quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Chave da Rosa

A CHAVE DA ROSA

para Camila Lopes de França Belém


“Vou dormir para sonhar, para acordar” Jack Kerouac

O galo em seu celular cantou mais uma manhã, e mais uma vez Samantha se perguntou por que diabos mantinha esse despertador. Nenhum de seus amigos ou familiares gostavam, e muito menos seus antigos amantes. Passada a irritação habitual, ela chegou novamente às mesmas possíveis conclusões: a) justamente porque as pessoas em geral desaprovavam; b) lhe lembrava um ambiente mais interiorano que pouco fazia ou fez parte de sua vida mas que ainda assim lhe causava certa nostalgia; c) era um som peculiar que muita gente não usava no celular.

Essa impressão de certa agressividade revoltosa latente logo deu lugar à sua doçura habituais, e mesmo o mau-humor matinal era completamente perdoável e prontamente esquecido enquanto ela andava por sua casa cumprimentando e alimentando seu imenso pastor alemão Buck, seus periquitos Rick e Regina e seu peixinho dourado Oscar.

Depois de sua ducha, cantarolando um suave blues, abria as cortinas um tanto retalhadas de seu apartamento, lançando uma parca luz das pequenas janelas, iluminando sofás desgastados e alguns porta-retratos que, por motivos que só ela poderia dizer, estavam baixados, sendo engolidos por camadas de poeira que, por sinal, eram uma constante no resto do lar, cobrindo inclusive, para seu desgosto, a grande quantidade de livros que há tempos desistiu de organizar, e que assim se viam espalhados pelo chão do apartamento.

Enquanto o café coava, Sam caminhava pelos cômodos, e não pela primeira vez essa caminhada à deriva terminou em frente ao antigo, porém imaculadamente limpo, quadro que pintara há sete anos, agora mantido em sua sala de estar, num lugar que recebia bastante luz matinal. Na época, criara uma história envolvendo a solitária figura do marinheiro em seu barquinho, gravada na moldura. Aquele marinheiro, observando de longe uma multidão no litoral, ao pôr do sol, era um homem admirável que nutria o desejo de ver todos sorrindo, um nobre, porém reconhecidamente inalcançável objetivo. Mas ele não sofria por isso, mantendo sempre uma postura altiva e otimista frente a tudo, inclusive quanto ao seu desejo. Nos últimos três ou quatro anos, a visão desse quadro e essa reflexão nunca falhavam em colocá-la em um estado de melancolia, porém ela nunca conseguia entender o por quê, tampouco trocando a pintura de lugar.

Buck fez o favor de tirá-la desses devaneios com seus insistentes latidos para ser levado para passear. Tampou a garrafa de café e foi fazer a vontade do cão.

Ao sair de prédio, Sam, que costumava virar à direita, tomou a esquerda, sem prestar atenção nesse ato. Desse lado de seu prédio havia um terreno baldio, e no meio de sua terra morta, Sam visualizou um elemento belo e surrealista em sua falta de sentido ambiental. Se tratava de uma rosa.

A moça caminhou até a flor, deixando Buck correr alegremente pelo grande espaço ao redor. Ao examiná-la mais de perto, Sam notou, maravilhada, a peculiaridade daquela rosa que, branca por fora, era vermelha por dentro. Ela nunca havia visto coisa igual, e nem mesmo tão cheirosa.

Decidida, ela volta ao apartamento e pega um vaso que pertencia a um falecido e querido professor seu, a quem o objeto era caro, e por isso mesmo ela o mantinha, até agora, inutilizado dentro de seu armário. Voltando ao terreno, ela pegou a rosa com a terra ao redor e cuidadosamente a colocou no vasinho. Ela iria fazer o que pudesse para que a flor continuasse viva o maior tempo possível.

E assim a rosa se tornou seu xodó, um projeto todo especial ao qual ela dedicava enorme carinho e atenção, mais até do que para boa parte de sua vida, seja sua casa, seu trabalho, estudos, o que quer que seja. Passava muito tempo olhando para a flor, e sempre a aguava, deixando-a numa parte mais iluminada de seu apartamento, além de sempre lhe dirigir distraídas palavras carinhosas. Assim, a rosa mantinha-se linda e cheirosa, conferindo um aroma divino ao apartamento durante vários dias. Qualquer pensamento negativo fugia da cabeça de Sam ao lembrar-se que a flor continuava firme e forte.

