domingo, 14 de junho de 2015



Crítica:

Ex Machina (Ex Machina / 2015 / Reino Unido)

Direção: Alex Garland

Fazer Arte é mais do que criar algo esteticamente belo ou tematicamente desafiador. Fazer Arte é construir um espaço de trocas, seja entre os apreciadores ou entre estes e os realizadores, ou mesmo entre uma pessoa e ela mesma. O importante é a comunicação criada. Assim, há filmes que funcionam de uma forma mais fluida do que através de sua linha narrativa ou temática, não definindo bem qual é a sua, mas travando um diálogo com o espectador, como se perguntasse: o que você vê? Recentemente, filmes como Sob a Pele, O Homem Duplicado e Upstream Color formam exemplos perfeitos do que falei, e aqui, o já versado em roteiros de ficção científica que alcançam mais do que o entretenimento, Alex Garland, inicia o seu caminho enquanto diretor com um filme a se juntar a essa lista.

Em Ex Machina, o jovem programador Caleb (Domnahll Gleeson) é selecionado para fazer parte de um revolucionário e secreto experimento envolvendo Inteligência Articial, comandado pelo presidente da empresa onde trabalha, Nathan (Oscar Isaac). No espaço de uma semana, em isolamento no meio de uma enorme floresta, Caleb deve travar entrevistas com a robô Ava (Alicia Vikander) para determinar a veracidade de sua “consciência”.

O grande trabalho de Garland na criação do projeto reside no setting da experiência cinematográfica que propõe, englobando o espectador numa atmosfera que surge perturbadora e altamente evocativa. O laboratório, assim como a residência de Nathan, situa-se em completo isolamento, no meio de uma enorme floresta que parece intocada pela mão do Homem, contendo enormes cachoeiras e árvores magníficas, além de geleiras de tirar o fôlego. No meio disso, a residência de alta tecnologia, com paredes de vidro e cores sóbrias, impessoais, amplos espaços, com uma intrigante intersecção com a Natureza, seja através das paredes que usam rocha natural ou das vidraças que permitem a visão de plantas selvagens, criam uma espécie de dicotomia onde o Homem se vê de volta ao primitivo, a uma espécie de Éden, nos momentos próximos à Criação, abraçando essa volta com o pacote intelectual desenvolvido pela Ciência ao longo dos séculos.

Nessa ambientação, Garland trabalha, junto ao montador Mark Day, para desenvolver cortes e movimentos de câmera lentos, como se a câmera se movimentasse com cuidado diante dos segredos guardados naquele Templo de Criação, enquanto a trilha sonora fantasmagórica de Geoff Barrow e Ben Slisbury reforçam o tom de mistério e perigo de uma forma belamente sutil. Assim, a escalação de Domnahll Gleeson como Caleb ganha tons mais evocativos no seu papel de servir como os olhos turistas do espectador naquele universo, já que o mesmo ator interpretou um personagem de função idêntica no excelente Frank. Nesse processo, sensações são evocadas no espectador, um desconforto advindo de um suspense meticuloso vai subindo pelo corpo como um arrepio, gradualmente podendo-se pinçar essas sensações e, num processo de diálogo com a obra, ir desvendando o que afinal ela significa.

Ora, diferente dos filmes citados no primeiro parágrafo, Ex Machina parece muito mais direto em suas propostas, e de fato, em comparação, é mesmo. Ainda assim, engana o verniz de clareza que propõe, tendo muitas outras digressões produzidas nas sombras do que não é dito, mas apenas sentido. Interpretações podem ser desenvolvidas aos montes, e essa é a beleza da obra, no fim das contas. Dessa forma, discutirei brevemente uma possível interpretação nos parágrafos seguintes, e pode ser que quem não viu o filme prefira esperar para voltar aqui depois de conversar com o trabalho de Garland.

