quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Crítica: A Grande Aposta


Crítica:

A Grande Aposta (The Big Short / 2015 / EUA)

Direção: Adam Mckay

O drama não é o único gênero para falar de desastres. Às vezes a comédia é uma via ainda mais rica. Há uns dois anos, Martin Scorsese demonstrou ter compreendido bem isso através do poderoso O Lobo de Wall Street, quando aplicou a comédia à uma história sobre o mercado financeiro norte americano, aproveitando o gênero para estabelecer o quão absurdo era aquele universo. Em estratégia e tema similares, o diretor Adam McKay, advindo de comédias divertidas como O Âncora e Quase Irmãos, faz de A Grande Aposta um esforço admirável ao usar o humor como ferramenta para descascar a brutalidade envolvendo os bastidores da crise econômica de 2008.

O roteiro de Charles Randoulph e do próprio McKay então adentra em Wall Street acompanhando uma série de personagens que apostaram diretamente na desestruturação financeira envolvendo o “sólido” mercado imobiliário, e que assolaria os EUA (e o mundo). Para contar tal história, é impossível desviar da selva de jargões que envolve aquele universo, e que naturalmente afasta qualquer pessoa que não alfabetizada naquela linguagem. Uma das coisas que o roteiro compreende muito bem é que esses jargões não passam de uma estratégia para obscurecer um mundo que na verdade não é tão complicado assim (pode ser caótico, mas não exatamente complicado). E assim, em delicioso tom de chacota/ironia, coloca figuras do mundo pop desde Selena Gomez até Anthony Bourdain, para nos explicar o que está acontecendo de forma didática em analogias simples, sem contar que, ao colocar Margot Robbie num aposento à la O Lobo de Wall Street nos explicando sobre CDO’s, o longa automaticamente dialoga com o filme de Scorsese.

E não é só essa estratégia narrativa que torna A Grande Aposta um fluxo intenso e empolgante de se acompanhar. Durante a projeção, mantendo a câmera na mão e conferindo maior instabilidade ao que vemos, McKay consegue renovar constantemente suas estratégias de forma a tornar a narrativa sempre dinâmica, sem nunca esquecer suas preocupações temáticas. Assim, a quarta parede é constantemente quebrada pelo arrogante narrador-personagem interpretado por Ryan Gosling (incrivelmente divertido em seu honesto egoísmo), e aos poucos, uma série de outros personagens conversam com o espectador, a ponto mesmo de comentar a natureza cinematográfica do que estamos vendo, comparando-a ao mundo real. Ao mesmo tempo, usando imagens aleatórias que interferem no meio de diálogos e sequências, McKay e o montador Hank Corwin alcançam a proeza de fazer com que sintamos o grau de arbitrariedade do universo que estamos acompanhando.

E é exatamente para que o caos representado pelo mercado financeiro norte americano fique evidente que o humor é ferramenta nobre. Ao exagerar as situações e os comportamentos daqueles indivíduos, ridicularizando-os de diversas formas possíveis (como Melissa Leo usando óculos escuros futuristas ou Gosling justificando a eficácia de contas matemáticas por ter um contador asiático), McKay permite que olhemos aquele mundo através de lentes que evidenciam o quão patético é o que estamos vendo. Um mundo onde jargões complicados são criados para confundir e afagar egos; onde pessoas conseguem mover milhões (ou bilhões) de dólares simplesmente fazendo ligações telefônicas; onde a pergunta “como é que você vai me fuder?” faz perfeito sentido antes de se fechar um acordo; tudo isso num país onde empréstimos são feitos a uma população que, crescendo a partir de sonhos de luxuosas casas, não hesita em se iludir através de aparente facilidade de movimentação. A selvageria do capitalismo ganha contornos cômicos que justificam mesmo o momento em que o design de som emula uma ­sitcom durante uma conversa séria, onde fica óbvio o quão cegos, egoístas e maquiavélicos são as pessoas nos bastidores do mercado financeiro. Cegos a ponto de não perceberem que por trás de toda a grana que estão fazendo, simplesmente eclodirão a economia do país.

