Crítica:
A Grande Aposta (The Big Short / 2015 / EUA)
Direção:
Adam Mckay
O
drama não é o único gênero para falar de desastres. Às vezes a comédia é uma
via ainda mais rica. Há uns dois anos, Martin Scorsese demonstrou ter compreendido
bem isso através do poderoso O Lobo de
Wall Street, quando aplicou a comédia à uma história sobre o mercado
financeiro norte americano, aproveitando o gênero para estabelecer o quão
absurdo era aquele universo. Em estratégia e tema similares, o diretor Adam McKay,
advindo de comédias divertidas como O
Âncora e Quase Irmãos, faz de A Grande Aposta um esforço admirável ao
usar o humor como ferramenta para descascar a brutalidade envolvendo os
bastidores da crise econômica de 2008.
O
roteiro de Charles Randoulph e do próprio McKay então adentra em Wall Street
acompanhando uma série de personagens que apostaram diretamente na
desestruturação financeira envolvendo o “sólido” mercado imobiliário, e que
assolaria os EUA (e o mundo). Para contar tal história, é impossível desviar da
selva de jargões que envolve aquele universo, e que naturalmente afasta
qualquer pessoa que não alfabetizada naquela linguagem. Uma das coisas que o
roteiro compreende muito bem é que esses jargões não passam de uma estratégia
para obscurecer um mundo que na verdade não é tão complicado assim (pode ser
caótico, mas não exatamente complicado). E assim, em delicioso tom de
chacota/ironia, coloca figuras do mundo pop desde Selena Gomez até Anthony
Bourdain, para nos explicar o que está acontecendo de forma didática em
analogias simples, sem contar que, ao colocar Margot Robbie num aposento à la O
Lobo de Wall Street nos explicando sobre CDO’s, o longa automaticamente
dialoga com o filme de Scorsese.
E
não é só essa estratégia narrativa que torna A Grande Aposta um fluxo intenso e empolgante de se acompanhar.
Durante a projeção, mantendo a câmera na mão e conferindo maior instabilidade
ao que vemos, McKay consegue renovar constantemente suas estratégias de forma a
tornar a narrativa sempre dinâmica, sem nunca esquecer suas preocupações
temáticas. Assim, a quarta parede é constantemente quebrada pelo arrogante
narrador-personagem interpretado por Ryan Gosling (incrivelmente divertido em
seu honesto egoísmo), e aos poucos, uma série de outros personagens conversam
com o espectador, a ponto mesmo de comentar a natureza cinematográfica do que
estamos vendo, comparando-a ao mundo real. Ao mesmo tempo, usando imagens
aleatórias que interferem no meio de diálogos e sequências, McKay e o montador
Hank Corwin alcançam a proeza de fazer com que sintamos o grau de
arbitrariedade do universo que estamos acompanhando.
E
é exatamente para que o caos representado pelo mercado financeiro norte
americano fique evidente que o humor é ferramenta nobre. Ao exagerar as
situações e os comportamentos daqueles indivíduos, ridicularizando-os de
diversas formas possíveis (como Melissa Leo usando óculos escuros futuristas ou
Gosling justificando a eficácia de contas matemáticas por ter um contador
asiático), McKay permite que olhemos aquele mundo através de lentes que evidenciam
o quão patético é o que estamos vendo. Um mundo onde jargões complicados são
criados para confundir e afagar egos; onde pessoas conseguem mover milhões (ou
bilhões) de dólares simplesmente fazendo ligações telefônicas; onde a pergunta “como
é que você vai me fuder?” faz perfeito sentido antes de se fechar um acordo;
tudo isso num país onde empréstimos são feitos a uma população que, crescendo a
partir de sonhos de luxuosas casas, não hesita em se iludir através de aparente
facilidade de movimentação. A selvageria do capitalismo ganha contornos cômicos
que justificam mesmo o momento em que o design
de som emula uma sitcom durante uma
conversa séria, onde fica óbvio o quão cegos, egoístas e maquiavélicos são as
pessoas nos bastidores do mercado financeiro. Cegos a ponto de não perceberem
que por trás de toda a grana que estão fazendo, simplesmente eclodirão a
economia do país.
E
não é por usar o humor para ridicularizar que McKay se esquece de estar lidando
com uma trama trágica em seu cerne. Demonstrando ainda mais segurança numa
direção capaz de manter-se centrada no furacão, McKay e Corwin evidentemente
alteram o ritmo do filme de forma a torná-lo mais denso quanto mais claro fica o
tamanho da cagada que esses personagens fizeram. Se tons de melancolia são
encontrados aqui e ali (cada um dos três atos inicia-se com uma citação que
emula desesperança e horror, além de imagens “cacofônicas” que exploram o
passar do tempo), o terceiro ato é carregado de tensão e momentos silenciosos,
mesmo sentimentos de culpa diante do horror que o país enfrenta. E McKay não mantém
seu olhar apenas no alto dos edifícios, mas insere imagens de pessoas
desabrigas e horrores íntimos de famílias que ferem o espectador em seu âmago
ao mostrar os efeitos mais devastadores da crise. A graça acabou faz tempo,
sobrando apenas os tons de assombro da voz de Robert Plant quando When The Leeve Breaks ecoa nos créditos
finais, enquanto que os Gorillaz já nos alertavam no meio da projeção, quando
os personagens surgem bêbados de poder sob a letra profética de Feel Good Inc:
“City’s breaking down on a camel’s back
They just have to go ‘cos they don’t hold back
So all you fill the streets it’s appealing to see
You won’t get out the county, ‘cause you’re bad and
free
You’ve got a new horizon it’s ephemeral style
A melancholy town where we never smile
All I wanna hear is the message beep
My dreams, they’ve got to kiss me ‘cause I don’t get
sleep”
Como
se não bastasse, McKay aproveita nossa fragilidade ao final da projeção para
soltar informações envolvendo o mercado financeiro de 2015, alertando-nos sobre
uma possível nova explosão. Algo que, como bem diz Gosling no início do filme,
não é obscuro. A única coisa que precisamos fazer é olhar...
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 28/01/2016


