quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Melhores Filmes 2015

Melhores Filmes 2015

Construir essa lista é uma tarefa bastante ingrata, apesar de divertida, para quem escreve ou para quem lê. Ingrata porque não tem a mesma graça, convenhamos, ler uma lista dessas que simplesmente liste os melhores filmes do ano sem uma ordem “de preferência”; já quando se estabelece uma ordem, há uma série de questões a se considerar: o que faz com que o filme X seja melhor do que o filme Y? Mad Max – Estrada da Fúria não tem simplesmente nada a ver com Selma, e ambos os filmes alcançam brilhantemente suas propostas. Por quê um seria melhor do que o outro? É simplesmente por quê “eu gostei mais”? Não, não curto isso.

Dessa forma, a ordem de preferência em que listarei as seguintes obras seguem um critério mais específico. Não quer dizer que eu goste mais de Blind do que de Divertida Mente, por exemplos, mas a ordem se dá na medida em que, segundo as minhas análises de cada filme, consegui enxergar uma maior habilidade dos respectivos realizadores em se utilizar dos meios audiovisuais para trabalhar não apenas a trama, mas o modo como o espectador percebe e se envolve com essa, é manipulado pelos elementos cinematográficos presentes. Ainda, levei em consideração o critério do quanto esses filme ousam em relação uns aos outros à forma como trabalham associações viciadas do espectador comum e, por vezes, torcem as estruturas mais comuns do fazer cinematográfico para conseguirem resultados mais inovadores/interessantes.

Dito isso, e ainda antes de começar a lista, gostaria de dizer que 2015 foi um ano em que assisti um número menor de filmes, e assim, obras que aparecem em diversas listas podem não estar aqui pelo simples fato de que ainda não as conferi, como, por exemplo, Carol, Os Oito Odiados ou Adeus à Linguagem. Além disso, os filmes aqui listados lançaram comercialmente no Brasil em 2015, mas podem ter lançado antes em seus países de origem (exemplo, Selma e Foxcatcher).


Um brevíssimo texto acompanha cada filme, remetendo ao link de uma crítica mais completa, caso eu tenha escrito.

1.     Sicario – Terra de Ninguém

Esse novo filme de Denis Villeneuve trata da questão da luta contra o narcotráfico a partir de uma abordagem mais visceral do que racional. O cineasta se utiliza de uma série de estratégias audiovisuais além de truques de roteiro que desafiam o aconchego do espectador comum e sua relação com o Cinema para proporcionar uma experiência que perturbe num nível irracional, e assim nos aproxime da sensação de caos experimentada por aqueles personagens.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/10/critica-sicario-terra-de-ninguem.html

2.     Blind

O filme de Eskil Vogt prima por, diferente do que se declaram diversas obras “cult”, ser realmente intimista. Vogt se utiliza de estratégias audiovisuais e num ousado uso da montagem para trabalhar a percepção do espectador, colocando-o no lugar de uma mulher adulta-jovem recém cega e deprimida.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/08/analise-blind-blind-2015-holanda.html


3.     Que Horas Ela Volta?

O badalo todo não é à toa. Anna Muylaert conseguiu criar uma obra-prima com um termômetro social preciso, captando o choque de gerações em um país em constante mudança, através de uma narrativa que se constrói com parcimônia, e cujas maiores críticas se dão não de uma forma agressiva, mais sim a nível mais pessoal, levando o espectador a encarar as interações construídas no Brasil a partir de um prisma que enfoca os problemas a construção “psicológica” desses problemas, totalmente intrincadas na sociedade.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/08/analise-que-horas-ela-volta-que-horas.html

4.     Divertida Mente

Depois de um tempo capengando, a Pixar conseguiu produzir um filme singelo em termos de criatividade e ambição temática, usando os meios visuais não apenas para deslumbrar com invencionismos e piadas divertidas, mas também para situar o espectador emocionalmente naquele mundo.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-divertidamente-inside-out-2015.html

5.     Mad Max – Estrada da Fúria

Filmaço nervosíssimo de ação, Mad Max – Estrada da Fúria chuta de lado diversas convenções narrativas e cria uma obra prima que funciona de modo independente de nossas expectativas, ao mesmo tempo que, de forma predominantemente visual, aborda diversas e fascinantes questões sociais e mitológicas em um universo absurdo que reflete muito da humanidade.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/05/critica-mad-max-estrada-dafuria-mad-max.html

6.     Nós Somos as Melhores!

Enquanto a maioria dos filmes suecos trabalham seus temas mais a nível melancólico, Nós Somos as Melhores! encanta justamente por uma abordagem inocente, brincando com as sensações do espectador ao nos colocar em um mundo frio e tristonho apenas para nos fazer apaixonar por personagens tão adoráveis em suas complexidades de pré-adolescentes rebeldes e docemente incoerentes.