Em uma madrugada, porém, algo inusitado aconteceu. Sem conseguir dormir, Sam levanta-se para tomar uma taça de vinho, e no caminho de volta para o quarto decide dar uma olhada na rosa. Mas... ela não está no vaso.

Perplexa e assustada, Sam solta um palavrão e começa a procurá-la, sabendo de antemão a futilidade de sua ação. Apenas para coroar essa situação, a moça acidentalmente esbarra seu braço no vaso de seu professor. Frente a isso, ela grita um palavrão mais indignado ainda, e quase não consegue segurar as lágrimas. Não só havia inexplicavelmente perdido seu querido tesouro como tinha perdido uma lembrança cara de uma pessoa que lhe era muito querida; uma lembrança concreta sem a qual, agora, só havia a informe bruma da memória para lhe garantir.

Mas, desde pequena, Sam evita chorar por pouco, e, respirando fundo, ajoelha-se para catar os pedaços do vaso e limpar a sujeira. Enquanto faz isso, descobre outra surpresa em meio a terra: uma enferrujada chave prateada. Ela não tinha sentido esse objeto quando recolheu a rosa do terreno, e achava improvável que a rosa tivesse crescido com algo assim do lado. “Como se essa história toda fizesse algum sentido”, pensou ela justamente para não ficar pensando demais. Chateada, Sam voltou para seu quarto e, dando mais uma última olhada para a chave, sem ter a mínima idéia do que poderia fazer com aquilo, deixou-a no criado mudo e foi dormir.

Nos dias que se seguiram, Sam carregou a chave consigo, apenas para desencargo de consciência. Tendo crescido permeada pela Literatura, a noção romântica e ilógica de que aquela chave tinha algum propósito ficava na esquina de seus pensamentos, sem receber muita atenção e, no entanto, recebendo o suficiente para que a moça, sem perceber muito bem o que fazia, testasse a chave em tudo quanto era lugar abandonado ou gaveta que encontrasse pelo caminho. Até carros foram testados. “Se a história dessa chave é altamente improvável”, pensava ela, “deve pertencer a um ambiente idem”. Mas não obteve sucesso nessa busca.

Certa noite, com a chave novamente no criado mudo, Sam teve um sonho particularmente bizarro, mesmo dentre o surrealismo habitual do mundo onírico. A moça se viu de pé, sozinha, no barco no lugar do marinheiro de sua pintura. Deliciada ao notar essa situação, ela olhou para o litoral e percebeu-se afastando de uma grande multidão, que a observava sem emitir um pio ou expressar algum movimento. Sam surpreendeu-se ao não perceber em si o desejo de ver aquelas pessoas todas sorrindo, como na história da pintura, mas notou algo mais profundo por baixo desse sentimento: o desejo de poder sorrir simplesmente por ter esse desejo, e sorrir por sorrir. Sorriu ao perceber isso.

Afastando-se cada vez mais, o litoral se tornou indistinguível no horizonte. Sam então olhou para trás e notou que se aproximava de uma grande fortaleza de gelo, cujos limites horizontais não conseguia distinguir, e cujo topo chegava a tocar as nuvens. Aproximando-se cada vez mais dessa majestosa estrutura, ela foi se sentindo pequena e assombrada, arrepiando-se ao notar a imensa abertura pela qual entraria dentro de poucos instantes. Ao se ver engolida pela estrutura, ela pode notar que os reminiscentes resquícios de luz do dia eram filtrada pelo gelo, permitindo certa iluminação à caverna e à neve que cobria o solo no qual Sam viu-se em pé, quando seu barco simplesmente não existia mais.

Com frio e medo, ela foi adentrando a caverna, caminhando até as pernas doerem, atravessando corredores labirínticos sem fim, até chegar no que parecia um grande salão iluminado em seu centro, cuja luz provinda da pequena abertura no topo da muralha era circundada por um enorme lobo cinzento, que calmamente, e não sem certo tédio, olhou para sua convidada, como se a conhecesse de alguma forma. Paralisada a princípio, Sam decidiu encher-se de coragem e seguiu em frente, passo ante passo, torcendo para que a fera não resolvesse adotar uma postura mais agressiva.

A apenas alguns metros do animal, Sam gelou ao ver o lobo parando seus movimentos e olhando fixo para ela. Podia-se ouvir a respiração de ambos, enquanto os sons dos batimentos cardíacos de Sam se tornavam cada vez mais fortes e selvagens naquele silêncio angustiante.

