve Carell, Jesse Eisenberg a Kristen Stewart, cada um confere um brilho peculiar a seus personagens, suas intimidades, apresentando um conforto admirável ao compor suas personalidades. Os movimentos românticos assim fluem com naturalidade, e não entender o que se passa na cabeça dos personagens apaixonados faz parte do processo de suspirar com o filme: amor é assim mesmo.

Parece que a própria câmera compreende isso, tendo aqui um Woody Allen mais lírico e ambicioso do que costuma ser em termos de estética. Ainda que continuando com os mesmos enquadramentos e movimentos de câmera que mais servem de palco para os diálogos do que como parte efetiva da história, a fotografia de Vittorio Storato adentra nos pormenores das interações, dizendo bastante com closes no rosto dos personagens, travellings que terminam em enquadramentos que acompanham o fluxo dos diálogos, ou detalhes na iluminação que revelam intimidades. Em um exemplo dessa última afirmação, dois momentos da produção apresentam o rosto de Kristen Stewart escurecendo ou brilhando ao virar levemente sobre seu pescoço, numa tentativa da personagem de esconder uma emoção que avulta aos olhos do espectador, através da fotografia.
           
Há algo a ser dito a partir dos rumos que a história toma, as ironias e as reviravoltas que se desenham. O Tempo, implacável em sua sucessão de contingências que se reorganizam e nos obrigam a readaptação, a tudo muda. As pessoas por quem nos apaixonamos não são as mesmas, se renovam, e pode ser que entrem em contradição com tudo aquilo que nos fez olhar para elas em primeiro lugar. Mas cada pessoa é um ambiente para que nos comportemos diferentemente, e uma das magias de reencontrar uma paixão é justamente o fato de que, independentemente do quanto mudamos, voltemos a nos comportar da exata forma como antes na presença desse alguém, assim como a antiga paixão, ao estar sozinha conosco, volta a ser aquela/e que era antes. As pessoas também são lugares, são condições às quais nos adaptamos.

Os rumos de Café Society versam sobre encontros, desencontros, partidas e chegadas. Adeuses que jamais se dizem e sentimentos que se renovam, justamente porque as condições mudaram. Woody Allen, quando deixa de focar na enfadonha subtrama mafiosa do filme, cria uma obra que respeita a confusão dos sentimentos, que respeita a própria contradição enquanto essência humana.

Pode ser diferente. Na verdade, pode ser que nós mesmos enquanto ambiente nos desgastemos, deixando de despertar qualquer sentimento na outra pessoa, e vice-versa. Pode ser que não. O caso é que o recorte de Allen em Café Society é doce o suficiente para amaciar nosso cinismo, entregando-nos um sublime travelling final, o próprio encontro/desencontro sentimental em imagem.

Lucas Wagner Nunes

Goiânia, 11/09/2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Crítica: Aquarius


Crítica:

Aquarius (Idem / 2016 / Brasil)

Dir. Kleber Mendonça Filho

No aniversário de Lúcia, uma socialite de 70 anos, dois de seus sobrinhos-netos leem textos que narram a admirável trajetória da tia-avó, em frente aos emocionados parentes, aglomerados no apartamento do edifício Aquarius, na orla de Boa Viagem, Recife. O olhar de Lúcia parece perdido. Há algo de melancólico em seu semblante. Ela mira uma cômoda, que não parece guardar nada de especial, até que vemos flashes de tórridas cenas de sexo sobre o tal móvel. Um sorriso se desenha em seu rosto.

Essa cena, nos minutos iniciais de Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho, delineia a passarela por onde o longa andará: na linha de sombra entre o passado e o presente, o próprio ambiente físico enquanto extensão simbólica de nosso organismo biológico. É uma terna observação das relações intra e interpessoais, sem pudor, sem frescura, tendo o afeto como denominador comum. É um olhar crítico sobre o Brasil e o diálogo com sua própria História. Um filme sobre Clara (Sônia Braga), uma crítica musical aposentada de quem uma imobiliária tenta tirar o apartamento no edifício Aquarius, no qual ela é a última residente, para construir algum insosso exemplar de arquitetura moderna.

A câmera de Mendonça Filho e sua equipe desliza com calma sobre o citado apartamento, com atenção singular a cada objeto, pois reconhece que neles existem histórias, conglomerados de sentimentos e acidentadas trajetórias. Clara sente isso, tanto é que, sem apresentar comportamento pedante de rechaçar novas tecnologias, insiste em manter um grande acervo de mídia física em casa, LPs e livros. São como “mensagens na garrafa”, diz ela. E é nesse mesmo apartamento que o fantasma de uma empregada negra passeia entre residentes e visitantes: sua memória e o que ela significa para a identidade do Brasil se mantém viva nos dias de hoje. São diálogos entre o presente e o passado, algo que o roteiro de Mendonça Filho explora a partir de discursos imagéticos que dizem muito sem nenhuma fala, como no momento em que alguém tira foto de uma velha fotografia, e tenta clareá-la com um aplicativo de smart-phone.