7.     O Ano Mais Violento

J.C Chandor prova mais uma vez sua capacidade de contar histórias inesperadas com personagens complexos em um tom minimalista que confere elegância e frescor à narrativa, além de, nessa obra em particular, conseguir nos mobilizar num universo multifacetado a partir de enquadramentos singulares, uso de cores e da própria ambientação como termômetros emocionais do filme.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/04/critica-oano-mais-violento-most-violent.html


8.     14 Estações de Maria

Uma das coisas mais malignas que se pode fazer a uma criança é dar-lhe educação religiosa, lhe extirpando a possibilidade de desenvolver um pensamento cético saudável de curiosidade na sua relação com o mundo. Adotando esse posicionamento, 14 Estações de Maria faz uso de uma estratégia narrativa incomum e bastante perturbadora, mas pontual para conseguir passar, visualmente, a percepção de um mundo rígido em dogmas absurdos que escraviza jovens “mentes”, e todas as desgraças que essa irracionalidade induzida produz.


9.     Vício Inerente

Paul Thomas Anderson sempre ousa bastante na estrutura de seus (excelentes) filmes, e em Vício Inerente o cineasta é extremamente bem sucedido na empreitada de criar uma obra que, mais do que qualquer proximidade com a lógica, visa desenvolver uma experiência de puro caos, através de diálogos nonsense, uma trama incoerente, uma montagem lisérgica e diversos efeitos de fascinante sutileza para nos colocar no mundo hippie dos EUA nos anos 70.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/03/critica-vicio-inerente-inherentvice.html


10.     Ex-Machina

Alex Garland já mandava bem em seus roteiros, e agora, na direção, se provou capaz de criar uma obra de tensão constante a partir da relação de três personagens em um lugar isolando, alcançando a proeza de estabelecer uma atmosfera evocativa através de minuciosa construção audiovisual (os cenários, as cores, a mise en scéne, metáforas visuais), revelando-se mais ambicioso ao discorrer, nas entrelinhas, sobre poderosas questões sociais, além de, deliciosamente, nos puxar o tapete.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-ex-machina-ex-machina-2015.html


11.     The Lobster

Obras que transtornam nossas associações viciadas sempre promovem surpresas fascinantes, e The Lobster é um filme que se empenha em produzir um tom melancólico e nos chocar com um bom humor admirável, tudo isso em uma narrativa estruturada com perfeição ao criar um absurdo e coerente universo e funcionar como alegoria com múltiplos significados.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/12/critica-lobster.html


12.     Corrente do Mal

Como os citados Ex-Machina e Sicario, Corrente do Mal fascina por funcionar mais em seu tom evocativo do que necessariamente pela lógica. Aliás, o filme de David Robert Mitchell não parece se preocupar com qualquer espécie de coerência ou cerne temático, mas mais em permitir que o espectador se indague sobre alguma possível interpretação (enquanto talvez não exista nenhuma), a partir de uma diversos elementos audiovisuais e decisões narrativas aparentemente aleatórias, enquanto cria um terror belamente eficaz.

Crítica: http://digressoeslw.blogspot.com.br/2015/06/critica-corrente-do-mal-it-follows-2015.html


13.     Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo

A partir de uma pavorosa história real, o cineasta Bennett Miller consegue desenvolver minuciosamente a relação problemática estabelecida por três pessoas e suas graves consequências, construídas a partir de pequenos detalhes. Nisso, Miller cria uma atmosfera melancólica e trabalha ambientações assombrosas para nos guiar emocionalmente a partir de representações visuais dos conflituosos sentimentos desse trio.


