sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Crítica: Capitão Fantástico


Crítica:

Capitão Fantástico (Captain Fantastic / 2016 / EUA)

Direção: Matt Ross

Não é difícil entender o posicionamento do personagem interpretado por Viggo Mortensen em Capitão Fantástico. Basta entrar no Facebook ou sair à rua para se deparar com modos de existência e discursos torpes e desrespeitosos, que alienam o ser humano da própria humanidade. Assim, de cara já podemos simpatizar com sua política de morar em florestas e ensinar seus seis filhos sobre valores e comportamentos que muito se distanciam do que vemos no dia a dia ditado pela velocidade e vazio impostos pelo capitalismo financeiro.

Escrito e dirigido por Matt Ross, o filme nos introduz à idílica realidade da família, onde cada uma das crianças, Bo, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai, tem nomes singelamente inventados pelos pais, Ben (Mortensen) e Leslie (Trin Miller) como uma forma de honrar sua individualidade. Quando da morte de Leslie, a família embarca em uma road trip em direção ao funeral da mãe, indo contra a imposição do avô (pai de Leslie), que rechaça a filosofia de Ben e ameaça mandar prendê-lo caso compareça à cerimônia.

No entanto, antes da viagem começar, os realizadores fazem questão de nos mergulhar no modo de vida dos personagens. Com um design de produção que revela uma moradia no meio de mato construída de forma artesanal, recheada de livros e plantações, além de detalhes sobre como funciona sua rotina (notem a placa com os dias em que cada um deve regar as plantas) podemos compreender que se trata de uma família que busca viver em harmonia com a natureza e com sua própria humanidade. Ora, ser humano, como parece compreender Ben, é ser um animal como os outros, e daí vem uma rotina de intensos treinos físicos que, não só tornam os jovens mais aptos a enfrentarem desafios, como promove um maior contato com seus próprios corpos, não alienando-se desses como se o corpo fosse uma parte deslocada da “mente”. Daí vem a tristeza e o choque enfrentados pelas crianças quando entram em um banco e notam como todas as pessoas são obesas.

Essa percepção, aliás, em nenhum momento vem acompanhada de alguma chacota. É da filosofia da família o máximo respeito pelo próximo, por mais que, quando se trate de grupos dominantes na sociedade (como os cristãos) eles se valham de algum tipo de piada, até mesmo como ato político de luta contra ideologias opressoras. Mais fascinante ainda é a manutenção de uma cultura de diálogo entre eles, algo que Ben insiste em manter com rigor (mas sem punição), abrindo espaço para discordância entre os familiares, para que quem tenha algum posicionamento contrário possa defendê-lo.

O contraste entre o modo de vida da família com outras pessoas nos EUA entra como mote principal da obra. O que acaba tornando Capitão Fantástico uma experiência tão sensível e valiosa é justamente a complexidade com que o roteiro trata o choque entre as culturas. Apesar de, enquanto espectadores, nos posicionarmos ao lado de Ben e as crianças, não existe maniqueísmo na forma como os outros personagens desfilam pela história. A filosofia da família irradia para o espectador, que se vê tomado de empatia, apesar de notável tristeza, por perceber como tantas pessoas, fora do universo particular da família protagonista, repetem regras e mais regras sociais e morais sem algum pensamento crítico que possa filtrar tais posicionamentos político-existenciais. Ninguém ali é mal, mas parecem veementemente desligados de si mesmos. E ainda assim, o filme é recheado de momentos doces como quando o avô busca o diálogo com os netos fazendo exercícios físicos com eles, ou seja, entrando em seu mundo.

O que prepara o território para outra armadilha onde o roteiro poderia facilmente ter caído: a defesa acrítica de Ben sobre modo incomum como cria os filhos. Porém, Ross consegue desviar bem dessa infelicidade ao criar uma narrativa que não permite que o longa caia em alguma espécie de simplismo. Um dos motores dessa visão é a própria personagem de Leslie: logo no início da projeção descobrimos que sofre de severa depressão, e cuja morte vem como consequência disso, na forma de suicídio (não é spoiler, são informações iniciais da obra). Apesar dos discursos de Ben sobre a depressão como doença neurológica, tal transtorno é mais complexo, e envolve variáveis ambientais também. Quais seriam essas variáveis?

O roteiro não oferece respostas fáceis, mas junta esse detalhe com outras feridas silenciosas que surgem na trama e fazem com que Ben questione a si mesmo. Estaria o modo como educa os filhos tão isento de crítica assim? Ao criar uma comunidade utópica, o pensamento de que os membros desse grupo podem não estar prontos para o contato com o “mundo real”, justamente por estarem protegidos desse, é um fantasma aterrorizante, principalmente por entrar em sutil contradição com a filosofia de Ben de não proteger os filhos de verdades “da vida”.

Enfrentando com coragem todas as contradições e complexidades que necessariamente surgem em um filme com temática ambiciosa como essa, Capitão Fantástico se torna único principalmente por ser um exercício tão humanista em um ano politicamente caótico como 2016, ainda mais se levarmos em conta que é um filme norte-americano, país que elegeu Donald Trump para a presidência, candidato que, durante toda a campanha, defendeu posturas que os protagonistas do longa tão claramente desprezam. E é justamente por existir em um zeigeist absurdo como o de 2016 que é de extrema importância que o roteiro não mantenha alguma neutralidade política, outra armadilha que poderia surgir, justamente do que poderia ser uma forma de empatia exacerbada, ou seja, como um posicionamento que ditaria que a alienação dos norte americanos é tão válida quando a experiência da família. O roteiro toma sim o lado de Ben, defendendo o modo como cria os filhos e a filosofia dessa forma de criação, mesmo que reconheça as possíveis dificuldades e lados sombrios, o choque entre culturas e a possibilidade de alguma alienação social. São ameaças prováveis, mas que, como defende o filme, a família tem como combater justamente por preservarem uma cultura do diálogo.

E é assim que adentrar no universo de Capitão Fantástico se torna uma experiência inebriante. Assisti-lo é encarar o mundo de uma forma diferente, mais empática mas igualmente crítica. É, assim, um dos melhores e mais importantes filmes do ano.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 11/11/2016




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