É a integração cotidiana que imprime história a esse ambiente físico, que lhe garante uma digital particular. Compreendendo isso, os realizadores passeiam com a câmera por uma série de encontros sociais envolvendo laços afetivos, diálogos sem nenhuma teleologia a não ser demarcar as relações entre aquelas pessoas. É aqui também que Aquarius se torna um filme rebelde que não deveria soar rebelde. E é justamente na compreensão disso que está a sabedoria dos realizadores.

 Resgatando a citada lembrança sexual de Lúcia, há, na primorosa chupada que sua versão jovem recebe, tanto afeto, tanto bloco construtor de identidade e memória, quanto os fofos textos escritos por seus sobrinhos-netos. Há sincera tranquilidade entre os personagens do filme ao falar sobre sexo, homossexualidade, sobre seus próprios corpos, sobre desejo, tesão. São sentimentos naturais, mais naturais do que qualquer falso moralismo que pregue o amor casto necessariamente heterossexual, e o momento em que Clara vê o sobrinho e a namorada se esfregando em um aconchegante sexo matinal, tem em seu terno sorriso mais humanidade do que se ela se horrorizasse qual uma retrógrada senhora conservadora faria. Entre diversos outros aspectos, Aquarius é um filme político ao falar sobre o corpo, ao falar sobre o físico.

E Aquarius é um filme intimista ao falar sobre Clara. Abarcando a protagonista em todas as contradições que a fazem humana, o roteiro e a poderosa composição de Sônia Braga desenham Clara como uma figura visceral. É a mulher que sente tesão vendo uma orgia, sente vontade de dançar um forró, sente falta dos filhos, deleita-se com seus netinhos e que delicia-se dançando aos sons de seus amados vinis em casa, sozinha.  Seu comportamento varia de rude para assertiva, sensível para forte, amorosa para grossa, sendo talvez cada uma dessas definições uma afronta a quem realmente é Clara.

Melhor seria dizer que Clara (Claras, talvez) são seus cabelos, esses que foram raspados na época de sua luta contra o câncer de mama nos anos 70, e que em 2016 apresentam-se frondosos, enormes, exibidos com gosto por ela, sendo cada momento em que os solta (ou prende), receptáculos de significados emocionais. Seus cabelos são símbolos de sua trajetória, de sua construção identitária, assim como o edifício Aquarius é uma extensão de seu organismo biológico, numa comparação metafórica na qual o roteiro imerge no terceiro ato, cujo título (O Câncer de Clara) e desdobramentos versam sentidos conotativos e denotativos a partir da construção visual da narrativa.

Todas essas são reflexões suscitadas pelo filme, mas que não se sustentam em um mundo onde o capitalismo selvagem a tudo consome, define e reduz. Há o questionamento sobre a possibilidade de mesclar o biológico/social/histórico/psicológico em uma configuração na qual as delimitações físicas perdem idiossincrasias em nome do dinheiro e da reprodução frenética de redes comerciais tais como algum Burger King, McDonalds ou Starbucks. Como um Atlantic City Plaza. Não há “Novo Aquarius”, pois o que faz o edifício Aquarius único são as histórias e fantasmas marcados em suas paredes, não o nome. A velocidade e ferocidade do sucateamento das estruturas hoje em dia em troca do padrão de beleza e praticidade estabelecidos pelo capitalismo castram a possibilidade de construções psicológicas cheias de raízes.

Contudo, a nível político, existe sim uma pungente demarcação ontológica tradicional no país. É impossível ignorar o caráter histórico sobre o qual se ergue o Brasil moderno: antigas estruturas agrárias familiares, a corrupção, o coronelismo, se mantém como antes, sob uma fachada esterilizada de capitalismo moderno. Mais explicitamente do que em O Som ao Redor, seu filme anterior, Kleber Mendonça Filho tece reflexões sobre as redes de articulação sociais por trás de cada movimento brasileiro. O Estado, a Igreja e a Mídia são pontos nevrálgicos das engrenagens que fazem funcionar o país, sendo o sangue das famílias latifundiárias que datam da época das Províncias o óleo que as lubrificam. “É algo bem brasileiro mesmo”, diz Clara, indignada, em certo momento da projeção. Não é a toa que Diego (Humberto Carrão) obedeça estereótipos marcantes enquanto jovem capitalista louco para fazer dinheiro: estudou nos EUA, tem ligação com a Igreja e tem sangue de família com ligações latifundiárias históricas. E é branco.

E o que podem indivíduos fazer mediante tal quadro? E mais importante: como tecer história, como mesclar físico e psicológico em um mundo que exige alva padronização? Aquarius não responde nada disso, mas nos propõe uma catarse suficiente para começarmos a pensar, e quem sabe agir.

É poesia política.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 09/09/2016