domingo, 17 de janeiro de 2016

Crítica: Spotlight – Segredos Revelados


Crítica:

Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight / 2015 / EUA)

Direção: Tom McCarthy

Spotlight surge como uma lufada de ar para os dias de hoje, embalado quase que em um tom de melancolia diante da dificuldade de se encontrar jornalismo como ferramenta de expressão, de informação e de democracia, como está em sua ideia original. Claro que o longa remonta a tempos antes da explosão da internet, mas a ferocidade apaixonada de seus personagens em estabelecer os fatos corretos para publicar um artigo fidedigno e imparcial não deixa de ser inspiradora, assim como o próprio filme que, como narrativa, apresenta qualidades dignas de um artigo jornalístico bem realizado.

Narrando a investigação conduzida por uma equipe de jornalistas para revelar o processo de acobertamento de padres pedófilos pela Igreja Católica, Spotlight automaticamente remete a obras como Todos os Homens do Presidente, O Jornal, O Informante e Zodíaco, ao adotar uma estrutura focada prioritariamente no processo e dificuldade de coleta de dados. Mas é evidente como o longa encontra lugar próprio ao adequar-se a demandas mais singulares, e se esses outros filmes citados (talvez nem tanto o de Alan J. Pakula) buscavam humanizar seus personagens-jornalistas evidenciando suas famílias ou mesmo mostrando-os em momentos de puro lazer, os “caçadores” aqui são figuras cujos cônjuges, filhos e outros parentes são, salvo a exceção do caso de Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams), mantidos nas sombras, mencionadas à parte, como uma forma de manter o espectador atento aos sacrifícios que uma verdadeira produção jornalística exige.

Nem por isso os personagens de Spotlight são menos humanos, já que o roteiro de Tom McCarthy (também diretor) e Josh Singer é hábil ao mostrar os impactos dessa vida frenética nos relacionamentos (veja o caso de Rezendes, interpretado por Mark Ruffalo) e, principalmente, em como os choques com realidades assustadoras promovem momentos de auto-reflexão naqueles indivíduos que são falíveis como qualquer ser humano. Mais humanista ainda talvez seja a postura do roteiro em atentar para as diversas variáveis que envolvem a produção de um artigo tão explosivo como o que é escrito no filme, assim como as consequências psicológicas e sociais que este pode produzir numa comunidade tão entremeada pelo catolicismo como é Boston.

Nesse sentido, quando McCarthy opta por diversos planos onde a estrutura massiva de uma igreja cobre parte do quadro, a função não é apenas lembrar-nos de pequenez daqueles jornalistas diante do monstro contra o qual lutam, mas também como a fé católica representa parte inerente do cotidiano daquelas pessoas, e se reflete no delicado momento onde uma senhora religiosa, que vai à igreja três vezes por semana, lê o artigo e é invadida por tristeza. Como uma verdadeira peça de genuíno jornalismo, Spotlight apresenta imparcialidade o suficiente para não tocar na questão da fé católica, mas sim na descrição de fatos que demonstram aspectos sombrios da instituição da Igreja Católica, e nesse movimento demonstra sensibilidade ao apresentar tanto os relatos mais intimistas que permitem o abuso sexual infantil e o posterior silêncio da criança, quanto outros que dizem respeito à própria “psicologia” dos padres (pedófilos ou não).

E assim o filme de McCarthy se constrói com honestidade ímpar ao usar menos recursos na manipulação emocional do espectador, apostando mais numa enxurrada de diálogos que, ao menos nesse caso, se revela uma postura acertada, mostrando os personagens discutindo constantemente os dados que angariaram. Pois Spotlight é quase uma ode ao jornalismo bem realizado, uma declaração de amor que surge sem romantismo, até porque a romantização iria contra os alicerces do próprio objeto que busca homenagear. E assim, quando muito, McCarthy exerce um controle sutil sobre nós, como ao progressivamente fechar planos no rosto de atores para gerar mais tensão, ou acelerar e diminuir a intensidade da trilha sonora de Howard Shore dependendo das ondulações de tensão da narrativa.

O diretor parece mais preocupado em nos fazer mergulhar num mundo de trabalho constante, exaustivo, evidenciado a partir das toneladas de arquivos, livros e documentos que parecem parte da decoração de diversos escritórios vistos aqui, além das incessantes entrevistas ou tentativas de entrevistas, e que constituem a verdadeira produção jornalística, sendo o sentar-se à frente do computador e escrever apenas uma parte ínfima do processo. Algo que parece não ser tão compreendido hoje em dia, onde informações incorretas envenenam a mídia, assim como interesses institucionais (que fogem do caráter de desafio como a produção do artigo-tema do filme) são influência constante nos textos publicados, sem deixar de lado a dificuldade encontrada em ser verdadeiramente imparcial e adequar a produção escrita aos dados angariados, e não forçando dados reais a compatibilizarem-se com opiniões pré-definidas. Vivendo num mundo assim, confesso que abri um enorme sorriso ao ver o cuidado de Robinson (Michael Keaton) em diversos momentos do filme, até mesmo ao mandar investigar o histórico e a validade do discurso de um entrevistado que aparentemente trazia informações irresistíveis para o caso que investigam.

E é por sua fidelidade aos fatos narrados de forma direta e sem romantização que McCarthy finaliza seu filme com pesos iguais de melancolia e orgulho, pois permite ver a amplitude do artigo, e também como uma instituição poderosa como a Igreja Católica não poderia ser tão abalada assim, nem mesmo pela ferramenta do jornalismo. Mas essa mesma ferramenta foi capaz de causar algum impacto, e se houvesse mais consistência em seu uso, mais dedicação e fidelidade aos dados e à imparcialidade, é possível que a desestruturação de instituições corruptas e corruptoras (como a Igreja) fosse uma realidade mais ao alcance da mão. Mas estamos numa era diferente, e esse é um sonho muito distante...

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 18/01/2016

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