PALAVRAS
Algo fascinante e
complicado é tomar consciência de que, assim como com o outro com quem você
interage, o seu corpo, seus gestos, suas falas espúrias ou profundas... assim
como tudo isso se torna parte de uma narrativa que você constrói sobre esse
outro, arquitetando um sentido para aquilo que ele faz, também você, seus
gestos, falas, olhares, seu próprio corpo, são páginas em branco sobre as quais
o outro também escreverá uma história. Uma história que talvez você nunca leia,
assim como pode ser que o outro nunca leia as infindáveis páginas que você, por
ventura, tenha escrito sobre ele.
O irônico é que pode
ser que a sua narrativa soe tão estranha ao outro, já que parte de uma lente pessoal
que você usou para perscrutá-lo, que ele a retalhe como absurda, ou ao menos
engraçada, irrelevante, algo que não raro acontece quando nós mesmos somos os
receptores, os ouvintes, mesmo que não verbalizemos nossas impressões para
nosso narrador/autor, seja escutando algo lisonjeante ou humilhante. Dificilmente
apenas... ouvimos a história. Dificilmente a saboreamos.
O que pode acontecer –
e que frequentemente acontece – é que o narrador/autor acate a retaliação, ou a
indiferença, se resignando, relegando ao esquecimento uma história
perfeitamente válida, perfeitamente bela. Pois não é por não condizer a uma
auto-imagem provisória do outro que a do narrador/autor externo seja menos
válida ou mesmo menos fascinante. Somos todos discursos, narrativas, verbais ou
não, quer queiramos, quer não. Nós mesmos também somos um de nossos atrapalhados
narradores, formulando e reformulando narrativas hora mais complicadas e hora
mais simples sobre nós e as contingências que vão regendo nossa caminhada
durante a vida.
Somos formados pelas
palavras que usam para nos narrar, mas acatamos apenas aquelas que mais parecem
estar em consonância com a atual narrativa que desenvolvemos sobre nós mesmos,
que achamos ser nosso “merecimento”, filtrando informações enquanto existem
infinitas e tão divergentes histórias sobre nós, versões de nós, espalhadas ao
vento, muitas vezes esquecidas, às vezes descartadas em pilhas de entulho. Não raro
ignoramos essas outras histórias por sabermos que o outro não tem acesso a
algumas informações que consideramos relevantes, o que, se a princípio pode
parecer um aspecto importante sobre ser um livro, quando se pensa bem podemos
chegar à conclusão de que nós ignoramos dados que sabemos sobre nossa
existência em prol de uma coerência maior em dado momento da vida. É aquela
história de quem é o pior analfabeto: o que não sabe ler ou o que não lê mesmo
sabendo. Assim acontece com a história que os outros criam de nós. Eles tem sua
parcela de dados, e criam narrativas que exploram nossa coerência em seu
universo. O belo é que essas narrativas muitas vezes trazem idiossincrasias que
traem o viés do outro sobre nosso ser, e acabamos vendo uma história construída
em conjunto que transborda beleza e complexidade, unicamente possível pela
mixagem de duas vidas.
Mas, de vez em quando,
apenas talvez, como fantasmas que entoam melancólicas canções naquelas horas
mais escuras da noite, quando as defesas baixam, quando o silêncio reina,
permitindo que as palavras saiam para dançar e possam finalmente ser escutadas
pelos ouvidos dormentes pela construção frenética de significados e auto-imagens,
podemos absorver as histórias, os livros nos quais somos transformados, séries
e mais séries escritas por diferentes autores, cada um com um estilo, com uma
visão, e com uma experiência própria que dará o sabor particular àquela
história tecida com o encontro de duas intermináveis literaturas.
Às vezes, só precisamos
aprender a escutar.
Lucas
Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 23/08/2015

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