Com toda a discutida construção visual, Garland nos situa num momento de Criação, no Éden, num lugar onde o Homem volta às suas origens primitivas para um processo divino, dando-se à luz a uma nova forma de Vida, o próximo estágio da Evolução. Mas é interessante notar nesse contexto como funciona o personagem brilhantemente interpretado por Oscar Isaac, Nathan, um cientista admirado e inteligente que acha que faz o trabalho de um deus mas que parece estar decaindo num lento processo de degradação psicológica, algo que uma atenção dedicada ao seu físico parece servir como uma desesperada tentativa de se manter unido enquanto está ruindo. Numa visão mais simbólica, Nathan é o estereótipo do macho alfa que está perdendo sua evidência na atualidade, com sua força física admirável e um cabelo raspado ressaltando uma barba cheia que mais parece pertencer a um lenhador musculoso, enquanto está sempre com uma cerveja na mão, se gabando de suas bebedeiras. Nathan cria robôs femininos que servem não apenas como estudo, mas como escravas sexuais e verdadeiras domésticas, sendo que a robô mais próxima dele, Kyoko (Sonoya Mizuno), além de atender perfeitamente as necessidades fisiológicas de seu bruto patrão, é muda.

Nesse contexto, Caleb não passa de um participante num experimento maior, e mesmo o seu quarto sem janelas se assemelha a uma prisão claustrofóbica. Fica claro, que Caleb é manipulado como uma variável em sua interação com Ava, justamente para ser enganado por essa, tudo isso aparentemente orquestrado pelo falido deus do macho dominante. Ainda que frágil, no entanto, Caleb também representa uma espécie de macho dominante, sendo Ava, como todas as personagens femininas no filme, figuras indefesas e oprimidas que, em qualquer tentativa clara de fuga, são punidas inclusive com a morte. Uma representação extrema de uma sociedade machista, e mesmo que Caleb queira, no fim das contas, ajudar Ava, sua posição se torna machista na medida em que ele aparece como um cavaleiro para salvar uma donzela indefesa, que recompensaria seu herói com sexo e amor imortal. De qualquer forma, as mulheres são objetos no processo, não pessoas, apenas elementos de desejo de homens que, com objetivos diferentes, acabam por manipulá-las de forma a satisfazer seja uma auto-imagem de macho dominante ou simplesmente desejos sexuais e de interação amorosa de qualquer tipo.

No fim, a luta de egos entre Caleb e Nathan auxilia a fuga de Ava que foi cuidadosamente orquestrada não por algum deles, mas por ela mesma, num jogo de manipulação e sedução que a transformam numa figura extremamente multifacetada (vários pontos para Alicia Vikander), algo que o próprio Alex Garland explora através das mise en scéne das sessões entre Caleb e Ava, onde as posições de cada um passam a explicitar as vontades próprias e secretas de Ava, quando ela mantém Caleb onde quer, como quando flerta com ele pela primeira vez, sentada numa posição inferior, numa tentativa de fazê-lo se sentir dominante. Quando escapa, numa catarse que envolve a morte de Nathan e o perpétuo aprisionamento do inadvertidamente egoísta Caleb, o filme emana a rima com a história do computador que se tornou humano quando primeiro vivenciou a luz do sol, e Garland cria uma cena linda e rica em significados quando Ava vai cobrindo seu corpo com a pele de mulheres que morreram lutando para sair de seu cativeiro, tornando-se uma mulher lindíssima, sem a aparência de boneca lustrada que tinha antes, e admira seu corpo nu no espelho, assumindo-se humana de uma vez por todas. Ava não é mais um objeto, não é mais apenas a visão de homens que a desejam de uma forma ou de outra, mas uma criatura singular e complexa que, como explicita o sublime plano final, some no meio de uma multidão, se aglomera nas vidas que passam e se esbarram, tornando-se ela mesma uma dessas vidas.

Retornou-se ao Éden para haver Criação e Morte numa batalha apocalíptica, findando velhas estruturas interacionais para nascer uma outra. É um novo Gênesis, que ecoa transformações sociais que vão muito além da ficção científica do filme, mas toca a desconstrução da imagem da Mulher enquanto sexo frágil, demonstrando sua força e independência em um mundo até então ditado, em sua maior parte, por homens cegos por uma posição historicamente construída que nunca fez muito sentido, mas era aceita.

Esse é apenas um dos modos de enxergar e ler as sombras dançantes no cerne de Ex Machina. Mais importante do que qualquer interpretação racional, no entanto, é permitir que as sensações despertadas pela cuidadosa construção cinematográfica abram espaço para que se teçam palavras tentando tocar, nem que efemeramente, uma conclusão racional que descrevam as digressões emocionais suscitadas por imagem e som.

LUCAS WAGNER ALVES RIBEIRO NUNES
14/06/2015

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