quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Crítica: A Grande Aposta


Crítica:

A Grande Aposta (The Big Short / 2015 / EUA)

Direção: Adam Mckay

O drama não é o único gênero para falar de desastres. Às vezes a comédia é uma via ainda mais rica. Há uns dois anos, Martin Scorsese demonstrou ter compreendido bem isso através do poderoso O Lobo de Wall Street, quando aplicou a comédia à uma história sobre o mercado financeiro norte americano, aproveitando o gênero para estabelecer o quão absurdo era aquele universo. Em estratégia e tema similares, o diretor Adam McKay, advindo de comédias divertidas como O Âncora e Quase Irmãos, faz de A Grande Aposta um esforço admirável ao usar o humor como ferramenta para descascar a brutalidade envolvendo os bastidores da crise econômica de 2008.

O roteiro de Charles Randoulph e do próprio McKay então adentra em Wall Street acompanhando uma série de personagens que apostaram diretamente na desestruturação financeira envolvendo o “sólido” mercado imobiliário, e que assolaria os EUA (e o mundo). Para contar tal história, é impossível desviar da selva de jargões que envolve aquele universo, e que naturalmente afasta qualquer pessoa que não alfabetizada naquela linguagem. Uma das coisas que o roteiro compreende muito bem é que esses jargões não passam de uma estratégia para obscurecer um mundo que na verdade não é tão complicado assim (pode ser caótico, mas não exatamente complicado). E assim, em delicioso tom de chacota/ironia, coloca figuras do mundo pop desde Selena Gomez até Anthony Bourdain, para nos explicar o que está acontecendo de forma didática em analogias simples, sem contar que, ao colocar Margot Robbie num aposento à la O Lobo de Wall Street nos explicando sobre CDO’s, o longa automaticamente dialoga com o filme de Scorsese.

E não é só essa estratégia narrativa que torna A Grande Aposta um fluxo intenso e empolgante de se acompanhar. Durante a projeção, mantendo a câmera na mão e conferindo maior instabilidade ao que vemos, McKay consegue renovar constantemente suas estratégias de forma a tornar a narrativa sempre dinâmica, sem nunca esquecer suas preocupações temáticas. Assim, a quarta parede é constantemente quebrada pelo arrogante narrador-personagem interpretado por Ryan Gosling (incrivelmente divertido em seu honesto egoísmo), e aos poucos, uma série de outros personagens conversam com o espectador, a ponto mesmo de comentar a natureza cinematográfica do que estamos vendo, comparando-a ao mundo real. Ao mesmo tempo, usando imagens aleatórias que interferem no meio de diálogos e sequências, McKay e o montador Hank Corwin alcançam a proeza de fazer com que sintamos o grau de arbitrariedade do universo que estamos acompanhando.

E é exatamente para que o caos representado pelo mercado financeiro norte americano fique evidente que o humor é ferramenta nobre. Ao exagerar as situações e os comportamentos daqueles indivíduos, ridicularizando-os de diversas formas possíveis (como Melissa Leo usando óculos escuros futuristas ou Gosling justificando a eficácia de contas matemáticas por ter um contador asiático), McKay permite que olhemos aquele mundo através de lentes que evidenciam o quão patético é o que estamos vendo. Um mundo onde jargões complicados são criados para confundir e afagar egos; onde pessoas conseguem mover milhões (ou bilhões) de dólares simplesmente fazendo ligações telefônicas; onde a pergunta “como é que você vai me fuder?” faz perfeito sentido antes de se fechar um acordo; tudo isso num país onde empréstimos são feitos a uma população que, crescendo a partir de sonhos de luxuosas casas, não hesita em se iludir através de aparente facilidade de movimentação. A selvageria do capitalismo ganha contornos cômicos que justificam mesmo o momento em que o design de som emula uma ­sitcom durante uma conversa séria, onde fica óbvio o quão cegos, egoístas e maquiavélicos são as pessoas nos bastidores do mercado financeiro. Cegos a ponto de não perceberem que por trás de toda a grana que estão fazendo, simplesmente eclodirão a economia do país.

E não é por usar o humor para ridicularizar que McKay se esquece de estar lidando com uma trama trágica em seu cerne. Demonstrando ainda mais segurança numa direção capaz de manter-se centrada no furacão, McKay e Corwin evidentemente alteram o ritmo do filme de forma a torná-lo mais denso quanto mais claro fica o tamanho da cagada que esses personagens fizeram. Se tons de melancolia são encontrados aqui e ali (cada um dos três atos inicia-se com uma citação que emula desesperança e horror, além de imagens “cacofônicas” que exploram o passar do tempo), o terceiro ato é carregado de tensão e momentos silenciosos, mesmo sentimentos de culpa diante do horror que o país enfrenta. E McKay não mantém seu olhar apenas no alto dos edifícios, mas insere imagens de pessoas desabrigas e horrores íntimos de famílias que ferem o espectador em seu âmago ao mostrar os efeitos mais devastadores da crise. A graça acabou faz tempo, sobrando apenas os tons de assombro da voz de Robert Plant quando When The Leeve Breaks ecoa nos créditos finais, enquanto que os Gorillaz já nos alertavam no meio da projeção, quando os personagens surgem bêbados de poder sob a letra profética de Feel Good Inc:

“City’s breaking down on a camel’s back
They just have to go ‘cos they don’t hold back
So all you fill the streets it’s appealing to see
You won’t get out the county, ‘cause you’re bad and free
You’ve got a new horizon it’s ephemeral style
A melancholy town where we never smile
All I wanna hear is the message beep
My dreams, they’ve got to kiss me ‘cause I don’t get sleep”

Como se não bastasse, McKay aproveita nossa fragilidade ao final da projeção para soltar informações envolvendo o mercado financeiro de 2015, alertando-nos sobre uma possível nova explosão. Algo que, como bem diz Gosling no início do filme, não é obscuro. A única coisa que precisamos fazer é olhar...

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 28/01/2016

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