domingo, 28 de junho de 2015


Crítica:

A Corrente do Mal (It Follows / 2015 / EUA)

Direção: David Robert Mitchell

Para se fazer um filme intrigante que deixe o espectador com a “pulga atrás da orelha”, desenvolvendo significados intrincados e encontrando símbolos complexos, não é necessariamente essencial que o cineasta/roteirista tenha em mente todos os meandros pelo qual o espectador possa caminhar, que preveja cada passo para levar a algum tema específico que queira abordar de forma misteriosa e simbólica. É como Federico Fellini certa vez disse: “o trabalho do artista é levar o apreciador à estação, mas quem pega o trem é o próprio apreciador”.

Assim, um cineasta que jogue com elementos curiosos aparentemente sem explicação, desenvolva situações ou tramas evocativas e pouco claras, entre outras ferramentas, pode fazer de sua obra um exercício de investigação que, mesmo sem algum “significado profundo”, ainda assim provoca o espectador o suficiente para procurar ou mesmo se indagar sobre alguma espécie de significação. É o que David Robert Mitchell faz nesse seu A Corrente do Mal, com uma trama envolvendo um espírito maligno que persegue determinada mas pausadamente suas vítimas até a morte. Ah, e claro, o fantasma é, bem... sexualmente transmissível.

Portanto, há pouco o que se falar no quesito de uma análise temática do filme em uma crítica que vise discorrer sobre um longa puramente em seus quesitos técnicos e narrativos. Não que seja proibido, o que prova minhas próprias divagações sobre os significados de obras como The Babadook, O Homem Duplicado ou Ex Machina, mas o caso é que, diferente do que aconteceu com esses três filmes, para A Corrente do Mal não procurei desenvolver teoria alguma sobre suas profundezas. No entanto, o que pode parecer estranho a algumas pessoas, isso de nada interferiu com minha apreciação da obra, já que me senti plenamente satisfeito em ser levado pela atmosfera instigante criada pelo diretor, identificando, aqui e ali, possíveis pontos plantados por Mitchell para florescer devaneios analíticos apetitosos. Contento-me em identificar alguns deles e algumas possíveis digressões sobre cada um, mas sem me aprofundar. Ah, sim, uma crítica de tal ordem inevitavelmente soa como spoiler.

Primeiramente, a própria natureza do fantasma. Nunca é revelado qual seu verdadeiro objetivo, já que parece agir de forma mecânica. Um primeiro ponto positivo sobre essa obscuridade é que Mitchell evita que os personagens acabem dando sorte ao descobrir a verdadeira natureza do espírito que, de ameaçador, poderia facilmente cair no ridículo e no forçado. Outro ponto positivo é que a atitude do fantasma é extremamente evocativa: na sua lenta perseguição (ele apenas anda) às vítimas, ele as desgasta não apenas física, mas também psicologicamente, já que seus alvos se tornam zumbis insones e paranóicos à procura de qualquer elemento estranho no ambiente. Além disso, como ninguém além dos alvos (e quem já foi alvo) vê o espírito, estão fadados a se tornar mais e mais isolados em suas angústias, compartilhadas apenas por aqueles com quem dividiram a cama.

Pronto, tem-se um elemento propício a divagação. Seria o fantasma uma metáfora para a Morte? Tal suposição se torna tentadora quando a última fala na projeção toma a forma da citação de um livro que discorre justamente sobre a inexorabilidade do morrer, o fim da “alma” e do corpo físico. Pensar assim fica ainda mais tentador quando da fala de Hugh/Jeff, no primeiro ato, lamentando a perda da infância e o luto de se tornar um jovem adulto, e, se Jay, a protagonista, graceja falando que isso o faz parecer um velho, ele retruca apenas com um olhar melancólico de quem sabe que não adianta explicar, já que não será compreendido. Aliás, é notável a escassez de adultos e idosos no elenco, exceto nos papéis do fantasma (huum... precisa falar alguma coisa?), algo que dificilmente se dá por acaso, ainda mais quando praticamente todo o elenco é composto de jovens que acabaram de entrar nos 20 anos, e lembrando, claro, do tristonho monólogo pós-coito amaldiçoado de Jay acerca da perda de seus devaneios infantis. Estaria Mitchell nos jogando a isca sobre uma possível divagação acerca do luto intrínseco ao processo de se tornar adulto e da morte já não parecer um evento tão distante como era antes? Ora, parece uma discussão frutífera para um filme de terror.

