segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Crítica: Os 8 Odiados


Crítica:

Os 8 Odiados (The Hateful Eight / 2015 / EUA)

direção: Quentin Tarantino

Antes, uma nota pessoal: nunca fui o maior fã de Quentin Tarantino. Sempre achei seus trabalhos divertidos, mas não “geniais”. Aliás, ao longo dos anos, não pude deixar de me incomodar com a impressão de que a fan base estaria sustentando mais o nome do diretor do que suas obras. E é justamente nesse ponto que Os 8 Odiados funcionou diferente em mim.

Ao término da sessão não pude bem dizer o que tinha achado da obra, defini-la em algum molde. E isso porque, apesar de ser descaradamente um “filme de Tarantino”, o longa apresenta o cineasta numa posição muito mais centrada e madura, a ponto mesmo de transformar muitos de suas marcas registradas em elementos funcionais que fazem mais sentido dentro da construção da narrativa.

Remetendo ao seu Cães de Aluguel ao trabalhar uma narrativa em um número escasso de ambientes, selecionando um onde a trama se desenrolará durante a maior parte do tempo, Os 8 Odiados trás Tarantino saindo de sua zona de conforto desde os primeiros minutos de projeção, quando troca os chamativos letreiros acompanhados de alguma música que logo se tornará um “hit cinéfilo”, por planos abertos que enfocam esqueletos de árvores, nuvens espessas e neve cobrindo solo e montanhas, além de uma trilha tensa de Ennio Morricone, tudo isso preparando o palco para o suspense que tomará a narrativa.

Aliás, a parceria entre Tarantino e Morricone revelou-se rica de um modo inesperado: ao invés de apostar na metalinguagem “tarantiniana” e construir mais uma de suas inesquecíveis trilhas de western spaghetti, como fazia para Sergio Leone, Morricone se contém e cria temas que se preocupam mais em marcar as ondulações da tensão. E mesmo quando a metalinguagem aparece na trilha, vem com um aspecto funcional raro à filmografia do diretor: mais do que fazer “brilhar olhos de cinéfilo” com o reconhecimento de alguma obra clássica, o instante em que Morricone aplica parte de sua trilha composta para O Enigma de Outro Mundo em 1984 vem acompanhando um momento marcante do personagem de Kurt Russell (que protagonizou aquele clássico), além de, como um todo, tal escolha musical ser mais do que adequada, dado ambos os filmes tratarem de pessoas presas em um local isolado devido a uma nevasca intensa, e sem poder confiar em ninguém à sua volta. Isso sim é Cinema conversando com Cinema.

Mas não é apenas na trilha sonora que se reflete uma maior funcionalidade, e até mesmo elegância, no usual saudosismo cinematográfico de Tarantino. Dentre tantos elementos, um que deve ser abordado numa crítica desse filme é, claro, seu maior chamariz: a fotografia rodada no sistema Panavision 70mm, que havia sido abandonado em 1966. O mais fascinante, no entanto, é o profundo conhecimento que Tarantino demonstra não apenas sobre História do Cinema, mas sobre a Arte de contar histórias visualmente, e que fez com que o cineasta fizesse um tremendo esforço para ter seu filme rodado nesse formato. Juntamente com o diretor de fotografia Robert Richardson, Tarantino inverte as regras do uso do formato: ao invés de predominar cenas externas, como o comum para o 70mm, os realizadores utilizam o formato para angariar maior tensão, explorando planos fechados que capturam minúcias das expressões dos atores, além de permitir que a fotografia por si só, usada nesse formato e dessa forma, garanta um ambiente mais claustrofóbico. De novo então: Tarantino aqui não está usando o recurso por ser “legal”, mas por ter claro papel na manipulação emocional do espectador.

De toda a forma, o diretor ainda trás muito de suas marcas registradas. Há aqui o humor negro escandaloso, a narrativa que quebra as convenções cinematográficas (a narração em off que surge a partir da metade da projeção; cenas idênticas vistas de pontos de vista diferentes; divisão em capítulos; etc), além dos extensos diálogos. Esse último exemplo, por sinal, tem um papel ambíguo em Os 8 Odiados: se por um lado há diálogos fascinantes, como o do clímax, existem outros que cansam. No entanto, eles tem uma função também: permitir que conheçamos aqueles personagens o suficiente para que seus preconceitos pessoais fiquem explícitos. Ainda assim, se por um lado admiro um filme que se construa com calma, apresente e desenvolva seus personagens devagar, Tarantino não carecia de diálogos tão excessivamente longos para cumprir esse objetivo. Mas ao menos existe função para eles. Não são tão repletos de nada.

