Crítica:
A Corrente do Mal (It Follows / 2015 / EUA)
Direção:
David Robert Mitchell
Para se fazer um filme
intrigante que deixe o espectador com a “pulga atrás da orelha”, desenvolvendo
significados intrincados e encontrando símbolos complexos, não é necessariamente
essencial que o cineasta/roteirista tenha em mente todos os meandros pelo qual
o espectador possa caminhar, que preveja cada passo para levar a algum tema
específico que queira abordar de forma misteriosa e simbólica. É como Federico
Fellini certa vez disse: “o trabalho do artista é levar o apreciador à estação,
mas quem pega o trem é o próprio apreciador”.
Assim, um cineasta que
jogue com elementos curiosos aparentemente sem explicação, desenvolva situações
ou tramas evocativas e pouco claras, entre outras ferramentas, pode fazer de
sua obra um exercício de investigação que, mesmo sem algum “significado
profundo”, ainda assim provoca o
espectador o suficiente para procurar ou mesmo se indagar sobre alguma espécie
de significação. É o que David Robert Mitchell faz nesse seu A Corrente do Mal, com uma trama
envolvendo um espírito maligno que persegue determinada mas pausadamente suas
vítimas até a morte. Ah, e claro, o fantasma é, bem... sexualmente
transmissível.
Portanto, há pouco o
que se falar no quesito de uma análise temática do filme em uma crítica que
vise discorrer sobre um longa puramente em seus quesitos técnicos e narrativos.
Não que seja proibido, o que prova minhas próprias divagações sobre os
significados de obras como The Babadook,
O Homem Duplicado ou Ex Machina, mas o caso é que, diferente
do que aconteceu com esses três filmes, para A Corrente do Mal não procurei desenvolver teoria alguma sobre suas
profundezas. No entanto, o que pode parecer estranho a algumas pessoas, isso de
nada interferiu com minha apreciação da obra, já que me senti plenamente
satisfeito em ser levado pela atmosfera instigante criada pelo diretor,
identificando, aqui e ali, possíveis pontos plantados por Mitchell para
florescer devaneios analíticos apetitosos. Contento-me em identificar alguns
deles e algumas possíveis digressões sobre cada um, mas sem me aprofundar. Ah,
sim, uma crítica de tal ordem inevitavelmente soa como spoiler.
Primeiramente, a
própria natureza do fantasma. Nunca é revelado qual seu verdadeiro objetivo, já
que parece agir de forma mecânica. Um primeiro ponto positivo sobre essa
obscuridade é que Mitchell evita que os personagens acabem dando sorte ao
descobrir a verdadeira natureza do espírito que, de ameaçador, poderia
facilmente cair no ridículo e no forçado. Outro ponto positivo é que a atitude
do fantasma é extremamente evocativa: na sua lenta perseguição (ele apenas anda)
às vítimas, ele as desgasta não apenas física, mas também psicologicamente, já
que seus alvos se tornam zumbis insones e paranóicos à procura de qualquer
elemento estranho no ambiente. Além disso, como ninguém além dos alvos (e quem
já foi alvo) vê o espírito, estão fadados a se tornar mais e mais isolados em
suas angústias, compartilhadas apenas por aqueles com quem dividiram a cama.
Pronto, tem-se um
elemento propício a divagação. Seria o fantasma uma metáfora para a Morte? Tal suposição
se torna tentadora quando a última fala na projeção toma a forma da citação de
um livro que discorre justamente sobre a inexorabilidade do morrer, o fim da “alma”
e do corpo físico. Pensar assim fica ainda mais tentador quando da fala de Hugh/Jeff,
no primeiro ato, lamentando a perda da infância e o luto de se tornar um jovem
adulto, e, se Jay, a protagonista, graceja falando que isso o faz parecer um
velho, ele retruca apenas com um olhar melancólico de quem sabe que não adianta
explicar, já que não será compreendido. Aliás, é notável a escassez de adultos
e idosos no elenco, exceto nos papéis do fantasma (huum... precisa falar alguma
coisa?), algo que dificilmente se dá por acaso, ainda mais quando praticamente
todo o elenco é composto de jovens que acabaram de entrar nos 20 anos, e
lembrando, claro, do tristonho monólogo pós-coito amaldiçoado de Jay acerca da
perda de seus devaneios infantis. Estaria Mitchell nos jogando a isca sobre uma
possível divagação acerca do luto intrínseco ao processo de se tornar adulto e
da morte já não parecer um evento tão distante como era antes? Ora, parece uma discussão
frutífera para um filme de terror.
