domingo, 28 de junho de 2015


Crítica:

A Corrente do Mal (It Follows / 2015 / EUA)

Direção: David Robert Mitchell

Para se fazer um filme intrigante que deixe o espectador com a “pulga atrás da orelha”, desenvolvendo significados intrincados e encontrando símbolos complexos, não é necessariamente essencial que o cineasta/roteirista tenha em mente todos os meandros pelo qual o espectador possa caminhar, que preveja cada passo para levar a algum tema específico que queira abordar de forma misteriosa e simbólica. É como Federico Fellini certa vez disse: “o trabalho do artista é levar o apreciador à estação, mas quem pega o trem é o próprio apreciador”.

Assim, um cineasta que jogue com elementos curiosos aparentemente sem explicação, desenvolva situações ou tramas evocativas e pouco claras, entre outras ferramentas, pode fazer de sua obra um exercício de investigação que, mesmo sem algum “significado profundo”, ainda assim provoca o espectador o suficiente para procurar ou mesmo se indagar sobre alguma espécie de significação. É o que David Robert Mitchell faz nesse seu A Corrente do Mal, com uma trama envolvendo um espírito maligno que persegue determinada mas pausadamente suas vítimas até a morte. Ah, e claro, o fantasma é, bem... sexualmente transmissível.

Portanto, há pouco o que se falar no quesito de uma análise temática do filme em uma crítica que vise discorrer sobre um longa puramente em seus quesitos técnicos e narrativos. Não que seja proibido, o que prova minhas próprias divagações sobre os significados de obras como The Babadook, O Homem Duplicado ou Ex Machina, mas o caso é que, diferente do que aconteceu com esses três filmes, para A Corrente do Mal não procurei desenvolver teoria alguma sobre suas profundezas. No entanto, o que pode parecer estranho a algumas pessoas, isso de nada interferiu com minha apreciação da obra, já que me senti plenamente satisfeito em ser levado pela atmosfera instigante criada pelo diretor, identificando, aqui e ali, possíveis pontos plantados por Mitchell para florescer devaneios analíticos apetitosos. Contento-me em identificar alguns deles e algumas possíveis digressões sobre cada um, mas sem me aprofundar. Ah, sim, uma crítica de tal ordem inevitavelmente soa como spoiler.

Primeiramente, a própria natureza do fantasma. Nunca é revelado qual seu verdadeiro objetivo, já que parece agir de forma mecânica. Um primeiro ponto positivo sobre essa obscuridade é que Mitchell evita que os personagens acabem dando sorte ao descobrir a verdadeira natureza do espírito que, de ameaçador, poderia facilmente cair no ridículo e no forçado. Outro ponto positivo é que a atitude do fantasma é extremamente evocativa: na sua lenta perseguição (ele apenas anda) às vítimas, ele as desgasta não apenas física, mas também psicologicamente, já que seus alvos se tornam zumbis insones e paranóicos à procura de qualquer elemento estranho no ambiente. Além disso, como ninguém além dos alvos (e quem já foi alvo) vê o espírito, estão fadados a se tornar mais e mais isolados em suas angústias, compartilhadas apenas por aqueles com quem dividiram a cama.

Pronto, tem-se um elemento propício a divagação. Seria o fantasma uma metáfora para a Morte? Tal suposição se torna tentadora quando a última fala na projeção toma a forma da citação de um livro que discorre justamente sobre a inexorabilidade do morrer, o fim da “alma” e do corpo físico. Pensar assim fica ainda mais tentador quando da fala de Hugh/Jeff, no primeiro ato, lamentando a perda da infância e o luto de se tornar um jovem adulto, e, se Jay, a protagonista, graceja falando que isso o faz parecer um velho, ele retruca apenas com um olhar melancólico de quem sabe que não adianta explicar, já que não será compreendido. Aliás, é notável a escassez de adultos e idosos no elenco, exceto nos papéis do fantasma (huum... precisa falar alguma coisa?), algo que dificilmente se dá por acaso, ainda mais quando praticamente todo o elenco é composto de jovens que acabaram de entrar nos 20 anos, e lembrando, claro, do tristonho monólogo pós-coito amaldiçoado de Jay acerca da perda de seus devaneios infantis. Estaria Mitchell nos jogando a isca sobre uma possível divagação acerca do luto intrínseco ao processo de se tornar adulto e da morte já não parecer um evento tão distante como era antes? Ora, parece uma discussão frutífera para um filme de terror.