14.     Selma

Apesar de extremamente competente nos quesitos audiovisuais, o que mais chama atenção em Selma é mesmo a forma como a cineasta Ava DuVernay trabalha uma cinebiografia coesa em um tempo contido (sem grandes lapsos) e com um fascinante termômetro moral, visando mesmo nos inserir na grandiosa e intrincada questão da luta dos negros por mais direitos nos EUA a partir de um olhar a nível do humano, observando “falhas” de caráter e fraquezas mesmo em indivíduos do naipe de Martin Luther King Jr., o que apenas os engradece em complexidade.

15.     Cássia

Traindo o que prometi no início da lista, o que fascina em Cássia está longe de seus aspectos cinematográficos, mas é mais na força colossal de sua personagem título, Cássia Eller, e os relatos emocionados que permitem uma visão ampla ao mesmo tempo que intimista da cantora, fazendo ainda com que a trágica conclusão de sua história sirva de espelho para problemas sociais muito presentes nos nossos dias.

Feliz 2016 procês.


Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
                                                                                                Goiânia, 31/12/2015

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Crítica: The Lobster


Crítica:

The Lobster (The Lobster / 2015 / Grécia, Reino Unido, Irlanda, Holanda, França)

Direção: Yorgos Lanthimos

Em uma espécie de realidade alternativa, homens e mulheres solteiros são forçados a ficar em uma espécie de hotel, onde tem o prazo de 45 dias para conseguir arrumar novos parceiros; caso contrário, são transformados em alguma espécie de animal infra-humano previamente definido. Veja bem... isso é diferente. Meio esquisito, talvez. Não se depara com uma trama tão peculiar assim sempre.

Diretor do perturbador Dente Canino, Yorgos Lanthimos parece se dedicar a histórias que se passam em realidades absurdas que, num strip tease bizarro, gradualmente se revelam aos olhos de um espectador perplexo. Muitas vezes, essas histórias colocam lentes de aumento sobre comportamentos peculiares de indivíduos submetidos a algumas contingências notavelmente raras, e como as personalidades de cada um parecem ser moldadas de acordo com esse ambiente em que vivem. Dito isso, The Lobster, com a trama tão peculiar descrita acima, insere seus personagens em um mundo sob controle extremamente aversivo, ao mesmo tempo em que, curiosamente, revela-se uma empreitada de caráter inegavelmente cômico.

O mundo de The Lobster cheira bastante a alegoria, um tom que o próprio roteiro parece insistir em reforçar a partir de uma narração em off que, revelando sua verdadeira face apenas com o decorrer da projeção, faz com que o filme se assemelhe a alguma fábula infantil. Apesar disso, os realizadores buscam lembrar constantemente a melancolia que permeia aquele universo, com figurinos e cenários que parecem drenados de cor, com tons envelhecidos de, basicamente, verde, marrom e cinza, enquanto que a trilha de cordas ou de velhas e desgastadas canções românticas em francês, se juntam a um ambiente que parece sempre invernal. Enquanto isso, Lanthimos filma seus atores sempre em planos mais abertos, basicamente evitando primeiros planos, numa estratégia visual que distancia o espectador de personagens que parecem sempre desconectados, de si e dos outros.

O mais curioso de The Lobster, no entanto, é que esse tom depressivo que assola o espectador durante toda a projeção, entra em choque com piadas (visuais ou verbais) que surgem a partir de elegante sutileza, buscando extrair humor simplesmente a partir do absurdo do funcionamento daquela realidade, como, em exemplos admiráveis, as cenas envolvendo as instruções e representações teatrais de como “viver a dois é mais fácil que viver sozinho”, ou ainda a partir do serviço sexual do hotel, que mantém os hóspedes satisfeitos sexualmente apenas o suficiente para quererem mais, e isso tudo porque nem citei ainda as pessoas dançando música eletrônica com fones de ouvido no meio do mato. Esse humor não vem sem função narrativa, já que permite que o espectador entre em contato com estímulos discrepantes, a melancolia do visual e o humor do absurdo tão gritante, que fazem com que, primeiro, o filme ganhe um sabor diferente do comum, e segundo, possa criar uma sensação de desconforto no espectador para que os objetivos alegóricos do filme ganhem maior evidência a partir de uma sutil exacerbação de toda aquela bizarrice. Ainda, esse humor ameniza, sem deixar que nos surpreendamos, com aspectos notoriamente mais violentos e alienados daquele universo, como a caça aos “rebeldes solitários” ou as punições físicas contingentes ao contato sexual e/ou masturbação.

