Crítica:
Dir. Park Chan-wook
Park
Chan-wook é um estupendo cineasta.
No
decorrer de sua filmografia nota-se um progressivo conforto entre diretor e linguagem cinematográfica, fazendo com que seus filmes se ancorem cada vez
menos no diálogo verbal para serem capazes de entrar no sombrio universo de
seus personagens através da montagem, do som e da fotografia. É um contato
íntimo com a linguagem que adota para sua narrativa. É como uma transa com o
próprio conteúdo que explora. E é nesse estágio maduro do artista que ele nos
entrega A Criada.
Adaptado
por Chung Seo-kyung junto ao diretor a partir do romance Fingersmith, de Sarah Waters,
A Criada ganha com o mínimo de informação possível, e por isso basta dizer
que se trata de um filme de época onde uma criada e sua patroa se apaixonam. É
também um longa que lida com múltiplos pontos de vista em sua narrativa,
formando uma complexa teia que aos poucos desvela os temas favoritos de Park
Chan-wook, seguro o suficiente de sua própria habilidade para aqui entrar em
uma dança entre a exploração estética e a tessitura de suas marcas registradas.
O
cineasta imprime identidade visual própria a cada momento da narrativa mediante
as reviravoltas e como elas remodelam a trama. Em um primeiro momento,
Chan-wook mantém seus travellings e closes característicos, mas o tom
narrativo se afasta do que conhecemos de seu trabalho. A paixão de Sook-hee
(Kim Tae-ri) é construída com requintes românticos, com doçura atípica aos
trabalhos do diretor, trabalhando uma fotografia (assinada por Chung
Chung-hoon) que remete ao Rococó, leve, decorativa e suave, desenhando
marcadamente com a luz do sul e árvores frondosas, criando quadros que poderiam
ser emoldurados, tamanha a beleza das figuras iluminadas em perfeito
enquadramento. É a construção de um ambiente idílico que, juntamente à
erotização sutil desse primeiro arco narrativo (a cena do banho e a transa
merecem destaque), nos coloca na condição de apaixonada de Sook-hee.
Em
um segundo momento, Chan-wook e Chung-hoon acompanham os movimentos da narrativa
e as novas facetas que se revelam nos personagens, criando uma estética que se
aproxima do Barroco, o uso marcado de sombras como expressão dessa natureza ambígua
que engloba o filme e muda nossa perspectiva, o tom erótico sutil ganhando
nuances pornográficas. No terceiro e último arco narrativo, o que vemos é puro
Park Chan-wook, como um movimento artístico único: a exploração da estética de
morte, da violência, longos planos de tortura e loucura, envolvido em imagens
de pungente bizarrice. Curiosamente, apesar de incomodados, nos sentimos
confortáveis na presença desse nosso torpe anfitrião.
A
fotografia de A Criada merece todos
os elogios possíveis, mas não é a única linguagem que se destaca no filme. O
trabalho de montagem (assinada por Kim Jae-bum e Kim Sang-beom) é tão ambicioso
quanto no filme anterior de Chan-wook, Segredos
de Sangue, e é uma das grandes responsáveis por fazer a história mais
complexa do que parece a princípio. Ao constantemente quebrar a linearidade (e
não digo não apenas ao mudar o ponto de vista), voltando ao passado e entrando
no íntimo de seus personagens ao nos remeter a alguma lembrança, diretor e
montadores nos jogam em um fluxo contínuo entre subjetivo e objetivo que em
muito ultrapassa diversos filmes com linearidade distorcida e repletos de
reviravoltas, que quase sempre dão um tiro no pé quando não possuem a segurança
com que isso é feito em A Criada,
onde, para além de mero recurso estilístico, a montagem demarca o próprio
dialeto fílmico.
O
Cinema é respeitado no longa, na medida em que somos chamados a um jogo pelos
realizadores através do inteligente uso de pistas e recompensas espalhados ao
longo da projeção (o alfinete no início do filme, o ópio, os sinos, entre
outros), além da sensação respirarmos os sentimentos daqueles personagens
através de recursos puramente cinematográficos, um design de som que ecoa gemidos ou em uma mesma cena de sexo que,
filmada em duas perspectivas distintas, é primorosa ao estabelecer o modo como
cada uma daquelas personagens vivencia a transa.
E
se citei a cena de sexo, é o momento de dizer que A Criada pode ser visto como uma resposta de Chan-wook às acusações
de misoginia que marcaram muitos de seus trabalhados anteriores. Apesar de
muito da violência e tortura que marca a filmografia do sul-coreano, o filme
trata, em grande parte, da paixão recíproca que se constrói entre duas mulheres.
A homossexualidade nem sequer é problematizada: o lance aqui é desejo, é
paixão. Além disso, Hideko (Kim Min-hee) e Sook-hee são talvez as personagens
femininas mais fortes e donas de si na Arte do cineasta, lutando contra uma
cultura marcadamente machista que insiste em subestimá-las.
A Criada marca
ainda lindamente a conclusão de uma transição temática que vinha se estabelecendo
nos filmes de Chan-wook com Sede de
Sangue e Segredos de Sangue. A
violência como abrigo existencial dos personagens de Mr. Vingança, Oldboy e Lady Vingança não é mais o foco, e mesmo
se seus dois longas anteriores versassem sobre o conforto nas sombras, dizem
muito mais sobre a disputa de poder usando o sexo como mediador. Em A Criada, a disputa de poder e
influências é o motor que unifica e constrói a narrativa, e talvez seja por
isso que é um filme tão gratificante: o duelo entre pessoas tão inteligentes
sempre dá frutos fascinantes.
Tendo em um de seus últimos planos talvez o mais belo enquadramento do Cinema em 2016,
essa nova obra-prima de Park Chan-wook retifica-o mais uma vez com um dos
grandes cineastas da atualidade.
Lucas
Wagner Nunes,
Goiânia,
02/10/2016

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