Mas existem outras. Transmitida sexualmente, a visão do espírito é compartilhada por aqueles que já foram acometidos pela maldição e agora passaram para o próximo. Ligada inexoravelmente ao amadurecimento e entrada na vida adulta, o ato sexual é onde mais íntima, fisicamente, dois seres humanos podem se encontrar, um encontro que pode significar, no fim, a partilha de um pouco da história de vida do (a) companheiro (a), sendo que se estabelecer com alguém não é outra coisa que não suportar, em seus próprios ombros, parte da carga que a outra pessoa carrega, uma carga, inclusive, de mortalidade. Nesse sentido, o plano final do filme ganha contornos de brilhantismo ao trazer justamente dois amaldiçoados andando de mãos dadas com a figura do fantasma os perseguindo calmamente ao fundo. E se ainda há o que falar sobre os jovens homens heterossexuais dispostos a arriscar a vida pela oportunidade de transar com uma beldade, e pulando o óbvio comentário sobre DSTs, há ainda aquele perturbador (e intrigante) momento onde, assumindo a forma física da mãe de um amaldiçoado, o fantasma transa com o rapaz, matando-o no processo. Evocativo, não? Nem arrisco interpretar, deixo para quem curte psicanálise.

Dentre os vários outros pontos de devaneio da obra, há um outro que gostaria de ressaltar: a atemporalidade do projeto. É evidente como Mitchell faz a mais absoluta questão de que A Corrente do Mal não possua qualquer ponto temporal específico. Seus carros parecem saídos dos anos 70, ao passo em que objetos tecnológicos modernos são vistos aqui e ali, sem esquecer ainda de um cinema que mais parece saído dos anos 20 em sua estrutura massiva com direito a cortina vermelha e pianista. Esses detalhes dão um sabor quase surreal ao projeto, e dificilmente se dão por acaso. Pode ser que Mitchell tenha jogado esses elementos como mais um despertador de caça a significados (e não é difícil forçar essa constatação às discussões nos dois parágrafos anteriores), ou “minimamente” para fins de atmosfera, garantindo um tom ainda mais perturbador pela bizarrice vista na tela, que ninguém, no filme, parece notar.

O que realmente importa, no fim das contas, é que A Corrente do Mal funciona como um excelente exemplar do gênero terror. Mais sugestivo do que provocador de sustos, o longa parece emular aquilo que Kubrick buscou com O Iluminado, usando grandes planos abertos, aqui através de panorâmicas, em ambientes quase sempre iluminados que amedrontam ainda mais em especial por traduzir uma tranquilidade incongruente com a atmosfera de perigo em que estamos envolvidos, além de ressaltar como o fantasma pode aparecer de qualquer lado. Além disso, a vagareza dos movimentos de câmera, explorando calmamente o campo, proporciona não apenas tensão constante, mas sequências impecáveis como aquela do ataque na praia, quando Mitchell brinca com a mise en scène de modo a enganar o espectador quanto a como os personagens estão dispostos no cenário. Planos atentos a ambientes vazios também funcionam por trazer uma espécie de desconforto impalpável na ideia de que algo errado está para acontecer.

Enfim, acabei devaneando e interpretando mais do que pretendia. Mas isso que é legal: não pensei em significados quando vi o filme, mas escrever sobre foi um processo de interpretação completamente inadvertido. Outra das magias da sétima arte.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
29/06/2015

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Horizonte de Eventos



Horizonte de Eventos



As estrelas pulsavam no céu noturno. A pulsação estelar começou a entrar no ritmo dos batimentos cardíacos, enquanto a lua parecia que ia despencar sobre meu corpo a qualquer momento, naquela sua brincadeira besta de crescer mil vezes seu tamanho apenas para se encolher para o tamanho de um ervilha, logo depois. Depois de tomar papel, olhar para o céu era verificar que os astros ficavam todos de brincadeira besta. Não dá para levar a sério, e eu sei disso, mas ainda assim, fico nessa vibe louca de diálogo estelar mesquinho.

Ótimo. Essa minha fala espirituosa fez com que as estrelas começassem a rir de mim. Todas rindo, como se assistindo a um show de comédia em que eu fosse o único ator, viajando deitando aqui nesse chão duro do lado de fora do ginásio onde está rolando apresentação de algumas bandas de rock. Parece que elas acharam essa fala ainda mais engraçada do que a anterior. Genial. Bom, o efeito tá quase acabando mesmo, já se findam as doze horas desde que eu tomei o papel. “Já se findam”, uma delas diz, me remedando de forma jocosa, o que gera mais um acesso de risadas histéricas.

Noto mais uma risada, só que essa bem de perto, numa delicada voz feminina. Olho para minha esquerda, e deitada ao meu lado há uma moça de cabelos negros, toda vestida de preto, unhas negras compridas e uma pele branca como leite, lábios pintados de um intenso vermelho, sombra escura nos olhos. “Desculpa”, diz ela, “não resisti; tentei ficar quietinha mas esse seu papo com as estrelas tava genial”, e riu de curvar o corpo.

“Como assim?! Eu pensei que estava falando apenas na minha cabeça!”

“Calma, você estava sim, eu que fui intrometida”

“Não precisa mentir pra mim”, sorri, “ tomei um papel mais cedo, estou tão doidão que não distingo se estou falando pra dentro ou pra fora”

“Relaxa, o efeito já tá no fim ai, já dá pra sacar umas coisas dessas. E você estava falando dentro da sua cabeça apenas”

“Ah tá, e você estava lendo meus pensamentos então”, falei, rindo.

“É mais complicado do que isso, mas se quer colocar dessa forma...”

Deixei quieto. Vai que ela estava doidona também. Ficamos em silêncio observando as estrelas, que agora estavam caladas, como uma platéia interessada no que está acontecendo no palco.

Ela quebrou o silêncio: “Adoro as estrelas. Mas não no sentido que a maioria fala, por serem brilhantes ou algo assim. Mas por sua formação. A atração gravitacional faz com que grandes quantidades de gás desabem sobre si, e o choque dos átomos faz com que os gases se aqueçam. Eles ficam tão quentes que os átomos de hidrogênio param de se repelir e se juntam, formando hélio, e o calor liberado numa reação dessas, algo como uma explosão de uma bomba de hidrogênio, faz com que a estrela brilhe”. Olhei para o ela, que ainda fitava as estrelas, e me percebi fascinado por aquela súbita aula. Meus olhos foram atraídos pela tatuagem em seu pescoço: uma caveira com uma venda vermelha nos olhos, dedo ossudo na boca demandado silêncio. Ela continuou: “Dá pra forçar uma metáfora sobre um encontro amoroso”, olhou para mim.

Seus olhos eram inacreditáveis: duas esferas majestosamente escuras me sugando de forma irresistível. Estava completamente magnetizado por aquilo. Tudo no mundo pareceu sumir por um eterno instante. Todos os sons foram diminuídos ao mínimo, a gritaria de dentro do ginásio, os carros distantes... tudo que não fosse seus olhos simplesmente saiu de foco. “Claro, só se você for um péssimo poeta”, disse ela, me arrancando do transe, com um sorrisinho no canto do lábio.

Senti me puxarem violentamente pela jaqueta, me pondo de pé. “Finalmente te encontrei, porra! Tu sumiu por um tempão!”. Era meu amigo Ronan. Me desvencilhei dele e procurei pela garota. Mas ela tinha dsaparecido completamente, em menos de um segundo. Não tardou para que eu começasse a imaginar que ela tinha sido uma alucinação, e que eu estava ainda muito louco.

“Ground control for Major Tom!”, apelou Ronan, me sacudindo, “Tom, caralho, acorda! Tu tá bem?!”

“Tô, porra, fica sussa ae. Tu não viu uma garota que tava aqui há um segundo atrás, antes de tu chegar embaçando a vida?”

 “Garota? Velho, deixa de nóia, tu tava sozinho olhando pro lado qual um besta”

“Hunf”

“Vamos, se recomponha das loucuras alucinógenas ae, e vamos voltar pra dentro”

Lá dentro, uma banda ainda tocava empolgada para uma cambada de gente já espalhada pela grama, completamente fritos ou bêbados demais. Já eram quase seis da manhã, era de se esperar. Mas me sentia bem o suficiente para uma cerveja, quente, pra variar, como se era de praxe nesses eventos. Cheguei na rodinha frita dos meus próprios amigos, todos seguindo a estereótipo do meio.

“Ai está o maluco! Um dos filhos pródigos retorna! Agora só falta encontrar o Gabo. Esses bichos fritos. Velho, preocupou geral aqui!”, gritou Larissa, me recebendo risonha depois do meu exílio.

“Tô vendo, tem um cigarro?”, ela me joga o maço, tiro um, e jogo de volta. “Valeu”. Me afasto de novo, fumando o cigarro e bebendo minha cerveja, olhando pra tudo quando é canto, antes de perceber que procurava a misteriosa.

Ronan chega do meu lado: “Não faz diferença tu vir pros esquemas se é pra ficar se alienando de todo mundo”

“Eu sei, foi mal cara, desculpa estar meio aéreo, só estava procurando por aquela mina que te falei”

“Velho, tu tava fritando no papel ainda, não esquenta.”, me avaliou com os olhos durante alguns segundos, “Tu tá bem mesmo? Talvez não devesse ter tomado papel enquanto toma aqueles remédios, e nem ainda com o perigo de ter uma crise de novo”

“Tô bem, mano, não se preocupa. Tô seguindo o que o psicólogo falou, interagindo, saindo do isolamento e tal, ele disse que ia me fazer bem. E não tive uma bad também, foi sussa”. Percebendo o olhar dele, querendo perguntar o óbvio, mas sem jeito de fazê-lo. “Também não tive uma recaída, não pensei em nada disso aí, fica tranquilo”

“Sim, eu sei... mas fiquei preocupado. Pô, tu some durante um tempão, e não faz tanto tempo assim... daquilo. Sei lá, e tomar papel ainda... esses negócios despertam coisas na gente cara, sei lá, exacerbam o que você estiver sentindo. Não acho que deveria ter tomado”.

“Calma bro, já tomei e ainda tô bem. Quer saber, to cansado, acho que quero ir embora”.

“Ok. Gabo sumiu mesmo, vou falar pra alguém dar carona pra ele se acabar aparecendo”.

No caminho pra casa do Ronan, minha cabeça estava uma loucura. Observava o céu, que já dava os primeiros sinais do dia. Não gostava de mentir pro meu amigo, mas não queria preocupá-lo mais. Pode ser que eu não tivesse tido uma bad trip, mas fiquei vagando por um monte de becos nas redondezas, fritando com um monte de coisa na cabeça, questões para as quais não tinha resposta, problemas do passado, pessoas esquecidas que estavam me assombrando. Sentia a escuridão me vestindo, e como se olhos me observassem enquanto me arrastava. Não, não estava tudo bem ainda. Eu ainda estava caminhando numa espécie de corda bamba que eu mesmo arrumei. Coloquei minha cabeça pra fora do carro e fechei os olhos, tentando respirar o ar matinal e torcendo, quase rezando, para que aquele sereno me purificasse, de alguma forma que nem eu conseguia entender.

Quando abri os olhos, vi o Gabo cambaleando num cruzamento, com os olhos vidrados e camisa ensanguentada. Gritei pro Ronan parar e ambos saímos do carro correndo para nosso amigo, que despencou em nossos braços assim que os estendemos. Ele balbuciava coisas sem sentido, olhos fixos num ponto qualquer do espaço à sua frente, rosto caoticamente manchado de vermelho, e marcas de unhas em seus braços, rosto e clavícula. Observava isso quando Ronan me puxou pela blusa, assustado, apontando para o pescoço do Gabo. Duas perfurações profundas se destacavam de um grande e roxo inchaço, sangue novo escorrendo se misturando ao seco que cobria o resto do corpo.

De repente, pensei em buracos negros.


Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 24/06/2015

domingo, 21 de junho de 2015


Crítica:

Divertida Mente (Inside Out / 2015 / EUA)

Direção: Pete Docter

Nesse bizarro processo que é a criação artística, Pete Docter fazia parte da crise na qual a Pixar entrou desde que passou a repetir fórmulas ou criar projetos de qualidade duvidosa, e, procurando uma nova história, olhou para sua própria filha, indagando sobre as malucas mudanças comportamentais na pequena, e se perguntou sobre o turbilhão que estaria acontecendo “dentro dela”, e como seria se essas emoções todas fossem personificadas. Tem-se o alicerce que embasou esse soberbo Divertida Mente, com sua energia peculiar, seus dramas carregados, seu visual engenhoso e reflexões complexas entremeadas em sentimentos profundos. É Arte do mais alto nível.

Na animação, acompanhamos os “processos internos” envolvidos em uma garotinha de 11 anos, Riley, seus pensamentos, memórias, devaneios, sonhos, tudo no comando das emoções mais basais: Alegria, Tristeza, Raiva, Nojo e Medo, aqui personificados. Quando Riley muda de cidade e começa a ter seus primeiros embates com um mundo além do abençoado globo protetor em que vivia, todos os seus “trabalhadores internos” se desorganizam, colocando nas mãos das Emoções a difícil tarefa de manter o bem-estar da garota quando tudo parece estar desabando.

Em primeiro lugar, é interessante como os realizadores transformam as Emoções em figuras tridimensionais e dinâmicas que podem até viver para cumprir seus papéis, mas não são reduzidas a meros estereótipos que, ou gritariam o tempo todo, no caso a Raiva, ou seriam pateticamente neuróticos, como poderia ser o Medo. Aliás, o longa apresenta grande maturidade ao evitar qualquer estereótipo maniqueísta e criar uma narrativa sem vilão ou mesmo personagem mais “maligno”, possuindo, ao contrário, figuras que se encontram em complexas situações e fazem o que está ao seu alcance para manter a si e aos seus entes queridos bem, ou, no caso dos habitantes do mundo interno de Riley, para prezar pelo bem-estar da garota. Nessa linha de se opor a estereótipos, a própria Riley surge com uma garota sem qualquer caractere sexista ou fragilidade atribuída ao fato de ser menina, aparecendo, ao invés disso, como uma figura com graus de independência (surpreendente para seus 11 anos), que ama hóckei e apresenta uma maturidade que consegue deixar entrever tanto assertividade, quanto espaço para crescer ainda mais.

Ao invés, então, de uma história em moldes tão tradicionais, Divertida Mente ancora visualmente cada processo emocional envolvido na narrativa através de um design de produção espetacular que guia o espectador através das ruas e aposentos apertados de uma cinzenta São Francisco, enquanto o descontentamento crescente de Riley pode ser retificado a partir de um figurino que abole as roupas coloridas para trocar por moletons escuros, ao passo em que o design dos personagens também contribui para desenvolvê-los, como a barba sempre por fazer do Pai, ou a barriga proeminente da Mãe. Nesse aversivo ambiente externo, o mundo interno de Riley surge com uma criatividade ímpar que é uma das principais qualidades da obra, traduzindo complexos conceitos abstratos em elementos visuais que ainda funcionam de forma extremamente orgânica. As memórias de longo prazo formam um engenhoso labirinto, enquanto um enorme abismo guarda tudo aquilo que foi esquecido, tendo entre o topo e o fundo desse abismo a colossal caverna do subconsciente com todos os medos mais profundos e irracionais de Riley, num nível de surrealismo que casa com aquele dos pensamentos abstratos, onde conceitos absurdos ganham formas e dimensões próprias naquela que é uma das sequências mais hilárias do filme, sem contar o brilhantismo da fábrica de sonhos, um dos meus elementos favoritos do longa, por sinal. E esses foram apenas elementos soltos daquele que é um dos universos mais criativos desenvolvidos em uma animação há anos (ou qualquer filme, diga-se de passagem).

Mas Divertida Mente ainda prima pelos diversos comentários sagazes que faz através das lentes da ficção, sendo o citado labirinto das memórias de longo prazo um claro exemplo, além da semelhança física entre os fatos e opniões na “mente”, o que inevitavelmente faz com que sejam sempre misturados, ou mesmo ainda a importância que os realizadores dão às chamadas memórias base, que vão compondo a personalidade de Riley. O fato do longa ir além de si mesmo e mostrar o funcionamento dos pais da garota num daqueles momentos onde não se sabe o que dizer a uma pequena, encanta pela complexidade que traduz muito do universo daqueles mesmos personagens na diferença visual entre as “mentes” de cada um, e pelo fato de cada um ter uma Emoção diferente no comando, revelando um pouco de uma história de vida quando a Tristeza parece estar no centro da Mãe e a Raiva no centro do Pai, diferentes da Alegria que parece ser a principal no mundo de Riley. E num esmero caro à Pixar, os realizadores não se contentam em simplesmente desenvolver o citado visual sombrio de São Francisco, mas comentam a “desestruturação interna” da menina a partir da sutileza da perda de cores na sua sala de comando, ou ainda os trabalhadores braçais da sua “mente” que vão destruindo grandes estruturas dentro da garota.

Assim, percebe-se como o filme promove um diálogo entre o ambiente externo e interno de Riley, numa narrativa dialética que depende da regulação de como um influencia o outro, algo que é bem sucedido em especial pelo fato de que passamos a nos importar muito com Riley, tanto por ela mesma, quando pelas Emoções que batalham tanto por ela, e assim, ver a garota sem saber como responder ao seu novo ambiente, onde cada estímulo pôe a prova suas Emoções, se torna doloroso em especial pelo gradual processo de apatia que vai tomando conta de Riley, e um futuro escuro de depressão começa a se descortinar diante daquela garotinha que simplesmente não está conseguindo se adaptar.

E é aqui que Divertida Mente se torna uma verdadeira obra prima. A luta pela adaptação que a garota passa, com toda a desregulação interna que sofre, é um processo de amadurecimento que cada ser humano um dia vive, que vai permitir que as Emoções comecem a trabalhar em concordância e revelar a importância de cada uma, já que a Alegria, por si só, não parece mais dar conta de tudo. Aliás, o fato de a Alegria aparecer como uma personagem deliciosa em sua empolgação mas um tanto arrogante e mesquinha, como se ela, e apenas ela, soubesse o que é melhor para Riley, é um lance de maturidade absurda por parte dos realizadores, que aos poucos desenvolvem melhor a importância da Tristeza, tão apagada e perdida no início do filme, mas que aos poucos não consegue se controlar em seus impulsos de se fazer mais vista, o que, é claro, influencia a própria Riley. A importância da Tristeza é o cerne temático do filme, cuja mensagem, no fim das contas, diz respeito justamente a como essa emoção pode ser não apenas funcional, metafórica e narrativamente (é ela quem melhor sabe sobre o funcionamento da “mente”, porque leu todos os manuais), mas essencial ao colorir as memórias de Riley com o seu azul habitual, dando-lhe um aspecto de nostalgia que vai guiar o seu amadurecimento e as relações que vai travando ao longo da vida.

Divertida Mente é, então, uma obra que alcança, visual, narrativa e metaforicamente, uma complexa discussão sobre como amadurecer é saber enxergar plenamente cada Emoção, e de não apenas relegar à Alegria um papel de dar cor a uma vida, já que isso pode levar a uma existência insatisfatória ao impedir que a vida e as interrelações construídas sejam vistas a partir de uma ótica que melhor adere a um sentimento de perda, luto de si e dos outros, que pode muito bem ser a melhor via de salvação nos momentos de crise. Na vida adulta, as memórias (aqui representadas como pequenos globos) perdem a predominância do amarelo da Alegria, e se tornam multicoloridas com aquelas cores básicas de cada Emoção, sendo ainda interessante a percepção que Alegria chega de como, mesmo naquelas memórias mais marcadas por sua presença, existe uma faceta azul. A Tristeza também merece sua parcela de memórias bases.

No fim, imagina-se como é curioso que, a partir de um olhar sutil de um pai desorientado pelas pressões do trabalho e por uma filha que começa a enxergar a puberdade, criou-se uma obra que não apenas salvou a Pixar do completo oblívio, mas entra no hall dos melhores (se não o melhor) filmes de 2015, além de servir de reflexão de como as mais extraordinárias histórias estão nos mais inadivertidos cantos do cotidiano.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
21/06/2015

domingo, 14 de junho de 2015



Crítica:

Ex Machina (Ex Machina / 2015 / Reino Unido)

Direção: Alex Garland

Fazer Arte é mais do que criar algo esteticamente belo ou tematicamente desafiador. Fazer Arte é construir um espaço de trocas, seja entre os apreciadores ou entre estes e os realizadores, ou mesmo entre uma pessoa e ela mesma. O importante é a comunicação criada. Assim, há filmes que funcionam de uma forma mais fluida do que através de sua linha narrativa ou temática, não definindo bem qual é a sua, mas travando um diálogo com o espectador, como se perguntasse: o que você vê? Recentemente, filmes como Sob a Pele, O Homem Duplicado e Upstream Color formam exemplos perfeitos do que falei, e aqui, o já versado em roteiros de ficção científica que alcançam mais do que o entretenimento, Alex Garland, inicia o seu caminho enquanto diretor com um filme a se juntar a essa lista.

Em Ex Machina, o jovem programador Caleb (Domnahll Gleeson) é selecionado para fazer parte de um revolucionário e secreto experimento envolvendo Inteligência Articial, comandado pelo presidente da empresa onde trabalha, Nathan (Oscar Isaac). No espaço de uma semana, em isolamento no meio de uma enorme floresta, Caleb deve travar entrevistas com a robô Ava (Alicia Vikander) para determinar a veracidade de sua “consciência”.

O grande trabalho de Garland na criação do projeto reside no setting da experiência cinematográfica que propõe, englobando o espectador numa atmosfera que surge perturbadora e altamente evocativa. O laboratório, assim como a residência de Nathan, situa-se em completo isolamento, no meio de uma enorme floresta que parece intocada pela mão do Homem, contendo enormes cachoeiras e árvores magníficas, além de geleiras de tirar o fôlego. No meio disso, a residência de alta tecnologia, com paredes de vidro e cores sóbrias, impessoais, amplos espaços, com uma intrigante intersecção com a Natureza, seja através das paredes que usam rocha natural ou das vidraças que permitem a visão de plantas selvagens, criam uma espécie de dicotomia onde o Homem se vê de volta ao primitivo, a uma espécie de Éden, nos momentos próximos à Criação, abraçando essa volta com o pacote intelectual desenvolvido pela Ciência ao longo dos séculos.

Nessa ambientação, Garland trabalha, junto ao montador Mark Day, para desenvolver cortes e movimentos de câmera lentos, como se a câmera se movimentasse com cuidado diante dos segredos guardados naquele Templo de Criação, enquanto a trilha sonora fantasmagórica de Geoff Barrow e Ben Slisbury reforçam o tom de mistério e perigo de uma forma belamente sutil. Assim, a escalação de Domnahll Gleeson como Caleb ganha tons mais evocativos no seu papel de servir como os olhos turistas do espectador naquele universo, já que o mesmo ator interpretou um personagem de função idêntica no excelente Frank. Nesse processo, sensações são evocadas no espectador, um desconforto advindo de um suspense meticuloso vai subindo pelo corpo como um arrepio, gradualmente podendo-se pinçar essas sensações e, num processo de diálogo com a obra, ir desvendando o que afinal ela significa.

Ora, diferente dos filmes citados no primeiro parágrafo, Ex Machina parece muito mais direto em suas propostas, e de fato, em comparação, é mesmo. Ainda assim, engana o verniz de clareza que propõe, tendo muitas outras digressões produzidas nas sombras do que não é dito, mas apenas sentido. Interpretações podem ser desenvolvidas aos montes, e essa é a beleza da obra, no fim das contas. Dessa forma, discutirei brevemente uma possível interpretação nos parágrafos seguintes, e pode ser que quem não viu o filme prefira esperar para voltar aqui depois de conversar com o trabalho de Garland.

Com toda a discutida construção visual, Garland nos situa num momento de Criação, no Éden, num lugar onde o Homem volta às suas origens primitivas para um processo divino, dando-se à luz a uma nova forma de Vida, o próximo estágio da Evolução. Mas é interessante notar nesse contexto como funciona o personagem brilhantemente interpretado por Oscar Isaac, Nathan, um cientista admirado e inteligente que acha que faz o trabalho de um deus mas que parece estar decaindo num lento processo de degradação psicológica, algo que uma atenção dedicada ao seu físico parece servir como uma desesperada tentativa de se manter unido enquanto está ruindo. Numa visão mais simbólica, Nathan é o estereótipo do macho alfa que está perdendo sua evidência na atualidade, com sua força física admirável e um cabelo raspado ressaltando uma barba cheia que mais parece pertencer a um lenhador musculoso, enquanto está sempre com uma cerveja na mão, se gabando de suas bebedeiras. Nathan cria robôs femininos que servem não apenas como estudo, mas como escravas sexuais e verdadeiras domésticas, sendo que a robô mais próxima dele, Kyoko (Sonoya Mizuno), além de atender perfeitamente as necessidades fisiológicas de seu bruto patrão, é muda.

Nesse contexto, Caleb não passa de um participante num experimento maior, e mesmo o seu quarto sem janelas se assemelha a uma prisão claustrofóbica. Fica claro, que Caleb é manipulado como uma variável em sua interação com Ava, justamente para ser enganado por essa, tudo isso aparentemente orquestrado pelo falido deus do macho dominante. Ainda que frágil, no entanto, Caleb também representa uma espécie de macho dominante, sendo Ava, como todas as personagens femininas no filme, figuras indefesas e oprimidas que, em qualquer tentativa clara de fuga, são punidas inclusive com a morte. Uma representação extrema de uma sociedade machista, e mesmo que Caleb queira, no fim das contas, ajudar Ava, sua posição se torna machista na medida em que ele aparece como um cavaleiro para salvar uma donzela indefesa, que recompensaria seu herói com sexo e amor imortal. De qualquer forma, as mulheres são objetos no processo, não pessoas, apenas elementos de desejo de homens que, com objetivos diferentes, acabam por manipulá-las de forma a satisfazer seja uma auto-imagem de macho dominante ou simplesmente desejos sexuais e de interação amorosa de qualquer tipo.

No fim, a luta de egos entre Caleb e Nathan auxilia a fuga de Ava que foi cuidadosamente orquestrada não por algum deles, mas por ela mesma, num jogo de manipulação e sedução que a transformam numa figura extremamente multifacetada (vários pontos para Alicia Vikander), algo que o próprio Alex Garland explora através das mise en scéne das sessões entre Caleb e Ava, onde as posições de cada um passam a explicitar as vontades próprias e secretas de Ava, quando ela mantém Caleb onde quer, como quando flerta com ele pela primeira vez, sentada numa posição inferior, numa tentativa de fazê-lo se sentir dominante. Quando escapa, numa catarse que envolve a morte de Nathan e o perpétuo aprisionamento do inadvertidamente egoísta Caleb, o filme emana a rima com a história do computador que se tornou humano quando primeiro vivenciou a luz do sol, e Garland cria uma cena linda e rica em significados quando Ava vai cobrindo seu corpo com a pele de mulheres que morreram lutando para sair de seu cativeiro, tornando-se uma mulher lindíssima, sem a aparência de boneca lustrada que tinha antes, e admira seu corpo nu no espelho, assumindo-se humana de uma vez por todas. Ava não é mais um objeto, não é mais apenas a visão de homens que a desejam de uma forma ou de outra, mas uma criatura singular e complexa que, como explicita o sublime plano final, some no meio de uma multidão, se aglomera nas vidas que passam e se esbarram, tornando-se ela mesma uma dessas vidas.

Retornou-se ao Éden para haver Criação e Morte numa batalha apocalíptica, findando velhas estruturas interacionais para nascer uma outra. É um novo Gênesis, que ecoa transformações sociais que vão muito além da ficção científica do filme, mas toca a desconstrução da imagem da Mulher enquanto sexo frágil, demonstrando sua força e independência em um mundo até então ditado, em sua maior parte, por homens cegos por uma posição historicamente construída que nunca fez muito sentido, mas era aceita.

Esse é apenas um dos modos de enxergar e ler as sombras dançantes no cerne de Ex Machina. Mais importante do que qualquer interpretação racional, no entanto, é permitir que as sensações despertadas pela cuidadosa construção cinematográfica abram espaço para que se teçam palavras tentando tocar, nem que efemeramente, uma conclusão racional que descrevam as digressões emocionais suscitadas por imagem e som.

LUCAS WAGNER ALVES RIBEIRO NUNES
14/06/2015

quinta-feira, 11 de junho de 2015


Crítica:

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World / 2015 / EUA) dir. Colin Trevorrow

Jurassic World chega carregado de um hype que mistura desconfiança e nostalgia. Afinal, grande parte do público jovem adulto cresceu tendo em Jurassic Park, de Steven Spielberg, um dos primeiros grandes filmes com que tiveram contato (me incluo). Mas a promessa de relembrar um pouco a inocência da infância vem com a sombra de que o filme não fizesse jus às nossas doces memórias, se tornando apenas um exercício de frustração ao ver algo querido numa roupagem imbecil. O temor é justo, mas felizmente não se concretiza.

Apresentando a novidade de finalmente vermos o parque aberto e funcionando, Jurassic World ganha pela dinamicidade com que explora as atrações e a própria estrutura do parque, com seus transportes futuristas que reforçam o caráter de ficção científica do projeto, além de evidenciar anos da mais refinada engenharia e arquitetura, usando todos os meios possíveis para colocar o público em maior contato com os dinossauros, mas em segurança, com corredores que se camuflam de troncos e veículos transparentes giratórios que colocam as pessoas lado a lado com as criaturas, sem contar o tanque que abriga o Mosassauro. O parque acaba aparecendo como uma mistura de Disneylândia e Sea World (com elementos que lembram o recente Tomorrowland), só que elegante em suas cores claras porém sóbrias, mesmo nos ambientes mais burlescos (como a Margaritaville), evidenciando também a magnitude do investimento do parque ao acoplar hotéis à ilha.

O diretor Colin Trevorrow coaduna o senso de maravilhamento dessa visita ao parque ao desenvolvimento da trama que se passa nos bastidores, onde um dinossauro criado geneticamente a partir do genótipo de vários outros, Indominus Rex, escapa do seu cativeiro. Se a princípio tal dinossauro faz torcer o nariz, aos poucos começa a fazer sentido e enriquecer o filme, em especial se mantermos em mente que se trata de um parque temático fantástico em tempos onde as pessoas são bombardeadas por novidades a cada segundo, consequentemente se chocando cada vez menos, e assim, o desenvolvimento de criaturas maiores e mais assustadoras seria um investimento cabível caso a Ciência já fosse capaz de tal criação. Aliás, esse detalhe temático representa uma capacidade admirável dos realizadores em usar a ficção científica para uma leitura mais crítica das sociedades capitalistas modernas. É uma pena, no entanto, que Trevorrow não demonstre a maturidade necessária para equilibrar os dois seguimentos narrativos antes do choque, e o suspense da trama do Indominus Rex é constantemente frustrado pelo retorno ao segmento dos garotos visitando o parque, dado que o diretor não parece nem tentar usar esses momentos de calmaria para gradualmente aumentar a tensão para a chegada do Indominus, numa oportunidade narrativa lamentavelmente desperdiçada.

Trevorrow que, recém saído da direção do sensível Sem Segurança Nenhuma, acaba fazendo um desfavor ao tentar dar carga dramática ao relacionamento dos dois irmãos que visitam o parque, numa subtrama que soa terrivelmente aborrecida. O diretor se mostra muito mais competente é mesmo nas várias sequências de ação, onde emula Spielberg com eficácia através de longos travellings horizontais que acompanham a correria, e closes com contra-plongê (câmera apontando de baixo para cima) no rosto dos heróis, além, é claro, dos generosos planos aéreos com sua ampla perspectiva da ação, alcançando uma intensidade reforçada pela belíssima trilha de Michael Giacchino, com os temas clássicos e outros novos que o estabelecem como um John Williams melhorado. Os efeitos especiais também não decepcionam pelo cineasta não aderir somente ao CGI, e usar animatrônicos nos planos fechados, dando um efeito muito mais realista, como nos originais. Na construção da tensão, no entanto, Trevorrow está terrivelmente aquém de Spielberg, e Jurassic World falha basicamente em todos os momentos que tenta construir um clima de suspense palpável como o do filme de 1993.

Mesmo assim, é elegante o modo como Trevorrow homenageia o longa original, sem nunca soar óbvio, mas a partir da sutileza de movimentos de câmera, logo após a escapada do Indominus, que lembra a “dança” dos velociraptors com os garotos na estupenda sequência da cozinha no original, ou como Indominus dá um poderoso rugido bem no lugar onde T-Rex dá sua rosnada final lá em 1993. E se citei os velociraptors, o diretor reconhece que estes sempre foram os principais astros de Jurassic Park, e os engloba numa trama que pode soar besta ao tirar parte de sua brutalidade, mas até que funciona narrativamente. Mais admirável, no entanto, é como o cineasta apresenta Indominus de uma forma praticamente idêntica ao que os raptors eram apresentados no original, parafraseando quase fala por fala, para logo em seguida trazer os queridos predadores em sua roupagem atual.

Uma roupagem que, se funciona, em grande parte é devido à seriedade com que Chris Pratt interpreta Owen, o treinador dos velociraptors. Aliás, Pratt mais uma vez demonstra seu talento para personagens de ação, explorando o pragmatismo de Owen misturado ao mesmo ar canastrão que tanto divertiu em Guardiões da Galáxia. Já Bryce Dallas Howard toma conta de um bom arco dramático como Claire, desenvolvendo a transformação de mulher calculista e controladora para uma tremenda chutadora de bundas com uma segurança rara à atriz, sendo auxiliada por um figurino completamente branco que, junto à chapinha impecável, a princípio lhe transformam quase num robô futurista, para, no fim, mudar de modo a emular algo como Ellen Ripley. Mas é mesmo o sempre genial Irrfan Khan o responsável pelo papel mais tridimensional, o investidor Masrani, variando de uma descontração tremendamente divertida para uma postura séria e tensa.

Sem esquecer do valor nostálgico do que está trabalhando, Trevorrow revisita ambientes do falido parque de Hammond, e enriquece sua trama ao relembrar a tragédia das mortes ocorridas no filme original (aqui, usar uma camiseta com o símbolo do Jurassic Park é quase uma ofensa), além de conferir o fascínio infantil por dinossauros na pele do garotinho interpretado por Ty Simpkins, reforçando a já alta nostalgia do público que era criança quando do lançamento do longa de Spielberg, e, por conta deste, acabou se apaixonando pelos bichos (me incluo de novo).

No fim, muitos reclamarão, outros se entregarão à diversão descompromissada. Assistir Jurassic World com os olhos críticos em Jurassic Park certamente será frustrante. Melhor é aproveitar a nostalgia e lembrar o tanto que velociraptors são legais.