quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Crítica: A Chegada


Crítica:

A Chegada (Arrival / 2016 / EUA)

Direção: Denis Villeneuve

É curioso que colocar o ser humano frente à imensidão do Cosmos suscite uma série de auto questionamentos. Provavelmente, isso é sintoma de uma espécie que, até pouco tempo atrás, acreditava que o Sol girava em torno da Terra, e que agora está começando a engatinhar na noção de que não somos uma peça muito especial no contexto universal. Essas auto reflexões são tentativas de se posicionar nesse novo cenário do conhecimento: quem nós acreditávamos ser, e quem nós somos agora.


No século XX, os filmes 2001 e Solaris, imersos em uma cultura abismada com os avanços na corrida espacial, ousaram iniciar os confusos questionamentos ontológicos frente ao infinito dentro do cinema. Nesse processo, deram a luz a diversos filmes que também se embrenham nessa aventura. Interestelar, Sunshine, Gravidade, Prometheus e, em especial, o maravilhoso Contato, seguem esse linha de perto (ou ao menos acreditam fazê-lo). A Chegada não esconde que seu propósito é trilhar esse caminho, a ponto de adotar uma estrutura extremamente similar ao último filme que listei. No entanto, é curioso como esse novo trabalho do canadense Denis Villeneuve com roteiro de Eric Heissener, se concentra, em sua totalidade, no Caos humano despertado pela chegada de alienígenas na Terra.



Imagens, respectivamente, de “Sicario” (2015) e “Incêndios” (2010) e “O Homem Duplicado” (2014), outros trabalhos de Denis Villeneuve que mostram como o Caos tem papel central na sua cinematografia.

Compreendendo as dimensões de tal evento, Villeneuve mais uma vez prova-se um cineasta irrepreensível no que tange a construção de uma atmosfera de tensão e mistério. Desde que as notícias sobre a Chegada começam a pipocar nos noticiários, o cineasta insere diversos elementos simultâneos em campo que elaboram uma noção de súbito mergulho no absurdo (batidas de carros, caças sobrevoando o céu). Além disso, a assombrosa trilha sonora de Jóhann Jóhannsson imerge-nos em tons pulsantes e intensos que por vezes trazem etéreas vozes femininas, enquanto Villeneuve e o diretor de fotografia Bradford Young compõem enquadramentos que surgem em ângulos estranhos, nos causando um instintivo mal-estar. Uma sensação desagradável que se mistura à angustiante curiosidade sobre o que veremos, algo que a equipe parece compreender ao nos presentear com o abismal primeiro momento em que vemos a nave, quando uma densa névoa se derrama sobre a colina, conferindo um ar sobrenatural.


Cuidadosa construção atmosférica através de imagens.

É importante que Villeneuve invista energia nisso, até mesmo para nos colocar a par da experiência “subjetiva” que a humanidade enfrenta naquele momento. O mundo mergulha em medo, o que culmina no aumento de comportamentos irracionais que embasam o fundamentalismo religioso e fornecem contexto para que a paranoia militar tome conta. Nessa atmosfera que se forma frente ao desconhecido, Villeneuve faz questão de passear a câmera por momentos intimistas que mostram o comportamento de indivíduos específicos, desde ligações angustiadas até mãos que tremem antes de eventos estressantes.

Nessa situação, o mote principal do filme toma lugar: a comunicação, ou, como prefiro, o comportamento verbal. A protagonista, Louise Banks (Amy Adams), uma estudiosa da linguagem, diz que o diálogo é a primeira arma usada em um conflito. Infelizmente, os momentos de crise a mostram apenas parcialmente correta, pois o mundo e, particularmente, os militares, assumem imediata atitude de defesa contra os alienígenas, demonstrando ainda a falibilidade da comunicação entre as nações, mesmo em um planeta que se encontra globalizado, que torna a própria humanidade pavorosamente desconexa em seus propósitos. Nesse sentido, o descaso dos militares pelas propostas de Banks e do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), preferindo interpretações agressivas e simplistas diante do desconhecido à possibilidade de abraçar um conhecimento que vai além do nosso mundinho, expressa bem a lamentável relação dos países que, já tensas naturalmente, deterioram por completo em caso de crise.

E é aqui que o filme começa a efetivamente se juntar às propostas abordadas no início desse texto. Mas ao invés de posicionar o ser humano frente à imprevisível e confusa estrutura do Cosmos, A Chegada nos coloca frente à imprevisível e confusa tecitura da realidade a qual nós mesmos nos adaptamos e desenvolvemos nossa linguagem. Por mais que muitos ainda neguem, o ser humano é um animal que funciona sob as leis da seleção natural, nos adaptando às severas condições impostas pelo ambiente físico de forma que desenvolvemos uma forma de comunicação que, até certo ponto, determina a forma como pensamos. Afinal, já dizia o psicólogo B.F. Skinner: pensamento é comportamento verbal.

