quarta-feira, 23 de março de 2016

Angrboda

Angrboda

Ao amigo Gabriel Caetano de Queiroz

“How far are we from dying?
Is it merely at an end?”
canção “Evening Over Rooftops”, Edgar Broughton Band

O ar está espesso como mel, enquanto o Rei anda na varanda de seu palácio em cima do cume, observando as casas ensombreadas pelo início da noite, tetos e mais tetos se estendendo até a curva do horizonte, sob um céu vermelho-fogo, vermelho-sangue que se deitava sobre todas aquelas vidas, manta sombria do Destino a descer sobre seu reino e sua alma, retificando as perturbações que lhe assomam o espírito. As palavras de um de seus poetas pessoais, Broughton, produzidas recentemente a pedido especial do Rei, não lhe deixa a cabeça (“Exôdo? Fuga? Ou era apenas para meus olhos?”), se misturando à esfumaçada imagem do Oráculo que consultou algumas horas atrás, suas palavras ribombando como trovões em seu ser: “Um esplendor externo. Junto a um Ragnarök todo seu”. Ele acha ter compreendido as palavras, e é isso o que tanto lhe perturba.

Precisa de um uísque. Liga o computador atrelado à vidraça na extremidade da varanda, acionando um dos mordomos. Bebe uma dose generosa da bebida de sua coleção particular, sorvendo cada gole como se fosse um purgante e, embora não estivesse surtindo efeito desejado (ou talvez justamente por isso), enche o copo novamente, apoiando-se no parapeito e observando toda a extensão daquele reino. Sente-o como parte inerente sua, como se cada metro quadrado daquela terra fosse inexorável a si. Um reino que ele governava desde que herdou o trono, aos 19 anos, mesma época em que começaram os ataques de Angrboda, o dragão vermelho-ouro das profecias mais antigas de seus antepassados, criatura majestosa que periodicamente atacava seu reino, destruindo fábricas, colheitas, lares, vidas...

Há 33 anos ele governava o reino, e há 33 anos lutava contra Angrboda. Para ser sincero, não se lembra de muito antes disso. Seus anos de juventude formam um borrão nas suas memórias, resquícios de eventos e sensações misturados disformemente nos becos do passado. Ao que conta, é a batalha de uma vida. E por muitos desses anos, sente que foi um Rei justo, sempre com compaixão por seus súditos, um senso de unidade que possui com todos aqueles seres humanos, com vidas tão únicas, esperanças idiossincráticas, amores tempestuosos, sentimentos íntimos protegidos do crivo alheio, como que por receio de julgamentos que diminuíssem o som daqueles trovões internos que balançavam cada um privadamente. Olhava para camponeses, operários, mordomos, cozinheiros, servos e servas sexuais, faxineiros, sua rainha e seu filho, além de todas as crianças que pululavam pelo reino... olhava tudo isso com doçura capaz de enxergar mesmo os atos mais contraditórios como belos justamente por serem humanos. Talvez tenha essa tendência por ter sido embebido em poesia desde os anos primevos, quando convivia com sua nobre e falecida mãe, passeando pelos então claros e vibrantes jardins do reino, só sabia que sentia uma gratidão profunda por isso, junto também com um respeito e amor ao pai por ter lhe ingressado nos mistérios da Ciência, desde as mais distantes galáxias, até o mais profundo dos oceanos, mas principalmente, das leis que governam o comportamento humano. Talvez por isso tudo seja um soberano tão amado.

Mas o reino não guardava os esplendores de outrora. Lutas e mais lutas foram travadas contra Angrboda, mas a criatura, fora das leis naturais da Ciência, não pertencentes aos limites do Universo conhecido, obra de puro Caos, paulatinamente aparecia e lhe destruía o reino. O Rei já organizara expedições para encontrar o lar da criatura, se deparando com um antro de radiação venenosa envolto em pura energia. Não matéria. Energia. E por anos a fio o Rei e seus exércitos confrontaram o dragão, armas laser, tanques de guerra, desintegradores atômicos, e muito mais, incapazes de ultrapassar a pele espessa. As perdas humanas nessas batalhas se tornaram enormes, e o Rei decidiu seguir esse caminho sozinho, iniciando assim uma caçada brutal e solitária. Aos poucos, Angrboda passou a ser seu oxigênio, cada átomo de seu corpo lembrando-se constantemente dessa tarefa. Aos poucos, apesar de manter seu senso humanista e sempre que possível passar tempo com seus súditos, o reino foi convertendo-se em montanhas e montanhas de sucatas, se tornando uma espécie de ferro-velho envenenado que cobria os céus com uma névoa vermelha-tóxica. O desmazelo que a estrutura física do reino passou a evidenciar era um contraponto de um universo muito mais rico que se construía sob a pele do Rei...

O Rei era o coração do reino, o centro nervoso de tudo o que lá acontecia. Mas quanto mais o reino caía, mais seus aposentos privados, antes limitados ao essencial, passavam a esbanjar mapas, esqueleto de armas, diagramas, livros e mais livros abertos em diferentes páginas, um em cima do outro, além de desenhos de Angrboda por todos os cantos. O coração falhando, todos os órgãos de um corpo passam a arrefecer. Os passos nas ruas do reino adquiriam um aspecto arrastado, os olhares cada vez mais fitavam o chão. A rainha, sem dizer palavra, mudou-se para os aposentos de hóspedes, e passava mais tempo distraindo-se com servos e servas sexuais.