Mas existem outras. Transmitida sexualmente, a visão do espírito é compartilhada por aqueles que já foram acometidos pela maldição e agora passaram para o próximo. Ligada inexoravelmente ao amadurecimento e entrada na vida adulta, o ato sexual é onde mais íntima, fisicamente, dois seres humanos podem se encontrar, um encontro que pode significar, no fim, a partilha de um pouco da história de vida do (a) companheiro (a), sendo que se estabelecer com alguém não é outra coisa que não suportar, em seus próprios ombros, parte da carga que a outra pessoa carrega, uma carga, inclusive, de mortalidade. Nesse sentido, o plano final do filme ganha contornos de brilhantismo ao trazer justamente dois amaldiçoados andando de mãos dadas com a figura do fantasma os perseguindo calmamente ao fundo. E se ainda há o que falar sobre os jovens homens heterossexuais dispostos a arriscar a vida pela oportunidade de transar com uma beldade, e pulando o óbvio comentário sobre DSTs, há ainda aquele perturbador (e intrigante) momento onde, assumindo a forma física da mãe de um amaldiçoado, o fantasma transa com o rapaz, matando-o no processo. Evocativo, não? Nem arrisco interpretar, deixo para quem curte psicanálise.

Dentre os vários outros pontos de devaneio da obra, há um outro que gostaria de ressaltar: a atemporalidade do projeto. É evidente como Mitchell faz a mais absoluta questão de que A Corrente do Mal não possua qualquer ponto temporal específico. Seus carros parecem saídos dos anos 70, ao passo em que objetos tecnológicos modernos são vistos aqui e ali, sem esquecer ainda de um cinema que mais parece saído dos anos 20 em sua estrutura massiva com direito a cortina vermelha e pianista. Esses detalhes dão um sabor quase surreal ao projeto, e dificilmente se dão por acaso. Pode ser que Mitchell tenha jogado esses elementos como mais um despertador de caça a significados (e não é difícil forçar essa constatação às discussões nos dois parágrafos anteriores), ou “minimamente” para fins de atmosfera, garantindo um tom ainda mais perturbador pela bizarrice vista na tela, que ninguém, no filme, parece notar.

O que realmente importa, no fim das contas, é que A Corrente do Mal funciona como um excelente exemplar do gênero terror. Mais sugestivo do que provocador de sustos, o longa parece emular aquilo que Kubrick buscou com O Iluminado, usando grandes planos abertos, aqui através de panorâmicas, em ambientes quase sempre iluminados que amedrontam ainda mais em especial por traduzir uma tranquilidade incongruente com a atmosfera de perigo em que estamos envolvidos, além de ressaltar como o fantasma pode aparecer de qualquer lado. Além disso, a vagareza dos movimentos de câmera, explorando calmamente o campo, proporciona não apenas tensão constante, mas sequências impecáveis como aquela do ataque na praia, quando Mitchell brinca com a mise en scène de modo a enganar o espectador quanto a como os personagens estão dispostos no cenário. Planos atentos a ambientes vazios também funcionam por trazer uma espécie de desconforto impalpável na ideia de que algo errado está para acontecer.

Enfim, acabei devaneando e interpretando mais do que pretendia. Mas isso que é legal: não pensei em significados quando vi o filme, mas escrever sobre foi um processo de interpretação completamente inadvertido. Outra das magias da sétima arte.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
29/06/2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário