sábado, 29 de agosto de 2015


Análise:

Narcos – 1ª Temporada (SEM SPOILERS)

Sobre a paisagem noturna sombria e misteriosa de uma grande floresta colombiana coberta por uma densa névoa, um letreiro divaga brevemente sobre quão apropriado é que a escola literária do Realismo Mágico tenha nascido na Colômbia. Dado ser uma Literatura marcada pela invasão do absurdo, do surreal, ao mundo do real, os realizadores de Narcos não poderiam ter bolado uma introdução melhor, como vai ficando evidente ao longo dos 10 episódios que se descortinam à frente, nos levando a um passeio pela História real e tão absurda que mais parece fantasia envolvendo o império e queda do traficante Pablo Escobar.

Sujeito egocêntrico e com óbvios delírios de grandeza, Escobar é uma figura magnética justamente pela improbabilidade de sua existência, tão estranha que só poderia ser verídica. Com sua ambição digna dos pensamentos de uma criança que ainda não passou direito por um processo de calcificação do real, Escobar pegou uma oportunidade de ganhar dinheiro com a empolgante novidade representada pela cocaína e a expandiu a horizontes que ninguém até então tinha pensado: ao invés de vender e lucrar apenas na América do Sul, porque não pensar em termos de EUA? Isso sem contar as ambições presidenciais do cara.  Hoje, uma lógica não tão grotesca (e até muito palpável), mas então maluca o suficiente para desregular toda a ordem e estrutura das agências de investigação e política da época.

É por reconhecer isso que os realizadores do seriado optam por calcar aquele cenário num âmbito realista, dividindo as sequências filmadas com atores e aquelas de arquivos da época, por vezes até brincando com raccords entre vídeos reais e aqueles que foram encenados. Dirigido por nomes como José Padilha, Andi Baiz, Guillermo Navarro e Fernando Coimbra (o gênio por trás de O Lobo Atrás da Porta), a estética adotada para a série surge suja, remetendo à linguagem jornalística pelo uso da câmera na mão, que acaba por conferir maior impacto à violência em nada suavizada que vai banhando a Colômbia ao longo dos episódios. Ainda que padronizada, a direção de cada um dos episódios permite que os cineastas insiram, aqui e ali, algumas de suas marcas registradas, desde Padilha com planos que se aproximam e afastam rapidamente do rosto dos atores, até Coimbra com seus enquadramentos meticulosos e repletos de significados, como quando Gustavo Gavíria (Juan Pablo Raba) surge diminuto num espaço apertado entre a amante e o limite da tela, numa representação de sua situação angustiante, ou quando, em um diálogo definitivo, a câmera dança ao redor de Escobar (Wagner Moura) e Valeria Velez (Stephanie Sigman) sob a deixa das reviravoltas envolvidas nas falas.

Tecnicamente irrepreensível, Narcos permite que o sempre talentoso diretor de fotografia Lula Carvalho possa ir além de representar o realismo da série e brincar com sombras e cores que garantem símbolos a momentos específicos, como aquele envolvendo a chegada de uma figura política em uma La Catedral banhada em vermelho e verde, no último episódio, enquanto o músico Pedro Bromfman, demonstrando admirável sobriedade na sua composição, se resguardar a marcar os momentos de drama, suspense ou ação sem esforçar-se para ter uma trilha chamativa. E, se o design de produção vê as possibilidades criativas barradas aos cenários tais como foram na realidade, ao menos consegue alguns truques sutis e elegantes, como a gradual transformação do apartamento dos Murphy em um verdadeiro lar, numa sutileza também característica do inteligente figurino, que brinca com as possibilidades que tem, como a gravata de Cesar Gaviria (Raúl Méndez), que surge vermelha (a cor de seu partido político) ou cinza (sua cor pessoal) dependendo das inclinações do complexo personagem em cada momento da trama. Ainda no âmbito técnico, as sequências de ação não poderiam ficar sem menção, surgindo bem orquestradas e intensas, com destaque para uma (dirigida por Coimbra) quando Murphy (Boyd Holdbrook) e Javier Peña (Pedro Pascal, o Oberyn de Game Of Thrones, caso não reconheçam) perseguem dois assassinos pelas favelas da cidade.
Tal trabalho técnico se torna essencial na medida em que amplia as sutilezas narrativas envolvendo desenvolvimento dos personagens e do universo de uma forma que a narrativa principal não pode se dar ao luxo. Adotando uma perspectiva panorâmica, Narcos se preocupa em abarcar uma enorme quantidade de dados envolvendo a história que narra, e se torna uma espécie de aula sobre aqueles eventos (uma função a mais para as citadas filmagens de arquivo), conseguindo, através de roteiros escritos com sobriedade, uma clareza fascinante mesmo em meio a acontecimentos tão complexos, se preocupando, inclusive, de situar as dificuldades políticas e tecnológicas em uma investigação sem precedentes.
Nesse âmbito, a narração de Boyd Holdbrook (remetendo aquela de Wagner Moura nos dois Tropa de Elite, não por acaso dirigidos por José Padilha) assume uma função que passa longe da muleta narrativa como é tão comum em narrações em off, e evidencia característica da personalidade de Murphy assim como serve para agregar os abundantes dados que recebemos por segundo. Além disso, servindo de veículo para a postura dos próprios realizadores diante do que se passa na tela, é fascinante que a narração surja marcada por um cinismo que alcança a todos naquele universo, e, o que é vital, acaba com as possibilidades xenofóbicas de uma visão dos EUA em direção à Colômbia quando aponta os alvos para as atitudes deploráveis envolvendo o governo norte-americano e a CIA ao, por exemplo, demorar a se importar com a questão do narcotráfico pois esse (ainda) não tinha relação com comunismo. E não só na narração, mas pelos próprios acontecimentos da série, a visão crítica e humana dos realizadores se afasta da mesquinharia em diversos momentos, como pela personagem de Elisa (Ana de la Reguera), uma guerrilheira comunista que bate de frente com a atitude de seus companheiros justamente por irem contra os ideais pelos quais lutam.
Portanto, Narcos apresenta uma ótica adequadamente ambígua do universo que narra, sempre cínica, como os personagens que vão se tornando seres complexos e multifacetados, obrigados a assumirem posturas muitas vezes questionáveis e verem máscaras de inocência ruindo, sejam eles “mocinhos” ou “bandidos”, termos aplicados mas dificilmente aplicáveis à série. Aliás, o próprio flashforward  com que a série começa faz questão de marcar os “mocinhos” com um massacre promovido por eles mesmos, numa promessa de justificativa embaraçosa por um ato desse tipo quando o narrador parece pedir desculpas em adiantado, ao mesmo tempo em que ressalta que nós (espectadores) julgamos por não conhecermos aquele universo como ele conhece. Em meio a torturas de investigadores (sejam policiais colombianos, agentes da DEA ou da CIA) a traficantes ou vice-versa, vendetas brutais para as quais a Justiça faz vista-grossa, esse cinismo de Murphy se torna o próprio arco dramático do sujeito, que passa de alguém que entra em estado depressivo por ter matado no primeiro episódio para um cara estourado que não hesita em usar de ameaças e força bruta para conseguir informações, e nem mesmo deixa de abusar de sua autoridade para se livrar de empecilhos do cotidiano.
E, se falei dos personagens e da perspectiva cínica da humanidade que Narcos apresenta, não poderia deixar o próprio Pablo Escobar de fora. Ele, o grande centro da série em todos os sentidos, ganha aqui um retrato complexo e fascinante, fazendo questão de não apenas ressaltar sua brutalidade ou “maldade” lendárias, mas de pintá-lo como um ser humano, com medos, receios e sentimentos que marcam sua “humanidade”. Obviamente, seus delírios de grandeza (observem os quadros que o mostram como uma espécie de Cristo) e atos estupidamente desprovidos de realidade são representados, e em destaque, mas a composição do personagem pelo roteiro e pelas mãos de Wagner Moura isentam-no do maniqueísmo. Moura, que demonstra uma responsabilidade e dedicação admiráveis, como ao engordar vários quilos para o papel, mas também ao assumir uma postura de imersão total, compondo Escobar em toda sua violência e egocentrismo, permitindo, em contrapartida, que possamos nos sentir próximos do “monstro” através de vários detalhes que o humanizam. Dos seus momentos introspectivos que quase gritam como sua “mente” está fritando em situações de aperto, até as horas em que ele se vê comovido e genuinamente amedrontado, Moura traça um panorama extremamente complexo de Escobar. Há um momento, inclusive, que Moura interrompe a mãe de Escobar em um abraço apertado e repleto de dor, por pensar que talvez nunca mais a verá. A própria intensidade brutal dos momentos finais da temporada são garantidos pela introspecção venenosa em que Moura, junto a um semblante exausto, vai entrando, e podemos perceber que, qual uma bomba, ele está para explodir.
Fazendo ainda o favor de deixar colombianos falando espanhol e não inglês, e ainda ganhando uma velocidade e intensidade tais que a torna difícil de parar de assistir, Narcos é mais uma empreitada fascinante do Netflix, que vem se mostrando cada vez mais excelente ao se desprender da maneira tradicional de fazer séries e poder se dedicar a movimentos mais experimentais como esse, House of Cards e Demolidor, além de, mesmo que em qualidade inferior a essas citadas, Sense 8 e Bloodline.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
29/08/2015

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