domingo, 30 de agosto de 2015

Análise: Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta? / 2015 / Brasil)


Análise:

Que Horas Ela Volta? (Que Horas Ela Volta? / 2015 / Brasil)

Direção: Anna Muylaert

Há uma fala em Que Horas Ela Volta? em que uma personagem, admirando a arquitetura dos prédios de São Paulo, comenta sobre como ouviu certa vez que, após o fim da humanidade, não levaria muito mais de cem anos para que toda aquela estrutura fosse novamente coberta pela vegetação natural. Sem chamar atenção para si, essa fala apresenta uma visão macrocósmica filosófica do universo onde o filme mergulha a nível microcósmico. Observando atentamente a complexa dinâmica em constante metamorfose da “psicologia” de um país multifacetado, o longa escrito e dirigido por Anna Muylaert, com essa pequena fala, se indaga sobre a efemeridade de toda a estrutura das interações desenvolvidas e mantidas por um pensamento que se pauta no termo “classes sociais”, pensamento este que atravessa intensamente toda a projeção. 

Acompanhando como a rotina de Val (Regina Casé), que trabalha há mais de uma década como empregada doméstica em uma casa de classe média alta, sofre um choque de gerações quando sua filha, Jéssica (Camila Márdila), chega do Nordeste para prestar vestibular em São Paulo, Que Horas Ela Volta? apresenta uma perspicácia admirável advinda da capacidade de Muylaert ao apresentar um olhar atento às mudanças que o Brasil vem passando nos últimos anos, assim como uma sensibilidade artística e humana para compreender a auto-imagem que cada um daqueles personagens desenvolveu de si mesmo e dos outros como um aspecto do tempo e lugar onde nasceram.

É por essa sensibilidade que Muylaert dedica a maior parte do primeiro ato para estabelecer a rotina de Val enquanto arruma a casa, faz comida e serve seus patrões de diversas maneiras (até despertador ela é). Podemos assim adentrar na sua vida, perceber como funciona sua relação com os patrões como o reflexo de um Brasil que até pouco tempo era a norma, ou seja, onde, sob uma visão de quem adora se auto-denominar “liberal”, constitui-se uma espécie de escravidão disfarçada. Sob uma condescendência que reflete a falta de um olhar crítico sobre si mesmos, os patrões de Val apropriam sua pessoa sob vários “quase”: “quase da família”, “quase parente”. O que pode parecer até respeitoso e, quem sabe, carinhoso, mas na verdade revela apenas a tal da condescendência mal percebida e mal disfarçada com que é tratada, se tornando sintomático, por exemplo, como Val é descrita por sua patroa em sua incontrolável alegria quando da chegada da filha como sendo “bonitinha”, algo que falaríamos sobre uma criança ou um cachorro. Assim, é irônico notar como Fabinho (Michel Joelsas), o filho da família, tem uma relação de intimidade muito maior com Val do que com a própria mãe, Bárbara (Karine Teles), esta uma figura distante que, mesmo ressentindo a frieza do filho, nunca poderia dedicar o tempo e carinho que a primeira dispõe.

Aliás, é no imenso calor humano de sua performance que a maravilhosa Regina Casé vai compondo tudo quanto diz respeito a Val. Com seu genial sotaque nordestino deliciando nossos ouvidos ao longo de toda a projeção, Casé faz um trabalho eficaz justamente ao imergir dentro da “insignificância” de Val, assumindo uma postura completamente submissa que acredita ser o seu lugar perpétuo, num reflexo da falta de ambição que aprendeu ser inerente à sua existência, algo que quase afoga diante da abundância de carinho que demonstra com tudo e com todos, conseguindo ainda evocar lágrimas no espectador em vários momentos quando sua voz embarga de um choro que quase não consegue evitar. Em consonância com o trabalho de sua atriz, Muylaert desenvolve uma direção que constantemente coloca Val próxima ou atrás de grades, e ainda filmando os ambientes próximos à cozinha apenas de dentro para fora da cozinha, quando Val lá está, como se aquele fosse um espaço que lhe é de direito (em um momento até brinca com o patrão sobre a geladeira ser dela).

