Análise:
Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta? / 2015 / Brasil)
Direção:
Anna Muylaert
Há uma fala em Que Horas Ela Volta? em que uma
personagem, admirando a arquitetura dos prédios de São Paulo, comenta sobre como
ouviu certa vez que, após o fim da humanidade, não levaria muito mais de cem
anos para que toda aquela estrutura fosse novamente coberta pela vegetação
natural. Sem chamar atenção para si, essa fala apresenta uma visão macrocósmica
filosófica do universo onde o filme mergulha a nível microcósmico. Observando
atentamente a complexa dinâmica em constante metamorfose da “psicologia” de um
país multifacetado, o longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, com essa
pequena fala, se indaga sobre a efemeridade de toda a estrutura das interações desenvolvidas
e mantidas por um pensamento que se pauta no termo “classes sociais”, pensamento este que atravessa intensamente toda a projeção.
Acompanhando como a
rotina de Val (Regina Casé), que trabalha há mais de uma década como empregada
doméstica em uma casa de classe média alta, sofre um choque de gerações quando
sua filha, Jéssica (Camila Márdila), chega do Nordeste para prestar vestibular
em São Paulo, Que Horas Ela Volta? apresenta
uma perspicácia admirável advinda da capacidade de Muylaert ao apresentar um
olhar atento às mudanças que o Brasil vem passando nos últimos anos, assim como
uma sensibilidade artística e humana para compreender a auto-imagem que cada um
daqueles personagens desenvolveu de si mesmo e dos outros como um aspecto do tempo e lugar onde nasceram.
É por essa
sensibilidade que Muylaert dedica a maior parte do primeiro ato para
estabelecer a rotina de Val enquanto arruma a casa, faz comida e serve seus
patrões de diversas maneiras (até despertador ela é). Podemos assim adentrar na
sua vida, perceber como funciona sua relação com os patrões como o reflexo de
um Brasil que até pouco tempo era a norma, ou seja, onde, sob uma visão de quem
adora se auto-denominar “liberal”, constitui-se uma espécie de escravidão disfarçada.
Sob uma condescendência que reflete a falta de um olhar crítico sobre si
mesmos, os patrões de Val apropriam sua pessoa sob vários “quase”: “quase da
família”, “quase parente”. O que pode parecer até respeitoso e, quem sabe,
carinhoso, mas na verdade revela apenas a tal da condescendência mal percebida
e mal disfarçada com que é tratada, se tornando sintomático, por exemplo, como Val
é descrita por sua patroa em sua incontrolável alegria quando da chegada da
filha como sendo “bonitinha”, algo que falaríamos sobre uma criança ou um
cachorro. Assim, é irônico notar como Fabinho (Michel Joelsas), o filho da
família, tem uma relação de intimidade muito maior com Val do que com a própria
mãe, Bárbara (Karine Teles), esta uma figura distante que, mesmo ressentindo a
frieza do filho, nunca poderia dedicar o tempo e carinho que a primeira dispõe.
Aliás, é no imenso
calor humano de sua performance que a maravilhosa Regina Casé vai compondo tudo
quanto diz respeito a Val. Com seu genial sotaque nordestino deliciando nossos
ouvidos ao longo de toda a projeção, Casé faz um trabalho eficaz justamente ao
imergir dentro da “insignificância” de Val, assumindo uma postura completamente
submissa que acredita ser o seu lugar perpétuo, num reflexo da falta de ambição
que aprendeu ser inerente à sua existência, algo que quase afoga diante da
abundância de carinho que demonstra com tudo e com todos, conseguindo ainda
evocar lágrimas no espectador em vários momentos quando sua voz embarga de um
choro que quase não consegue evitar. Em consonância com o trabalho de sua
atriz, Muylaert desenvolve uma direção que constantemente coloca Val próxima ou
atrás de grades, e ainda filmando os ambientes próximos à cozinha apenas de dentro
para fora da cozinha, quando Val lá está, como se aquele fosse um espaço que
lhe é de direito (em um momento até brinca com o patrão sobre a geladeira ser
dela).
Val e seus patrões são,
então, símbolos de um Brasil cujos sons ainda ecoam, algo que faz com que
Jéssica represente um ângulo diametralmente oposto mas que, num país que se vê
em transformação, se choca para causar uma tempestade de realidades, um
conceito com que Muylaert brinca quando o calor de São Paulo dá lugar à chuvas
constantes a partir da metade da projeção. Pertencente a uma juventude que não mais
abarca seu nascimento em uma classe baixa como presa a hierarquias rígidas e
imutáveis, apenas com oportunidades mais difíceis de alcançar, Jéssica é o
oposto de sua mãe, e é exatamente por isso que sua chegada à casa dos patrões de
Val, junto com sua visão moderna que enxerga o óbvio daquele absurdo que domina
a existência daquelas pessoas (sim, Val incluída), causa um estardalhaço de
tamanhas proporções. Não que Jéssica seja uma ignorante quanto às condições difíceis
que o próprio zeitgeist em que
aquelas pessoas foram criadas dita, mas tampouco está disposta a aceitar uma posição
social e psicológica ao qual não foi condicionada, como Val havia sido, e é com
certo orgulho que a moça então enfrenta o “aceitável”, quase levando Bárbara à
loucura.
Bárbara que nunca surge
como uma figura caricata ou literalmente maldosa, num acerto digno de nota de
Muylaert e Teles. Se a mulher vai se tornando cada vez mais irritada e perdendo
a condescendência com que tratava a criada e a filha desta, é porque ela mesma
foi criada num ambiente (tempo e lugar) que a moldou a ir apenas até certo
ponto de seu “liberalismo”, um ponto que rompe limites quando a “filha da
empregada” nada na piscina com seu filho ou quando toma o “sorvete de Fabinho”.
Aliás, é curioso ainda que Fabinho e seus amigos se mostrem muito mais naturais
em suas relações com Jéssica, dado pertencerem a um zeigeist similar ao da moça, ainda que, pelo próprio ambiente em
que foram criados, sejam levados a preconceitos evidentes, mesmo que mais sutis
do que os dos pais (observem a reação de Fabinho diante de uma notícia contada
por Val no terceiro ato).
Que
Horas Ela Volta?é, então, uma obra com um termômetro
histórico e social absolutamente preciso, capaz de captar tensões íntimas que vão
surgindo na interrelação entre todas aquelas pessoas, seres humanos que surgem
complexos em seus próprios ambientes intra e interpessoais, algo capturado por
um figurino que ilustra bem a personalidade e mutações de cada uma daquelas
pessoas. Há ainda uma perspicácia no roteiro de Muylaert quando explora o modo
como Carlos (Lourenço Mutarelli) e Fabinho se dirigem a Jéssica, a “novinha no
pedaço”. Ambos, em especial Carlos, a acercam como predadores (e Muylaert filma
um momento que ambos se aproximam dela de uma maneira que torna difícil evitar
tal metáfora), como “machos alfa” que enxergam alguma oportunidade sexual
envolvida na figura de uma garota que, dentro do universo onde eles foram
criados, representa uma “presa fácil”, num símbolo do machismo ainda presente
em nossa realidade. E é aqui que a atuação de Mutarelli se torna tão bela: o
ator compõe Carlos como uma figura melancólica de artista sonhador, sensível e
submisso à batuta da esposa, mas que ainda apresenta esse comportamento de côrte
em direção a Jéssica, de uma forma tão acanhada que pode gerar até pena no
espectador, mas que apenas representa como, mesmo aquele homem, aparentemente tão
doce, é movido, ainda que inconscientemente, pela própria definição do que
seria o comportamento de gênero “adequado” à sua posição.
Ganhando ainda mais ambição
e complexidade na revelação feita sobre o passado de Jéssica, no terceiro ato,
que nos leva a observar de modo contundente como aquela moça tão moderna e
decidida ainda se vê de algum modo amarrada a espécies de clichês de sua classe
social, e como mais esse choque do “novo” com o “velho” dificulta a movimentação
de uma mulher em uma realidade que não dá apoio para fazer movimentos em direção
às suas ambições em tal condição, Que
Horas Ela Volta? se junta ao sublime O
Som ao Redor como um dos filmes brasileiros atuais que melhor captam o zeigeist de um país rico em diversidade
e extremamente complexo em sua constante metamorfose social.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
31/08/2015






