A CHAVE DA ROSA
para
Camila Lopes de França Belém
“Vou dormir para sonhar, para acordar” Jack
Kerouac
O
galo em seu celular cantou mais uma manhã, e mais uma vez Samantha se perguntou
por que diabos mantinha esse despertador. Nenhum de seus amigos ou familiares
gostavam, e muito menos seus antigos amantes. Passada a irritação habitual, ela
chegou novamente às mesmas possíveis conclusões: a) justamente porque as
pessoas em geral desaprovavam; b) lhe lembrava um ambiente mais interiorano que
pouco fazia ou fez parte de sua vida mas que ainda assim lhe causava certa
nostalgia; c) era um som peculiar que muita gente não usava no celular.
Essa
impressão de certa agressividade revoltosa latente logo deu lugar à sua doçura
habituais, e mesmo o mau-humor matinal era completamente perdoável e
prontamente esquecido enquanto ela andava por sua casa cumprimentando e
alimentando seu imenso pastor alemão Buck, seus periquitos Rick e Regina e seu
peixinho dourado Oscar.
Depois
de sua ducha, cantarolando um suave blues,
abria as cortinas um tanto retalhadas de seu apartamento, lançando uma parca
luz das pequenas janelas, iluminando sofás desgastados e alguns porta-retratos
que, por motivos que só ela poderia dizer, estavam baixados, sendo engolidos
por camadas de poeira que, por sinal, eram uma constante no resto do lar, cobrindo
inclusive, para seu desgosto, a grande quantidade de livros que há tempos
desistiu de organizar, e que assim se viam espalhados pelo chão do apartamento.
Enquanto
o café coava, Sam caminhava pelos cômodos, e não pela primeira vez essa
caminhada à deriva terminou em frente ao antigo, porém imaculadamente limpo, quadro
que pintara há sete anos, agora mantido em sua sala de estar, num lugar que
recebia bastante luz matinal. Na época, criara uma história envolvendo a
solitária figura do marinheiro em seu barquinho, gravada na moldura. Aquele
marinheiro, observando de longe uma multidão no litoral, ao pôr do sol, era um homem
admirável que nutria o desejo de ver todos sorrindo, um nobre, porém reconhecidamente
inalcançável objetivo. Mas ele não sofria por isso, mantendo sempre uma postura
altiva e otimista frente a tudo, inclusive quanto ao seu desejo. Nos últimos
três ou quatro anos, a visão desse quadro e essa reflexão nunca falhavam em
colocá-la em um estado de melancolia, porém ela nunca conseguia entender o por
quê, tampouco trocando a pintura de lugar.
Buck
fez o favor de tirá-la desses devaneios com seus insistentes latidos para ser
levado para passear. Tampou a garrafa de café e foi fazer a vontade do cão.
Ao
sair de prédio, Sam, que costumava virar à direita, tomou a esquerda, sem
prestar atenção nesse ato. Desse lado de seu prédio havia um terreno baldio, e
no meio de sua terra morta, Sam visualizou um elemento belo e surrealista em
sua falta de sentido ambiental. Se tratava de uma rosa.
A
moça caminhou até a flor, deixando Buck correr alegremente pelo grande espaço
ao redor. Ao examiná-la mais de perto, Sam notou, maravilhada, a peculiaridade
daquela rosa que, branca por fora, era vermelha por dentro. Ela nunca havia
visto coisa igual, e nem mesmo tão cheirosa.
Decidida,
ela volta ao apartamento e pega um vaso que pertencia a um falecido e querido
professor seu, a quem o objeto era caro, e por isso mesmo ela o mantinha, até
agora, inutilizado dentro de seu armário. Voltando ao terreno, ela pegou a rosa
com a terra ao redor e cuidadosamente a colocou no vasinho. Ela iria fazer o
que pudesse para que a flor continuasse viva o maior tempo possível.