Lanthimos vai assim conseguindo que compreendamos os comos e por quês do funcionamento daqueles indivíduos. Dentro de uma sociedade altamente coercitiva, os homens e mulheres vão assumindo características quase robóticas, falando suas falas como se fossem programados para expressarem um tom determinado de polidez e um otimismo claramente incoerente com as próprias expressões faciais daquelas pessoas. Ainda, os comportamentos de "sedução" que cada um dirige a um parceiro em potencial parecem vir sempre dentro dos moldes do que é socialmente determinado. No caso, os casais só podem ser formados se tiverem alguma característica em comum entre eles, como um nariz que sangra o tempo todo ou uma visão míope.

E aqui entra a minha interpretação pessoal do “significado” da alegoria construída por Lanthimos, dentre as diversas possíveis interpretações. The Lobster parece discorrer sobre como mesmo os afetos mais profundos, sentimentos de amor e paixão, parecem depender em grande parte das contingências estabelecidas em formas de regras pela política que rege aquela sociedade. Quando se trata de estabelecer uma ligação puramente centrada na ideia da necessidade social de ter um relacionamento, parece não importar para todo mundo que haja apenas uma espécie de farsa aceita no fingimento de características concomitantes, desde que não sejam desmascarados pela autoridade. Mas quando um casal quer viver algo “verdadeiro”, único, realmente movido por sentimentos genuínos de amor, carinho e paixão, a regra da característica concomitante parece ser curiosamente indispensável. Pegue, a guisa de exemplo, o casal apaixonado unido pelo fato de serem míopes. Ambos não conseguem tirar as mãos um do outro, mas o (brilhante) roteiro move a narrativa de forma com que eles se vejam pressionados pela dicotomia entre os seus sentimentos e o que é estabelecido como “aceito” pela sociedade. Se um deles não for míope, seu amor seria ainda tão aceitável? Aceito pelo próprio casal, inclusive, formado por criaturas criadas e ensinadas dentro de uma sociedade que, como uma religião, cria dogmas absurdos? Aliás, que sociedade não tem seus dogmas?

Finalizando com uma nota ambígua de enorme elegância narrativa ao ecoar os temas mais pulsantes e complexos da obra, The Lobster estuda o ser humano a partir de uma ficção com sentimentos e comportamentos bem reais, explorando os extremos e as fissuras sombrias da humanidade que, organizando suas próprias contingências a partir de um comportamento verbal torpe, cria uma série de “eus” que não podem se identificar com “outros” e nem consigo mesmo.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 29/12/2015

Ciclônico



Sobrava apenas leve sopro
Do que foi impiedosa ventania.
Árvores tortas,
Vítimas do vento.

Não visto,
Não tocado,
Apenas sentido.
Corpos desmembrados,
Carros capotados,
Parques infantis destruídos,
Crianças atravessadas por enferrujados ferros de brinquedos.

Rios de lágrimas secadas pelo invisível.
Frequente dor nos ossos do frio que ultrapassa a pele.
Uivo fantasmagórico do vento entre destroços.
Terra vermelha revirada.

A garota sentada no tronco tombado da um dia frondosa Árvore.
O vestido, antes amarelo,
Agora com sujeira vermelha e azul
Misturadas
Deixando manchas roxas,
Que jamais poderiam ser removidas.

Lágrima escorre dos olhos azuis,
Criando trilha branca na pele suja.
Escorrega pela boca crispada,
Lábios cortados.
A gota se ramifica.

Passa pelo queixo e cai na mão da garota,
Escorre através de seus dedos,
Encontrando a rosa vermelha amassada na mão fechada.
A gota morre escorrendo pela flor.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 14/12/2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Crítica: Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força

Crítica:

Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (Star Wars – Episode VII: Force Awakens / 2015 / EUA)

Dir. J.J. Abrams

Hype à parte, Star Wars tem grande mérito ao misturar uma série de influências, pegando emprestado dos westerns, filmes de artes marciais, piratas, ficção científica e uma dose de zen-budismo para criar uma mitologia intrigante e multifacetada, que usa ainda uma linha narrativa objetiva e com personagens carismáticos e até mesmo complexos para capturar o espectador. Isso tudo ao menos é verdade para os episódios IV, V e VI, sendo as três prequels verdadeiros espetáculos visuais, mas que pecavam em especial pela narrativa burocrática e os personagens unidimensionais. E é compreendendo a fundo o que funcionava e deixou de funcionar na franquia que Michael Arndt, J.J. Abrams e Lawrence Kasdan (que trabalhou em V e VI e em Caçadores da Arca Perdida) fazem de O Despertar da Força um esforço tão exemplar.

Em primeiro lugar, o excesso de subtramas que inchavam os episódios I, II e III é substituído por uma narrativa mais simples e objetiva que pode ser desenvolvida com calma, ao mesmo tempo em que, a exemplo dos clássicos originais, mantém o ritmo pautado por diversas sequências de ação. Nesse contexto, os roteiristas enriquecem a mitologia da franquia pontuando tangencial e objetivamente aspectos daquele universo, como ao abordar a origem dos stormtroopers ou detalhes culturais de cada planeta, tendo destaque o modo como se comportam os esfomeados habitantes de Jakku.

Ainda, a objetividade da trama é necessária para não nos perdermos entre os diversos personagens apresentados, que recebem um tratamento coerente e tridimensional na pele de atores competentes como Oscar Isaac e Adam Driver, tendo Lupita Nyong’o dublando a fantástica Maz e Max von Sydow (sim!) marcando presença em uma ponta memorável, enquanto BB-8 assume-se como um adorável adendo robótico. O Despertar da Força ainda se torna um longa mais admirável ao desde o início nos surpreender humanizando um stormtrooper que, na pele de um afro-americano, ganha papel protagonista em uma franquia até então comandada por brancos, enquanto, em ano de Imperatriz Furiosa e Ilsa Faust, temos mais uma obra onde uma mulher é protagonista forte e independente que a todo tempo afirma isso, verbalmente ou não (“não precisa segurar a minha mão para correr!”). Mais bacana é que os roteiristas em momento algum chamam atenção para esse detalhe, evitando que o filme soe como um discurso político pomposo e permitindo que se desenvolva como algo racional feito para pessoas também racionais.

Se Finn e Rey então protagonizam assumindo papel na ação e ao mesmo tempo servindo para introduzir novos espectadores à série, personagens clássicos brotam com a adequada aura de nostalgia sem que essa se torne o foco, permitindo que o espectador sinta por si só toda a magia provinda das presenças de Han Solo, Chewbacca, Leia, C-3PO, R2-D2, Millenium Falcon (claro), e uma série de personagens dos originais que aparecem pelos cantos, enquanto frases clássicas de cada um são soltas à vontade permitindo que quem acompanha a franquia sinta aquele calorzinho do reconhecimento (“I have a bad feeling about this”, “We’re doomed!”, etc). O mais fascinante, no entanto, é a maturidade dos roteiristas enquanto contadores de histórias ao abandonar características desses mesmos personagens e sua interação para um repertório que melhor se adeque às necessidades da trama atual. Exemplo perfeito é a relação de Han e Leia, antes “casal que briga mas se ama” e agora marcada pelo tempo e situações trágicas, trazendo um peso aos personagens que inclusive permitem Harrison Ford e Carrie Fisher explorar seus papéis a partir de nova abordagem.

Não surpreende então que J.J. Abrams seja a escolha ideal para comandar o projeto, dado seus excepcionais empreendimentos no mundo de Star Trek, que também conversavam bem a nostalgia e o desenvolvimento de uma nova história com abordagem própria. A direção de Abrams, aliás, é segura, renegando sua tara por flares (aleluia!) e permitindo que o filme se desenvolva de forma perfeitamente equilibrada mantendo o ritmo firmemente compassado pelas sequências de ação, intensas e criativas, conseguindo a proeza de fazer lutas com sabres de luz se tornarem verossímeis (o próprio George Lucas não havia conseguido isso com I, II e III). Ainda, John Williams tem seu primeiro trabalho competente em anos, finalmente não comentando a narrativa e seus humores a partir da trilha sonora, mas criando e reutilizando faixas que pontuam a tensão e a nostalgia de modo comedido. E se um bom filme de ação funciona se tiver um bom vilão, Kylo Ren assume a função com intensidade, criando um vilão que consegue soar aterrorizante, mas também complexo em uma certa imaturidade, que o torna ainda mais ameaçador, mérito também de seu interprete (que não revelarei por respeito a quem não viu o filme).

