Crítica:
Anomalisa (Anomalisa / 2015 / EUA)
Direção:
Charlie Kaufman & Duke Johnson
Charlie
Kaufman é um autor formidável na criação de universos cujo surrealismo, ou no
mínimo bizarrice, nos tira do comodismo cotidiano, deixando-nos desconfortáveis
o suficiente para refletirmos sobre questões que tocam o relacionamento com nós
mesmos e com terceiros, em especial quanto à necessidade de contato. Assim, à
guisa de exemplo, Brilho Eterno de Uma
Mente Sem Lembranças nos remetia à natureza contraditória e conflitante do
ato de amar, enquanto Sinédoque, Nova
York era um estudo fascinante sobre a linguagem e seus abismos. Com um
currículo tão nobre, é surpreendente que seu novo roteiro, Anomalisa, seja uma obra com uma trama consideravelmente mais
simples do que dos seus antecessores, mas igualmente profunda.
Dirigido
por Kaufman e Duke Johnson (que presenteou o mundo com o episódio em stop motion de
Community), Anomalisa nos apresenta a Michael (dublado por David Thewlis), um
solitário e aborrecido palestrante sobre atendimento a clientes. Em uma vida
onde já não parece capaz de se encantar com outras pessoas, de enxergar as
idiossincrasias alheias, Michael viaja à Cincinatti para apresentar uma
palestra, quando conhece Lisa (dublada por Jennifer Jeson Leigh), por quem se
apaixona.
Se
em todas suas obras anteriores a delicadeza do olhar de Kaufman sobre seus
personagens era algo que saltava aos olhos, em Anomalisa esse efeito talvez tenha ainda mais destaque, já que ao
se tratar de uma animação, em stop motion
ainda por cima, com todo seu artesanato, todos os movimentos que traduzem
gestos humanos, hesitações, lampejos de sorrisos, maneirismos... tudo o que os
personagens fazem é milimetricamente planejado. Assim, a delicadeza de Kaufman
se torna ainda mais notável pelo fato de o cineasta, e sua equipe, terem
apresentado preocupação a gestos aparentemente pequenos, mas que dizem muito
sobre os personagens e seus estados emocionais, como o puxão desajeitado que
Bella (ex de Michael) dá em sua bolsa que ficou presa à uma cadeira, os braços juntos próximos
ao corpo desta mesma personagem, a atenção de Lisa em esconder uma cicatriz com
uma mexa de cabelo, e também os momentos em que esquece de esconder ou que
subitamente se lembra de fazê-lo (em um desses momentos, confesso que quase fui
às lágrimas).
Aliás,
é nessa atenção que os realizadores permitem que percebamos tão bem as
barreiras de Lisa se quebrando quando se permite ser seduzida, passando do
receio, para a desconfiança, para a incredulidade e finalmente para o prazer,
num processo onde a impressão que fica é de puro encantamento diante daquele “strip tease” emocional/erótico de uma mulher com um histórico doloroso
finalmente se permitindo prazer. Assim também vale ressaltar como a animação do
boneco de Michael iguala-se em complexidade, quando pela expressão facial e
pelos olhares, os realizadores alcançam a proeza de permitir que sintamos toda
a onda de fascínio que aquele indivíduo passa ao se encantar com alguém depois
de tanto tempo, o que é vital para que o filme funcione. Juntamente com as
soberbas dublagens de Jennifer Jason Leigh e David Thewlis (com inflexões de
voz e uma capacidade de expressão fora do comum para uma dublagem), esses
personagens se descortinam deliciosamente para nós, menos pelo que dizem, e mais pelo que seus corpos demonstram
e suas vozes traem no nível não-verbal. Talvez por isso a cena de sedução e
sexo, mesmo que numa animação, seja tão íntima.
Trazendo
um plano logo no início da projeção onde Michael abafa a cacofonia de um
aeroporto com uma música clássica em seu iPod, Kaufman e Johnson estabelecem o
ambiente daquela história, o ponto de vista de Michael, e permitem que
compreendamos seu desgaste com outras pessoas de uma forma gradual quando é
obrigado a passar por diversos contatos efêmeros e enfadonhos com indivíduos até
chegar ao seu quarto de hotel. A criatividade de Kaufman em trabalhar realidades
torpes, no entanto, se dá mesmo a partir de uma estratégia narrativa simples e
elegante que nos permite acompanhar a história a partir das emoções de Michael.
Todas as pessoas com quem entra em contato ao longo do filme, independente do
gênero, tem a exata mesma fisionomia (o mesmo boneco) e são dublados pela mesma
pessoa (Tom Noonan), o que permite que nós, enquanto espectadores,
compartilhemos da impressão de Michael de que todos em seu ambiente são iguais,
de que não há nada em especial sobre ninguém.
E
quando Lisa aparece com um rosto particular, dublada por outra pessoa,
vestindo-se de forma mais colorida (laranja e vermelho), no meio de um universo
de cores pastéis, ela automaticamente chama atenção. Não é à toa que o que primeiro
atrai Michael é sua voz, fazendo-o sair a procura dela. Assim também Lisa
possui uma série de peculiaridades que a destacam, a tornam mais “real”, como
os detalhes para as gordurinhas extras que tem na barriga. Há o elemento de
fantasia presente (Michael a percebe como sendo diferente mesmo pela voz), mas
o que toca o cerne da trama é que podemos perceber, sentir, o fascínio de
Michael sobre Lisa, o que a torna um elemento novo num universo desgastado. Uma
anomalia.
Junto
a esse desespero por contato que marca todos os personagens de Kaufman, há o
elemento de que as obsessões e perturbações de Michael não se referem tanto ao
mundo onde está inserido, mas a si mesmo. Não são as pessoas com quem interage
que desgastam o mundo, é o seu olhar sobre elas que impede de enxergar as
idiossincrasias que as marcam e colorem. Pode-se dizer que Michael é um homem
preso em si mesmo, e esta é sua tragédia. A sequência de pesadelo no meio da
projeção explicita bem como Michael se vê: todos o amam, todos o sugam. Ele é
uma espécie de divindade, contra a qual o mundo conspira para que não seja
feliz. Essa auto-imagem o trava em seus relacionamentos, o impede de enxergar
os outros e as devastações que causa em seu andar descuidado, desinteressado e
egoísta (vide sua ex, Belle). Michael vive a base de idealizações. Quando estas
não mais funcionam, quando a realidade e todas suas peculiaridades batem à
porta, seu interesse se esvai. Ele se fecha.
Mas
quem não vive à base de idealizações? A grande dificuldade é poder enxergar a
realidade com o mesmo fascínio que a fantasia. Michael não poderia dizer a
razão de ter se apaixonado por Lisa, a
priori. Ela é uma garota normal, desgastada por colisões aleatórias que a
fizeram quem hoje é. Essa é sua maldição, e essa é sua maior beleza. Não apenas
a voz de Jennifer Jason Leigh. É uma pena que Michael não consiga perceber
isso.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 05/02/2016

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