E não é por usar o humor para ridicularizar que McKay se esquece de estar lidando com uma trama trágica em seu cerne. Demonstrando ainda mais segurança numa direção capaz de manter-se centrada no furacão, McKay e Corwin evidentemente alteram o ritmo do filme de forma a torná-lo mais denso quanto mais claro fica o tamanho da cagada que esses personagens fizeram. Se tons de melancolia são encontrados aqui e ali (cada um dos três atos inicia-se com uma citação que emula desesperança e horror, além de imagens “cacofônicas” que exploram o passar do tempo), o terceiro ato é carregado de tensão e momentos silenciosos, mesmo sentimentos de culpa diante do horror que o país enfrenta. E McKay não mantém seu olhar apenas no alto dos edifícios, mas insere imagens de pessoas desabrigas e horrores íntimos de famílias que ferem o espectador em seu âmago ao mostrar os efeitos mais devastadores da crise. A graça acabou faz tempo, sobrando apenas os tons de assombro da voz de Robert Plant quando When The Leeve Breaks ecoa nos créditos finais, enquanto que os Gorillaz já nos alertavam no meio da projeção, quando os personagens surgem bêbados de poder sob a letra profética de Feel Good Inc:

“City’s breaking down on a camel’s back
They just have to go ‘cos they don’t hold back
So all you fill the streets it’s appealing to see
You won’t get out the county, ‘cause you’re bad and free
You’ve got a new horizon it’s ephemeral style
A melancholy town where we never smile
All I wanna hear is the message beep
My dreams, they’ve got to kiss me ‘cause I don’t get sleep”

Como se não bastasse, McKay aproveita nossa fragilidade ao final da projeção para soltar informações envolvendo o mercado financeiro de 2015, alertando-nos sobre uma possível nova explosão. Algo que, como bem diz Gosling no início do filme, não é obscuro. A única coisa que precisamos fazer é olhar...

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 28/01/2016

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Vulcão à la Pisa

Vulcão à la Pisa

Um ato de distração de um humano fez com que uma vela sofresse notável comprometimento na base de sua estrutura. Era a maior e mais roliça da casa. Mas, numa tentativa do humano de aproveitar a cera derretida de outra vela, nossa protagonista foi afixada no mesmo pires. O único problema era que essa vela já começada estava em seu fim, pequena e quase desaparecendo, o que deixou o corpo da protagonista exposto à chama moribunda. Tão logo foi afixada, a robusta vela começou a derreter em sua base, ganhando uma estrutura torta que a tornava pouco confiável na missão de se manter na vertical.

A desprezível colega de nossa protagonista, no seu fim, inocentemente responsável pelo dano à outra, foi apagada assim que o humano percebeu seu descuido. Deixou só a antes robusta vela, agora uma figura quebradiça, retorcida sobre si mesma, sem esperança a não ser pender-se cada vez mais sobre si e por fim queimar o resto da base, num processo de auto-destruição que, de tão triste, tornava-se inadvertidamente belo, dada a questionável tendência humana de olhar com curiosidade, e quem sabe admiração, os mais violentos embates intrínsecos do “ser”.

Pobre vela... a tendência à romantização poderia supor que o líquido que formava em seu derretimento não era senão lágrimas, num choro doído mas cada vez mais abundante diante de um destino que, sem qualquer aviso prévio, a destruiu. As causas impessoais apenas tornavam sua situação mais uma triste teia das cruéis contingências que o acaso pode tecer.

Não há heróis nem vilões. O humano distraído nada mais queria que iluminar seu ambiente, poder ler e estudar, e dada a predisposição que não apenas ele, mas qualquer organismo dessa espécie tem de enfurecer-se diante da privação de conforto elétrico, agiu sem pensar. Já a vela há pouco apagada, e que destruiu as bases de nossa protagonista, estava apenas cumprindo seu papel, indiferente de que sua humilde sina de brilhar até o aniquilamento em prol de um ser vivo qualquer pudesse atingir terceiros de modo tão fatal.

Nossa protagonista não tinha nem contra quem dirigir alguma espécie de cólera. Estava sozinha, esquecida para sempre, e logo logo por si mesma, engolfada pelo líquido que seu corpo vertia na base da chama que, devido à recém adquirida inclinação à la Pisa, começou a pingar na lateral.

