sábado, 15 de agosto de 2015


Análise:

Blind (Blind / 2015 / Holanda, Noruega)

Direção: Eskil Vogt

No início de Blind, somos apresentados ao universo de Ingrid em seu novo apartamento através de planos fechados em suas mãos, tateando objetos à sua volta, enquanto o fundo encontra-se embaçado por uma reduzida profundidade de campo, fazendo com que o espectador inevitavelmente perceba-se desorientado. Uma sensação produzida calculadamente para que se possa traduzir um pouco da experiência que acompanha Ingrid todos os dias desde que, há pouco tempo em sua vida adulta, se tornou cega, e vivencia a angústia de saber que seus nervos ópticos gradualmente estão degenerando e perderá completamente sua capacidade de formar imagens.

Escrito e dirigido por Eskil Vogt, também responsável pelo roteiro do soberbo Oslo, 31 de Agosto, Blind finalmente abre seus planos para mostrar um apartamento predominantemente branco que, numa percepção sagaz do design de produção, explora a ausência de qualquer característica marcante que aquele ambiente poderia produzir em alguém que recentemente perdeu a visão, e que aos poucos se entrega a devaneios criativos a princípio na forma de válvulas de escape da vazia rotina sem perspectivas, mas que gradualmente se tornam brincadeiras com tons de crueldade, condescendência, melancolia, masoquismo e, principalmente, um espelho rachado onde Ingrid não pode deixar de se refletir.

É então através de um uso minucioso e perspicaz da linguagem cinematográfica que Vogt e sua equipe transformam Blind num experimento narrativo que vai além do estudo de personagem que estamos acostumados a ver. O filme se torna um exercício ambicioso ao não apenas dizer sobre a condição de Ingrid e suas consequências psicológicas, mas ao calcar toda a experiência audiovisual nesse sentido. Assim, a desorientação espacial que a mulher recentemente cega experimenta ganha contornos evidentes quando a montagem de Jens Christian Fodstad quebra com o naturalismo para representar as sensações de Ingrid quando, por exemplo, ergue a mão para o teto e imagina estar próxima de tocá-lo, algo traduzido por uma imagem que é incoerente com outras cenas que já haviam mostrado que o teto do apartamento é bem mais alto do que ela imagina.

Com uma econômica narração em off para expressar alguns dos pensamentos da personagem, acompanhamos o que parece ser a monótona rotina de Ingrid, construindo narrativas fictícias para fazer o tempo passar mais rápido. Como não poderia deixar de ser, os personagens que a moça cria são marcados pela solidão, pelo abandono, pela incapacidade de construir identidades por si mesmos, pois não recebem do mundo qualquer estímulo para tal. Esse trabalho criativo se torna cada vez mais fluído, mais uma vez, pelo trabalho da montagem, quando diretor e montador usam raccords sonoros e visuais para atar o mundo da ficção com aquele que é “real”, por exemplo, quando o som dos fones de um personagem de Ingrid em um devaneio se revela o mesmo que ela está escutando no rádio da cozinha, ou quando também gestos seus (como bocejar ou esfregar a têmpora) se tornam os mesmos que seus personagens estão realizando. Mais impressionante ainda talvez seja o momento quando, numa cena que ela desenvolve em sua cabeça, dois homens conversam em um café, que se transmuta num ônibus, e fica variando entre esses dois ambientes, numa representação da sua dificuldade de situar espacialmente inclusive sua própria imaginação.

O mais importante é compreender que o próprio mundo real vai deixando de merecer tal título quando Ingrid perde sua visão, e de repente tudo o que ela tem são representações imaginárias para poder traçar algum tipo de imagem do mundo externo. Figuras reais não mais se incluem em seu mundo, apenas personagens da ficção que a realidade se tornou. Simples paranóias a princípio divertidas, como imaginar que seu marido está observando-a em silêncio ou que ele flerta com outras mulheres no computador quando deitado na cama com a esposa, se tornam um exercício integral, seja por desespero, seja por talvez ser a única forma de contato com o mundo que consegue ter. Assim, é fascinante perceber como seu marido, Morten, passa a dividir sua presença real com aquela em que se torna uma figura da imaginação de Ingrid, interagindo com outros personagens que ela cria, sendo ainda mais curioso o fato de Morten assumir uma presença física em tela apenas quando surge evidentemente como personagem de uma das ficções da esposa.

Seu jogo de imaginação vai se tornando cruel, incoerente, e a narrativa vai confundindo cada vez mais a “realidade” com a “ficção” (sem nunca se tornar, em contrapartida, confusa), a montagem mesclando as duas instâncias com cada vez mais intensidade, até chegar ao clímax onde as máscaras caem e Ingrid finalmente pode perceber-se por trás das criaturas que criou. Interessante como pune alguns de seus personagens, mesmo que a raiz de sua raiva por eles se encontre intrínseca ao seu processo de criação. Por exemplo: ela não poderia ter raiva de sua personagem Elin se, antes de tudo, já não tivesse criado uma narrativa onde ela se envolve com Morten. Este que, aliás, é um homem gentil e prestativo, não o tarado desnorteado da ficção de Ingrid, onde ela o pune com a ironia de envolver-se com mais uma mulher cega, a única que talvez seja tão punida quanto ele, tanto por ter perdido a visão de um momento para outro quanto por várias situações embaraçosas pelas quais deve passar, num antro de punição que, no fim das contas, parece mais revelar a auto-imagem da protagonista do que qualquer outra coisa.

Blind é, então, uma auto-análise profundamente angustiante de uma mulher que, ao perder seu contato com o ambiente externo através de um de seus principais sentidos, acaba por perder também o contato consigo mesma, precisando ultrapassar o inferno caricatural que cria de si para apenas então poder atar suas pontas com o mundo, costurando a ferida deixada pela perda da visão. A magia do negócio, no entanto, está em podermos viver, por uma hora e meia, parte dessa jornada íntima de uma forma que apenas o Cinema, e Cinema bem feito, pode proporcionar.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
15/08/2015

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