Cuidadosa construção atmosférica através de imagens.
É
importante que Villeneuve invista energia nisso, até mesmo para nos colocar a
par da experiência “subjetiva” que a humanidade enfrenta naquele momento. O
mundo mergulha em medo, o que culmina no aumento de comportamentos irracionais
que embasam o fundamentalismo religioso e fornecem contexto para que a paranoia
militar tome conta. Nessa atmosfera que se forma frente ao desconhecido,
Villeneuve faz questão de passear a câmera por momentos intimistas que mostram
o comportamento de indivíduos específicos, desde ligações angustiadas até mãos
que tremem antes de eventos estressantes.
Nessa
situação, o mote principal do filme toma lugar: a comunicação, ou, como
prefiro, o comportamento verbal. A protagonista, Louise Banks (Amy Adams), uma
estudiosa da linguagem, diz que o diálogo é a primeira arma usada em um conflito.
Infelizmente, os momentos de crise a mostram apenas parcialmente correta, pois
o mundo e, particularmente, os militares, assumem imediata atitude de defesa
contra os alienígenas, demonstrando ainda a falibilidade da comunicação entre
as nações, mesmo em um planeta que se encontra globalizado, que torna a própria
humanidade pavorosamente desconexa em seus propósitos. Nesse sentido, o descaso
dos militares pelas propostas de Banks e do físico Ian Donnelly (Jeremy
Renner), preferindo interpretações agressivas e simplistas diante do
desconhecido à possibilidade de abraçar um conhecimento que vai além do nosso
mundinho, expressa bem a lamentável relação dos países que, já tensas
naturalmente, deterioram por completo em caso de crise.
E
é aqui que o filme começa a efetivamente se juntar às propostas abordadas no
início desse texto. Mas ao invés de posicionar o ser humano frente à
imprevisível e confusa estrutura do Cosmos, A
Chegada nos coloca frente à imprevisível e confusa tecitura da realidade a
qual nós mesmos nos adaptamos e desenvolvemos nossa linguagem. Por mais que
muitos ainda neguem, o ser humano é um animal que funciona sob as leis da
seleção natural, nos adaptando às severas condições impostas pelo ambiente
físico de forma que desenvolvemos uma forma de comunicação que, até certo
ponto, determina a forma como pensamos. Afinal, já dizia o psicólogo B.F.
Skinner: pensamento é comportamento verbal.
Culturas
diferentes, que evoluíram em contextos diferentes, falam, e consequentemente
pensam, de formas distintas. A filosofia teve terreno mais fértil para crescer
na Alemanha, dado o alemão ser uma língua que endossa mais o abstrato. O
conhecimento oriental se distingue marcantemente do ocidental, já que possuem línguas
que “descolam-se” mais do físico e abraçam o transcendente, produzindo
comportamentos fascinantes provindos do Budismo, como o ato de meditar. E nem
precisamos ir longe: a própria Louise Banks ressalta os perigos de, por
exemplo, comunicar-se com os alienígenas através de jogos, pois estruturaria
uma visão da realidade baseada na dicotomia vitória-derrota, o que acarretaria
em problemas óbvios.


O
que o roteiro de Heissener propõe (e que imagino que exista também no conto
original de Ted Chiang) é que estamos submetidos ao Cosmos limitado por nós
mesmos, ou, melhor dizendo, pelas contingências que determinaram a forma como
nos comunicamos e pensamos. A Chegada é,
então, um filme que reconhece como a humanidade anda aos tropeços devido à
manutenção de uma forma de pensamento egocêntrico baseado na mesquinha visão
delimitada pela nossa linguagem, que coloca o ser humano como criatura mais
valiosa do que efetivamente é.
Ao
mesmo tempo, seguindo de perto a linha dos filmes citados no início do texto, é
um longa que mergulha na profunda experiência de transformação pessoal mediante
o acesso a um conhecimento que a humanidade não tem justamente por estar acorrentada
a uma forma específica de viver o espaço-tempo. Devido à riqueza das
implicações psicológicas das conclusões da obra, peço licença para alguns
parágrafos repletos de spoilers, pedindo
ao leitor que queira evitá-los pular para o último parágrafo do texto.