Os pingos se tornaram constantes. O rápido resfriamento característico de tal substância começou a criar uma estranha estrutura, logo ao lado da base da vale. Os padrões formados lembravam lava, sua formação facilmente confundida (ou metaforizada) em pedras vulcânicas. A estrutura gradualmente cresceu com os pingos constantes da cera que tão logo se resfriava e solidificava, erguendo-se paralelo à protagonista. Não tardou para que a calosa formação crescesse a ponto de se ligar não apenas à base, mas à própria cabeça fervente da heroína. Passando o tempo, a estrutura adquiriu o aspecto peculiar de ser uma única formação, mas com um notável, buraco entre a base e o centro, resultado da curva da deformação adquirida mais cedo, e onde as gotas ferventes não tinham alcançado...

Ainda. Os contornos daquela geografia microcósmica permitiram que as mais recentes formadas gotas pudessem escorregar até o centro, gradualmente preenchendo-o do remanejamento do material em seu passeio entre estados físicos. Não tardou para que a vela estivesse mais uma vez completa, com aparência ainda mais robusta do que antes, já que agora lembrava um vulcão com um lado possuindo íngreme subida e o outro como que intocado pela natureza, por ter mantido o aspecto liso original.

A vela agora queimava curiosamente tendo sua “parte original”, lisa, acabando-se mais rapidamente, sendo engolida pela nova estrutura. Queimou até o fim, no lento ritual de aniquilamento a que parecem submetidas todas as coisas do mundo. Mas a nova formação persistiu, mesmo quando a chama já havia se extinguido.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, fevereiro de 2015

domingo, 17 de janeiro de 2016

Crítica: Spotlight – Segredos Revelados


Crítica:

Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight / 2015 / EUA)

Direção: Tom McCarthy

Spotlight surge como uma lufada de ar para os dias de hoje, embalado quase que em um tom de melancolia diante da dificuldade de se encontrar jornalismo como ferramenta de expressão, de informação e de democracia, como está em sua ideia original. Claro que o longa remonta a tempos antes da explosão da internet, mas a ferocidade apaixonada de seus personagens em estabelecer os fatos corretos para publicar um artigo fidedigno e imparcial não deixa de ser inspiradora, assim como o próprio filme que, como narrativa, apresenta qualidades dignas de um artigo jornalístico bem realizado.

Narrando a investigação conduzida por uma equipe de jornalistas para revelar o processo de acobertamento de padres pedófilos pela Igreja Católica, Spotlight automaticamente remete a obras como Todos os Homens do Presidente, O Jornal, O Informante e Zodíaco, ao adotar uma estrutura focada prioritariamente no processo e dificuldade de coleta de dados. Mas é evidente como o longa encontra lugar próprio ao adequar-se a demandas mais singulares, e se esses outros filmes citados (talvez nem tanto o de Alan J. Pakula) buscavam humanizar seus personagens-jornalistas evidenciando suas famílias ou mesmo mostrando-os em momentos de puro lazer, os “caçadores” aqui são figuras cujos cônjuges, filhos e outros parentes são, salvo a exceção do caso de Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), mantidos nas sombras, mencionadas à parte, como uma forma de manter o espectador atento aos sacrifícios que uma verdadeira produção jornalística exige.

Nem por isso os personagens de Spotlight são menos humanos, já que o roteiro de Tom McCarthy (também diretor) e Josh Singer é hábil ao mostrar os impactos dessa vida frenética nos relacionamentos (veja o caso de Rezendes, interpretado por Mark Ruffalo) e, principalmente, em como os choques com realidades assustadoras promovem momentos de auto-reflexão naqueles indivíduos que são falíveis como qualquer ser humano. Mais humanista ainda talvez seja a postura do roteiro em atentar para as diversas variáveis que envolvem a produção de um artigo tão explosivo como o que é escrito no filme, assim como as consequências psicológicas e sociais que este pode produzir numa comunidade tão entremeada pelo catolicismo como é Boston.

