domingo, 23 de agosto de 2015

Palavras


PALAVRAS

Algo fascinante e complicado é tomar consciência de que, assim como com o outro com quem você interage, o seu corpo, seus gestos, suas falas espúrias ou profundas... assim como tudo isso se torna parte de uma narrativa que você constrói sobre esse outro, arquitetando um sentido para aquilo que ele faz, também você, seus gestos, falas, olhares, seu próprio corpo, são páginas em branco sobre as quais o outro também escreverá uma história. Uma história que talvez você nunca leia, assim como pode ser que o outro nunca leia as infindáveis páginas que você, por ventura, tenha escrito sobre ele.

O irônico é que pode ser que a sua narrativa soe tão estranha ao outro, já que parte de uma lente pessoal que você usou para perscrutá-lo, que ele a retalhe como absurda, ou ao menos engraçada, irrelevante, algo que não raro acontece quando nós mesmos somos os receptores, os ouvintes, mesmo que não verbalizemos nossas impressões para nosso narrador/autor, seja escutando algo lisonjeante ou humilhante. Dificilmente apenas... ouvimos a história. Dificilmente a saboreamos.

O que pode acontecer – e que frequentemente acontece – é que o narrador/autor acate a retaliação, ou a indiferença, se resignando, relegando ao esquecimento uma história perfeitamente válida, perfeitamente bela. Pois não é por não condizer a uma auto-imagem provisória do outro que a do narrador/autor externo seja menos válida ou mesmo menos fascinante. Somos todos discursos, narrativas, verbais ou não, quer queiramos, quer não. Nós mesmos também somos um de nossos atrapalhados narradores, formulando e reformulando narrativas hora mais complicadas e hora mais simples sobre nós e as contingências que vão regendo nossa caminhada durante a vida.

Somos formados pelas palavras que usam para nos narrar, mas acatamos apenas aquelas que mais parecem estar em consonância com a atual narrativa que desenvolvemos sobre nós mesmos, que achamos ser nosso “merecimento”, filtrando informações enquanto existem infinitas e tão divergentes histórias sobre nós, versões de nós, espalhadas ao vento, muitas vezes esquecidas, às vezes descartadas em pilhas de entulho. Não raro ignoramos essas outras histórias por sabermos que o outro não tem acesso a algumas informações que consideramos relevantes, o que, se a princípio pode parecer um aspecto importante sobre ser um livro, quando se pensa bem podemos chegar à conclusão de que nós ignoramos dados que sabemos sobre nossa existência em prol de uma coerência maior em dado momento da vida. É aquela história de quem é o pior analfabeto: o que não sabe ler ou o que não lê mesmo sabendo. Assim acontece com a história que os outros criam de nós. Eles tem sua parcela de dados, e criam narrativas que exploram nossa coerência em seu universo. O belo é que essas narrativas muitas vezes trazem idiossincrasias que traem o viés do outro sobre nosso ser, e acabamos vendo uma história construída em conjunto que transborda beleza e complexidade, unicamente possível pela mixagem de duas vidas.

Mas, de vez em quando, apenas talvez, como fantasmas que entoam melancólicas canções naquelas horas mais escuras da noite, quando as defesas baixam, quando o silêncio reina, permitindo que as palavras saiam para dançar e possam finalmente ser escutadas pelos ouvidos dormentes pela construção frenética de significados e auto-imagens, podemos absorver as histórias, os livros nos quais somos transformados, séries e mais séries escritas por diferentes autores, cada um com um estilo, com uma visão, e com uma experiência própria que dará o sabor particular àquela história tecida com o encontro de duas intermináveis literaturas.

Às vezes, só precisamos aprender a escutar.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 23/08/2015


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