segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Crítica: O Menino e o Mundo


Crítica:

O Menino e o Mundo (O Menino e o Mundo / 2013 / Brasil)

Direção: Alê Abreu

Protagonizado por um garotinho tão fisicamente frágil que mal se sustenta em seu lugar quando é atingido por uma lufada de ar, O Menino e o Mundo é um espetáculo de cores, imagens e sons, uma viagem tão criativa e estimulante quanto delicada. Acima de tudo, usa a fantasia para dialogar com uma realidade cruel, fazendo com que as desgraças às quais já estamos anestesiados surjam com intensidade renovada aos nossos olhos.

Contando a história de um garoto (nunca sabemos seu nome) que, quando seu pai deixa a casa em busca de trabalho e melhores condições de vida, é de tal forma movido pela tristeza que parte em busca dele, encontrando um mundo diferente e marcado pela pobreza.

Partindo do olhar de uma criança, o diretor Alê Abreu conta com um ponto de vista privilegiado onde o mundo ainda não adquiriu a rigidez de um olhar maduro. A deliciosa sequência inicial, onde o Menino observa uma rocha e, a partir disso, entra numa viagem imaginativa repleta de cores, até mesmo atingindo um tom psicodélico (adequado, já que o garoto não saberia nomear nada do que está vendo), é pontual já para nos colocar sob o ponto de vista dele, que é de onde acompanharemos a história. Nesse sentido, ainda é interessante que nenhum personagem pareça possuir um repertório verbal minimamente compreensível, o que mais uma vez nos aproxima do olhar do Menino, para quem uma dolorosa conversa entre adultos ou um comercial televisivo jamais faria sentido algum.

Essa inocência do Menino é a força motriz da história, e que a torna tão cativante. Vivendo num mundo completamente branco, pontuado por plantinhas coloridas e elementos lúdicos, é como se o protagonista estivesse em alguma forma de Paraíso. Não só isso: é também como se fosse uma tradução visual da falta de forma de uma percepção onde o mundo ainda não foi delineado por emoções e histórias específicas. Nesse sentido, é tocante perceber que a primeira vez em que aquele universo ganha alguma cor é na dolorosa sequência onde o Menino persegue ilusões e memórias de seu pai, sob um céu alaranjado que trás muito do sentimento de nostalgia e melancolia de um pôr do sol. A primeira emoção que pinta sua vida e que vai ser o principal estímulo para que ele pegue uma mala enorme preenchida por um único objeto (uma foto da família unida), e viaje na noite, na assustadora sequência noturna em que o Menino é soprado pra longe, assombrado por imagens e memórias que traduzem as emoções que sente naquele momento.

Quando chega à cidade, esse mesmo mundo em branco aos poucos vai sendo preenchido por escombros, favelas e manchetes sem sentido algum, naquela linguagem não verbal de letras embaralhadas que só serve para poluir aquele ambiente, que aqui ganha mais tons alaranjados, mas dessa vez aquele laranja típico de uma atmosfera poluída. Personagens com olhos caídos e corpos frágeis passam a ser parte constante da jornada do Menino em busca de seu pai, passando por enchentes, falhas de comunicação e carros que lembram animais com dentes afiados, tudo isso acompanhado por um adorável cão, que também se mostra assustadoramente magro. É um mundo de pobreza e falta de identidade, culminando em uma cena dolorosa onde diversos “clones” saem de um trem.

Mas é por ser visto através dos olhos de uma criança que O Menino e o Mundo enxerga uma beleza invejável mesmo em meio ao caos. Há o assombro com que o garoto explora aquele ambiente novo, no modo como é capaz de se transportar para seu Paraíso particular simplesmente ao ouvir um som que lembra a flauta de seu pai, e também na alegria de pequenos momentos lúdicos, como aquele que se passa em uma fábrica de tecidos. Mais do que isso, há a Arte produzida por aquelas pessoas que, mesmo despedaçadas, colorem o mundo com música e alegria em momentos de descontração, dando à luz a uma espécie de águia multicor, num dos mais belos simbolismos da obra. Uma obra que, mesmo então, não deixa de nos lembrar que a opressão à liberdade de expressão ou simplesmente qualquer sinal de vida que não se adeque à marcha envenenada do cotidiano numa sociedade rigidamente capitalista, é ainda mais forte que os mais delicados sinais de beleza.

O Menino e o Mundo é, então, uma reflexão sobre a realidade brasileira, e também qualquer outra realidade de um país multifacetado marcado por extrema desigualdade social. Um filme maduro onde, mesmo depois de uma jornada através de imagens estonteantes e dinâmicas, embaladas na irrepreensível trilha sonora de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, enquadra seu protagonista na moldura de uma janela, representando uma existência enrijecida. O amor e a lembrança de amor, as cores, tudo o que aspira à vida, são gestos de desafio, mesmo que isolados.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 08/02/2016

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