Análise:
Blind (Blind / 2015 / Holanda, Noruega)
Direção:
Eskil Vogt
No início de Blind, somos apresentados ao universo de
Ingrid em seu novo apartamento através de planos fechados em suas mãos,
tateando objetos à sua volta, enquanto o fundo encontra-se embaçado por uma
reduzida profundidade de campo, fazendo com que o espectador inevitavelmente
perceba-se desorientado. Uma sensação produzida calculadamente para que se
possa traduzir um pouco da experiência que acompanha Ingrid todos os dias desde
que, há pouco tempo em sua vida adulta, se tornou cega, e vivencia a angústia
de saber que seus nervos ópticos gradualmente estão degenerando e perderá
completamente sua capacidade de formar imagens.
Escrito e dirigido por
Eskil Vogt, também responsável pelo roteiro do soberbo Oslo, 31 de Agosto, Blind finalmente abre seus planos para mostrar um apartamento
predominantemente branco que, numa percepção sagaz do design de produção, explora a ausência de qualquer característica
marcante que aquele ambiente poderia produzir em alguém que recentemente perdeu
a visão, e que aos poucos se entrega a devaneios criativos a princípio na forma
de válvulas de escape da vazia rotina sem perspectivas, mas que gradualmente se
tornam brincadeiras com tons de crueldade, condescendência, melancolia,
masoquismo e, principalmente, um espelho rachado onde Ingrid não pode deixar de
se refletir.
É então através de um
uso minucioso e perspicaz da linguagem cinematográfica que Vogt e sua equipe
transformam Blind num experimento
narrativo que vai além do estudo de personagem que estamos acostumados a ver. O
filme se torna um exercício ambicioso ao não apenas dizer sobre a condição de Ingrid e suas consequências psicológicas,
mas ao calcar toda a experiência
audiovisual nesse sentido. Assim, a desorientação espacial que a mulher
recentemente cega experimenta ganha contornos evidentes quando a montagem de
Jens Christian Fodstad quebra com o naturalismo para representar as sensações de
Ingrid quando, por exemplo, ergue a mão para o teto e imagina estar próxima de
tocá-lo, algo traduzido por uma imagem que é incoerente com outras cenas que já
haviam mostrado que o teto do apartamento é bem mais alto do que ela imagina.
Com uma econômica narração
em off para expressar alguns dos
pensamentos da personagem, acompanhamos o que parece ser a monótona rotina de
Ingrid, construindo narrativas fictícias para fazer o tempo passar mais rápido.
Como não poderia deixar de ser, os personagens que a moça cria são marcados
pela solidão, pelo abandono, pela incapacidade de construir identidades por si
mesmos, pois não recebem do mundo qualquer estímulo para tal. Esse trabalho
criativo se torna cada vez mais fluído, mais uma vez, pelo trabalho da
montagem, quando diretor e montador usam raccords
sonoros e visuais para atar o
mundo da ficção com aquele que é “real”, por exemplo, quando o som dos fones de
um personagem de Ingrid em um devaneio se revela o mesmo que ela está escutando
no rádio da cozinha, ou quando também gestos seus (como bocejar ou esfregar a
têmpora) se tornam os mesmos que seus personagens estão realizando. Mais
impressionante ainda talvez seja o momento quando, numa cena que ela desenvolve
em sua cabeça, dois homens conversam em um café, que se transmuta num ônibus, e
fica variando entre esses dois ambientes, numa representação da sua dificuldade
de situar espacialmente inclusive sua própria imaginação.
O mais importante é
compreender que o próprio mundo real vai deixando de merecer tal título quando
Ingrid perde sua visão, e de repente tudo o que ela tem são representações imaginárias
para poder traçar algum tipo de imagem do mundo externo. Figuras reais não mais
se incluem em seu mundo, apenas personagens da ficção que a realidade se
tornou. Simples paranóias a princípio divertidas, como imaginar que seu marido
está observando-a em silêncio ou que ele flerta com outras mulheres no
computador quando deitado na cama com a esposa, se tornam um exercício
integral, seja por desespero, seja por talvez ser a única forma de contato com
o mundo que consegue ter. Assim, é fascinante perceber como seu marido, Morten,
passa a dividir sua presença real com aquela em que se torna uma figura da imaginação
de Ingrid, interagindo com outros personagens que ela cria, sendo ainda mais
curioso o fato de Morten assumir uma presença física em tela apenas quando
surge evidentemente como personagem de uma das ficções da esposa.
Seu jogo de imaginação vai
se tornando cruel, incoerente, e a narrativa vai confundindo cada vez mais a “realidade”
com a “ficção” (sem nunca se tornar, em contrapartida, confusa), a montagem
mesclando as duas instâncias com cada vez mais intensidade, até chegar ao
clímax onde as máscaras caem e Ingrid finalmente pode perceber-se por trás das
criaturas que criou. Interessante como pune alguns de seus personagens, mesmo
que a raiz de sua raiva por eles se encontre intrínseca ao seu processo de criação.
Por exemplo: ela não poderia ter raiva de sua personagem Elin se, antes de
tudo, já não tivesse criado uma narrativa onde ela se envolve com Morten. Este
que, aliás, é um homem gentil e prestativo, não o tarado desnorteado da ficção de
Ingrid, onde ela o
pune com a ironia de envolver-se com mais uma mulher cega, a
única que talvez seja tão punida quanto ele, tanto por ter perdido a visão de
um momento para outro quanto por várias situações embaraçosas pelas quais deve
passar, num antro de punição que, no fim das contas, parece mais revelar a
auto-imagem da protagonista do que qualquer outra coisa.
Blind
é,
então, uma auto-análise profundamente angustiante de uma mulher que, ao perder
seu contato com o ambiente externo através de um de seus principais sentidos, acaba
por perder também o contato consigo mesma, precisando ultrapassar o inferno
caricatural que cria de si para apenas então poder atar suas pontas com o
mundo, costurando a ferida deixada pela perda da visão. A magia do negócio, no
entanto, está em podermos viver, por uma hora e meia, parte dessa jornada
íntima de uma forma que apenas o Cinema, e Cinema bem feito, pode proporcionar.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
15/08/2015

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