Crítica:
O
Ornitólogo
(O Ornitólogo / 2016 / Portugal)
Dir. João Pedro Rodriguez
O Ornitólogo
é uma experiência onírica por excelência. Qual um sonho, esse novo filme de
João Pedro Rodriguez consegue uma aparência de caos, de aleatoriedade, de
contradição, mas que abraça essa contradição como sua própria essência, sem
desprezar a coerência do quê suas ideias exprime. O complicado é que tal
coerência se afasta a passos de dançarina quando chegamos perto demais para
tocá-la. Ainda assim, lá está, etérea e graciosa, brilhando bem à nossa frente.
Que
não seja por isso que se tome O
Ornitólogo como uma simplista e enfadonha excursão em uma filosofia freudiana. O longa nunca assume seus
fins de forma clara, e o que temos é mais uma jornada misteriosa em confins que
não tomam posição dentro de algum contexto de realidade, afetando-nos, como
espectadores, com uma ação à distância, indireta como tudo que aqui ocorre. A
busca ontológica de Fernando (Paul Hamy) por dentro das florestas entre
fronteiras portuguesas e espanholas traduz muito mais de uma inquietação que
pulsa em diversos níveis discursivos.
A
condução de João Pedro Rodriguez parece ciente do aspecto sensorial de uma obra
que se propõe tão esquiva como essa. Imergindo Fernando em diversos planos
abertos atentos à imensidão da floresta, Rodriguez usa a trilha sonora
(agressiva) de forma comedida, permitindo que os sons ambientes inundem os
longos planos de pura observação da natureza que toma conta de cerca de 20
minutos iniciais. Há uma atenção especial em tornar a floresta um ambiente
isolado de influências urbanas, partindo de sinais fracos (e posteriormente
nulos) de telefones até um helicóptero que a sobrevoa; a última das influências
urbanas não poderia ser mais explícita: apenas fumaça como vestígio da passagem
de um avião pelo céu.
A
transição de uma estética mais figurativa para uma que dialoga com o surreal é
cautelosa e elegante, com fusões transmutando cenas, fade outs nos descolando das imagens e Fernando atravessando um rio
sinuoso como se ultrapassasse uma espécie de portal, saindo do lado oposto sem
roupas e quase sem vida, apenas para ir encontrando seus pertences modificados
de formas significativas. A transição para um tom progressivamente mais mítico
e surreal é tímida, a princípio, com menções a castrações e intimidades
insuspeitas dentro de barracas. A floresta parece respirar algo sobrenatural.
Estranhamente,
nunca nos deixa a impressão de que tudo aquilo parece girar em torno de
Fernando. Mas, quem é Fernando? Tal pergunta não importa, pois ele já não
parece ser quem diz ser há muito tempo. A atração sentida pelo isolamento nas
matas, a necessidade tomar um remédio possivelmente controlador e a relação
insossa e alienada com um homem sobre o qual só sabemos indiretamente através
de uma ligação cujo contato se dá apenas na aversividade, e que termina com um
“Beijo” falado hesitantemente pelo protagonista na despedida. Tal setting ontológico situa o personagem
naquele universo, sendo movido pelo (e através) espaço diegético de forma a
abranger uma exploração cósmica envolvendo discursos de identidade imiscuídos
em território português.
Tais
discursos são facilmente demarcados em três instâncias: pessoal, natural e
cultural. O pessoal se dá nos simbolismos mais “palatáveis”, seja numa carteira
de identidade com olhos riscados ou na eventual perda das digitais dos dedos. A
integração dos outros dois discursos dentro da narrativa, através de
simbolismos mais obscuros, conferem um ar de complexidade arrebatadora a O Ornitólogo, na proposição de como a natureza
animal e a cultura se imiscuem no processo de metamorfose ontológica. Fernando
é integrado à própria natureza quando observa pássaros e é igualmente observado
por estes, sendo ele, também, um animal, de volta a suas origens em um Éden
natural, perdido no tempo. É ainda curioso como Rodriguez inclui uma cena onde
Fernando atravessa animais empalhados, fenômeno sintomático dentro dessa “volta
ao natural” em um mundo marcado pelo diálogo de referentes, de imagens, e ainda
dentro de um filme, Arte na qual a imagem é verbo por excelência. Já a cultura
se dá em essência católica, religião marcante em território português e que
merece uma digressão maior dentro da discussão sobre o filme.
Os
símbolos católicos avultam em todas as frestas de O Ornitólogo. Desde sua situação geográfica, na travessia de
Santiago de Compostela, rota de peregrinação católica. Há também ícones da
religião espalhadas pela mata, cobertos de vegetação e perdidos no tempo, uma
rota espiritual nas raízes de Portugal apenas encontrada por aqueles que vão
fundo dentro da nação. Fernando, ateu por excelência, entra em uma espiral de
caos onde suas definições são contrastadas sem que perceba, numa influência
praticamente sobrenatural que culmina no desfecho surpreendente do filme. Não deixa
de ser notável que, em uma obra na qual a sexualidade é tão pulsante, exista
esse teor católico, justamente uma religião que respira repressão sexual. Suas
roupas passam para as mãos de um homem, de nome Jesus e aparência equivalente,
a quem aprenderá a amar da única forma sincera ao se falar de amor: pela carne,
no sexo ou na morte.
João
Pedro Rodriguez se insere assim em um hall de cineastas que, independente de
suas crenças pessoais, trás em sua obra a pungência do catolicismo imolada na
experiência ontológica dolorosa por feridas em forma de contradição, aspecto
esse que se esbanja na própria vivência carnal. Seja em Rodriguez, Buñuel,
Scorsese, Fellini ou Bergman, a religião católica é um fantasma que os persegue
em suas inquietações artísticas, sendo fascinante como Rodriguez trás essa
experiência mitológica e incerta com o divino para uma obra que versa sobre
(conquistas de) territórios ontológicos e nacionais. Ao fim de O Ornitólogo, a presença inusitada do
próprio João Pedro Rodriguez em um papel não poderia deixar de ser mais explícita
na proposta de auto-exploração inquieta acerca do Sagrado e do Profano.
Mas
a impressão de um texto como esse é que se tratam mais de peças soltas de um
quebra cabeça do que uma análise per se.
Não acho que outra forma de falar sobre o filme fizesse jus ao resultado. É o
próprio fantasma de coerência dançarina e esquiva que citei no primeiro
parágrafo. Ao fim da sessão, nos resta uma perturbação, como quando acordamos
de um sono profundo e não sabemos bem quem somos ou onde estamos. O Ornitólogo nos leva a uma viagem e nos
deixa nesse lugar incerto entre sono e vigília, luz e sombra.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 15/04/2017

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