Crítica:
Animais
Fantásticos e Onde Habitam
(Fantastic Beasts and Where to Find Them
/ 2016 / Reino Unido)
Direção: David Yates
Existe
muita má fé no modo como Hollywood explora suas franquias. O motor principal, o
financeiro, se baseia na expectativa certa de retorno em bilheterias para fazer
o espectador de otário, e por mais que diversos exemplos pudessem ser citados,
talvez o mais triste seja a trilogia O
Hobbit, que inchou um livro de pouco mais de 300 páginas em três filmes
enfadonhos que se apoiavam na nostalgia dos fãs de O Senhor dos Anéis. Mas existem exceções que, mesmo que seja
econômica a única razão de terem sido feitas, são surpresas tão maravilhosas
quanto seus antepassados de ouro. Animais
Fantásticos e Onde Habitam é um exemplo perfeito disso.
Escrito
pela própria J.K Rowling como produto original para o Cinema (a obra literária
é apenas um catálogo), o filme é um empreendimento louvável que denota que os
realizadores enxergam o universo dos bruxos não apenas como uma galinha dos
ovos de ouro, mas como um todo multifacetado que esconde características que
antes não conhecíamos. A roteirista compreende a importância de criar uma obra
que tenha início, meio e fim, e assim consegue dialogar bem a criação do setting para uma nova saga ao mesmo
tempo em que cria uma história que funciona por si só. Dessa forma, Rowling
escapa da nostalgia fácil que simplesmente deleitaria a onda de aficionados e
opta pela exploração de um eixo diferente daquele universo, sem o mundo de
delícias adolescentes que funcionou tão bem na saga Harry Potter.
Tal
visão poderia sucumbir se o diretor David Yates continuasse batendo na tecla do
mesmo tom que conferiu aos quatro últimos filmes da saga anterior. Um dos
maiores responsáveis por deixar o universo dos bruxos tão sombrio, Yates aqui
compreende que tal abordagem seria um tiro no pé (como aquele que Peter Jackson
deu com O Hobbit), e investe numa
atmosfera que se equilibra entre o sombrio e o leve. Não há o tom infantil dos
primeiros filmes Harry Potter, mas há
um deslumbramento com o mundo mágico que funciona de forma orgânica, sem chamar
excessiva atenção para si; aliás, as reações do trouxa Jacob (Dan Fogler)
chamam mais a atenção do que as surpresas da magia, servindo bastante bem como
humor.
O
tom sombrio acompanha outras esferas da narrativa que, de fato, não poderiam
ter tratamento melhor. A trama envolvendo os embates sociais entre trouxas e
bruxos, além das consequências psicológicas de tais confrontos, trás uma
abordagem ainda mais adulta para o universo, principalmente por servirem de
comentário social que dialoga com problemas do mundo real. Essa é uma das
maiores riquezas de Animais Fantásticos,
pois reconhece o zeigeist mundial de
tendência ao aumento do conservadorismo e de governos de extrema direita,
elaborando uma resposta contrária a tais movimentos retrógrados. Ao trazer essa
discussão para o cerne da narrativa, Rowling e Yates trabalham um tom político
no filme de forma orgânica e que funciona maravilhosamente bem no escopo da narrativa
deste e dos próximos quatro longas já confirmados.
Para
uma abordagem tão equilibrada, o design de
produção de Stuart Craig (veterano de Harry
Potter) é certeiro. Voltando a oferecer o deleite visual de ambientes tão
ricos e imersivos, além de agora ganharem um tom retrô anos 20, Craig cria
pequenas atmosferas para todos os sets,
imergindo o espectador nas características de tais locais e aqueles que os
habitam. O Congresso de Magia norte-americano é um espetáculo de pompa e burocracia,
a maleta de Newt (Eddie Redmayne) é quase que um zoológico psicodélico, o
orfanato de Mary Lou (Samantha Morton) lembra uma Igreja abandonada com tons
que denotam o fascismo daquele grupo (vide o cartaz)... e entre tantos outros
exemplos, gostaria de ressaltar o calor e aconchego da casa de Tina (Katherine
Waterston) e Queenie (Alison Sudol), que diz muito sobre a relação das duas
irmãs.
A
fotografia de Phillipe Rousselot também confere coerência ao universo ao nunca
pesar a mão em paletas muito destoantes que tornaria óbvia demais as transições
de um eixo para outro da narrativa. Tais transições são feitas de forma
orgânica, sutil, como, aliás, boa parte de tudo que diz respeito ao filme, até
mesmo na inevitável nostalgia. A carga de nostalgia vem embutida na vivência
que tivemos com aquele universo na década passada, e ninguém precisa martela-la.
Basta ouvirmos um feitiço ou a referência a algum sobrenome conhecido para que
o romantismo de fãs apite, e a narrativa flua com personagens extremamente
habilidosos no modo como lidam com a magia, diferente dos alunos que antes
acompanhávamos.
É
uma sutileza que irradia para o que acaba sendo o principal de Animais Fantásticos, tal qual era em Harry Potter: seus personagens. Todos
são desenvolvidos com primor e delicadeza, através, principalmente, de um
elenco excelente que parece ter total compreensão de seus papéis, desde uma
doce e esforçada Tina que, com os olhos de Katherine Waterston, é capaz de
gerar lágrimas nos nossos próprios, até um intenso Percival Graves, que Colin
Farrell transforma em um sujeito determinado e perigoso justamente por parecer desconsiderar
as ameaças a seus projetos.
E
ainda que tenha outros nomes fortes (e que aqui estão sublimes) como Ezra
Miller ou Samantha Morton, me surpreendo tendo que ressaltar a beleza da
composição de Eddie Redmayne, um ator acostumado a se entregar à auto-indulgência
e excessos como forma de atuação, mas que aqui cria em Newt um protagonista
doce, cujo amor aos animais irradia para nós, espectadores, e cujos déficits
sociais ficam claros até mesmo pelo olhar que prefere o nada à pessoa que se
encontra em sua frente.
É
difícil não se encantar com um filme que, em sua conclusão, revela uma informação
valiosa sobre a natureza de uma personagem sem chamar a atenção para isso, preferindo
pautar-se na intimidade entre os envolvidos do que na verborragia, ou que ainda
tenha um plano final que aposta mais na delicadeza das interações entre aqueles
bruxos e humanos do que no espetáculo visual. E é assim que mais uma vez
podemos entrar e nos perder no apaixonante mundo de magia criado por J.K
Rowling.
Lucas
Wagner Nunes
Goiânia, 23/11/2016





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