Vulcão
à la Pisa
Um
ato de distração de um humano fez com que uma vela sofresse notável
comprometimento na base de sua estrutura. Era a maior e mais roliça da casa. Mas,
numa tentativa do humano de aproveitar a cera derretida de outra vela, nossa protagonista
foi afixada no mesmo pires. O único problema era que essa vela já começada
estava em seu fim, pequena e quase desaparecendo, o que deixou o corpo da
protagonista exposto à chama moribunda. Tão logo foi afixada, a robusta vela
começou a derreter em sua base, ganhando uma estrutura torta que a tornava
pouco confiável na missão de se manter na vertical.
A
desprezível colega de nossa protagonista, no seu fim, inocentemente responsável
pelo dano à outra, foi apagada assim que o humano percebeu seu descuido. Deixou
só a antes robusta vela, agora uma figura quebradiça, retorcida sobre si mesma,
sem esperança a não ser pender-se cada vez mais sobre si e por fim queimar o
resto da base, num processo de auto-destruição que, de tão triste, tornava-se
inadvertidamente belo, dada a questionável tendência humana de olhar com curiosidade,
e quem sabe admiração, os mais violentos embates intrínsecos do “ser”.
Pobre
vela... a tendência à romantização poderia supor que o líquido que formava em
seu derretimento não era senão lágrimas, num choro doído mas cada vez mais
abundante diante de um destino que, sem qualquer aviso prévio, a destruiu. As
causas impessoais apenas tornavam sua situação mais uma triste teia das cruéis
contingências que o acaso pode tecer.
Não
há heróis nem vilões. O humano distraído nada mais queria que iluminar seu
ambiente, poder ler e estudar, e dada a predisposição que não apenas ele, mas
qualquer organismo dessa espécie tem de enfurecer-se diante da privação de
conforto elétrico, agiu sem pensar. Já a vela há pouco apagada, e que destruiu
as bases de nossa protagonista, estava apenas cumprindo seu papel, indiferente
de que sua humilde sina de brilhar até o aniquilamento em prol de um ser vivo
qualquer pudesse atingir terceiros de modo tão fatal.
Nossa
protagonista não tinha nem contra quem dirigir alguma espécie de cólera. Estava
sozinha, esquecida para sempre, e logo logo por si mesma, engolfada pelo
líquido que seu corpo vertia na base da chama que, devido à recém adquirida
inclinação à la Pisa, começou a
pingar na lateral.
Os
pingos se tornaram constantes. O rápido resfriamento característico de tal
substância começou a criar uma estranha estrutura, logo ao lado da base da vale.
Os padrões formados lembravam lava, sua formação facilmente confundida (ou
metaforizada) em pedras vulcânicas. A estrutura gradualmente cresceu com os
pingos constantes da cera que tão logo se resfriava e solidificava, erguendo-se
paralelo à protagonista. Não tardou para que a calosa formação crescesse a
ponto de se ligar não apenas à base, mas à própria cabeça fervente da heroína.
Passando o tempo, a estrutura adquiriu o aspecto peculiar de ser uma única
formação, mas com um notável, buraco entre a base e o centro, resultado da
curva da deformação adquirida mais cedo, e onde as gotas ferventes não tinham
alcançado...
Ainda.
Os contornos daquela geografia microcósmica permitiram que as mais recentes
formadas gotas pudessem escorregar até o centro, gradualmente preenchendo-o do
remanejamento do material em seu passeio entre estados físicos. Não tardou para
que a vela estivesse mais uma vez completa, com aparência ainda mais robusta do
que antes, já que agora lembrava um vulcão com um lado possuindo íngreme subida
e o outro como que intocado pela natureza, por ter mantido o aspecto liso
original.
A
vela agora queimava curiosamente tendo sua “parte original”, lisa, acabando-se
mais rapidamente, sendo engolida pela nova estrutura. Queimou até o fim, no lento
ritual de aniquilamento a que parecem submetidas todas as coisas do mundo. Mas
a nova formação persistiu, mesmo quando a chama já havia se extinguido.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, fevereiro de 2015
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