Mapa
do Tesouro
O
barbeiro seguia puxando conversa sobre assuntos banais enquanto tesourava minha
barba, mas eu mal conseguia prestar atenção no que dizia. Minha atenção era
para um senhor, aparentemente entre os 80 e 90 anos, sentado na cadeira ao
lado, enquanto o assistente do barbeiro, um sujeito naturalmente lento para
trabalhar, cortava com ainda mais calma, delicadeza até, seu cabelo.
A
pele queimada de sol e bastante enrugada, fina a ponto da quase transparência,
deixando entrever veias verde-azuladas... Mas foi seu rosto que mais captou meu
olhar. Fui atraído para seus olhos, sentindo todo o mundo calar à minha volta;
as risadas do barbeiro e seu assistente dando lugar a um zumbido quanto mais eu
aprofundava no mundo particular do senhor... olhos que pareciam longe, com um
não sei quê de tristeza. Observando-o, a impressão era de presença-ausência, desconexão
de tudo ao seu redor, um constante zumbido no que tangia a imersão no social,
apenas uma máquina que funcionava em modo automático, que já não conseguia
discriminar nada ao seu redor. Procurei por algum cuidador à vista, e até
deduzi que fosse parente do barbeiro ou seu assistente, já que não conseguia
imaginar que aquele senhor estivesse lá por conta própria.
Imaginei
que ele estivesse com as faculdades de comunicação comprometidas, e talvez por
isso tão alheio, sem nem abrir a boca. A tristeza que deduzi em seu olhar
provavelmente nada mais seria que um viés meu, já que de seus olhos
provavelmente não saia nada similar a emoções tão manjadas pelo verbo. Comecei
a me compadecer do isolamento que os idosos são submetidos quando seu corpo,
eles mesmos, perdem a capacidade de se comunicar.
Mas
então o barbeiro fala ao seu assistente: “a costeleta dele tá muito grossa,
corta mais”. O senhor afirma vigorosamente com a cabeça e diz em voz bem clara:
“é mesmo!”.
Fiquei
encantado. O que descortinava à minha frente não era uma vida castrada pela
biologia decadente, mas talvez uma vida cansada, assombrada por infinitos
fantasmas. O que olhava aquele senhor quando mirava tão longe? Nadando nesses
pensamentos, seu olhar distante ganhou outro contexto. Ele não estava incapaz
de se comunicar... Comecei a interpretar um homem exausto pelo peso dos anos,
pelas diversas colisões com outras vidas, seus olhos como que observando os
cacos/peças de todas essas interações espalhadas à sua frente, e que talvez ele
não tivesse uma cola em forma de sentido para unir aquilo tudo. Imaginei que
provavelmente ele nem estaria cônscio disso, mas como se fosse algo informe,
uma espécie de angústia indefinida, como as quimeras de Baudelaire que usam
pessoas como transporte sem elas notarem.
Saindo
do porto de seus olhos, alcancei as águas de seu rosto. Seu maravilhoso rosto.
Como uma obra de Arte entalhada em mármore, delineavam-se linhas de expressão,
tornando dura sua face, forte apesar da fragilidade do que, no restante, era um
corpo quase raquítico. Diversas comparações verbais me vieram naquele momento, metáforas
buscando capturar a sensação de deslumbramento. Parecia uma teia, sim, mas
depois descobri que aquele rosto era, na verdade, um mapa. Um mapa para as
emoções daquele senhor, daquele homem... daquele ser humano. Um caminho para
todos aqueles cacos aos quais me referi.
Independente
dessas emoções não serem tanto algo com que nascemos, mas que vamos aprendendo
a chamar de nosso ao longo da vida, aquelas linhas de expressão me levaram a
passear nesse pensamento de mapas de emoções expressas. Todos os momentos que
sorriu, que franziu a testa, que chorou... todas as emoções e interações que
teve com os outros ficaram cravadas em seu rosto na forma de uma frequência acumulada.
Um
bebê não possui linhas de expressão, ao menos não marcantes ou facilmente
visíveis. Essas linhas ficam perceptíveis apenas quanto mais as pessoas
envelhecem. É no convívio com outros, familiares e eventualmente um círculo
social mais extenso, que vamos aprendendo as formas de contrair e relaxar o
rosto para expressar alguma emoção que aprendemos a chamar seja de amor,
tristeza, medo, surpresa, ou qualquer outro estado emocional que discriminamos.
Seu rosto era como uma massa de modelar que assumiu a forma das emoções que
expressou enquanto vivia. Enquanto vive. Mais até do que um mapa para suas
emoções, seu rosto era um mapa para sua vida, uma paisagem.
Essas
contrações e relaxamentos musculares moldam o rosto como argila, dizendo sobre
seus donos de forma sutil, elegante, bela à sua maneira comedida e respeitosa.
Mas é também sinal de bagagem, algo de que as pessoas parecem escapar nos dias
de hoje. Não sei se como uma forma de máscara que grita “leveza!” para chamar
atenção de pessoas que carregam suas próprias cruzes, ou se por outro profundo
motivo social, ou mesmo algo relacionado meramente à estética, o caso é que as
linhas de expressão não são apreciadas como sinal de beleza, externa pelo
menos. Complicadas cirurgias e produtos inovadores prometem extinguí-las da
vista dos outros. O caso é que esconder essa história escrita à faca do tempo
na pele é como uma forma de esconder a si mesmo, vender-se como uma promessa,
uma propaganda de uma história menos densa e que promete menos cobrança, menos
peso. A demanda do belo hoje exige algo que se possa largar com mais
facilidade, que se adapte melhor às mudanças abruptas nas contingências de um
mundo frenético demais para seus habitantes, que digam rápido a que vieram, sem
segredos ou complicações. A baixo livros longos e repletos de reviravoltas; bem
vindos catálogos de lojas.
O
senhor já tinha ido embora há bastante tempo, chapéu de palha na cabeça e
guarda chuva na mão, quando o barbeiro levanta minha cadeira, barba feita e
cabelo cortado, me arrancando de meus devaneios. “Pronto, Lucas. Nó, sua barba
tá foda, vai deixar as mina tudo louca, irrul!”, diz ele, enquanto me observo
no espelho, sorrio e penso: “a barba tá foda mesmo.”.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
10/12/2015

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