Crítica:
Corra! (Get Out / 2017 / EUA)
Dir. Jordan Peele
Me vejo em dificuldades em discutir
o que quero nesse filme sem abordar aspectos delicados da trama. Por isso, já
digo de antemão que o texto contém spoilers e que muitos podem preferir lê-lo após
assistirem ao filme.
Corra!
é o filme certo na hora certa.
Em
ano que Moonlight, de Barry Jenkins,
é oscarizado e é possível enxergar uma superfície onde o Cinema hollywoodiano
abre as portas para questões raciais, a velha máxima de Vladimir Maiakovski me
vem à mente: “não há arte revolucionária sem forma revolucionária”. O diálogo
de Jenkins em questões raciais se dá abraçando formas estabelecidas de gênero
sem questionar como essa forma indaga o seu próprio conteúdo. Por isso mesmo é
tão curioso que em Corra! o cineasta
Jordan Peele consiga realizar um exercício de gênero tão marcante ao mesmo
tempo em que o próprio fato de posar com uma forma estabelecida sirva de
potencial revolucionário. A relação forma-conteúdo aqui se dá com maior força
do que no vencedor do Oscar 2017.
Corra! é
explicitamente um filme de suspense que bebe nas fontes de um Alfred Hitchcock
ou John Carpenter, abraçando esse teor sem a vergonha com que Hollywood parece
encarar o fato de “ser um filme de gênero”. Aqui, a sutileza divide seu lugar
com explícitos acordes agudos de violinos, a câmera de Peele desliza sobre o
espaço diegético sempre de maneira evocativa, explorando as possibilidades dramáticas
que se escondem em olhares e falas. Nisso, Peele, enquanto roteirista e diretor,
consegue a proeza de que seu suspense funcione em vários níveis, seja no
incômodo cotidiano do racismo disfarçado da família da namorada de Chris
(Daniel Kaluuya) ou nas camadas mais explícitas onde a paranoia se confunde com
a realidade.
O
termômetro político/social de Peele não poderia ser mais perfeito, e é esse o
grande ponto de seu filme. Corra! é
uma obra que se veste da normalidade estética justamente para questioná-la.
Peele se insere num meio que até hoje tem visto poucos cineastas negros, o do
Cinema de gênero, mas o implode, não aceitando o papel de puro entretenimento.
Na medida em que sua obra não apenas abraça e se afunda nos mais clássicos
caminhos do suspense, Peele olha para esse lugar e põe os dedos nas feridas que
se abrem a essa oportunidade, voltando um olhar crítico para o status cult neoliberal, o olhar do
branco que não admite uma culpa histórica e busca sobrepujar as contradições de
seu lugar. Nisso, Peele é mais radical do que Jenkins em Moonlight: entra no sistema e o torce a seu favor.
Pois
a própria temática de Corra! grita as
contradições que o racismo neoliberal busca esconder. O branco, perdoado por si
mesmo de sua historicidade, enxerga as potencialidades do corpo negro como um
campo fértil a ser explorado. Agora não se trata mais de um uso explícito de
sua força física, mas de uma apropriação em meios culturais e artísticos. As
falas da família de Rose (Allison Williams) abundam nessa exploração maçante do
corpo negro (“negros estão na moda agora”, “o que você tem a dizer sobre a
experiência do afro-americano no século XXI?”, etc), e o desvelar da trama não
esconde que a apropriação contemporânea do corpo negro, no campo que fede a
neo-liberalismo, se dá pelo espaço que esse corpo tem a explorar. O que Hudson
(Stephen Root) quer de Chris são seus olhos, sua ferramenta artística, com a
qual, como fotógrafo, expõe a melancolia e as contradições dentro da
experiência de ser negro; Hudson deseja tal sensibilidade, o poder experimentar
essa vivência e discutí-la em sua estética.
Nisso,
as camadas metafóricas de Corra! pulsam
com vitalidade crescente. A única arma que Chris tem disponível é uma câmera.
Num mundo imerso em imagens que pululam incessantemente, o seu uso pode ser a
denúncia final e força máxima de expressão. Além disso, outro recurso usado por
Chris é tampar seus ouvidos com algodão para se proteger da hipnose de Missy
(Catherine Keener), e não é à toa que o algodão era uma das maiores mercadorias
do Sul dos EUA: poderíamos ler que Chris se apropria de sua historicidade para
conseguir vencer os invasores brancos, esses sim inconscientes de sua história.
São tão inconscientes que, numa das piscadelas mais sagazes de Peele, os negros
cujos corpos são tomados são sempre usados em trabalhos subalternos, não raro
em indumentárias tipicamente sulistas. O corpo negro, de Chris, é
constantemente tocado, experimentado, para se ver como então se poderá usá-lo
tal como era feito com escravos.
Jordan
Peele, entrando num espaço historicamente branco, se inebria nele para questionar
as contradições mais básicas, mas ainda assim não tão superficiais, que abundam
nesse lugar. Questiona o verdadeiro lugar que o Cinema feito por pessoas negras
está tendo junto ao público e a festivais cheios da mesma “boa vontade cult neoliberal” como um Oscar. O
questionamento do “lugar de fala” não se dá em bases acríticas, como tão
comumente visto e versado em mídias sociais, mas é apropriado dentro de seu
próprio espaço artístico, o Cinema.
Retornando
a Maiakovski, o revolucionário se dá aqui imiscuindo-se no estabelecido,
entrando na zona de conforto e lhe arrancando as entranhas.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 25/05/2017

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