Crítica:
Os 8 Odiados
(The Hateful Eight / 2015 / EUA)
direção:
Quentin Tarantino
Antes,
uma nota pessoal: nunca fui o maior fã de Quentin Tarantino. Sempre achei seus
trabalhos divertidos, mas não “geniais”. Aliás, ao longo dos anos, não pude
deixar de me incomodar com a impressão de que a fan base estaria sustentando mais o nome do diretor do que suas
obras. E é justamente nesse ponto que Os 8
Odiados funcionou diferente em mim.
Ao
término da sessão não pude bem dizer o que tinha achado da obra, defini-la em
algum molde. E isso porque, apesar de ser descaradamente um “filme de Tarantino”,
o longa apresenta o cineasta numa posição muito mais centrada e madura, a ponto
mesmo de transformar muitos de suas marcas registradas em elementos funcionais
que fazem mais sentido dentro da construção da narrativa.
Remetendo
ao seu Cães de Aluguel ao trabalhar
uma narrativa em um número escasso de ambientes, selecionando um onde a trama
se desenrolará durante a maior parte do tempo, Os 8 Odiados trás Tarantino saindo de sua zona de conforto desde os
primeiros minutos de projeção, quando troca os chamativos letreiros
acompanhados de alguma música que logo se tornará um “hit cinéfilo”, por planos abertos que enfocam esqueletos de
árvores, nuvens espessas e neve cobrindo solo
e montanhas, além de uma trilha tensa de Ennio Morricone, tudo isso preparando
o palco para o suspense que tomará a narrativa.
Aliás,
a parceria entre Tarantino e Morricone revelou-se rica de um modo inesperado: ao
invés de apostar na metalinguagem “tarantiniana” e construir mais uma de suas
inesquecíveis trilhas de western spaghetti,
como fazia para Sergio Leone, Morricone se contém e cria temas que se preocupam
mais em marcar as ondulações da tensão. E mesmo quando a metalinguagem aparece
na trilha, vem com um aspecto funcional raro à filmografia do diretor: mais do
que fazer “brilhar olhos de cinéfilo” com o reconhecimento de alguma obra
clássica, o instante em que Morricone aplica parte de sua trilha composta para O Enigma de Outro Mundo em 1984 vem
acompanhando um momento marcante do personagem de Kurt Russell (que
protagonizou aquele clássico), além de, como um todo, tal escolha musical ser
mais do que adequada, dado ambos os filmes tratarem de pessoas presas em um
local isolado devido a uma nevasca intensa, e sem poder confiar em ninguém à
sua volta. Isso sim é Cinema conversando com Cinema.
Mas
não é apenas na trilha sonora que se reflete uma maior funcionalidade, e até
mesmo elegância, no usual saudosismo cinematográfico de Tarantino. Dentre
tantos elementos, um que deve ser abordado numa crítica desse filme é, claro,
seu maior chamariz: a fotografia rodada no sistema Panavision 70mm, que havia
sido abandonado em 1966. O mais fascinante, no entanto, é o profundo
conhecimento que Tarantino demonstra não apenas sobre História do Cinema, mas
sobre a Arte de contar histórias visualmente, e que fez com que o cineasta
fizesse um tremendo esforço para ter seu filme rodado nesse formato. Juntamente
com o diretor de fotografia Robert Richardson, Tarantino inverte as regras do
uso do formato: ao invés de predominar cenas externas, como o comum para o
70mm, os realizadores utilizam o formato para angariar maior tensão, explorando
planos fechados que capturam minúcias das expressões dos atores, além de
permitir que a fotografia por si só, usada nesse formato e dessa forma, garanta
um ambiente mais claustrofóbico. De novo então: Tarantino aqui não está usando
o recurso por ser “legal”, mas por ter claro papel na manipulação emocional do
espectador.
De
toda a forma, o diretor ainda trás muito de suas marcas registradas. Há aqui o
humor negro escandaloso, a narrativa que quebra as convenções cinematográficas
(a narração em off que surge a partir
da metade da projeção; cenas idênticas vistas de pontos de vista diferentes;
divisão em capítulos; etc), além dos extensos diálogos. Esse último exemplo,
por sinal, tem um papel ambíguo em Os 8
Odiados: se por um lado há diálogos fascinantes, como o do clímax, existem
outros que cansam. No entanto, eles tem uma função também: permitir que
conheçamos aqueles personagens o suficiente para que seus preconceitos pessoais
fiquem explícitos. Ainda assim, se por um lado admiro um filme que se construa
com calma, apresente e desenvolva seus personagens devagar, Tarantino não
carecia de diálogos tão excessivamente longos para cumprir esse objetivo. Mas
ao menos existe função para eles. Não são tão repletos de nada.
