quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam


Crítica:

Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them / 2016 / Reino Unido)

Direção: David Yates

Existe muita má fé no modo como Hollywood explora suas franquias. O motor principal, o financeiro, se baseia na expectativa certa de retorno em bilheterias para fazer o espectador de otário, e por mais que diversos exemplos pudessem ser citados, talvez o mais triste seja a trilogia O Hobbit, que inchou um livro de pouco mais de 300 páginas em três filmes enfadonhos que se apoiavam na nostalgia dos fãs de O Senhor dos Anéis. Mas existem exceções que, mesmo que seja econômica a única razão de terem sido feitas, são surpresas tão maravilhosas quanto seus antepassados de ouro. Animais Fantásticos e Onde Habitam é um exemplo perfeito disso.

Escrito pela própria J.K Rowling como produto original para o Cinema (a obra literária é apenas um catálogo), o filme é um empreendimento louvável que denota que os realizadores enxergam o universo dos bruxos não apenas como uma galinha dos ovos de ouro, mas como um todo multifacetado que esconde características que antes não conhecíamos. A roteirista compreende a importância de criar uma obra que tenha início, meio e fim, e assim consegue dialogar bem a criação do setting para uma nova saga ao mesmo tempo em que cria uma história que funciona por si só. Dessa forma, Rowling escapa da nostalgia fácil que simplesmente deleitaria a onda de aficionados e opta pela exploração de um eixo diferente daquele universo, sem o mundo de delícias adolescentes que funcionou tão bem na saga Harry Potter.


Tal visão poderia sucumbir se o diretor David Yates continuasse batendo na tecla do mesmo tom que conferiu aos quatro últimos filmes da saga anterior. Um dos maiores responsáveis por deixar o universo dos bruxos tão sombrio, Yates aqui compreende que tal abordagem seria um tiro no pé (como aquele que Peter Jackson deu com O Hobbit), e investe numa atmosfera que se equilibra entre o sombrio e o leve. Não há o tom infantil dos primeiros filmes Harry Potter, mas há um deslumbramento com o mundo mágico que funciona de forma orgânica, sem chamar excessiva atenção para si; aliás, as reações do trouxa Jacob (Dan Fogler) chamam mais a atenção do que as surpresas da magia, servindo bastante bem como humor.



O tom sombrio acompanha outras esferas da narrativa que, de fato, não poderiam ter tratamento melhor. A trama envolvendo os embates sociais entre trouxas e bruxos, além das consequências psicológicas de tais confrontos, trás uma abordagem ainda mais adulta para o universo, principalmente por servirem de comentário social que dialoga com problemas do mundo real. Essa é uma das maiores riquezas de Animais Fantásticos, pois reconhece o zeigeist mundial de tendência ao aumento do conservadorismo e de governos de extrema direita, elaborando uma resposta contrária a tais movimentos retrógrados. Ao trazer essa discussão para o cerne da narrativa, Rowling e Yates trabalham um tom político no filme de forma orgânica e que funciona maravilhosamente bem no escopo da narrativa deste e dos próximos quatro longas já confirmados.

Para uma abordagem tão equilibrada, o design de produção de Stuart Craig (veterano de Harry Potter) é certeiro. Voltando a oferecer o deleite visual de ambientes tão ricos e imersivos, além de agora ganharem um tom retrô anos 20, Craig cria pequenas atmosferas para todos os sets, imergindo o espectador nas características de tais locais e aqueles que os habitam. O Congresso de Magia norte-americano é um espetáculo de pompa e burocracia, a maleta de Newt (Eddie Redmayne) é quase que um zoológico psicodélico, o orfanato de Mary Lou (Samantha Morton) lembra uma Igreja abandonada com tons que denotam o fascismo daquele grupo (vide o cartaz)... e entre tantos outros exemplos, gostaria de ressaltar o calor e aconchego da casa de Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol), que diz muito sobre a relação das duas irmãs.



A fotografia de Phillipe Rousselot também confere coerência ao universo ao nunca pesar a mão em paletas muito destoantes que tornaria óbvia demais as transições de um eixo para outro da narrativa. Tais transições são feitas de forma orgânica, sutil, como, aliás, boa parte de tudo que diz respeito ao filme, até mesmo na inevitável nostalgia. A carga de nostalgia vem embutida na vivência que tivemos com aquele universo na década passada, e ninguém precisa martela-la. Basta ouvirmos um feitiço ou a referência a algum sobrenome conhecido para que o romantismo de fãs apite, e a narrativa flua com personagens extremamente habilidosos no modo como lidam com a magia, diferente dos alunos que antes acompanhávamos.

É uma sutileza que irradia para o que acaba sendo o principal de Animais Fantásticos, tal qual era em Harry Potter: seus personagens. Todos são desenvolvidos com primor e delicadeza, através, principalmente, de um elenco excelente que parece ter total compreensão de seus papéis, desde uma doce e esforçada Tina que, com os olhos de Katherine Waterston, é capaz de gerar lágrimas nos nossos próprios, até um intenso Percival Graves, que Colin Farrell transforma em um sujeito determinado e perigoso justamente por parecer desconsiderar as ameaças a seus projetos.

E ainda que tenha outros nomes fortes (e que aqui estão sublimes) como Ezra Miller ou Samantha Morton, me surpreendo tendo que ressaltar a beleza da composição de Eddie Redmayne, um ator acostumado a se entregar à auto-indulgência e excessos como forma de atuação, mas que aqui cria em Newt um protagonista doce, cujo amor aos animais irradia para nós, espectadores, e cujos déficits sociais ficam claros até mesmo pelo olhar que prefere o nada à pessoa que se encontra em sua frente.

É difícil não se encantar com um filme que, em sua conclusão, revela uma informação valiosa sobre a natureza de uma personagem sem chamar a atenção para isso, preferindo pautar-se na intimidade entre os envolvidos do que na verborragia, ou que ainda tenha um plano final que aposta mais na delicadeza das interações entre aqueles bruxos e humanos do que no espetáculo visual. E é assim que mais uma vez podemos entrar e nos perder no apaixonante mundo de magia criado por J.K Rowling.

 Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 23/11/2016

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