sábado, 5 de março de 2016

Sobre: "A Bruxa"


Diálogo com:

A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale / 2015 / EUA, Canadá)

Direção: Robert Eggers

Existe diferença entre assustar e incomodar. É fácil um filme de terror assustar, bastam alguns truques de trilha sonora e montagem. Mas incomodar envolve um trabalho mais delicado, que explora questões inerentemente assustadoras ao ser humano. O desconhecido, como bem compreendeu o mestre do horror H.P. Lovecraft, é a maior chave para incomodar, pois nos coloca vulneráveis frente a algo sobre o qual não temos poder algum. E estar vulnerável é a coisa mais apavorante que nos acomete, em qualquer nível de experiência, e isso talvez tenha até mesmo razões evolutivas. E se o estreante Robert Eggers faz de seu A Bruxa um empreendimento mais incômodo do que assustador, é também a grande razão de seu filme ser tão eficaz.

Com diálogos tecidos em um refinado inglês arcaico (“I love you marvelous well”, diz um personagem ao seu filho), retirados em parte de documentos históricos, A Bruxa basea-se em retratos da realidade, em trechos de descrições históricas do que seriam experiências reais relacionadas ao satânico, costurando tudo à trama envolvendo uma família excomungada da comunidade cristã em que vivem na Nova Inglaterra (curiosamente – ou não – a terra onde nasceu e viveu Lovecraft), e partem para morar em uma fazenda isolada e inóspita cercada por uma floresta negra. Quando o bebê da família desaparece misteriosamente, fenômenos perturbadores começam a acontecer dentro e fora do seio familiar.

O que Eggers compreende tão bem em seu roteiro é que o horror de A Bruxa começa bem antes da trama sobrenatural. Envolvidos em uma atmosfera de exacerbado temor religioso, os personagens parecem sempre reféns de uma criatura sobrenatural invisível pronta para lhes lançar em tormento infinito caso não cumpram com sua vontade. E parecem ainda engajados em um condicionamento cruel na medida em que os pais (Katherine e William) buscam enfiar com toda a força sua fé, em todos seus aspectos mais fanáticos, na cabeça dos filhos. Portanto, mesmo em segurança (leia-se: sem a influência demoníaca que começa a assolá-los) a família é vulnerável, sendo um diálogo entre William e eu filho Caleb então um dos momentos mais aterrorizantes do longa, onde o garoto assume sua condição de pecador, de impuro, indigno, desde a nascença pelo simples fato de “herdar o pecado de Adão”.

Nesse contexto religioso que A Bruxa está inserido, o horror que acomete os personagens ganha dimensão nos próprios pilares da fé cristã, já que os motivos da excomunhão da família jamais ficam claros, mas de alguma forma eles já não estão mais sob a “proteção de Deus”. Vulneráveis, portanto, à outra forma de perigo, dessa vez sob a figura do Mal. A ambientação física da narrativa logo ganha função na medida em que reflete essa vulnerabilidade: a fazenda de solo infértil rodeada por uma floresta sombria que tem visual valor repelente, ainda mais depois que vemos o que acontece quando os personagens entram nela. Acaba que a ambientação lembra Tubarão, onde o oceano que rodeava o barco Orca era a representação do perigo, caso os personagens se aventurassem por lá, sendo que o próprio barco aos poucos deixa de ser sinônimo de segurança. Como a fazenda aqui.

A comparação com o clássico de Spielberg não é fortuita. O horror de A Bruxa é atmosférico, construído mais na sugestão do que nas coisas que realmente acontecem. O ambiente físico tem a função já comentada, mas ganha dimensões ainda mais significativas a partir da fotografia de Jarin Blaschke, que imerge o longa em dias cinzentos e sombras que, no mais clássico do Cinema de horror, sugerem “coisas à espreita na escuridão”, enquanto os troncos de árvores na floresta não demoram a merecer comparação com grades de prisão. Blaschke ainda filma durante boa parte do tempo em baixa profundidade de campo, embaçando o fundo do campo e tornando tudo ainda mais ignoto. O design de produção também é eficiente quando constrói as casas da família em ambientes apertados que forçam um tom claustrofóbico, ganhando uma nota mais horrível (no bom sentido) quando os figurinos sem cor, como tudo na fazenda, aparecem desgastados e rotos a todo o tempo, nos dizendo sobre a condição financeira da família e nos inserindo ainda mais num locus aversivo. A falta de cores fortes no filme, aliás, permitem que quando o vermelho aparece ganhe um valor pontual ao evidenciar o perigo de forma demasiado visceral.

Eggers tem então o espaço para construir o suspense da forma indireta como deseja. A Bruxa se equilibra admiravelmente entre o suspense psicológico e o terror sobrenatural, já que o Mal no longa consegue ser uma presença invisível mas que se faz presente, inclusive para o espectador. Sem quase nenhuma cena de horror explícito, Eggers alcança a proeza de fazer com que percebamos o Mal agindo sobre a família e gerando uma série de conflitos internos que fará com que ela se leve à auto-destruição, com o capiroto puxando suas cordinhas de leve em lugares-chave onde o espectador, por ser externo àquilo tudo, consegue perceber, mas nem sempre a família sabe onde olhar, e acaba olhando para si, entrando num misto de culpa religiosa (como se estivessem sendo punidos por deus) e jogo de apontar dedos um para o outro, o que transforma o ambiente familiar em uma panela de pressão pronta para explodir, e também um lugar onde as influências malignas podem crescer dentro dos personagens, sendo o que, na mitologia cristã, é o objetivo de Satanás. Os conflitos psicológicos criados não só transformam o longa num suspense progressivamente mais angustiante (ainda mais pela postura passiva à qual somos forçados enquanto espectadores) como também toca no drama de forma funcional, em especial no que diz respeito aos personagens de William e Thomasin, interpretados com talento por, respectivamente, Ralph Ineson e Anya Taylor-Joy, figuras submetidas a pressões que os confundem e os levam a adotar posturas que traduzem uma complexidade psicológica maior, justamente por terem que se desvirar nos modos como resolvem seus dilemas, os quais nunca antes foram submetidos em história de vida (e o último momento de William em cena ganha notas irônicas que parecem piada do próprio Satanás).

E é por esse equilíbrio tão bem alcançado que Eggers acaba decepcionando um pouco quando chega ao terceiro ato, mais especificamente o que é o clímax da narrativa, e a presença demoníaca ganha certa fisicalidade um tanto desnecessária para a conclusão da história, e acaba que a única função do clímax é chocar. Não me refiro, no entanto, à cena final, onde a fisicalidade ganha tons mais aterrorizantes e, no entanto, também mais sutis, e fecham o filme de forma genuinamente perturbadora. Mas, se usei esse parágrafo para reclamações, vale a pergunta indignada: por quê diabos uma família cristã como essa compraria um bode preto com chifres curvados, e ainda lhe dão o nome de Black Phillip?! Nem eu, que sou ateu, faria uma coisa dessas. Credo. Mas enfim.

O caso é que A Bruxa pode não ser perfeito, mas certamente é um horror de destaque em uma época em que os filmes do gênero muitas vezes apresentam descuido na forma de contar sua história. Além disso, é corajoso por se valer menos do choque e mais da sugestão, quando a maioria dos espectadores podem estar tão desatentos com seus celulares que não terão paciência para acompanhar.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 04/03/2016

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