Nesse sentido, quando McCarthy opta por diversos planos onde a estrutura massiva de uma igreja cobre parte do quadro, a função não é apenas lembrar-nos de pequenez daqueles jornalistas diante do monstro contra o qual lutam, mas também como a fé católica representa parte inerente do cotidiano daquelas pessoas, e se reflete no delicado momento onde uma senhora religiosa, que vai à igreja três vezes por semana, lê o artigo e é invadida por tristeza. Como uma verdadeira peça de genuíno jornalismo, Spotlight apresenta imparcialidade o suficiente para não tocar na questão da fé católica, mas sim na descrição de fatos que demonstram aspectos sombrios da instituição da Igreja Católica, e nesse movimento demonstra sensibilidade ao apresentar tanto os relatos mais intimistas que permitem o abuso sexual infantil e o posterior silêncio da criança, quanto outros que dizem respeito à própria “psicologia” dos padres (pedófilos ou não).

E assim o filme de McCarthy se constrói com honestidade ímpar ao usar menos recursos na manipulação emocional do espectador, apostando mais numa enxurrada de diálogos que, ao menos nesse caso, se revela uma postura acertada, mostrando os personagens discutindo constantemente os dados que angariaram. Pois Spotlight é quase uma ode ao jornalismo bem realizado, uma declaração de amor que surge sem romantismo, até porque a romantização iria contra os alicerces do próprio objeto que busca homenagear. E assim, quando muito, McCarthy exerce um controle sutil sobre nós, como ao progressivamente fechar planos no rosto de atores para gerar mais tensão, ou acelerar e diminuir a intensidade da trilha sonora de Howard Shore dependendo das ondulações de tensão da narrativa.

O diretor parece mais preocupado em nos fazer mergulhar num mundo de trabalho constante, exaustivo, evidenciado a partir das toneladas de arquivos, livros e documentos que parecem parte da decoração de diversos escritórios vistos aqui, além das incessantes entrevistas ou tentativas de entrevistas, e que constituem a verdadeira produção jornalística, sendo o sentar-se à frente do computador e escrever apenas uma parte ínfima do processo. Algo que parece não ser tão compreendido hoje em dia, onde informações incorretas envenenam a mídia, assim como interesses institucionais (que fogem do caráter de desafio como a produção do artigo-tema do filme) são influência constante nos textos publicados, sem deixar de lado a dificuldade encontrada em ser verdadeiramente imparcial e adequar a produção escrita aos dados angariados, e não forçando dados reais a compatibilizarem-se com opiniões pré-definidas. Vivendo num mundo assim, confesso que abri um enorme sorriso ao ver o cuidado de Robinson (Michael Keaton) em diversos momentos do filme, até mesmo ao mandar investigar o histórico e a validade do discurso de um entrevistado que aparentemente trazia informações irresistíveis para o caso que investigam.

E é por sua fidelidade aos fatos narrados de forma direta e sem romantização que McCarthy finaliza seu filme com pesos iguais de melancolia e orgulho, pois permite ver a amplitude do artigo, e também como uma instituição poderosa como a Igreja Católica não poderia ser tão abalada assim, nem mesmo pela ferramenta do jornalismo. Mas essa mesma ferramenta foi capaz de causar algum impacto, e se houvesse mais consistência em seu uso, mais dedicação e fidelidade aos dados e à imparcialidade, é possível que a desestruturação de instituições corruptas e corruptoras (como a Igreja) fosse uma realidade mais ao alcance da mão. Mas estamos numa era diferente, e esse é um sonho muito distante...

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 18/01/2016

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crítica: Os 8 Odiados


Crítica:

Os 8 Odiados (The Hateful Eight / 2015 / EUA)

direção: Quentin Tarantino

Antes, uma nota pessoal: nunca fui o maior fã de Quentin Tarantino. Sempre achei seus trabalhos divertidos, mas não “geniais”. Aliás, ao longo dos anos, não pude deixar de me incomodar com a impressão de que a fan base estaria sustentando mais o nome do diretor do que suas obras. E é justamente nesse ponto que Os 8 Odiados funcionou diferente em mim.

Ao término da sessão não pude bem dizer o que tinha achado da obra, defini-la em algum molde. E isso porque, apesar de ser descaradamente um “filme de Tarantino”, o longa apresenta o cineasta numa posição muito mais centrada e madura, a ponto mesmo de transformar muitos de suas marcas registradas em elementos funcionais que fazem mais sentido dentro da construção da narrativa.