E falando em quem não assistiu, talvez prefiram pular para o próximo parágrafo. Vai lá. Pronto, agora: O Despertar da Força tem diversos méritos, mas tem também um problema grave que incomoda, referente ao desenvolvimento de Rey enquanto Jedi. A personagem é forte e carismática, além de Daisy Ridley ser uma atriz razoável, mas ainda seu papel é desenvolvido com uma pressa que não tem igual no resto do projeto. Se o domínio da Força por Luke Skywalker em IV, V e VI já incomodava um pouco por pular etapas importantes, revelando-o surpeendentemente mais habilidoso ao início de cada episódio, Rey, em um mesmo filme, em apenas alguns dias de exposição a tantas experiências, passa de catadora de lixo tristonha com uma existência solitária em Jakku, para alguém que domina a Força com destreza ímpar, manipulando mentes e inclusive lendo pensamentos, sem nunca nem mesmo receber alguma instrução para isso. Bom, nesse sentido quem precisa de Obi-Wan Kenobi ou Yoda, não?

Ainda assim, O Despertar da Força se sustenta bem, capaz mesmo de criar uma narrativa que, mesmo com a exata estrutura de Uma Nova Esperança, prima por possuir início, meio e fim, deixando espaço para questões não elucidadas apenas o suficiente para nos atiçar quanto ao próximo episódio. E que venha Episódio VIII.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

17/12/2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A Chave da Rosa

A CHAVE DA ROSA

para Camila Lopes de França Belém


“Vou dormir para sonhar, para acordar” Jack Kerouac

O galo em seu celular cantou mais uma manhã, e mais uma vez Samantha se perguntou por que diabos mantinha esse despertador. Nenhum de seus amigos ou familiares gostavam, e muito menos seus antigos amantes. Passada a irritação habitual, ela chegou novamente às mesmas possíveis conclusões: a) justamente porque as pessoas em geral desaprovavam; b) lhe lembrava um ambiente mais interiorano que pouco fazia ou fez parte de sua vida mas que ainda assim lhe causava certa nostalgia; c) era um som peculiar que muita gente não usava no celular.

Essa impressão de certa agressividade revoltosa latente logo deu lugar à sua doçura habituais, e mesmo o mau-humor matinal era completamente perdoável e prontamente esquecido enquanto ela andava por sua casa cumprimentando e alimentando seu imenso pastor alemão Buck, seus periquitos Rick e Regina e seu peixinho dourado Oscar.

Depois de sua ducha, cantarolando um suave blues, abria as cortinas um tanto retalhadas de seu apartamento, lançando uma parca luz das pequenas janelas, iluminando sofás desgastados e alguns porta-retratos que, por motivos que só ela poderia dizer, estavam baixados, sendo engolidos por camadas de poeira que, por sinal, eram uma constante no resto do lar, cobrindo inclusive, para seu desgosto, a grande quantidade de livros que há tempos desistiu de organizar, e que assim se viam espalhados pelo chão do apartamento.

Enquanto o café coava, Sam caminhava pelos cômodos, e não pela primeira vez essa caminhada à deriva terminou em frente ao antigo, porém imaculadamente limpo, quadro que pintara há sete anos, agora mantido em sua sala de estar, num lugar que recebia bastante luz matinal. Na época, criara uma história envolvendo a solitária figura do marinheiro em seu barquinho, gravada na moldura. Aquele marinheiro, observando de longe uma multidão no litoral, ao pôr do sol, era um homem admirável que nutria o desejo de ver todos sorrindo, um nobre, porém reconhecidamente inalcançável objetivo. Mas ele não sofria por isso, mantendo sempre uma postura altiva e otimista frente a tudo, inclusive quanto ao seu desejo. Nos últimos três ou quatro anos, a visão desse quadro e essa reflexão nunca falhavam em colocá-la em um estado de melancolia, porém ela nunca conseguia entender o por quê, tampouco trocando a pintura de lugar.

Buck fez o favor de tirá-la desses devaneios com seus insistentes latidos para ser levado para passear. Tampou a garrafa de café e foi fazer a vontade do cão.

Ao sair de prédio, Sam, que costumava virar à direita, tomou a esquerda, sem prestar atenção nesse ato. Desse lado de seu prédio havia um terreno baldio, e no meio de sua terra morta, Sam visualizou um elemento belo e surrealista em sua falta de sentido ambiental. Se tratava de uma rosa.

