segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sobre: 45 Anos


Sobre:

45 Anos (45 Years / 2015 / Reino Unido)

Direção: Andrew Haigh

Caminhando pelo salão que dará lugar à comemoração dos seus 45 anos de casada, Kate Mercer escuta a história de que o Baile de Trafalgar fora realizado naquele mesmo lugar. “Mas (Horatio) Nelson não foi morto?”, pergunta, referindo-se ao principal nome da Batalha de Trafalgar. “Sim, mas a batalha foi vencida”, responde seu interlocutor. Ao fim da projeção, fica difícil não imaginar certa rima embebida em ironia nesse breve diálogo. Uma rima sub-reptícia como tudo nesse 45 Anos, onde os terremotos se dão em um silêncio ensurdecedor.

Escrito e dirigido por Andrew Haigh a partir do conto Another Country de David Constantine, o longa conta-nos sobre a semana que culmina no aniversário de 45 anos de casamento de Kate e Goeff Mercer. No início da semana, Geoff recebe uma carta dizendo que o corpo de uma antiga namorada – Katya - fora redescoberto nas geleiras onde ela padeceu. Entrando numa onda de nostalgia, Geoff acaba por lançar Kate em reflexões acerca do seu passado com o marido. 
Casal sem filhos e sem muitas fotografias em casa para contar uma história que parecia já tão firmemente escrita, Kate e Geoff representam uma dupla acomodada a si mesmos, acostumados a seus horários e rotinas, à própria presença um do outro. Dessa forma, Haigh desenha uma direção que atenta a planos longos e estáticos que ilustram algo da estabilidade do casal, assim como tomadas externas aproveitando o ambiente gelado e repleto de árvores desfolhadas que assumem uma influência evocativa quanto à própria natureza do casal. É interessante que, além de closes sutis no casal enquanto conversam, Haigh usa uma tomada onde árvores são atingidas por vento e o cenário é englobado pela luz do sol, tão rara naquele universo, utilizado aqui para marcar um momento de mudança na direção das emoções daqueles personagens.
 E se utiliza uma metáfora visual para trabalhar essa mudança é porque praticamente toda a ação que acontece em 45 Anos se dá nas sombras, no que há entre aqueles personagens e que não é dito. É um filme sobre o ato de lembrar, e os destroços que essa atitude deixa pelo caminho. Não é à toa que Haigh não use trilha sonora original para o filme, mas deixe que o silêncio que nos acompanha durante a maior parte do tempo seja um elemento a mais na construção da angústia cada vez mais intensa quanto mais a presença fantasmagórica de Katya parece influenciar a dinâmica do casal. E se o termo “fantasmagórico” parece tão apropriado, é porque Haigh usa, de forma sutil, pequenas influências que remetem ao Cinema de horror, como o silvo do vento que corre pela casa, ou os latidos do cão em momentos quando Kate se aproxima do sótão (onde Geoff guarda lembranças de Katya), e ainda - naquela que talvez seja a mais evocativa cena do filme – quando Kate acorda com Geoff saindo da cama e, deduzindo que ele está no sótão, vai até lá, mas uma porta misteriosa abre logo atrás dela, sem sair nada nem com motivo aparente, mas como símbolo de que, vasculhando o passado e deixando que ele nos englobe, portais que não temos consciência de que existiam e que nos afetam se abram, como as geleiras que em certo momento Geoff comenta, caindo sobre nós como Tsunâmis. Katya, tendo sido redescoberta em uma geleira a derreter, é um símbolo mais que apropriado para desestruturação do casal.

E talvez o cerne do filme seja aquela velha história: lembrar é remodelar o presente. A digressão emocional de Geoff em torno de sua ex-namorada, os sentimentos de nostalgia e atos de rebeldia juvenis soam naturais diante da notícia que recebe e do momento que vive (o aniversário de 45 anos de seu casamento), mas o que Geoff parece ignorar – e que basicamente todos nós seres humanos ignoramos – é que não apenas somos modelados pelo ambiente que nos cerca (físico e social) mas somos também ambientes que modelam comportamentos de outros. Sendo assim, é certo que Kate não fica imune às atitudes de Geoff e, mesmo se mostrando paciente em seu sofrimento silencioso ao se perceber desvalorizada pelo parceiro, Kate é modificada em um nível visceral, que talvez nem ela compreenda. Remexendo o passado, abrindo portas proibidas, o presente é ressignificado, e muita coisa se perde no escuro dessa estrada sombria que se chama vida. Geoff e Kate se desencontram, se perdem, talvez para se achar de novo de alguma outra forma. Talvez...

E assim, quando dançam a melancólica e nostálgica Smoke Gets in Your Eyes envoltos em luz azul, o que se ressalta é um sentimento de tristeza e impotência presentes em Kate diante de algo que ela, remexendo o passado, transformou em presente. Seus braços junto ao corpo e o olhar assustado de quem viu um fantasma provam: mais do que o espírito ilusório de uma guria há muito morta, a verdadeira assombração está em lembrar e remodelar.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 29/02/2016

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