Uma Sombra Entre Notas
Texto escrito após
revisitar o filme “Apenas Uma Vez”, de John Carney, e, com mais experiência de
vida e maturidade, ter absorvido com mais intensidade a obra.
Algumas coisas fazem
barulho demais mesmo em silêncio. Começam quietas, tímidas, e vão escalando
paulatinamente rumo a um cume sagrado que não pode ser tocado por palavras
específicas de tão fácil acesso no vocabulário cotidiano. Todas fogem, e na
melhor das hipóteses, passam tangencialmente pelo cume.
A música, a literatura,
a Arte em geral, é um invólucro onde os artistas podem construir um universo
dual que jamais se permite ser alcançado por algum outro meio. Esse universo
sempre se mantém na sombra, aparecendo quando invocado com poesia ou
instrumentos musicais, e logo se escondem de novo, envolvendo-se numa manta de
mistério e de lá não saindo até ser invocado novamente da maneira correta sob condições
também apropriadas.
Foi com um piano que a
primeira faísca brilhou para ele. O homem cansado, de roupas surradas, cínico,
abatido, viu sua armadura ranger e quebrar sob o toque enluvado pelas notas que
aquela mulher extraia do piano. Ele se ajoelha, como que em adoração,
subjulgado pelo Mistério daquele universo que acabava de nascer. Aqueles segundos
sob as notas de Mendenssohn, aquela música sem palavras que escreve um texto na
língua tácita que nenhum homem ou mulher jamais será capaz de dominar, porque não
lhes cabe dominar o celeste que se faz presente na Terra... é nesse momento que
o cínico deixa seu corpo que parece mais velho do que é e volta a ser menino.
Apaixona-se.
Nesse meio de profundo encontro há, porém, o desencontro. Ele a encontrou, mas ela ainda não.
Não foi recíproco. Aos poucos, as canções que ele compôs para aquela que antes
lhe tinha quebrado passam a surtir um efeito sobre a moça pianista, bem depois
do efeito similar, ainda que idiossincrático, que balançou o homem-menino ao
ouvi-la tocar. Ela... tão doce, com um aspecto juvenil que pertence
apenas àquelas pessoas que parecem buscar preservar para sempre um pouco da doçura de uma criança, revela-se na verdade mais dura do que ele, uma dureza
que se entreve por trás dos modos suaves. Sua suavidade é uma defesa, uma
resposta ousada à escuridão que revolve dentro de si. É apenas imergindo e se
juntando às notas que ele compôs que aos poucos ela mergulha na música dele,
começa a mergulhar nele, num processo que apenas a Arte pode permitir, um desenvolvimento
de processo não-verbal em meio às notas das canções.
É quando ocorre um
outro momento mágico na presença de um piano. Só que agora estão no escuro, sós
dentro de um quarto mal iluminado. Agora, nas sombras, a escuridão dela se mescla ao ambiente, sua máscara de doçura cai ao som de uma canção que vinha criando mas que, até então, a mantinha trancada dentro de si, junto à sua escuridão. No escuro, a música se espalha pela sala junto com a escuridão, porque ali, nas sombras, as verdades inauditas se levantam e saem a
um passeio. A moça está em seu habitat íntimo. E o homem-menino está lá também, como um espectador-personagem fascinado pelo convite.
Ela passou pelo processo de mergulho nas possibilidades quando se deixou levar
pela música dele, mas é apenas nas sombras que o verbo unha a porta do inefável
que veio sendo construída. Apenas ali, naquela manta de escuridão, os sonhos e
as palavras dançam, queimados ao primeiro contato com a luz do dia.
Momentos assim não existem
na luz. Não podem ser vistos ou sentidos em meio à claridade. Esses momentos são
seres de escuridão. O que fica é a memória decadente de alguns minutos que
jamais existiram na realidade. Não pertencem ao real, mas a um brecha que nele
foi cravada, por descuido ou poesia... de qualquer forma, valeu.
No fim, há o piano que
aparece na casa da moça. Totem de um sonho meio esquecido, relíquia de uma
jornada ao desconhecido, ao reino das possibilidades fantasmagóricas. E a
música que cravou bandeira no inefável, conquistando um pedacinho de terra no
território alienígena que é o choque entre duas vidas, entoa na cabeça deles
como uma lembrança. A música se mantém, ela sempre existirá. Mesmo numa jornada
que tem mais de onírica que de real. A música entoará para sempre naquele
território hostil ao verbo.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 23/08/2015

Nenhum comentário:
Postar um comentário