A moça caminhou até a flor, deixando Buck correr alegremente pelo grande espaço ao redor. Ao examiná-la mais de perto, Sam notou, maravilhada, a peculiaridade daquela rosa que, branca por fora, era vermelha por dentro. Ela nunca havia visto coisa igual, e nem mesmo tão cheirosa.

Decidida, ela volta ao apartamento e pega um vaso que pertencia a um falecido e querido professor seu, a quem o objeto era caro, e por isso mesmo ela o mantinha, até agora, inutilizado dentro de seu armário. Voltando ao terreno, ela pegou a rosa com a terra ao redor e cuidadosamente a colocou no vasinho. Ela iria fazer o que pudesse para que a flor continuasse viva o maior tempo possível.

E assim a rosa se tornou seu xodó, um projeto todo especial ao qual ela dedicava enorme carinho e atenção, mais até do que para boa parte de sua vida, seja sua casa, seu trabalho, estudos, o que quer que seja. Passava muito tempo olhando para a flor, e sempre a aguava, deixando-a numa parte mais iluminada de seu apartamento, além de sempre lhe dirigir distraídas palavras carinhosas. Assim, a rosa mantinha-se linda e cheirosa, conferindo um aroma divino ao apartamento durante vários dias. Qualquer pensamento negativo fugia da cabeça de Sam ao lembrar-se que a flor continuava firme e forte.

Em uma madrugada, porém, algo inusitado aconteceu. Sem conseguir dormir, Sam levanta-se para tomar uma taça de vinho, e no caminho de volta para o quarto decide dar uma olhada na rosa. Mas... ela não está no vaso.

Perplexa e assustada, Sam solta um palavrão e começa a procurá-la, sabendo de antemão a futilidade de sua ação. Apenas para coroar essa situação, a moça acidentalmente esbarra seu braço no vaso de seu professor. Frente a isso, ela grita um palavrão mais indignado ainda, e quase não consegue segurar as lágrimas. Não só havia inexplicavelmente perdido seu querido tesouro como tinha perdido uma lembrança cara de uma pessoa que lhe era muito querida; uma lembrança concreta sem a qual, agora, só havia a informe bruma da memória para lhe garantir.

Mas, desde pequena, Sam evita chorar por pouco, e, respirando fundo, ajoelha-se para catar os pedaços do vaso e limpar a sujeira. Enquanto faz isso, descobre outra surpresa em meio a terra: uma enferrujada chave prateada. Ela não tinha sentido esse objeto quando recolheu a rosa do terreno, e achava improvável que a rosa tivesse crescido com algo assim do lado. “Como se essa história toda fizesse algum sentido”, pensou ela justamente para não ficar pensando demais. Chateada, Sam voltou para seu quarto e, dando mais uma última olhada para a chave, sem ter a mínima idéia do que poderia fazer com aquilo, deixou-a no criado mudo e foi dormir.

Nos dias que se seguiram, Sam carregou a chave consigo, apenas para desencargo de consciência. Tendo crescido permeada pela Literatura, a noção romântica e ilógica de que aquela chave tinha algum propósito ficava na esquina de seus pensamentos, sem receber muita atenção e, no entanto, recebendo o suficiente para que a moça, sem perceber muito bem o que fazia, testasse a chave em tudo quanto era lugar abandonado ou gaveta que encontrasse pelo caminho. Até carros foram testados. “Se a história dessa chave é altamente improvável”, pensava ela, “deve pertencer a um ambiente idem”. Mas não obteve sucesso nessa busca.

Certa noite, com a chave novamente no criado mudo, Sam teve um sonho particularmente bizarro, mesmo dentre o surrealismo habitual do mundo onírico. A moça se viu de pé, sozinha, no barco no lugar do marinheiro de sua pintura. Deliciada ao notar essa situação, ela olhou para o litoral e percebeu-se afastando de uma grande multidão, que a observava sem emitir um pio ou expressar algum movimento. Sam surpreendeu-se ao não perceber em si o desejo de ver aquelas pessoas todas sorrindo, como na história da pintura, mas notou algo mais profundo por baixo desse sentimento: o desejo de poder sorrir simplesmente por ter esse desejo, e sorrir por sorrir. Sorriu ao perceber isso.

Afastando-se cada vez mais, o litoral se tornou indistinguível no horizonte. Sam então olhou para trás e notou que se aproximava de uma grande fortaleza de gelo, cujos limites horizontais não conseguia distinguir, e cujo topo chegava a tocar as nuvens. Aproximando-se cada vez mais dessa majestosa estrutura, ela foi se sentindo pequena e assombrada, arrepiando-se ao notar a imensa abertura pela qual entraria dentro de poucos instantes. Ao se ver engolida pela estrutura, ela pode notar que os reminiscentes resquícios de luz do dia eram filtrada pelo gelo, permitindo certa iluminação à caverna e à neve que cobria o solo no qual Sam viu-se em pé, quando seu barco simplesmente não existia mais.

Com frio e medo, ela foi adentrando a caverna, caminhando até as pernas doerem, atravessando corredores labirínticos sem fim, até chegar no que parecia um grande salão iluminado em seu centro, cuja luz provinda da pequena abertura no topo da muralha era circundada por um enorme lobo cinzento, que calmamente, e não sem certo tédio, olhou para sua convidada, como se a conhecesse de alguma forma. Paralisada a princípio, Sam decidiu encher-se de coragem e seguiu em frente, passo ante passo, torcendo para que a fera não resolvesse adotar uma postura mais agressiva.

A apenas alguns metros do animal, Sam gelou ao ver o lobo parando seus movimentos e olhando fixo para ela. Podia-se ouvir a respiração de ambos, enquanto os sons dos batimentos cardíacos de Sam se tornavam cada vez mais fortes e selvagens naquele silêncio angustiante.

O lobo andou em direção à jovem, que sentiu o impulso quase irrefreável de correr, mas conseguiu ficar parada. O animal chegou a ela e abaixou a cabeça, num gesto que exigia que a moça lhe acariciasse o crânio. Quando o fez, a fera gemeu de prazer. Depois de alguns segundos assim, o lobo desvencilhou-se de sua mão e, olhando fundo o suficiente em seus olhos para que ela sentisse sua alma ser tocada, disse, com uma voz clara, grossa, forte e arranhada em sua rouquidão: “The mighty arms of Atlas holds the heaven from the earth”. Nesse momento, saiu com passos firmes, deixando Sam sozinha frente ao círculo iluminado.

Sabendo que lá deveria existir algo de valor que o lobo guardava, ela chegou mais perto. Sem notar nada na superfície, resolveu cavar. Cavou mais fundo do que esperava, e quando estava pronta para desistir, tocou em algo sólido que, ao limpar um pouco mais da neve que o cobria, revelou-se um baú. Ela o puxou à superfície, surpresa com sua leveza. Sua empolgação quase findou-se ao notar que estava trancado, mas ela lembrou da chave da rosa, e, sem entender bem sua linha de pensamentos, enfiou a mão no bolso, retirando de lá o objeto. Com o coração quase a sair pela boca, abriu o baú e olhou fixo para dentro dele...

O canto de um galo então encheu o ambiente e Sam abriu os olhos, com a frequência cardíaca diminuindo ruidosamente. Desligou o despertador e sentou-se na cama, meio tonta e tremendo um pouco, sem entender direito o que estava acontecendo. Fragmentos do seu esquisito sonho lhe sondavam a cabeça, e o que ela mais se lembrava era do baú... mas não conseguia lembrar-se qual era seu conteúdo, embora tivesse plena certeza de tê-lo acessado.

No entanto, havia um sentimento, uma sensação inexprimível em palavras dentro de seu peito. Atravessando seu apartamento meio como que num estado de transe, Samantha percebeu que estava levantando as fotografias caídas, reencontrando rostos que havia muito não via, sendo um deles o seu próprio.

Voltou ao seu quarto, com todos esses sentimentos a exaltando e deixando seu rosto assombrado por tudo isso que sentia e não conseguia falar, pelos gemidos inefáveis no seu íntimo entoando uma espécie de canção cristalina como um floco de gelo, doce como um perfume, suave como um veludo, e duro como uma rocha, exultante como infinitos fogos de artifício que explodiam e formavam palavras indistinguíveis na miséria da linguagem humana.

Ela notou, com menos espanto do que esperaria, que a chave enferrujada não estava em seu criado mudo...

Sorriu.

 Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
10/07/2014