Culturas diferentes, que evoluíram em contextos diferentes, falam, e consequentemente pensam, de formas distintas. A filosofia teve terreno mais fértil para crescer na Alemanha, dado o alemão ser uma língua que endossa mais o abstrato. O conhecimento oriental se distingue marcantemente do ocidental, já que possuem línguas que “descolam-se” mais do físico e abraçam o transcendente, produzindo comportamentos fascinantes provindos do Budismo, como o ato de meditar. E nem precisamos ir longe: a própria Louise Banks ressalta os perigos de, por exemplo, comunicar-se com os alienígenas através de jogos, pois estruturaria uma visão da realidade baseada na dicotomia vitória-derrota, o que acarretaria em problemas óbvios.



O que o roteiro de Heissener propõe (e que imagino que exista também no conto original de Ted Chiang) é que estamos submetidos ao Cosmos limitado por nós mesmos, ou, melhor dizendo, pelas contingências que determinaram a forma como nos comunicamos e pensamos. A Chegada é, então, um filme que reconhece como a humanidade anda aos tropeços devido à manutenção de uma forma de pensamento egocêntrico baseado na mesquinha visão delimitada pela nossa linguagem, que coloca o ser humano como criatura mais valiosa do que efetivamente é.

Ao mesmo tempo, seguindo de perto a linha dos filmes citados no início do texto, é um longa que mergulha na profunda experiência de transformação pessoal mediante o acesso a um conhecimento que a humanidade não tem justamente por estar acorrentada a uma forma específica de viver o espaço-tempo. Devido à riqueza das implicações psicológicas das conclusões da obra, peço licença para alguns parágrafos repletos de spoilers, pedindo ao leitor que queira evitá-los pular para o último parágrafo do texto.

A verdadeira razão de escrever um parágrafo que verse sobre segredos do filme foi o fato de ter-me deparado com visões um tanto simplistas e românticas (no pior sentido da palavra) sobre a obra. Obviamente, cada um tem direito à sua visão, e ai de mim dizer o contrário, mas insisto na pobreza da recorrente interpretação de que o filme verse, no fim das contas, sobre a capacidade do ser humano de aceitar vivenciar emoções profundas no contexto interpessoal mesmo que saiba que elas acarretem, em última instância, em puro sofrimento. Algo como a pergunta das razões de vivermos um romance se sabemos que no fim só nos restarão lágrimas.

Bem, A Chegada apresenta uma compreensão psicológica consideravelmente mais complexa e materialista do que a proposta acima. O comportamento humano ocorre, e é modelado, pelas contingências existentes no meio ambiente onde estamos imersos. Sendo sentimentos também comportamentos, estes também são determinados pelas contingências ambientais. Também o é o comportamento de escolha, inclusive o de Banks.

O contexto de ficção científica permite a estrapolação comportamental de Banks, que passa a responder simultaneamente a incontáveis ambientes diferentes. Presente e futuros se embaralham, e a escolha final da personagem em viver uma história de profunda interação amorosa (como mãe e amante) mesmo sabendo sobre o trágico fim é resultado do fato de que, quando decide, Banks não está se comportando somente no aqui-agora com conhecimento de eventos futuros. Se fosse assim, provavelmente ela optaria por seguir outro rumo existencial. Mas ela está vivendo todos os eventos futuros a um só momento. Ao mesmo tempo em que vive o luto pela filha, ela vive cada um dos momentos de profunda ternura que experimentará ao lado dela. Ela responde a diversos aqui-agoras diferentes, e sua escolha se baseia por ter, na carne viva, as agridoces sensações que desvelam-se em toda sua existência.

O que nos permite responder a questão sobre a vivência amorosa que abordei acima. Se aceitamos viver uma paixão mesmo que calejados por experiências desastrosas é porque no momento em que tomamos essa decisão estamos sob o controle de contingências outras que não o desastre, envolvendo respostas típicas de um contexto de início de uma relação amorosa onde estão envoltos carinho, o sexo, as risadas, as “borboletas no estômago”... Agora imaginem-se como Banks, respondendo a tantos ambientes ao mesmo tempo.

Assim, respeitando a longa tradição cinematográfica da qual faz parte, A Chegada sai de um macrocosmos e chega em um microcosmos. Fala da comunicação a nível mundial e chega no nível pessoal. Banks, uma mulher com repertório comportamental marcado por esquiva (como demonstrado no breve e desinteressado diálogo com a mãe), e com a entonação de voz calculadamente monótona de Amy Adams, como a de uma pessoa acometida pela depressão, pode ser uma mulher que domina a Ciência da linguagem, mas está longe da enriquecedora comunicação interpessoal de relações repletas de afeto. Algo como uma versão moderna de Ellen Arroway, protagonista de Contato. Ambas aprendem a se entregar, em algum nível, para a vida.




Diante dessas ponderações, fica ainda o lembrete reconfortante de saber que Denis Villeneuve, um cineasta que sempre lida com o Caos em seus aspectos mais horríveis, aqui encontra notas de esperança. Não é a toa que o discurso de Stephen Hawking fica no repeat na cabeça durante a projeção, especialmente quando diz: “As maiores conquistas da humanidade surgiram pela fala. E os maiores fracassos pela falta dela. Não precisa ser desta forma. Nossas maiores esperanças poderiam se tornar realidade no futuro. Com a tecnologia à nossa disposição, as possibilidades são ilimitadas. Tudo o que precisamos fazer é continuar conversando”. 

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