Esse
detalhe se torna um pecadilho perto das tantas virtudes de Os 8 Odiados, que incluem ainda um design de som pontual ao manter o som da nevasca constante, lembrando-nos
dos perigos de sair da cabana, enquanto os perigos de continuar lá dentro pulsam constantemente através de um clima de
antipatia nunca quebrado entre os personagens, que explode em mortes
inesperadas a todo momento. Com um elenco afiado (Samuel L. Jackson tem alguns
de seus melhores momentos aqui), Tarantino ainda brinca com as expectativas do
espectador ao manipular o tempo da narrativa, se divertindo de uma forma que
não fazia desde Jackie Brown, em
1997, ao apresentar elementos novos na trama de uma forma pouco convencional,
mas que funciona, algo surpreendente para um filme que depende tanto da
claustrofobia constante para funcionar. E se o diretor tem a ousada decisão de
manter extensas falas de personagens contando casos sem usar um recurso visual
(como flashback) para acompanhar, acaba
acertando por assim nos manter mais próximos dos eventos presentes, apesar do
próprio Tarantino se contradizer nos objetivos dessa estratégia ao manipular a
narrativa para revelar elementos que aconteceram na manhã anterior, logo nos
tirando dos eventos presentes. Mas ok, passemos por esse outro pecadilho e
cheguemos ao momento em que Tarantino novamente subverte sua própria lógica ao
usar um flashback em um momento
específico, o que acaba se revelando uma decisão madura do cineasta já que,
diante desse monólogo (você o reconhecerá) não poderíamos ficar sem
efetivamente ver os eventos narrados,
para que eles possam repercutir mais violentamente em nós.
Mas
há ainda mais ambição em Os 8 Odiados do
que os parágrafos anteriores revelam. Se Django
Livre e À Prova de Morte já
traziam algum traço de ambição temática, seu novo trabalho apresenta uma
complexidade muito maior ao funcionar como uma alegoria repleta de camadas. Aqui,
pedirei que quem não viu o filme pule para o último parágrafo. Tchau! Então:
Tarantino cria personagens que funcionam a partir de seus aspectos mais óbvios:
a mulher, o negro, o inglês (representando o caráter colonial), o representante
da lei, o mexicano, o racista, o condutor de carruagem (trabalhador braçal abusado
constantemente), e ainda tem o cara que enriqueceu mais rápido que todos.
Enfim, o que importa aqui é que os personagens do longa acabam por funcionar
como uma representação microcósmica dos EUA, algo que se torna óbvio quando dividem
a cabana em Norte e Sul.
Com
o preconceito pulsando a todo momento, e criando mais tensão entre aquelas
figuras, há toda uma linhagem hereditária de ódio mantendo fronteiras muto
frágeis entre aquelas pessoas. A questão que Tarantino explora aqui é justamente
a violência que governa essas relações, o que permite que o diretor mantenha um
olhar melancólico e irônico sobre o universo que ele mesmo chamou, em
entrevista, de “pós-apocalíptico”. Como se a violência absurda que toma conta
da projeção já não fosse prova disso, o plano final apresenta uma ironia visual
gritante, quando ouvimos a leitura da carta de Lincoln falando “Mas, de mãos
dadas, chegaremos lá” e vemos, em primeiro plano, o cadáver de Dasy ainda
acorrentado (“de mãos dadas”) com o braço amputado de John Ruth. Uma metáfora
visual que fecha com brilhantismo um filme que começa com outra metáfora: neve
branca para todos os lados, quebrada por troncos, pedras e um Cristo pretos
que, juntamente ao apresentar apenas cavalos pretos e brancos, revela a
simplicidade da visão de mundo daquelas pessoas, que enxergam o universo através
do simplismo do preto e branco: a violência enquanto denominador comum, como
modo de resolver conflitos. Já dizia Isaac Asimov em sua trilogia Fundação: “a violência é o último
refúgio do incompetente”.
E
assim, quando o filme logo de cara nos mostra um longo travelling de um Cristo de madeira enegrecida, vemos a imagem
melancólica do homem que supostamente morreu por nós para dar lugar a uma
selvageria desenfreada que ainda governa as relações humanas, e basta
observarmos a densidade do preconceito e intolerância que reinam nos EUA e no
mundo (lembram-se de Paris?) para podermos contemplar que, mesmo nem sempre com
o tom explícito desses Odiados,
carregamos muito deles. Esse novo filme de Tarantino, assim, conversa com a
filmografia de Sam Peckinpah: sim, a violência é o denominador comum, mas será
mesmo nossa expiação, como é para esses personagens? Se pensarmos em um mundo
onde a maior parte da humanidade acredita em um deus que mandou à morte com requintes de crueldade seu próprio
filho... bem, talvez a lógica dos Odiados faça sentido, e o Cristo no
início seja uma metáfora ainda mais rica...
Quentin
Tarantino virou adulto, se transformou num artista com propostas mais sérias e coesas em seu diálogo com o mundo, escapando do lugar-comum de sua auto-indulgência. Agora sim!
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 05/01/2016

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