Val e seus patrões são, então, símbolos de um Brasil cujos sons ainda ecoam, algo que faz com que Jéssica represente um ângulo diametralmente oposto mas que, num país que se vê em transformação, se choca para causar uma tempestade de realidades, um conceito com que Muylaert brinca quando o calor de São Paulo dá lugar à chuvas constantes a partir da metade da projeção. Pertencente a uma juventude que não mais abarca seu nascimento em uma classe baixa como presa a hierarquias rígidas e imutáveis, apenas com oportunidades mais difíceis de alcançar, Jéssica é o oposto de sua mãe, e é exatamente por isso que sua chegada à casa dos patrões de Val, junto com sua visão moderna que enxerga o óbvio daquele absurdo que domina a existência daquelas pessoas (sim, Val incluída), causa um estardalhaço de tamanhas proporções. Não que Jéssica seja uma ignorante quanto às condições difíceis que o próprio zeitgeist em que aquelas pessoas foram criadas dita, mas tampouco está disposta a aceitar uma posição social e psicológica ao qual não foi condicionada, como Val havia sido, e é com certo orgulho que a moça então enfrenta o “aceitável”, quase levando Bárbara à loucura.

Bárbara que nunca surge como uma figura caricata ou literalmente maldosa, num acerto digno de nota de Muylaert e Teles. Se a mulher vai se tornando cada vez mais irritada e perdendo a condescendência com que tratava a criada e a filha desta, é porque ela mesma foi criada num ambiente (tempo e lugar) que a moldou a ir apenas até certo ponto de seu “liberalismo”, um ponto que rompe limites quando a “filha da empregada” nada na piscina com seu filho ou quando toma o “sorvete de Fabinho”. Aliás, é curioso ainda que Fabinho e seus amigos se mostrem muito mais naturais em suas relações com Jéssica, dado pertencerem a um zeigeist similar ao da moça, ainda que, pelo próprio ambiente em que foram criados, sejam levados a preconceitos evidentes, mesmo que mais sutis do que os dos pais (observem a reação de Fabinho diante de uma notícia contada por Val no terceiro ato).

Que Horas Ela Volta?é, então, uma obra com um termômetro histórico e social absolutamente preciso, capaz de captar tensões íntimas que vão surgindo na interrelação entre todas aquelas pessoas, seres humanos que surgem complexos em seus próprios ambientes intra e interpessoais, algo capturado por um figurino que ilustra bem a personalidade e mutações de cada uma daquelas pessoas. Há ainda uma perspicácia no roteiro de Muylaert quando explora o modo como Carlos (Lourenço Mutarelli) e Fabinho se dirigem a Jéssica, a “novinha no pedaço”. Ambos, em especial Carlos, a acercam como predadores (e Muylaert filma um momento que ambos se aproximam dela de uma maneira que torna difícil evitar tal metáfora), como “machos alfa” que enxergam alguma oportunidade sexual envolvida na figura de uma garota que, dentro do universo onde eles foram criados, representa uma “presa fácil”, num símbolo do machismo ainda presente em nossa realidade. E é aqui que a atuação de Mutarelli se torna tão bela: o ator compõe Carlos como uma figura melancólica de artista sonhador, sensível e submisso à batuta da esposa, mas que ainda apresenta esse comportamento de côrte em direção a Jéssica, de uma forma tão acanhada que pode gerar até pena no espectador, mas que apenas representa como, mesmo aquele homem, aparentemente tão doce, é movido, ainda que inconscientemente, pela própria definição do que seria o comportamento de gênero “adequado” à sua posição.

Ganhando ainda mais ambição e complexidade na revelação feita sobre o passado de Jéssica, no terceiro ato, que nos leva a observar de modo contundente como aquela moça tão moderna e decidida ainda se vê de algum modo amarrada a espécies de clichês de sua classe social, e como mais esse choque do “novo” com o “velho” dificulta a movimentação de uma mulher em uma realidade que não dá apoio para fazer movimentos em direção às suas ambições em tal condição, Que Horas Ela Volta? se junta ao sublime O Som ao Redor como um dos filmes brasileiros atuais que melhor captam o zeigeist de um país rico em diversidade e extremamente complexo em sua constante metamorfose social.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
31/08/2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário