Crítica:
Capitão Fantástico (Captain Fantastic / 2016 / EUA)
Direção:
Matt Ross
Não
é difícil entender o posicionamento do personagem interpretado por Viggo
Mortensen em Capitão Fantástico. Basta
entrar no Facebook ou sair à rua para se deparar com modos de existência e
discursos torpes e desrespeitosos, que alienam o ser humano da própria
humanidade. Assim, de cara já podemos simpatizar com sua política de morar em
florestas e ensinar seus seis filhos sobre valores e comportamentos que muito
se distanciam do que vemos no dia a dia ditado pela velocidade e vazio impostos
pelo capitalismo financeiro.
Escrito
e dirigido por Matt Ross, o filme nos introduz à idílica realidade da família,
onde cada uma das crianças, Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai, tem nomes
singelamente inventados pelos pais, Ben (Mortensen) e Leslie (Trin Miller) como
uma forma de honrar sua individualidade. Quando da morte de Leslie, a família
embarca em uma road trip em direção
ao funeral da mãe, indo contra a imposição do avô (pai de Leslie), que rechaça
a filosofia de Ben e ameaça mandar prendê-lo caso compareça à cerimônia.
No
entanto, antes da viagem começar, os realizadores fazem questão de nos
mergulhar no modo de vida dos personagens. Com um design de produção que revela uma moradia no meio de mato
construída de forma artesanal, recheada de livros e plantações, além de
detalhes sobre como funciona sua rotina (notem a placa com os dias em que cada
um deve regar as plantas) podemos compreender que se trata de uma família que
busca viver em harmonia com a natureza e com sua própria humanidade. Ora, ser
humano, como parece compreender Ben, é ser um animal como os outros, e daí vem
uma rotina de intensos treinos físicos que, não só tornam os jovens mais aptos
a enfrentarem desafios, como promove um maior contato com seus próprios corpos,
não alienando-se desses como se o corpo fosse uma parte deslocada da “mente”. Daí
vem a tristeza e o choque enfrentados pelas crianças quando entram em um banco
e notam como todas as pessoas são obesas.
Essa
percepção, aliás, em nenhum momento vem acompanhada de alguma chacota. É da
filosofia da família o máximo respeito pelo próximo, por mais que, quando se
trate de grupos dominantes na sociedade (como os cristãos) eles se valham de
algum tipo de piada, até mesmo como ato político de luta contra ideologias
opressoras. Mais fascinante ainda é a manutenção de uma cultura de diálogo
entre eles, algo que Ben insiste em manter com rigor (mas sem punição), abrindo
espaço para discordância entre os familiares, para que quem tenha algum
posicionamento contrário possa defendê-lo.
O
contraste entre o modo de vida da família com outras pessoas nos EUA entra como
mote principal da obra. O que acaba tornando Capitão Fantástico uma experiência tão sensível e valiosa é justamente
a complexidade com que o roteiro trata o choque entre as culturas. Apesar de,
enquanto espectadores, nos posicionarmos ao lado de Ben e as crianças, não existe
maniqueísmo na forma como os outros personagens desfilam pela história. A
filosofia da família irradia para o espectador, que se vê tomado de empatia,
apesar de notável tristeza, por perceber como tantas pessoas, fora do universo particular da família protagonista, repetem
regras e mais regras sociais e morais sem algum pensamento crítico que possa
filtrar tais posicionamentos político-existenciais. Ninguém ali é mal, mas parecem
veementemente desligados de si mesmos. E ainda assim, o filme é recheado de
momentos doces como quando o avô busca o diálogo com os netos fazendo
exercícios físicos com eles, ou seja, entrando em seu mundo.
O
que prepara o território para outra armadilha onde o roteiro poderia facilmente
ter caído: a defesa acrítica de Ben sobre modo incomum como cria os filhos.
Porém, Ross consegue desviar bem dessa infelicidade ao criar uma narrativa que não
permite que o longa caia em alguma espécie de simplismo. Um dos motores dessa
visão é a própria personagem de Leslie: logo no início da projeção descobrimos
que sofre de severa depressão, e cuja morte vem como consequência disso, na
forma de suicídio (não é spoiler, são
informações iniciais da obra). Apesar dos discursos de Ben sobre a depressão
como doença neurológica, tal transtorno é mais complexo, e envolve variáveis
ambientais também. Quais seriam essas variáveis?
O
roteiro não oferece respostas fáceis, mas junta esse detalhe com outras feridas
silenciosas que surgem na trama e fazem com que Ben questione a si mesmo.
Estaria o modo como educa os filhos tão isento de crítica assim? Ao criar uma
comunidade utópica, o pensamento de que os membros desse grupo podem não estar
prontos para o contato com o “mundo real”, justamente por estarem protegidos
desse, é um fantasma aterrorizante, principalmente por entrar em sutil
contradição com a filosofia de Ben de não proteger os filhos de verdades “da
vida”.
Enfrentando
com coragem todas as contradições e complexidades que necessariamente surgem em
um filme com temática ambiciosa como essa, Capitão
Fantástico se torna único principalmente por ser um exercício tão humanista
em um ano politicamente caótico como 2016, ainda mais se levarmos em conta que
é um filme norte-americano, país que elegeu Donald Trump para a presidência,
candidato que, durante toda a campanha, defendeu posturas que os protagonistas
do longa tão claramente desprezam. E é justamente por existir em um zeigeist absurdo como o de 2016 que é de
extrema importância que o roteiro não mantenha alguma neutralidade política,
outra armadilha que poderia surgir, justamente do que poderia ser uma forma de
empatia exacerbada, ou seja, como um posicionamento que ditaria que a alienação
dos norte americanos é tão válida quando a experiência da família. O roteiro
toma sim o lado de Ben, defendendo o modo como cria os filhos e a filosofia
dessa forma de criação, mesmo que reconheça as possíveis dificuldades e lados
sombrios, o choque entre culturas e a possibilidade de alguma alienação social.
São ameaças prováveis, mas que, como defende o filme, a família tem como
combater justamente por preservarem uma cultura do diálogo.
E
é assim que adentrar no universo de Capitão
Fantástico se torna uma experiência inebriante. Assisti-lo é encarar o
mundo de uma forma diferente, mais empática mas igualmente crítica. É, assim,
um dos melhores e mais importantes filmes do ano.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 11/11/2016

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