Remetendo ao seu Cães de Aluguel ao trabalhar uma narrativa em um número escasso de ambientes, selecionando um onde a trama se desenrolará durante a maior parte do tempo, Os 8 Odiados trás Tarantino saindo de sua zona de conforto desde os primeiros minutos de projeção, quando troca os chamativos letreiros acompanhados de alguma música que logo se tornará um “hit cinéfilo”, por planos abertos que enfocam esqueletos de árvores, nuvens espessas e neve cobrindo solo e montanhas, além de uma trilha tensa de Ennio Morricone, tudo isso preparando o palco para o suspense que tomará a narrativa.

Aliás, a parceria entre Tarantino e Morricone revelou-se rica de um modo inesperado: ao invés de apostar na metalinguagem “tarantiniana” e construir mais uma de suas inesquecíveis trilhas de western spaghetti, como fazia para Sergio Leone, Morricone se contém e cria temas que se preocupam mais em marcar as ondulações da tensão. E mesmo quando a metalinguagem aparece na trilha, vem com um aspecto funcional raro à filmografia do diretor: mais do que fazer “brilhar olhos de cinéfilo” com o reconhecimento de alguma obra clássica, o instante em que Morricone aplica parte de sua trilha composta para O Enigma de Outro Mundo em 1984 vem acompanhando um momento marcante do personagem de Kurt Russell (que protagonizou aquele clássico), além de, como um todo, tal escolha musical ser mais do que adequada, dado ambos os filmes tratarem de pessoas presas em um local isolado devido a uma nevasca intensa, e sem poder confiar em ninguém à sua volta. Isso sim é Cinema conversando com Cinema.

Mas não é apenas na trilha sonora que se reflete uma maior funcionalidade, e até mesmo elegância, no usual saudosismo cinematográfico de Tarantino. Dentre tantos elementos, um que deve ser abordado numa crítica desse filme é, claro, seu maior chamariz: a fotografia rodada no sistema Panavision 70mm, que havia sido abandonado em 1966. O mais fascinante, no entanto, é o profundo conhecimento que Tarantino demonstra não apenas sobre História do Cinema, mas sobre a Arte de contar histórias visualmente, e que fez com que o cineasta fizesse um tremendo esforço para ter seu filme rodado nesse formato. Juntamente com o diretor de fotografia Robert Richardson, Tarantino inverte as regras do uso do formato: ao invés de predominar cenas externas, como o comum para o 70mm, os realizadores utilizam o formato para angariar maior tensão, explorando planos fechados que capturam minúcias das expressões dos atores, além de permitir que a fotografia por si só, usada nesse formato e dessa forma, garanta um ambiente mais claustrofóbico. De novo então: Tarantino aqui não está usando o recurso por ser “legal”, mas por ter claro papel na manipulação emocional do espectador.

De toda a forma, o diretor ainda trás muito de suas marcas registradas. Há aqui o humor negro escandaloso, a narrativa que quebra as convenções cinematográficas (a narração em off que surge a partir da metade da projeção; cenas idênticas vistas de pontos de vista diferentes; divisão em capítulos; etc), além dos extensos diálogos. Esse último exemplo, por sinal, tem um papel ambíguo em Os 8 Odiados: se por um lado há diálogos fascinantes, como o do clímax, existem outros que cansam. No entanto, eles tem uma função também: permitir que conheçamos aqueles personagens o suficiente para que seus preconceitos pessoais fiquem explícitos. Ainda assim, se por um lado admiro um filme que se construa com calma, apresente e desenvolva seus personagens devagar, Tarantino não carecia de diálogos tão excessivamente longos para cumprir esse objetivo. Mas ao menos existe função para eles. Não são tão repletos de nada.