O lobo andou em direção à jovem, que sentiu o impulso quase irrefreável de correr, mas conseguiu ficar parada. O animal chegou a ela e abaixou a cabeça, num gesto que exigia que a moça lhe acariciasse o crânio. Quando o fez, a fera gemeu de prazer. Depois de alguns segundos assim, o lobo desvencilhou-se de sua mão e, olhando fundo o suficiente em seus olhos para que ela sentisse sua alma ser tocada, disse, com uma voz clara, grossa, forte e arranhada em sua rouquidão: “The mighty arms of Atlas holds the heaven from the earth”. Nesse momento, saiu com passos firmes, deixando Sam sozinha frente ao círculo iluminado.

Sabendo que lá deveria existir algo de valor que o lobo guardava, ela chegou mais perto. Sem notar nada na superfície, resolveu cavar. Cavou mais fundo do que esperava, e quando estava pronta para desistir, tocou em algo sólido que, ao limpar um pouco mais da neve que o cobria, revelou-se um baú. Ela o puxou à superfície, surpresa com sua leveza. Sua empolgação quase findou-se ao notar que estava trancado, mas ela lembrou da chave da rosa, e, sem entender bem sua linha de pensamentos, enfiou a mão no bolso, retirando de lá o objeto. Com o coração quase a sair pela boca, abriu o baú e olhou fixo para dentro dele...

O canto de um galo então encheu o ambiente e Sam abriu os olhos, com a frequência cardíaca diminuindo ruidosamente. Desligou o despertador e sentou-se na cama, meio tonta e tremendo um pouco, sem entender direito o que estava acontecendo. Fragmentos do seu esquisito sonho lhe sondavam a cabeça, e o que ela mais se lembrava era do baú... mas não conseguia lembrar-se qual era seu conteúdo, embora tivesse plena certeza de tê-lo acessado.

No entanto, havia um sentimento, uma sensação inexprimível em palavras dentro de seu peito. Atravessando seu apartamento meio como que num estado de transe, Samantha percebeu que estava levantando as fotografias caídas, reencontrando rostos que havia muito não via, sendo um deles o seu próprio.

Voltou ao seu quarto, com todos esses sentimentos a exaltando e deixando seu rosto assombrado por tudo isso que sentia e não conseguia falar, pelos gemidos inefáveis no seu íntimo entoando uma espécie de canção cristalina como um floco de gelo, doce como um perfume, suave como um veludo, e duro como uma rocha, exultante como infinitos fogos de artifício que explodiam e formavam palavras indistinguíveis na miséria da linguagem humana.

Ela notou, com menos espanto do que esperaria, que a chave enferrujada não estava em seu criado mudo...

Sorriu.

 Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
10/07/2014



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Crítica: Goodnight Mommy


Crítica:

Goodnight Mommy (Ich She, Ich She / 2015 / Áustria)

Direção: Severin Fiala & Veronika Franz

O gênero horror é uma fonte rica para explorar metáforas sociais e/ou psicológicas, para servir de espelho para o próprio espectador, ou ainda mesmo para ser um veículo moral ao disfarçar de monstro um estigma social ou comportamento socialmente reprovado. Este Goodnight Mommy, no entanto, funciona mais como uma espécie de apreciação sádica socialmente aceita ao estabelecer um espaço onde o espectador pode gozar de coisas terríveis e se divertir, enquanto na vida real uma manchete com notícias similares provocaria apenas repulsa.

Não que o longa austríaco seja o único a fazer isso; é só lembrar de obras marcantes como O Massacre da Serra Elétrica, Amargo Pesadelo, A Fonte da Donzela ou sua refilmagem Aniversário Macabro, ou (fora do gênero terror) um Oldboy ou Killer Joe. Mas há algo próprio de sua estrutura que o torna singular, algo nos modos comedidos que os cineastas Severin Fiala e Veronika Franz contam sua história, desenvolvem seus personagens e nos integram àquele universo, que mais parece aproximar o filme de um Dente Canino do que exatamente um Invocação do Mal. É assim que os diretores (e também roteiristas) conferem peculiaridade à história dos gêmeos Elias e Lukas, que desconfiam que a mulher que voltou para casa depois de uma cirurgia plástica não seja sua mãe, diferente do que ela alega.