E
assim a rosa se tornou seu xodó, um projeto todo especial ao qual ela dedicava
enorme carinho e atenção, mais até do que para boa parte de sua vida, seja sua
casa, seu trabalho, estudos, o que quer que seja. Passava muito tempo olhando
para a flor, e sempre a aguava, deixando-a numa parte mais iluminada de seu
apartamento, além de sempre lhe dirigir distraídas palavras carinhosas. Assim,
a rosa mantinha-se linda e cheirosa, conferindo um aroma divino ao apartamento
durante vários dias. Qualquer pensamento negativo fugia da cabeça de Sam ao lembrar-se
que a flor continuava firme e forte.
Em
uma madrugada, porém, algo inusitado aconteceu. Sem conseguir dormir, Sam
levanta-se para tomar uma taça de vinho, e no caminho de volta para o quarto
decide dar uma olhada na rosa. Mas... ela não está no vaso.
Perplexa
e assustada, Sam solta um palavrão e começa a procurá-la, sabendo de antemão a
futilidade de sua ação. Apenas para coroar essa situação, a moça acidentalmente
esbarra seu braço no vaso de seu professor. Frente a isso, ela grita um
palavrão mais indignado ainda, e quase não consegue segurar as lágrimas. Não só
havia inexplicavelmente perdido seu querido tesouro como tinha perdido uma
lembrança cara de uma pessoa que lhe era muito querida; uma lembrança concreta
sem a qual, agora, só havia a informe bruma da memória para lhe garantir.
Mas,
desde pequena, Sam evita chorar por pouco, e, respirando fundo, ajoelha-se para
catar os pedaços do vaso e limpar a sujeira. Enquanto faz isso, descobre outra
surpresa em meio a terra: uma enferrujada chave prateada. Ela não tinha sentido
esse objeto quando recolheu a rosa do terreno, e achava improvável que a rosa
tivesse crescido com algo assim do lado. “Como se essa história toda fizesse
algum sentido”, pensou ela justamente para não ficar pensando demais. Chateada,
Sam voltou para seu quarto e, dando mais uma última olhada para a chave, sem
ter a mínima idéia do que poderia fazer com aquilo, deixou-a no criado mudo e
foi dormir.
Nos
dias que se seguiram, Sam carregou a chave consigo, apenas para desencargo de
consciência. Tendo crescido permeada pela Literatura, a noção romântica e
ilógica de que aquela chave tinha algum propósito ficava na esquina de seus
pensamentos, sem receber muita atenção e, no entanto, recebendo o suficiente
para que a moça, sem perceber muito bem o que fazia, testasse a chave em tudo
quanto era lugar abandonado ou gaveta que encontrasse pelo caminho. Até carros
foram testados. “Se a história dessa chave é altamente improvável”, pensava
ela, “deve pertencer a um ambiente idem”. Mas não obteve sucesso nessa busca.
Certa
noite, com a chave novamente no criado mudo, Sam teve um sonho particularmente
bizarro, mesmo dentre o surrealismo habitual do mundo onírico. A moça se viu de
pé, sozinha, no barco no lugar do marinheiro de sua pintura. Deliciada ao notar
essa situação, ela olhou para o litoral e percebeu-se afastando de uma grande
multidão, que a observava sem emitir um pio ou expressar algum movimento. Sam
surpreendeu-se ao não perceber em si o desejo de ver aquelas pessoas todas
sorrindo, como na história da pintura, mas notou algo mais profundo por baixo
desse sentimento: o desejo de poder sorrir simplesmente por ter esse desejo, e
sorrir por sorrir. Sorriu ao perceber isso.
Afastando-se
cada vez mais, o litoral se tornou indistinguível no horizonte. Sam então olhou
para trás e notou que se aproximava de uma grande fortaleza de gelo, cujos
limites horizontais não conseguia distinguir, e cujo topo chegava a tocar as
nuvens. Aproximando-se cada vez mais dessa majestosa estrutura, ela foi se
sentindo pequena e assombrada, arrepiando-se ao notar a imensa abertura pela
qual entraria dentro de poucos instantes. Ao se ver engolida pela estrutura,
ela pode notar que os reminiscentes resquícios de luz do dia eram filtrada pelo
gelo, permitindo certa iluminação à caverna e à neve que cobria o solo no qual
Sam viu-se em pé, quando seu barco simplesmente não existia mais.
