Análise:
Narcos – 1ª Temporada (SEM SPOILERS)
Sobre a paisagem noturna sombria e misteriosa de uma grande floresta colombiana coberta por uma densa
névoa, um letreiro divaga brevemente sobre quão apropriado é que a escola
literária do Realismo Mágico tenha nascido na Colômbia. Dado ser uma Literatura
marcada pela invasão do absurdo, do surreal, ao mundo do real, os realizadores
de Narcos não poderiam ter bolado uma
introdução melhor, como vai ficando evidente ao longo dos 10 episódios que se
descortinam à frente, nos levando a um passeio pela História real e tão absurda
que mais parece fantasia envolvendo o império e queda do traficante Pablo
Escobar.
Sujeito egocêntrico e
com óbvios delírios de grandeza, Escobar é uma figura magnética justamente pela
improbabilidade de sua existência, tão estranha que só poderia ser verídica. Com
sua ambição digna dos pensamentos de uma criança que ainda não passou direito
por um processo de calcificação do real, Escobar pegou uma oportunidade de
ganhar dinheiro com a empolgante novidade representada pela cocaína e a
expandiu a horizontes que ninguém até então tinha pensado: ao invés de vender e
lucrar apenas na América do Sul, porque não pensar em termos de EUA? Isso sem
contar as ambições presidenciais do cara. Hoje, uma lógica não tão grotesca (e até muito
palpável), mas então maluca o suficiente para desregular toda a ordem e
estrutura das agências de investigação e política da época.
É por reconhecer isso
que os realizadores do seriado optam por calcar aquele cenário num âmbito
realista, dividindo as sequências filmadas com atores e aquelas de arquivos da
época, por vezes até brincando com raccords
entre vídeos reais e aqueles que foram encenados. Dirigido por nomes como
José Padilha, Andi Baiz, Guillermo Navarro e Fernando Coimbra (o gênio por trás
de O Lobo Atrás da Porta), a estética
adotada para a série surge suja, remetendo à linguagem jornalística pelo uso da
câmera na mão, que acaba por conferir maior impacto à violência em nada
suavizada que vai banhando a Colômbia ao longo dos episódios. Ainda que padronizada,
a direção de cada um dos episódios permite que os cineastas insiram, aqui e
ali, algumas de suas marcas registradas, desde Padilha com planos que se
aproximam e afastam rapidamente do rosto dos atores, até Coimbra com seus enquadramentos
meticulosos e repletos de significados, como quando Gustavo Gavíria (Juan Pablo
Raba) surge diminuto num espaço apertado entre a amante e o limite da tela,
numa representação de sua situação angustiante, ou quando, em um diálogo
definitivo, a câmera dança ao redor de Escobar (Wagner Moura) e Valeria Velez
(Stephanie Sigman) sob a deixa das reviravoltas envolvidas nas falas.
Tecnicamente
irrepreensível, Narcos permite que o
sempre talentoso diretor de fotografia Lula Carvalho possa ir além de representar
o realismo da série e brincar com sombras e cores que garantem símbolos a
momentos específicos, como aquele envolvendo a chegada de uma figura política
em uma La Catedral banhada em vermelho e verde, no último episódio, enquanto o
músico Pedro Bromfman, demonstrando admirável sobriedade na sua composição, se
resguardar a marcar os momentos de drama, suspense ou ação sem esforçar-se para
ter uma trilha chamativa. E, se o design de
produção vê as possibilidades criativas barradas aos cenários tais como foram
na realidade, ao menos consegue alguns truques sutis e elegantes, como a
gradual transformação do apartamento dos Murphy em um verdadeiro lar, numa
sutileza também característica do inteligente figurino, que brinca com as
possibilidades que tem, como a gravata de Cesar Gaviria (Raúl Méndez), que
surge vermelha (a cor de seu partido político) ou cinza (sua cor pessoal)
dependendo das inclinações do complexo personagem em cada momento da trama.
Ainda no âmbito técnico, as sequências de ação não poderiam ficar sem menção,
surgindo bem orquestradas e intensas, com destaque para uma (dirigida por Coimbra)
quando Murphy (Boyd Holdbrook) e Javier Peña (Pedro Pascal, o Oberyn de Game Of Thrones, caso não reconheçam)
perseguem dois assassinos pelas favelas da cidade.
Tal
trabalho técnico se torna essencial na medida em que amplia as sutilezas
narrativas envolvendo desenvolvimento dos personagens e do universo de uma
forma que a narrativa principal não pode se dar ao luxo. Adotando uma
perspectiva panorâmica, Narcos se
preocupa em abarcar uma enorme quantidade de dados envolvendo a história que
narra, e se torna uma espécie de aula sobre aqueles eventos (uma função a mais
para as citadas filmagens de arquivo), conseguindo, através de roteiros
escritos com sobriedade, uma clareza fascinante mesmo em meio a acontecimentos tão
complexos, se preocupando, inclusive, de situar as dificuldades políticas e
tecnológicas em uma investigação sem precedentes.
Nesse
âmbito, a narração de Boyd Holdbrook (remetendo aquela de Wagner Moura nos dois
Tropa de Elite, não por acaso
dirigidos por José Padilha) assume uma função que passa longe da muleta
narrativa como é tão comum em narrações em off,
e evidencia característica da personalidade de Murphy assim como serve para
agregar os abundantes dados que recebemos por segundo. Além disso, servindo de
veículo para a postura dos próprios realizadores diante do que se passa na
tela, é fascinante que a narração surja marcada por um cinismo que alcança a
todos naquele universo, e, o que é vital, acaba com as possibilidades
xenofóbicas de uma visão dos EUA em direção à Colômbia quando aponta os alvos
para as atitudes deploráveis envolvendo o governo norte-americano e a CIA ao, por exemplo, demorar a se
importar com a questão do narcotráfico pois esse (ainda) não tinha relação com
comunismo. E não só na narração, mas pelos próprios acontecimentos da série, a visão
crítica e humana dos realizadores se afasta da mesquinharia em diversos
momentos, como pela personagem de Elisa (Ana de la Reguera), uma guerrilheira
comunista que bate de frente com a atitude de seus companheiros justamente por
irem contra os ideais pelos quais lutam.
Portanto,
Narcos apresenta uma ótica
adequadamente ambígua do universo que narra, sempre cínica, como os personagens
que vão se tornando seres complexos e multifacetados, obrigados a assumirem
posturas muitas vezes questionáveis e verem máscaras de inocência ruindo, sejam
eles “mocinhos” ou “bandidos”, termos aplicados mas dificilmente aplicáveis à
série. Aliás, o próprio flashforward com que a série começa faz questão de marcar
os “mocinhos” com um massacre promovido por eles mesmos, numa promessa de
justificativa embaraçosa por um ato desse tipo quando o narrador parece pedir
desculpas em adiantado, ao mesmo tempo em que ressalta que nós (espectadores)
julgamos por não conhecermos aquele universo como ele conhece. Em meio a
torturas de investigadores (sejam policiais colombianos, agentes da DEA ou da
CIA) a traficantes ou vice-versa, vendetas
brutais para as quais a Justiça faz vista-grossa, esse cinismo de Murphy se
torna o próprio arco dramático do sujeito, que passa de alguém que entra em
estado depressivo por ter matado no primeiro episódio para um cara estourado
que não hesita em usar de ameaças e força bruta para conseguir informações, e
nem mesmo deixa de abusar de sua autoridade para se livrar de empecilhos do
cotidiano.
E,
se falei dos personagens e da perspectiva cínica da humanidade que Narcos apresenta, não poderia deixar o
próprio Pablo Escobar de fora. Ele, o grande centro da série em todos os
sentidos, ganha aqui um retrato complexo e fascinante, fazendo questão de não apenas
ressaltar sua brutalidade ou “maldade” lendárias, mas de pintá-lo como um ser
humano, com medos, receios e sentimentos que marcam sua “humanidade”.
Obviamente, seus delírios de grandeza (observem os quadros que o mostram como
uma espécie de Cristo) e atos estupidamente desprovidos de realidade são representados,
e em destaque, mas a composição do personagem pelo roteiro e pelas mãos de Wagner
Moura isentam-no do maniqueísmo. Moura, que demonstra uma responsabilidade e dedicação
admiráveis, como ao engordar vários quilos para o papel, mas também ao assumir
uma postura de imersão total, compondo Escobar em toda sua violência e egocentrismo,
permitindo, em contrapartida, que possamos nos sentir próximos do “monstro”
através de vários detalhes que o humanizam. Dos seus momentos introspectivos
que quase gritam como sua “mente” está fritando em situações de aperto, até as
horas em que ele se vê comovido e genuinamente amedrontado, Moura traça um
panorama extremamente complexo de Escobar. Há um momento, inclusive, que Moura
interrompe a mãe de Escobar em um abraço apertado e repleto de dor, por pensar
que talvez nunca mais a verá. A própria intensidade brutal dos momentos finais
da temporada são garantidos pela introspecção venenosa em que Moura, junto a um
semblante exausto, vai entrando, e podemos perceber que, qual uma bomba, ele
está para explodir.
Fazendo
ainda o favor de deixar colombianos falando espanhol e não inglês, e ainda
ganhando uma velocidade e intensidade tais que a torna difícil de parar de
assistir, Narcos é mais uma
empreitada fascinante do Netflix, que vem se mostrando cada vez mais excelente
ao se desprender da maneira tradicional de fazer séries e poder se dedicar a
movimentos mais experimentais como esse, House
of Cards e Demolidor, além de,
mesmo que em qualidade inferior a essas citadas, Sense 8 e Bloodline.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
29/08/2015

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