Crítica:
Ave, César! (Hail, Caesar! / 2016 / EUA)
Direção:
Joel & Ethan Coen
De
uma estátua de Cristo na cruz, corta-se para o crucifixo afixado ao terço do
angustiado Eddie Mannix (Josh Brolin). Cristo é uma imagem, e através de sua imagem,
seja a divindade “real” ou não, ele se faz presente na vida daquele sujeito.
Essa
é a primeira cena de Ave, César!, que
logo dá lugar à Mannix impondo-se perante a atriz hollywoodiana que posa despretensiosamente a um fotógrafo. A figura
da atriz é um produto, e o uso de sua imagem, uma mercadoria. Além de
mercadoria, a imagem promove discursos. Qualquer imagem ou articulação destas. Isso
o Cinema norte-americano sempre sacou muito bem, e fez uso efetivo do recurso
audiovisual enquanto linguagem, e não apenas nos filmes. Joel e Ethan Coen,
cineastas de humor ácido e visão afiada, lançam uma lente perspicaz sobre o
próprio Cinema e o que vem a ser a imagem enquanto linguagem.
Acompanhando
Mannix em uma série de eventos caóticos envolvendo o sequestro de um ator
famoso, problemas de diretores com seus atores, polêmicas e fofocas, além de
uma reunião com líderes religiosos de divergentes vertentes para discutir um
filme sobre Cristo, os irmãos Coen tem o ambiente ideal para trabalhar suas
reflexões, já que o personagem de Josh Brolin é uma espécie de empresário cuja
função é justamente fazer o manejo das imagens que são divulgadas para o
público e o discurso que elas criam. Pois o espetáculo promovido pelo Cinema
não está somente nos filmes, mas igualmente em toda a mitologia criada em torno
das figuras nos bastidores do processo cinematográfico.
À
guisa de exemplo, uma atriz grávida e solteira deve ter um marido para
sustentar uma imagem de inocência que é vendida para o público. O que é lido e
sabido sobre ela é tão entretenimento quanto o filme em que atua, e as
possíveis facetas sobre aquela mulher devem ser especificadas para os
consumidores das imagens. É um diálogo que se cria a partir do que se mostra. O
que é uma questão já clássica no que concerne o Cinema enquanto Arte e
Filosofia. Como não poderia deixar de ser (dado o momento histórico em que se
passa, e o seu tema), Avé, César! explora
o modo como a Sétima Arte se encontra articulada nos processos envolvendo
capitalismo e comunismo, servindo de veículo para ideais e símbolos. O que é
ainda mais interessante, no entanto, e que não poderia deixar de acontecer num
filme dos Coen, as contradições se fazem presente de modo ainda mais pulsante,
e aqui elas se fazem discursos a partir das imagens, como quando, por exemplo,
os comunistas se reúnem para seu grupo de estudo em uma luxuosa residência à
beira da praia. O que não significa que o capitalismo seja visto com olhos
menos satíricos pelos diretores, e a todo momento perpassa questões do uso da
imagem para promover ideologias envolvendo o American Way Of Life, e as lutas de Mannix para manter essa imagem
e evitar as contradições que pululam constantemente nos bastidores de
Hollywood.
E
não é apenas nos meios cinematográficos que essas reflexões pairam. Os Coen
aprofundam sua reflexão sobre as imagens a partir de elementos que as colocam
como fundadoras de “realidades” no próprio cotidiano das pessoas comuns, e é
singular o momento onde Mannix coloca um modelo de avião e um uniforme de
aeromoça no quarto de seus filhos, talvez como um início de construção de um “mundo”
baseado na aviação (possível novo emprego do pai) e não mais no Cinema, onde a
revólver de brinquedo no coldre pendurado na cama do filho evidencia um passado
de construção de ideário imagético baseado na profissão de Mannix. Para além
disso, outros momentos chamam atenção no quesito da imagem enquanto discurso,
merecendo destaque talvez o que envolva o jantar de Hobie Doyle (Ehrenreich) e
Carlotta Valdez (Osorio), quando o primeiro reforça/vende sua imagem de “cowboy no meio urbano” ao mesmo tempo em que, com a
inocência infantil que nos conquista no personagem, desconstrói seu charme de
ícone ao mostrar que usa uma dentadura no lugar dos dentes. Um momento que
lembra o quão encantador é o modo como os irmãos Coen desenvolvem e brincam com
as personalidades de seus personagens.
O
que também acontece com Mannix. Interpretado por Josh Brolin como um homem
exausto pelo peso que carrega cotidianamente, o protagonista é um personagem
típico dos Coen: um sujeito comum lançado no absurdo que de súbito o rodeia. É
interessante que Mannix mantenha um quadro emoldurado com os estúdios em seu
escritório, onde domina com certa tranquilidade, mas que se veja engolido pelos
enormes balcões dos estúdios em escala real, em um plano sagaz dos diretores. O
personagem, provavelmente o mais angustiado em todo o elenco, é atormentado
pela própria questão central do longa, já que se vê pressionado constantemente
pelo desejo de construção de uma auto-imagem que não entre em tantas
contradições. O mais curioso é que é uma auto-imagem apenas para si, como “se
vendendo para si mesmo”. E se deixarmos de lado que Mannix se angustia, no fim
das contas, pelo que é o denominador comum da “experiência humana” – a contradição
–, ainda podemos nos compadecer do personagem se pensarmos que tenta
desesperadamente manter-se como elemento honesto, verdadeiro, em um mar de
ficções e construções de “realidades” onde trabalha todos os dias. Sua ida
diária ao confessionário da Igreja é assim uma tentativa de anular suas
contradições, seus pecados, ou mesmo pecadilhos, assim como um atestado para si
mesmo do que vê como incompetência, o que a forma como “dispensa” o padre em um
momento-chave da projeção é uma prova dessas reais funções da religião em sua
vida.
E
não é que essas discussões filosófico-existenciais façam de Ave, César! um filme sisudo. Estamos
falando dos irmãos Coen, afinal de contas, capazes de veicular as mais profundas
ideias a partir do humor e da sátira. Aqui, passeando desde a comédia sutil até
a mais escrachada, os irmãos constroem uma obra que estabelece a contradição
enquanto diálogo. Ora, conhecendo os irmãos e seu prazer em distorcer gêneros,
acho difícil enxergar o longa como uma visita nostálgica à Hollywood clássica,
apesar de manter uma forma onde se enaltece o caráter “cinematográfico”, seja a
partir das cores fortes e distantes da realidade, dos cenários digitais que nem
arriscam o realismo, ou uma narração em off.
Até mesmo as várias sequências que emulam gêneros cinematográficos
estabelecidos (como o melodrama, o western
e o musical) vem acompanhados de constantes lembretes visuais da ficcionalidade
do que vemos, apesar dos diretores brincarem deixando a câmera viajar livre
pelo ambiente do “filme dentro do filme”, ignorando que tem alguém filmando
aquilo. É interessante que esse caráter de “falso” que os Coen buscam reforçar
seja a forma onde se encontra o conteúdo que questiona justamente essa forma.
Se pensarmos na brilhante sequência musical dos marinheiros lamentando o
distanciamento das mulheres, e como não tarda para que os movimentos emulem
sexo homossexual, entendemos, ou podemos imaginar, onde os irmãos talvez tentem
chegar.
O
que é sempre um exercício curioso. Como de praxe na filmografia dos Coen, Ave, César! ressalta a futilidade das
ações dos personagens com destinos espúrios que nos fazer questionar o a razão
de todos os conflitos que acabamos de assistir. Uma questão comum tanto a nós
quanto aos personagens. O que faz até sentido dentro da obra, onde dois
personagens específicos são mantidos nas sombras: o chefe de Mannix e o ator
que interpreta Jesus. O chefe é como uma divindade: não deve ser questionado e
nem decepcionado. Jesus é também uma divindade, mas a única forma de presença
que temos dele é a partir das imagens construídas sobre ele. Mais ou menos como
o chefe. Dois arquitetos de um espetáculo que, no fim das contas, não significa
nada, apesar de criar tantos significados. O que é engraçado se lembrarmos
que não é o personagem de Jesus que não
aparece, mas sim do ator que o
interpreta dentro do filme.
O
que nos leva ainda a outro, e mais essencial, questionamento: por quê tanta
fritação, tanta significação dos elementos do filme? Não sei, embora imagine
que os diretores devem se divertir à beça em cima disso. Mas enfim, seja como
comédia de entretenimento, possível filme de homenagem ou questionamento
crítico da imagem enquanto discurso, Ave,
César! é certamente é mais um exemplo da capacidade de Joel e Ethan Coen
criarem um Cinema multifacetado e extremamente divertido.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 01/05/2016