Fiala e Franz abolem muitos dos métodos tradicionais das narrativas de horror, conseguindo incitar incômodo justamente por tornar-se, assim, mais imprevisível: ao invés de planos fechados nos rostos dos atores, vemos mais planos abertos; o silêncio reina durante a maior parte do tempo, e a trilha sonora só é usada – e de modo muito comedido – em momentos específicos; ao invés de ambientes repletos de sombras para “incitar a imaginação”, o filme é basicamente banhado em luzes claras, espaços ensolarados e uma casa cujo predomínio da cor branca capta mais a luz do sol. Este último aspecto, por sinal, ganha ainda função temática ao se coadunar com outros detalhes do inteligente design de produção, que cria uma casa com amplos espaços vazios e quadros envolvendo figuras femininas borradas e/ou viradas de costas, numa conjunção de elementos que parece dizer sobre algum vazio ontológico na veemente falta de caracteres mais pessoais naquele lar (e a citada cor branca da casa reflete, além da luz do sol, uma espécie de falta de personalidade ao não adotar uma cor mais viva/forte). Esse, aliás, é bem o tema da obra: identidades.

Quando os cineastas lançam mão de algum recurso que pareça aproximar Goodnight Mommy das obras mais conhecidas de terror, em geral são sequências oníricas ou com floreios oníricos, que exploram seus personagens a nível mais “inconsciente”, momentos estes que fogem dos aspectos mais ressaltados no parágrafo anterior para dar lugar a um tom mais grotesco e/ou fantasmagórico, às vezes até mesmo alegórico (me refiro à cena no início do filme quando os irmãos entram em uma caverna escura). E, se isso e mesmo os esforços de guiar o filme para longe das convenções do horror são tão eficazes, é bem provável que seja devido ao conhecimento dos cineastas de estarem tratando de uma trama repulsiva e inerentemente assustadora, de forma tal que podem confiar mais na dinâmica de seus personagens do que em suas técnicas para conseguir amedrontar o espectador (o que não torna o filme "melhor" ou "pior", é apenas uma característica sua). Seu enredo trabalha com questões envolvendo medos primevos – como não se sentir seguro com a pessoa que mais deveria lhe garantir segurança – e comportamentos extremos cujo grau de violência impede a passividade qualquer espectador inserido numa sociedade e criado em uma família.

Por isso que o roteiro acaba sendo a ferramenta mais importante neste filme em particular, já que é na manipulação emocional do espectador que os roteiristas alcançam uma tensão palpável ao agoniar-nos sobre como podemos nos mobilizar em relação ao que estamos vendo. Em grande parte, isso se dá devido ao ótimo desenvolvimento dos personagens e das performances eficazes, que nos aproximam daquelas figuras enquanto seres humanos verossímeis. A dinâmica entre os gêmeos, por exemplo, é essencial no ponto em que podemos conferir a parceria entre os irmãos, para que a confiança exigida em momentos mais adiantados na projeção surta devido efeito (e é mais um detalhe gratificante do design de produção o fato do quarto dos garotos surgir repleto de brinquedos e pertences pessoais que os humanizam). A mãe, interpretada de forma ambígua e trágica por Susanne Wuest, surge como uma figura complexa que hora desperta receio do espectador, hora nos causa mais pena, e muitas vezes uma espécie de comoção por compreendermos o turbilhão emocional que a mulher está passando, e como isso pode explicar muitos comportamentos mal compreendidos pela mentalidade infantil das crianças.

É num jogo de “quem será que tem razão: a mãe ou os filhos?” que os realizadores nos prendem durante a maior parte do tempo, brincando com limites mais realistas e oníricos a ponto de, quando realmente assumem uma posição de quem é vítima e quem é agressor, os personagens estão tão bem construídos, o setting tão alicerçado, que é com mais choque ainda que o espectador passa a presenciar horrores descomedidos e inesperados com verbalizações privadas constantes de algo como “não pode ser! Caralho, mas é!”.

É uma pena que o roteiro tropece no terceiro ato ao investir numa reviravolta que, embora coerente, surge covarde ao aderir aos únicos clichês realmente mesquinhos da obra, além de dar uma falsa e irritante impressão de que assim estariam fazendo algo mais “profundo”. Na verdade, parece mais insegurança do que profundidade. É sorte, então, que a obra seja aterrorizante e bem construída o suficiente para alcançar esse terceiro ato e não conseguir diluir nosso incômodo ou fazer nossas unhas roídas crescerem de novo.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
16/11/2015