A
verdadeira razão de escrever um parágrafo que verse sobre segredos do filme foi
o fato de ter-me deparado com visões um tanto simplistas e românticas (no pior
sentido da palavra) sobre a obra. Obviamente, cada um tem direito à sua visão,
e ai de mim dizer o contrário, mas insisto na pobreza da recorrente
interpretação de que o filme verse, no fim das contas, sobre a capacidade do
ser humano de aceitar vivenciar emoções profundas no contexto interpessoal
mesmo que saiba que elas acarretem, em última instância, em puro sofrimento.
Algo como a pergunta das razões de vivermos um romance se sabemos que no fim só
nos restarão lágrimas.
Bem,
A Chegada apresenta uma compreensão
psicológica consideravelmente mais complexa e materialista do que a proposta
acima. O comportamento humano ocorre, e é modelado, pelas contingências
existentes no meio ambiente onde estamos imersos. Sendo sentimentos também
comportamentos, estes também são determinados pelas contingências ambientais.
Também o é o comportamento de escolha, inclusive o de Banks.
O
contexto de ficção científica permite a estrapolação comportamental de Banks,
que passa a responder simultaneamente a incontáveis ambientes diferentes.
Presente e futuros se embaralham, e a escolha final da personagem em viver uma
história de profunda interação amorosa (como mãe e amante) mesmo sabendo sobre
o trágico fim é resultado do fato de que, quando decide, Banks não está se
comportando somente no aqui-agora com conhecimento de eventos futuros. Se fosse
assim, provavelmente ela optaria por seguir outro rumo existencial. Mas ela
está vivendo todos os eventos futuros a
um só momento. Ao mesmo tempo em que vive o luto pela filha, ela vive cada
um dos momentos de profunda ternura que experimentará ao lado dela. Ela
responde a diversos aqui-agoras diferentes, e sua escolha se baseia por ter, na
carne viva, as agridoces sensações que desvelam-se em toda sua existência.
O
que nos permite responder a questão sobre a vivência amorosa que abordei acima.
Se aceitamos viver uma paixão mesmo que calejados por experiências desastrosas
é porque no momento em que tomamos essa decisão estamos sob o controle de
contingências outras que não o desastre, envolvendo respostas típicas de um contexto de início de uma relação amorosa onde estão envoltos carinho, o sexo, as risadas, as “borboletas
no estômago”... Agora imaginem-se como Banks, respondendo a tantos ambientes ao
mesmo tempo.
Assim, respeitando a
longa tradição cinematográfica da qual faz parte, A Chegada sai de um macrocosmos e chega em um microcosmos. Fala da
comunicação a nível mundial e chega no nível pessoal. Banks, uma mulher com
repertório comportamental marcado por esquiva (como demonstrado no breve e
desinteressado diálogo com a mãe), e com a entonação de voz calculadamente
monótona de Amy Adams, como a de uma pessoa acometida pela depressão, pode ser
uma mulher que domina a Ciência da linguagem, mas está longe da enriquecedora
comunicação interpessoal de relações repletas de afeto. Algo como uma versão
moderna de Ellen Arroway, protagonista de Contato.
Ambas aprendem a se entregar, em algum nível, para a vida.


Diante
dessas ponderações, fica ainda o lembrete reconfortante de saber que Denis
Villeneuve, um cineasta que sempre lida com o Caos em seus aspectos mais
horríveis, aqui encontra notas de esperança. Não é a toa que o discurso de
Stephen Hawking fica no repeat na
cabeça durante a projeção, especialmente quando diz: “As maiores conquistas da
humanidade surgiram pela fala. E os maiores fracassos pela falta dela. Não precisa ser desta forma. Nossas maiores esperanças
poderiam se tornar realidade no futuro. Com a tecnologia à nossa disposição, as
possibilidades são ilimitadas. Tudo o que precisamos fazer é continuar conversando”.
Outros textos meus sobre filmes
dirigidos por Denis Villeneuve:
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