Jogando-se em batalhas sangrentas contra Angrboda, toda vez que ele aparecia, o Rei lançava seu corpo em direção à criatura, usando armaduras cada vez mais leves e, como arma, apenas a espada forjada por seus antepassados, muito antes de seu nascimento. Voando através do reino, mergulhando em mares distantes, se enroscando dentro de cavernas esquecidas ou nunca descobertas, homem e criatura se dilaceravam no encontro corporal que envolvia o uso dos mecanismos mais primitivos de combate. Certa vez, o homem se viu dentro da boca do dragão, a espada perdida na euforia da batalha, usando nada além da força de seus braços e pernas para impedir que a boca se fechasse. Em certo momento, ela se fechou, e o homem quase engolido, na beira da garganta da criatura, ambos ficando imóveis assim durante um tempo, até que ele ergue-se e sai da boca, sem dificuldade. Homem e criatura se entreolham, vibrando, encharcados de suor, trêmulos do combate, e vão-se embora.

Aconteceram ainda muito mais combates, e estranhamente ambos saíam ilesos, a não ser por cortes e arranhões. A brutalidade física desses combates, a vividez desses encontros, chocavam-se contra o dia a dia melancólico dos súditos do Rei. Os ataques ao reino, no entanto, nunca perderam sua violência, e os destroços cada vez mais evidentes nublavam as lembranças do reino de outrora. Foi nessa época que um dos bioquímicos mais eminentes daquelas terras, Ziel, desenvolveu uma poção nova, que vinha trabalhando há anos. Uma fórmula que servia como uma espécie de anti-matéria para o dragão, capaz de reverter toda sua força e acabar com sua existência. O Rei agradeceu sua dedicação, mas não deu muita atenção, ao menos não conscientemente. Isso foi algumas semanas antes da noite atual.

Nesse meio tempo, mais um ataque de Angrboda ocorreu. Depois da luta, o Rei saiu para um passeio antes tão comum, mas que há muito não fazia. Vestiu um manto com capuz e saiu para as ruas do reino. As imagens humanas e estruturais que via durante o passeio foram dissolvendo a anestesia, e passaram a evidenciar ruínas metálicas para todos os lados, carros quebrados, muitas vezes em fogo vivo, crianças subnutridas, acompanhadas por adultos ainda mais magros, rostos sombrios pelo carvão e graxa, e também por olheiras como sombras astrológicas sob os rostos encaveirados. Um arrepio passou a lhe percorrer o corpo, sua pele se tornando magnetizada, seus pensamentos confusos e sentindo o peso de algo que ainda não conseguia encontrar palavras para descrever.

Uma garota lhe captou o olhar. Foi em direção a ela, sentada no meio de uma rua. Era uma moça linda por baixo da imundice, provavelmente na faixa dos vinte anos, olhos verdes pungentes e cabelo loiro, liso e tão fino que parecia insensível ao toque. O Rei sentou-se ao seu lado e perguntou-lhe o nome, recebendo apenas silêncio em resposta, o olhar ainda perdido no horizonte. Olhando além de seu rosto, o Rei percebe que a garota possuía uma enorme barriga, inchada, e uma trilha de sangue saindo do meio de suas pernas, sujando-lhe a encardida saia, as pernas, pés, e interrompendo-se numa massa escura logo à frente dele que, só então o Rei notou, se tratava de um corpo coberto por uma manta. Não se atreveu a levantar o tecido, mas não conseguia remover seus olhos dele, a não ser quando sentiu que era observado. Viu que a moça movera a cabeça, e olhava no fundo dos seus olhos. Um arrepio ainda mais enervante percorreu o corpo do Rei, quando ele percebia uma presença e ausência assombrosas por trás daqueles olhos.

É lembrando-se desses olhos que ele, tomando seu uísque e observando seu reino sob o céu vermelho, enfia a mão no bolso interno de seu roupão, segurando o frasco com a poção, firme, forte, como se para lembrar-se de sua existência, uma lembrança que surgia amarga. Entra em seus aposentos abundantes de resquícios de sua obsessão. Eu sua cama Real, servos e servas sexuais interrompem sua orgia, olhares lânguidos pousados no Rei, chamando-o para a cama, mãos e pernas continuando a explorar os corpos alheios. Aproveitando a passagem do Rei, que tinha que se esgueirar entre a cama e livros e mapas espalhados, um dos servos lhe segura o pênis, enquanto duas das servas começam a percorrer seu corpo com mãos e línguas. Logo, o Rei vai sendo engolido por uma montanha de corpos, consumindo-o a ponto de sumir. Ele... que não percebe o que está acontecendo... com modos suaves, afasta os homens e mulheres, caminha até uma escrivaninha com mais um computador e senta-se, retirando um pequeno frasco com cocaína de uma gaveta, e fazendo generosas carreiras em cima da mesa. Os servos e servas arrastam-se languidamente pelo chão, procurando de novo pelo corpo Real, como fios de metal atraídos por um imã. O Rei cheira todas as carreiras, mas sua expressão não muda, seu coração não bate mais forte e nem seu corpo vibra. As mãos sobem-lhe pelo corpo, formando uma colina pulsante sobre um alicerce inerte. O Rei não reage a isso.

“Um Ragnarök todo seu”.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 06 de outubro de 2015

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