terça-feira, 18 de abril de 2017



Crítica:

O Ornitólogo (O Ornitólogo / 2016 / Portugal)

Dir. João Pedro Rodriguez

O Ornitólogo é uma experiência onírica por excelência. Qual um sonho, esse novo filme de João Pedro Rodriguez consegue uma aparência de caos, de aleatoriedade, de contradição, mas que abraça essa contradição como sua própria essência, sem desprezar a coerência do quê suas ideias exprime. O complicado é que tal coerência se afasta a passos de dançarina quando chegamos perto demais para tocá-la. Ainda assim, lá está, etérea e graciosa, brilhando bem à nossa frente.

Que não seja por isso que se tome O Ornitólogo como uma simplista e enfadonha excursão em uma filosofia freudiana. O longa nunca assume seus fins de forma clara, e o que temos é mais uma jornada misteriosa em confins que não tomam posição dentro de algum contexto de realidade, afetando-nos, como espectadores, com uma ação à distância, indireta como tudo que aqui ocorre. A busca ontológica de Fernando (Paul Hamy) por dentro das florestas entre fronteiras portuguesas e espanholas traduz muito mais de uma inquietação que pulsa em diversos níveis discursivos.

A condução de João Pedro Rodriguez parece ciente do aspecto sensorial de uma obra que se propõe tão esquiva como essa. Imergindo Fernando em diversos planos abertos atentos à imensidão da floresta, Rodriguez usa a trilha sonora (agressiva) de forma comedida, permitindo que os sons ambientes inundem os longos planos de pura observação da natureza que toma conta de cerca de 20 minutos iniciais. Há uma atenção especial em tornar a floresta um ambiente isolado de influências urbanas, partindo de sinais fracos (e posteriormente nulos) de telefones até um helicóptero que a sobrevoa; a última das influências urbanas não poderia ser mais explícita: apenas fumaça como vestígio da passagem de um avião pelo céu.

A transição de uma estética mais figurativa para uma que dialoga com o surreal é cautelosa e elegante, com fusões transmutando cenas, fade outs nos descolando das imagens e Fernando atravessando um rio sinuoso como se ultrapassasse uma espécie de portal, saindo do lado oposto sem roupas e quase sem vida, apenas para ir encontrando seus pertences modificados de formas significativas. A transição para um tom progressivamente mais mítico e surreal é tímida, a princípio, com menções a castrações e intimidades insuspeitas dentro de barracas. A floresta parece respirar algo sobrenatural.

Estranhamente, nunca nos deixa a impressão de que tudo aquilo parece girar em torno de Fernando. Mas, quem é Fernando? Tal pergunta não importa, pois ele já não parece ser quem diz ser há muito tempo. A atração sentida pelo isolamento nas matas, a necessidade tomar um remédio possivelmente controlador e a relação insossa e alienada com um homem sobre o qual só sabemos indiretamente através de uma ligação cujo contato se dá apenas na aversividade, e que termina com um “Beijo” falado hesitantemente pelo protagonista na despedida. Tal setting ontológico situa o personagem naquele universo, sendo movido pelo (e através) espaço diegético de forma a abranger uma exploração cósmica envolvendo discursos de identidade imiscuídos em território português.

Tais discursos são facilmente demarcados em três instâncias: pessoal, natural e cultural. O pessoal se dá nos simbolismos mais “palatáveis”, seja numa carteira de identidade com olhos riscados ou na eventual perda das digitais dos dedos. A integração dos outros dois discursos dentro da narrativa, através de simbolismos mais obscuros, conferem um ar de complexidade arrebatadora a O Ornitólogo, na proposição de como a natureza animal e a cultura se imiscuem no processo de metamorfose ontológica. Fernando é integrado à própria natureza quando observa pássaros e é igualmente observado por estes, sendo ele, também, um animal, de volta a suas origens em um Éden natural, perdido no tempo. É ainda curioso como Rodriguez inclui uma cena onde Fernando atravessa animais empalhados, fenômeno sintomático dentro dessa “volta ao natural” em um mundo marcado pelo diálogo de referentes, de imagens, e ainda dentro de um filme, Arte na qual a imagem é verbo por excelência. Já a cultura se dá em essência católica, religião marcante em território português e que merece uma digressão maior dentro da discussão sobre o filme.

Os símbolos católicos avultam em todas as frestas de O Ornitólogo. Desde sua situação geográfica, na travessia de Santiago de Compostela, rota de peregrinação católica. Há também ícones da religião espalhadas pela mata, cobertos de vegetação e perdidos no tempo, uma rota espiritual nas raízes de Portugal apenas encontrada por aqueles que vão fundo dentro da nação. Fernando, ateu por excelência, entra em uma espiral de caos onde suas definições são contrastadas sem que perceba, numa influência praticamente sobrenatural que culmina no desfecho surpreendente do filme. Não deixa de ser notável que, em uma obra na qual a sexualidade é tão pulsante, exista esse teor católico, justamente uma religião que respira repressão sexual. Suas roupas passam para as mãos de um homem, de nome Jesus e aparência equivalente, a quem aprenderá a amar da única forma sincera ao se falar de amor: pela carne, no sexo ou na morte.

João Pedro Rodriguez se insere assim em um hall de cineastas que, independente de suas crenças pessoais, trás em sua obra a pungência do catolicismo imolada na experiência ontológica dolorosa por feridas em forma de contradição, aspecto esse que se esbanja na própria vivência carnal. Seja em Rodriguez, Buñuel, Scorsese, Fellini ou Bergman, a religião católica é um fantasma que os persegue em suas inquietações artísticas, sendo fascinante como Rodriguez trás essa experiência mitológica e incerta com o divino para uma obra que versa sobre (conquistas de) territórios ontológicos e nacionais. Ao fim de O Ornitólogo, a presença inusitada do próprio João Pedro Rodriguez em um papel não poderia deixar de ser mais explícita na proposta de auto-exploração inquieta acerca do Sagrado e do Profano.

Mas a impressão de um texto como esse é que se tratam mais de peças soltas de um quebra cabeça do que uma análise per se. Não acho que outra forma de falar sobre o filme fizesse jus ao resultado. É o próprio fantasma de coerência dançarina e esquiva que citei no primeiro parágrafo. Ao fim da sessão, nos resta uma perturbação, como quando acordamos de um sono profundo e não sabemos bem quem somos ou onde estamos. O Ornitólogo nos leva a uma viagem e nos deixa nesse lugar incerto entre sono e vigília, luz e sombra.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 15/04/2017










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