sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Crítica: Anomalisa


Crítica:

Anomalisa (Anomalisa / 2015 / EUA)

Direção: Charlie Kaufman & Duke Johnson

Charlie Kaufman é um autor formidável na criação de universos cujo surrealismo, ou no mínimo bizarrice, nos tira do comodismo cotidiano, deixando-nos desconfortáveis o suficiente para refletirmos sobre questões que tocam o relacionamento com nós mesmos e com terceiros, em especial quanto à necessidade de contato. Assim, à guisa de exemplo, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças nos remetia à natureza contraditória e conflitante do ato de amar, enquanto Sinédoque, Nova York era um estudo fascinante sobre a linguagem e seus abismos. Com um currículo tão nobre, é surpreendente que seu novo roteiro, Anomalisa, seja uma obra com uma trama consideravelmente mais simples do que dos seus antecessores, mas igualmente profunda.

Dirigido por Kaufman e Duke Johnson (que presenteou o mundo com o episódio em stop motion de Community), Anomalisa nos apresenta a Michael (dublado por David Thewlis), um solitário e aborrecido palestrante sobre atendimento a clientes. Em uma vida onde já não parece capaz de se encantar com outras pessoas, de enxergar as idiossincrasias alheias, Michael viaja à Cincinatti para apresentar uma palestra, quando conhece Lisa (dublada por Jennifer Jeson Leigh), por quem se apaixona.

Se em todas suas obras anteriores a delicadeza do olhar de Kaufman sobre seus personagens era algo que saltava aos olhos, em Anomalisa esse efeito talvez tenha ainda mais destaque, já que ao se tratar de uma animação, em stop motion ainda por cima, com todo seu artesanato, todos os movimentos que traduzem gestos humanos, hesitações, lampejos de sorrisos, maneirismos... tudo o que os personagens fazem é milimetricamente planejado. Assim, a delicadeza de Kaufman se torna ainda mais notável pelo fato de o cineasta, e sua equipe, terem apresentado preocupação a gestos aparentemente pequenos, mas que dizem muito sobre os personagens e seus estados emocionais, como o puxão desajeitado que Bella (ex de Michael) dá em sua bolsa que ficou presa à uma cadeira, os braços juntos próximos ao corpo desta mesma personagem, a atenção de Lisa em esconder uma cicatriz com uma mexa de cabelo, e também os momentos em que esquece de esconder ou que subitamente se lembra de fazê-lo (em um desses momentos, confesso que quase fui às lágrimas).

Aliás, é nessa atenção que os realizadores permitem que percebamos tão bem as barreiras de Lisa se quebrando quando se permite ser seduzida, passando do receio, para a desconfiança, para a incredulidade e finalmente para o prazer, num processo onde a impressão que fica é de puro encantamento diante daquele “strip tease emocional/erótico de uma mulher com um histórico doloroso finalmente se permitindo prazer. Assim também vale ressaltar como a animação do boneco de Michael iguala-se em complexidade, quando pela expressão facial e pelos olhares, os realizadores alcançam a proeza de permitir que sintamos toda a onda de fascínio que aquele indivíduo passa ao se encantar com alguém depois de tanto tempo, o que é vital para que o filme funcione. Juntamente com as soberbas dublagens de Jennifer Jason Leigh e David Thewlis (com inflexões de voz e uma capacidade de expressão fora do comum para uma dublagem), esses personagens se descortinam deliciosamente para nós, menos pelo que dizem, e mais pelo que seus corpos demonstram e suas vozes traem no nível não-verbal. Talvez por isso a cena de sedução e sexo, mesmo que numa animação, seja tão íntima.

Trazendo um plano logo no início da projeção onde Michael abafa a cacofonia de um aeroporto com uma música clássica em seu iPod, Kaufman e Johnson estabelecem o ambiente daquela história, o ponto de vista de Michael, e permitem que compreendamos seu desgaste com outras pessoas de uma forma gradual quando é obrigado a passar por diversos contatos efêmeros e enfadonhos com indivíduos até chegar ao seu quarto de hotel. A criatividade de Kaufman em trabalhar realidades torpes, no entanto, se dá mesmo a partir de uma estratégia narrativa simples e elegante que nos permite acompanhar a história a partir das emoções de Michael. Todas as pessoas com quem entra em contato ao longo do filme, independente do gênero, tem a exata mesma fisionomia (o mesmo boneco) e são dublados pela mesma pessoa (Tom Noonan), o que permite que nós, enquanto espectadores, compartilhemos da impressão de Michael de que todos em seu ambiente são iguais, de que não há nada em especial sobre ninguém.

E quando Lisa aparece com um rosto particular, dublada por outra pessoa, vestindo-se de forma mais colorida (laranja e vermelho), no meio de um universo de cores pastéis, ela automaticamente chama atenção. Não é à toa que o que primeiro atrai Michael é sua voz, fazendo-o sair a procura dela. Assim também Lisa possui uma série de peculiaridades que a destacam, a tornam mais “real”, como os detalhes para as gordurinhas extras que tem na barriga. Há o elemento de fantasia presente (Michael a percebe como sendo diferente mesmo pela voz), mas o que toca o cerne da trama é que podemos perceber, sentir, o fascínio de Michael sobre Lisa, o que a torna um elemento novo num universo desgastado. Uma anomalia.

Junto a esse desespero por contato que marca todos os personagens de Kaufman, há o elemento de que as obsessões e perturbações de Michael não se referem tanto ao mundo onde está inserido, mas a si mesmo. Não são as pessoas com quem interage que desgastam o mundo, é o seu olhar sobre elas que impede de enxergar as idiossincrasias que as marcam e colorem. Pode-se dizer que Michael é um homem preso em si mesmo, e esta é sua tragédia. A sequência de pesadelo no meio da projeção explicita bem como Michael se vê: todos o amam, todos o sugam. Ele é uma espécie de divindade, contra a qual o mundo conspira para que não seja feliz. Essa auto-imagem o trava em seus relacionamentos, o impede de enxergar os outros e as devastações que causa em seu andar descuidado, desinteressado e egoísta (vide sua ex, Belle). Michael vive a base de idealizações. Quando estas não mais funcionam, quando a realidade e todas suas peculiaridades batem à porta, seu interesse se esvai. Ele se fecha.

Mas quem não vive à base de idealizações? A grande dificuldade é poder enxergar a realidade com o mesmo fascínio que a fantasia. Michael não poderia dizer a razão de ter se apaixonado por Lisa, a priori. Ela é uma garota normal, desgastada por colisões aleatórias que a fizeram quem hoje é. Essa é sua maldição, e essa é sua maior beleza. Não apenas a voz de Jennifer Jason Leigh. É uma pena que Michael não consiga perceber isso.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 05/02/2016

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