Diálogo
com:
A
Bruxa
(The Witch: A New-England Folktale /
2015 / EUA, Canadá)
Direção:
Robert Eggers
Existe
diferença entre assustar e incomodar. É fácil um filme de terror assustar,
bastam alguns truques de trilha sonora e montagem. Mas incomodar envolve um
trabalho mais delicado, que explora questões inerentemente assustadoras ao ser
humano. O desconhecido, como bem compreendeu o mestre do horror H.P. Lovecraft,
é a maior chave para incomodar, pois nos coloca vulneráveis frente a algo sobre
o qual não temos poder algum. E estar vulnerável é a coisa mais apavorante que
nos acomete, em qualquer nível de experiência, e isso talvez tenha até mesmo
razões evolutivas. E se o estreante Robert Eggers faz de seu A Bruxa um empreendimento mais incômodo
do que assustador, é também a grande razão de seu filme ser tão eficaz.
Com
diálogos tecidos em um refinado inglês arcaico (“I love you marvelous well”,
diz um personagem ao seu filho), retirados em parte de documentos históricos, A Bruxa basea-se em retratos da
realidade, em trechos de descrições históricas do que seriam experiências reais
relacionadas ao satânico, costurando tudo à trama envolvendo uma família excomungada
da comunidade cristã em que vivem na Nova Inglaterra (curiosamente – ou não – a
terra onde nasceu e viveu Lovecraft), e partem para morar em uma fazenda
isolada e inóspita cercada por uma floresta negra. Quando o bebê da família
desaparece misteriosamente, fenômenos perturbadores começam a acontecer dentro
e fora do seio familiar.
O
que Eggers compreende tão bem em seu roteiro é que o horror de A Bruxa começa bem antes da trama
sobrenatural. Envolvidos em uma atmosfera de exacerbado temor religioso, os
personagens parecem sempre reféns de uma criatura sobrenatural invisível pronta
para lhes lançar em tormento infinito caso não cumpram com sua vontade. E
parecem ainda engajados em um condicionamento cruel na medida em que os pais
(Katherine e William) buscam enfiar com toda a força sua fé, em todos seus
aspectos mais fanáticos, na cabeça dos filhos. Portanto, mesmo em segurança
(leia-se: sem a influência demoníaca que começa a assolá-los) a família é
vulnerável, sendo um diálogo entre William e eu filho Caleb então um dos
momentos mais aterrorizantes do longa, onde o garoto assume sua condição de
pecador, de impuro, indigno, desde a nascença pelo simples fato de “herdar o
pecado de Adão”.
Nesse
contexto religioso que A Bruxa está
inserido, o horror que acomete os personagens ganha dimensão nos próprios
pilares da fé cristã, já que os motivos da excomunhão da família jamais ficam
claros, mas de alguma forma eles já não estão mais sob a “proteção de Deus”.
Vulneráveis, portanto, à outra forma de perigo, dessa vez sob a figura do Mal. A
ambientação física da narrativa logo ganha função na medida em que reflete essa
vulnerabilidade: a fazenda de solo infértil rodeada por uma floresta sombria
que tem visual valor repelente, ainda mais depois que vemos o que acontece
quando os personagens entram nela. Acaba que a ambientação lembra Tubarão, onde o oceano que rodeava o
barco Orca era a representação do perigo, caso os personagens se aventurassem
por lá, sendo que o próprio barco aos poucos deixa de ser sinônimo de
segurança. Como a fazenda aqui.
A
comparação com o clássico de Spielberg não é fortuita. O horror de A Bruxa é atmosférico, construído mais
na sugestão do que nas coisas que realmente acontecem. O ambiente físico tem a
função já comentada, mas ganha dimensões ainda mais significativas a partir da
fotografia de Jarin Blaschke, que imerge o longa em dias cinzentos e sombras
que, no mais clássico do Cinema de horror, sugerem “coisas à espreita na
escuridão”, enquanto os troncos de árvores na floresta não demoram a merecer
comparação com grades de prisão. Blaschke ainda filma durante boa parte do
tempo em baixa profundidade de campo, embaçando o fundo do campo e tornando
tudo ainda mais ignoto. O design de
produção também é eficiente quando constrói as casas da família em ambientes
apertados que forçam um tom claustrofóbico, ganhando uma nota mais horrível (no
bom sentido) quando os figurinos sem cor, como tudo na fazenda, aparecem
desgastados e rotos a todo o tempo, nos dizendo sobre a condição financeira da
família e nos inserindo ainda mais num locus
aversivo. A falta de cores fortes no filme, aliás, permitem que quando o
vermelho aparece ganhe um valor pontual ao evidenciar o perigo de forma
demasiado visceral.
Eggers
tem então o espaço para construir o suspense da forma indireta como deseja. A Bruxa se equilibra admiravelmente
entre o suspense psicológico e o terror sobrenatural, já que o Mal no longa
consegue ser uma presença invisível mas que se faz presente, inclusive para o
espectador. Sem quase nenhuma cena de horror explícito, Eggers alcança a proeza
de fazer com que percebamos o Mal agindo sobre a família e gerando uma série de
conflitos internos que fará com que ela se leve à auto-destruição, com o capiroto
puxando suas cordinhas de leve em lugares-chave onde o espectador, por ser
externo àquilo tudo, consegue perceber, mas nem sempre a família sabe onde
olhar, e acaba olhando para si, entrando num misto de culpa religiosa (como se
estivessem sendo punidos por deus) e jogo de apontar dedos um para o outro, o
que transforma o ambiente familiar em uma panela de pressão pronta para
explodir, e também um lugar onde as influências malignas podem crescer dentro
dos personagens, sendo o que, na mitologia cristã, é o objetivo de Satanás. Os
conflitos psicológicos criados não só transformam o longa num suspense
progressivamente mais angustiante (ainda mais pela postura passiva à qual somos
forçados enquanto espectadores) como também toca no drama de forma funcional, em
especial no que diz respeito aos personagens de William e Thomasin,
interpretados com talento por, respectivamente, Ralph Ineson e Anya Taylor-Joy,
figuras submetidas a pressões que os confundem e os levam a adotar posturas que
traduzem uma complexidade psicológica maior, justamente por terem que se
desvirar nos modos como resolvem seus dilemas, os quais nunca antes foram
submetidos em história de vida (e o último momento de William em cena ganha notas
irônicas que parecem piada do próprio Satanás).
E
é por esse equilíbrio tão bem alcançado que Eggers acaba decepcionando um pouco
quando chega ao terceiro ato, mais especificamente o que é o clímax da narrativa,
e a presença demoníaca ganha certa fisicalidade um tanto desnecessária para a
conclusão da história, e acaba que a única função do clímax é chocar. Não me
refiro, no entanto, à cena final, onde a fisicalidade ganha tons mais aterrorizantes
e, no entanto, também mais sutis, e fecham o filme de forma genuinamente perturbadora.
Mas, se usei esse parágrafo para reclamações, vale a pergunta indignada: por
quê diabos uma família cristã como essa compraria um bode preto com chifres
curvados, e ainda lhe dão o nome de Black Phillip?! Nem eu, que sou ateu, faria
uma coisa dessas. Credo. Mas enfim.
O
caso é que A Bruxa pode não ser
perfeito, mas certamente é um horror de destaque em uma época em que os filmes
do gênero muitas vezes apresentam descuido na forma de contar sua história.
Além disso, é corajoso por se valer menos do choque e mais da sugestão, quando
a maioria dos espectadores podem estar tão desatentos com seus celulares que
não terão paciência para acompanhar.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 04/03/2016

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