quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crítica: Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois

Crítica:

Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois (Idem / Brasil / 2015)

A estética do Cinema de horror é talvez uma das mais interessantes para se falar do difícil tema da intimidade. Seja quando os termos do conflito narrativo anulam a necessidade de profundidade e se pautam na desesperada necessidade de sobrevivência, ou seja quando o que há de ignoto na obra diga respeito ao modo como os personagens relacionam entre si. Parece que o cineasta Petrus Cariry compreende isso, e por tal razão adota a estética de horror para compôr Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, enquanto a temática poderia também ser abordada pelo drama, por exemplo.

Aliás, a parte do título que diz Alguma Coisa Sobre Nós Dois parece ser uma descrição perfeita para o que o longa busca alcançar em termos narrativos. Seu foco é na relação entre Clarisse (Sabrina Grave) e seu pai (Everaldo Pontes), e, consequentemente, entre Clarisse e ela mesma. É admirável que Cariry compreenda os espaços inter-relacionais entre os personagens como espécies de abismos disformes e inefáveis, Alguma Coisa que não tem nome, e busque trabalhá-los com uma estética que se aproxime desse desconforto. Os momentos de diálogo explícito entre os personagens parecem quase sempre travados, com alguma polidez exagerada que, mesmo quando alfinetam uns aos outros, parece funcionar como um verniz que cobre o que realmente está acontecendo naquelas interações. Em certo ponto da narrativa, Cariry usa um close extremamente lento acompanhando os momentos em que um diálogo se torna intimista, mas a própria lentidão dessa aproximação metafórica e ao mesmo tempo real nos diz muito sobre as travas da fala verbal para expressar o que os personagens estão sentindo.

É por isso que o diretor parece lançar mão de uma série de ferramentas intrinsecamente cinematográficas para perfurar o perturbador universo particular daquelas pessoas. O design de produção cria uma casa que parece habitada por fantasmas, ao mesmo tempo em que a fotografia, rica em contrastes de luz e sombra, investe em diversos planos abertos focando a natureza degradada que é a do sítio do pai de Clarisse, ao mesmo tempo em que usa closes e plongées de forma significativa. Mas é no design de som que há maior rebuscamento de busca de significados “psicológicos”. Sons de animais, gotas pingando e um eterno ranger que lembra o de uma casa prestes a entrar em colapso englobam o universo fílmico em uma eterna busca de captar a cacofonia daquele mundo e o sentimento dos personagens.

Pois, o momento em que Clarisse caminha em um corredor escutando o estrondoso som de um porco em morte agoniante, apenas para descobrir uma cena banal, é uma das óbvias tentativas de Cariry de nos mostrar uma ponte entre o real e o “psíquico”. Há uma transição do horror psicológico passando para o horror físico que se pauta nas metáforas do que, no fim das contas, é uma história sobre conflitos geracionais. Quando ouvimos a narradora dizer sobre “não saber como era seu rosto antes de seu nascimento, e antes do nascimento dos pais”, Cariry escancara o que é uma narrativa sobre a identidade pessoal e como ela não se desliga das figuras paternas e maternas, ecoando ao longo de todas as interações que, no caso, Clarisse, tem ao longo de sua vida.

Ao usar planos que remetem quase à uma perspectiva cósmica (como o que abre o filme), o cineasta busca ressaltar a verdade de uma afirmação que ultrapassa o simples período de uma vida, e calca seu filme numa atmosfera de morte que nos lembra a todo momento que carrega-se os antepassados como pesos físicos e psicológicos a nos assombrar pela vida. Enquanto no início da projeção, a filha de Clarisse brinca com um gafanhoto vivo, o sitio de seu pai é permeado por animais mortos (empalhados ou não), que diz sobre a relação entre a protagonista e seu progenitor, ainda mais quando ainda assim ouvimos sempre o som de animais, como se fossem fantasmas. Os bichos vivos são os vagalumes, em sua eterna dança de sexo e destruição, que parece remeter ao significado último da vida daqueles personagens, enquanto Clarisse busca na auto alienação o esquecimento e a entrega à máxima dor e ao máximo orgasmo.

Mas a maior força do filme é também seu calcanhar de Aquiles. A impressão que Clarisse... é uma obra controlada demais, pensada demais para um longa que se dispõe a caminhar por territórios tão obtusos quando o das interações e da inefabilidade do Alguma Coisa contido no título do filme. Quando Cariry se entrega a longas sequências sem diálogos com imagens que beiram o aleatório, ainda há a sensação pulsante de que tudo aquilo está dizendo alguma coisa, que foi pensado especificamente com um determinado. Pode-se dizer que o diretor unha a porta do inefável, mas jamais chega a abri-la.

O que não impede que haja uma clara noção de batismo de sangue em seu filme. A ressignificação do sangue como símbolo da morte, do nascimento, do gozo acaba sendo a redenção última de uma mulher que viveu dentro das gaiolas do não dito que, mesmo quando dito, nada diz.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 08/02/2016



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