Esse detalhe se torna um pecadilho perto das tantas virtudes de Os 8 Odiados, que incluem ainda um design de som pontual ao manter o som da nevasca constante, lembrando-nos dos perigos de sair da cabana, enquanto os perigos de continuar lá dentro pulsam constantemente através de um clima de antipatia nunca quebrado entre os personagens, que explode em mortes inesperadas a todo momento. Com um elenco afiado (Samuel L. Jackson tem alguns de seus melhores momentos aqui), Tarantino ainda brinca com as expectativas do espectador ao manipular o tempo da narrativa, se divertindo de uma forma que não fazia desde Jackie Brown, em 1997, ao apresentar elementos novos na trama de uma forma pouco convencional, mas que funciona, algo surpreendente para um filme que depende tanto da claustrofobia constante para funcionar. E se o diretor tem a ousada decisão de manter extensas falas de personagens contando casos sem usar um recurso visual (como flashback) para acompanhar, acaba acertando por assim nos manter mais próximos dos eventos presentes, apesar do próprio Tarantino se contradizer nos objetivos dessa estratégia ao manipular a narrativa para revelar elementos que aconteceram na manhã anterior, logo nos tirando dos eventos presentes. Mas ok, passemos por esse outro pecadilho e cheguemos ao momento em que Tarantino novamente subverte sua própria lógica ao usar um flashback em um momento específico, o que acaba se revelando uma decisão madura do cineasta já que, diante desse monólogo (você o reconhecerá) não poderíamos ficar sem efetivamente ver os eventos narrados, para que eles possam repercutir mais violentamente em nós.

Mas há ainda mais ambição em Os 8 Odiados do que os parágrafos anteriores revelam. Se Django Livre e À Prova de Morte já traziam algum traço de ambição temática, seu novo trabalho apresenta uma complexidade muito maior ao funcionar como uma alegoria repleta de camadas. Aqui, pedirei que quem não viu o filme pule para o último parágrafo. Tchau! Então: Tarantino cria personagens que funcionam a partir de seus aspectos mais óbvios: a mulher, o negro, o inglês (representando o caráter colonial), o representante da lei, o mexicano, o racista, o condutor de carruagem (trabalhador braçal abusado constantemente), e ainda tem o cara que enriqueceu mais rápido que todos. Enfim, o que importa aqui é que os personagens do longa acabam por funcionar como uma representação microcósmica dos EUA, algo que se torna óbvio quando dividem a cabana em Norte e Sul.

Com o preconceito pulsando a todo momento, e criando mais tensão entre aquelas figuras, há toda uma linhagem hereditária de ódio mantendo fronteiras muto frágeis entre aquelas pessoas. A questão que Tarantino explora aqui é justamente a violência que governa essas relações, o que permite que o diretor mantenha um olhar melancólico e irônico sobre o universo que ele mesmo chamou, em entrevista, de “pós-apocalíptico”. Como se a violência absurda que toma conta da projeção já não fosse prova disso, o plano final apresenta uma ironia visual gritante, quando ouvimos a leitura da carta de Lincoln falando “Mas, de mãos dadas, chegaremos lá” e vemos, em primeiro plano, o cadáver de Dasy ainda acorrentado (“de mãos dadas”) com o braço amputado de John Ruth. Uma metáfora visual que fecha com brilhantismo um filme que começa com outra metáfora: neve branca para todos os lados, quebrada por troncos, pedras e um Cristo pretos que, juntamente ao apresentar apenas cavalos pretos e brancos, revela a simplicidade da visão de mundo daquelas pessoas, que enxergam o universo através do simplismo do preto e branco: a violência enquanto denominador comum, como modo de resolver conflitos. Já dizia Isaac Asimov em sua trilogia Fundação: “a violência é o último refúgio do incompetente”.

E assim, quando o filme logo de cara nos mostra um longo travelling de um Cristo de madeira enegrecida, vemos a imagem melancólica do homem que supostamente morreu por nós para dar lugar a uma selvageria desenfreada que ainda governa as relações humanas, e basta observarmos a densidade do preconceito e intolerância que reinam nos EUA e no mundo (lembram-se de Paris?) para podermos contemplar que, mesmo nem sempre com o tom explícito desses Odiados, carregamos muito deles. Esse novo filme de Tarantino, assim, conversa com a filmografia de Sam Peckinpah: sim, a violência é o denominador comum, mas será mesmo nossa expiação, como é para esses personagens? Se pensarmos em um mundo onde a maior parte da humanidade acredita em um deus que mandou à morte com requintes de crueldade seu próprio filho... bem, talvez a lógica dos Odiados faça sentido, e o Cristo no início seja uma metáfora ainda mais rica...

Quentin Tarantino virou adulto, se transformou num artista com propostas mais sérias e coesas em seu diálogo com o mundo, escapando do lugar-comum de sua auto-indulgência. Agora sim!

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 05/01/2016

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