Esse detalhe se torna um pecadilho perto das tantas virtudes de Os 8 Odiados, que incluem ainda um design de som pontual ao manter o som da nevasca constante, lembrando-nos dos perigos de sair da cabana, enquanto os perigos de continuar lá dentro pulsam constantemente através de um clima de antipatia nunca quebrado entre os personagens, que explode em mortes inesperadas a todo momento. Com um elenco afiado (Samuel L. Jackson tem alguns de seus melhores momentos aqui), Tarantino ainda brinca com as expectativas do espectador ao manipular o tempo da narrativa, se divertindo de uma forma que não fazia desde Jackie Brown, em 1997, ao apresentar elementos novos na trama de uma forma pouco convencional, mas que funciona, algo surpreendente para um filme que depende tanto da claustrofobia constante para funcionar. E se o diretor tem a ousada decisão de manter extensas falas de personagens contando casos sem usar um recurso visual (como flashback) para acompanhar, acaba acertando por assim nos manter mais próximos dos eventos presentes, apesar do próprio Tarantino se contradizer nos objetivos dessa estratégia ao manipular a narrativa para revelar elementos que aconteceram na manhã anterior, logo nos tirando dos eventos presentes. Mas ok, passemos por esse outro pecadilho e cheguemos ao momento em que Tarantino novamente subverte sua própria lógica ao usar um flashback em um momento específico, o que acaba se revelando uma decisão madura do cineasta já que, diante desse monólogo (você o reconhecerá) não poderíamos ficar sem efetivamente ver os eventos narrados, para que eles possam repercutir mais violentamente em nós.

Mas há ainda mais ambição em Os 8 Odiados do que os parágrafos anteriores revelam. Se Django Livre e À Prova de Morte já traziam algum traço de ambição temática, seu novo trabalho apresenta uma complexidade muito maior ao funcionar como uma alegoria repleta de camadas. Aqui, pedirei que quem não viu o filme pule para o último parágrafo. Tchau! Então: Tarantino cria personagens que funcionam a partir de seus aspectos mais óbvios: a mulher, o negro, o inglês (representando o caráter colonial), o representante da lei, o mexicano, o racista, o condutor de carruagem (trabalhador braçal abusado constantemente), e ainda tem o cara que enriqueceu mais rápido que todos. Enfim, o que importa aqui é que os personagens do longa acabam por funcionar como uma representação microcósmica dos EUA, algo que se torna óbvio quando dividem a cabana em Norte e Sul.

Com o preconceito pulsando a todo momento, e criando mais tensão entre aquelas figuras, há toda uma linhagem hereditária de ódio mantendo fronteiras muto frágeis entre aquelas pessoas. A questão que Tarantino explora aqui é justamente a violência que governa essas relações, o que permite que o diretor mantenha um olhar melancólico e irônico sobre o universo que ele mesmo chamou, em entrevista, de “pós-apocalíptico”. Como se a violência absurda que toma conta da projeção já não fosse prova disso, o plano final apresenta uma ironia visual gritante, quando ouvimos a leitura da carta de Lincoln falando “Mas, de mãos dadas, chegaremos lá” e vemos, em primeiro plano, o cadáver de Dasy ainda acorrentado (“de mãos dadas”) com o braço amputado de John Ruth. Uma metáfora visual que fecha com brilhantismo um filme que começa com outra metáfora: neve branca para todos os lados, quebrada por troncos, pedras e um Cristo pretos que, juntamente ao apresentar apenas cavalos pretos e brancos, revela a simplicidade da visão de mundo daquelas pessoas, que enxergam o universo através do simplismo do preto e branco: a violência enquanto denominador comum, como modo de resolver conflitos. Já dizia Isaac Asimov em sua trilogia Fundação: “a violência é o último refúgio do incompetente”.

E assim, quando o filme logo de cara nos mostra um longo travelling de um Cristo de madeira enegrecida, vemos a imagem melancólica do homem que supostamente morreu por nós para dar lugar a uma selvageria desenfreada que ainda governa as relações humanas, e basta observarmos a densidade do preconceito e intolerância que reinam nos EUA e no mundo (lembram-se de Paris?) para podermos contemplar que, mesmo nem sempre com o tom explícito desses Odiados, carregamos muito deles. Esse novo filme de Tarantino, assim, conversa com a filmografia de Sam Peckinpah: sim, a violência é o denominador comum, mas será mesmo nossa expiação, como é para esses personagens? Se pensarmos em um mundo onde a maior parte da humanidade acredita em um deus que mandou à morte com requintes de crueldade seu próprio filho... bem, talvez a lógica dos Odiados faça sentido, e o Cristo no início seja uma metáfora ainda mais rica...

Quentin Tarantino virou adulto, se transformou num artista com propostas mais sérias e coesas em seu diálogo com o mundo, escapando do lugar-comum de sua auto-indulgência. Agora sim!

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 05/01/2016