Mas existem outras.
Transmitida sexualmente, a visão do espírito é compartilhada por aqueles que já
foram acometidos pela maldição e agora passaram para o próximo. Ligada
inexoravelmente ao amadurecimento e entrada na vida adulta, o ato sexual é onde
mais íntima, fisicamente, dois seres humanos podem se encontrar, um encontro
que pode significar, no fim, a partilha de um pouco da história de vida do (a)
companheiro (a), sendo que se estabelecer com alguém não é outra coisa que não suportar,
em seus próprios ombros, parte da carga que a outra pessoa carrega, uma carga,
inclusive, de mortalidade. Nesse sentido, o plano final do filme ganha
contornos de brilhantismo ao trazer justamente dois amaldiçoados andando de mãos
dadas com a figura do fantasma os perseguindo calmamente ao fundo. E se ainda
há o que falar sobre os jovens homens heterossexuais dispostos a arriscar a
vida pela oportunidade de transar com uma beldade, e pulando o óbvio comentário
sobre DSTs, há ainda aquele perturbador (e intrigante) momento onde, assumindo
a forma física da mãe de um amaldiçoado, o fantasma transa com o rapaz,
matando-o no processo. Evocativo, não? Nem arrisco interpretar, deixo para quem
curte psicanálise.
Dentre os vários outros
pontos de devaneio da obra, há um outro que gostaria de ressaltar: a
atemporalidade do projeto. É evidente como Mitchell faz a mais absoluta questão
de que A Corrente do Mal não possua
qualquer ponto temporal específico. Seus carros parecem saídos dos anos 70, ao
passo em que objetos tecnológicos modernos são vistos aqui e ali, sem esquecer
ainda de um cinema que mais parece saído dos anos 20 em sua estrutura massiva
com direito a cortina vermelha e pianista. Esses detalhes dão um sabor quase
surreal ao projeto, e dificilmente se dão por acaso. Pode ser que Mitchell
tenha jogado esses elementos como mais um despertador de caça a significados (e
não é difícil forçar essa constatação às discussões nos dois parágrafos
anteriores), ou “minimamente” para fins de atmosfera, garantindo um tom ainda
mais perturbador pela bizarrice vista na tela, que ninguém, no filme, parece
notar.
O que realmente
importa, no fim das contas, é que A
Corrente do Mal funciona como um excelente exemplar do gênero terror. Mais
sugestivo do que provocador de sustos, o longa parece emular aquilo que Kubrick
buscou com O Iluminado, usando
grandes planos abertos, aqui através de panorâmicas, em ambientes quase sempre
iluminados que amedrontam ainda mais em especial por traduzir uma tranquilidade
incongruente com a atmosfera de perigo em que estamos envolvidos, além de
ressaltar como o fantasma pode aparecer de qualquer lado. Além disso, a vagareza
dos movimentos de câmera, explorando calmamente o campo, proporciona não apenas
tensão constante, mas sequências impecáveis como aquela do ataque na praia,
quando Mitchell brinca com a mise en scène
de modo a enganar o espectador quanto a como os personagens estão dispostos
no cenário. Planos atentos a ambientes vazios também funcionam por trazer uma
espécie de desconforto impalpável na ideia de que algo errado está para
acontecer.
Enfim, acabei
devaneando e interpretando mais do que pretendia. Mas isso que é legal: não pensei
em significados quando vi o filme, mas escrever sobre foi um processo de interpretação
completamente inadvertido. Outra das magias da sétima arte.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
29/06/2015




