Crítica:
Spotlight – Segredos Revelados (Spotlight / 2015 / EUA)
Direção:
Tom McCarthy
Spotlight surge
como uma lufada de ar para os dias de hoje, embalado quase que em um tom de melancolia
diante da dificuldade de se encontrar jornalismo como ferramenta de expressão,
de informação e de democracia, como está em sua ideia original. Claro que o
longa remonta a tempos antes da explosão da internet, mas a ferocidade apaixonada
de seus personagens em estabelecer os fatos corretos para publicar um artigo
fidedigno e imparcial não deixa de ser inspiradora, assim como o próprio filme
que, como narrativa, apresenta qualidades dignas de um artigo jornalístico bem
realizado.
Narrando
a investigação conduzida por uma equipe de jornalistas para revelar o processo
de acobertamento de padres pedófilos pela Igreja Católica, Spotlight automaticamente remete a obras como Todos os Homens do Presidente, O
Jornal, O Informante e Zodíaco, ao adotar uma estrutura focada
prioritariamente no processo e dificuldade de coleta de dados. Mas é evidente
como o longa encontra lugar próprio ao adequar-se a demandas mais singulares, e
se esses outros filmes citados (talvez nem tanto o de Alan J. Pakula) buscavam
humanizar seus personagens-jornalistas evidenciando suas famílias ou mesmo
mostrando-os em momentos de puro lazer, os “caçadores” aqui são figuras cujos
cônjuges, filhos e outros parentes são, salvo a exceção do caso de Sacha
Pfeiffer (Rachel McAdams), mantidos nas sombras, mencionadas à parte, como uma
forma de manter o espectador atento aos sacrifícios que uma verdadeira produção
jornalística exige.
Nem
por isso os personagens de Spotlight são
menos humanos, já que o roteiro de Tom McCarthy (também diretor) e Josh Singer
é hábil ao mostrar os impactos dessa vida frenética nos relacionamentos (veja o
caso de Rezendes, interpretado por Mark Ruffalo) e, principalmente, em como os
choques com realidades assustadoras promovem momentos de auto-reflexão naqueles
indivíduos que são falíveis como qualquer ser humano. Mais humanista ainda
talvez seja a postura do roteiro em atentar para as diversas variáveis que
envolvem a produção de um artigo tão explosivo como o que é escrito no filme,
assim como as consequências psicológicas e sociais que este pode produzir numa
comunidade tão entremeada pelo catolicismo como é Boston.
Nesse
sentido, quando McCarthy opta por diversos planos onde a estrutura massiva de
uma igreja cobre parte do quadro, a função não é apenas lembrar-nos de pequenez
daqueles jornalistas diante do monstro contra o qual lutam, mas também como a
fé católica representa parte inerente do cotidiano daquelas pessoas, e se
reflete no delicado momento onde uma senhora religiosa, que vai à igreja três
vezes por semana, lê o artigo e é invadida por tristeza. Como uma verdadeira
peça de genuíno jornalismo, Spotlight apresenta
imparcialidade o suficiente para não tocar na questão da fé católica, mas sim
na descrição de fatos que demonstram aspectos sombrios da instituição da Igreja Católica, e nesse movimento demonstra sensibilidade
ao apresentar tanto os relatos mais intimistas que permitem o abuso sexual
infantil e o posterior silêncio da criança, quanto outros que dizem respeito à
própria “psicologia” dos padres (pedófilos ou não).
E
assim o filme de McCarthy se constrói com honestidade ímpar ao usar menos
recursos na manipulação emocional do espectador, apostando mais numa enxurrada
de diálogos que, ao menos nesse caso, se revela uma postura acertada, mostrando
os personagens discutindo constantemente os dados que angariaram. Pois Spotlight é quase uma ode ao jornalismo bem realizado,
uma declaração de amor que surge sem romantismo, até porque a romantização iria
contra os alicerces do próprio objeto que busca homenagear. E assim, quando
muito, McCarthy exerce um controle sutil sobre nós, como ao progressivamente
fechar planos no rosto de atores para gerar mais tensão, ou acelerar e diminuir
a intensidade da trilha sonora de Howard Shore dependendo das ondulações de
tensão da narrativa.
O
diretor parece mais preocupado em nos fazer mergulhar num mundo de trabalho
constante, exaustivo, evidenciado a partir das toneladas de arquivos, livros e
documentos que parecem parte da decoração de diversos escritórios vistos aqui,
além das incessantes entrevistas ou tentativas de entrevistas, e que constituem
a verdadeira produção jornalística, sendo o sentar-se à frente do computador e
escrever apenas uma parte ínfima do processo. Algo que parece não ser tão
compreendido hoje em dia, onde informações incorretas envenenam a mídia, assim
como interesses institucionais (que fogem do caráter de desafio como a produção
do artigo-tema do filme) são influência constante nos textos publicados, sem
deixar de lado a dificuldade encontrada em ser verdadeiramente imparcial e
adequar a produção escrita aos dados angariados, e não forçando dados reais a
compatibilizarem-se com opiniões pré-definidas. Vivendo num mundo assim,
confesso que abri um enorme sorriso ao ver o cuidado de Robinson (Michael
Keaton) em diversos momentos do filme, até mesmo ao mandar investigar o
histórico e a validade do discurso de um entrevistado que aparentemente trazia
informações irresistíveis para o caso que investigam.
E
é por sua fidelidade aos fatos narrados de forma direta e sem romantização que
McCarthy finaliza seu filme com pesos iguais de melancolia e orgulho, pois
permite ver a amplitude do artigo, e também como uma instituição poderosa como
a Igreja Católica não poderia ser tão abalada assim, nem mesmo pela ferramenta
do jornalismo. Mas essa mesma ferramenta foi capaz de causar algum impacto, e
se houvesse mais consistência em seu uso, mais dedicação e fidelidade aos dados
e à imparcialidade, é possível que a desestruturação de instituições corruptas
e corruptoras (como a Igreja) fosse uma realidade mais ao alcance da mão. Mas
estamos numa era diferente, e esse é um sonho muito distante...
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 18/01/2016

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