Com
frio e medo, ela foi adentrando a caverna, caminhando até as pernas doerem,
atravessando corredores labirínticos sem fim, até chegar no que parecia um
grande salão iluminado em seu centro, cuja luz provinda da pequena abertura no
topo da muralha era circundada por um enorme lobo cinzento, que calmamente, e
não sem certo tédio, olhou para sua convidada, como se a conhecesse de alguma
forma. Paralisada a princípio, Sam decidiu encher-se de coragem e seguiu em
frente, passo ante passo, torcendo para que a fera não resolvesse adotar uma
postura mais agressiva.
A
apenas alguns metros do animal, Sam gelou ao ver o lobo parando seus movimentos
e olhando fixo para ela. Podia-se ouvir a respiração de ambos, enquanto os sons
dos batimentos cardíacos de Sam se tornavam cada vez mais fortes e selvagens
naquele silêncio angustiante.
O
lobo andou em direção à jovem, que sentiu o impulso quase irrefreável de
correr, mas conseguiu ficar parada. O animal chegou a ela e abaixou a cabeça,
num gesto que exigia que a moça lhe acariciasse o crânio. Quando o fez, a fera
gemeu de prazer. Depois de alguns segundos assim, o lobo desvencilhou-se de sua
mão e, olhando fundo o suficiente em seus olhos para que ela sentisse sua alma
ser tocada, disse, com uma voz clara, grossa, forte e arranhada em sua
rouquidão: “The mighty arms of Atlas holds the heaven from the earth”. Nesse
momento, saiu com passos firmes, deixando Sam sozinha frente ao círculo
iluminado.
Sabendo
que lá deveria existir algo de valor que o lobo guardava, ela chegou mais
perto. Sem notar nada na superfície, resolveu cavar. Cavou mais fundo do que
esperava, e quando estava pronta para desistir, tocou em algo sólido que, ao
limpar um pouco mais da neve que o cobria, revelou-se um baú. Ela o puxou à
superfície, surpresa com sua leveza. Sua empolgação quase findou-se ao notar
que estava trancado, mas ela lembrou da chave da rosa, e, sem entender bem sua
linha de pensamentos, enfiou a mão no bolso, retirando de lá o objeto. Com o
coração quase a sair pela boca, abriu o baú e olhou fixo para dentro dele...
O
canto de um galo então encheu o ambiente e Sam abriu os olhos, com a frequência
cardíaca diminuindo ruidosamente. Desligou o despertador e sentou-se na cama,
meio tonta e tremendo um pouco, sem entender direito o que estava acontecendo.
Fragmentos do seu esquisito sonho lhe sondavam a cabeça, e o que ela mais se
lembrava era do baú... mas não conseguia lembrar-se qual era seu conteúdo,
embora tivesse plena certeza de tê-lo acessado.
No
entanto, havia um sentimento, uma sensação inexprimível em palavras dentro de
seu peito. Atravessando seu apartamento meio como que num estado de transe,
Samantha percebeu que estava levantando as fotografias caídas, reencontrando
rostos que havia muito não via, sendo um deles o seu próprio.
Voltou
ao seu quarto, com todos esses sentimentos a exaltando e deixando seu rosto
assombrado por tudo isso que sentia e não conseguia falar, pelos gemidos
inefáveis no seu íntimo entoando uma espécie de canção cristalina como um floco
de gelo, doce como um perfume, suave como um veludo, e duro como uma rocha,
exultante como infinitos fogos de artifício que explodiam e formavam palavras
indistinguíveis na miséria da linguagem humana.
Ela
notou, com menos espanto do que esperaria, que a chave enferrujada não estava
em seu criado mudo...
Sorriu.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
10/07/2014
