Crítica:
Silêncio (Silence / 2016 / EUA)
Direção: Martin Scorsese
É
irresistível a tentação de comparar este Silêncio
com o recente e badalado Até o Último
Homem. Compartilhando o mesmo ator como protagonista, Andrew Garfield, e os
japoneses como “antagonistas” dos cristãos, ambos envolvem visões de mundo
filtradas pela vivência da espiritualidade cristã de, respectivamente, Martin
Scorsese e Mel Gibson. Mas a diferença fundamental que cria a cisão entre os
dois trabalhos é justamente a forma como cada diretor aproxima-se de sua
temática. A espiritualidade de Gibson é pautada em um fundamentalismo cego refletido
na construção de seu filme, onde, qual um titereiro, organiza situações e
personagens maniqueístas como se, de alguma É forma, construí-se um argumento
válido em favor do cristianismo. Scorsese já é mais crítico: se preocupa mais
com uma exploração íntima da vivência cristã do que construir uma espécie de
manifesto.
Seu
Silêncio, baseado no livro de Shusako
Endô, mais funciona como uma readaptação de Coração
das Trevas, de Joseph Conrad, de quem herda a estrutura narrativa: dois
padres embarcam para um Japão onde jesuítas são caçados, para encontrar o padre
Ferreira (Liam Neeson), seu mentor que, supostamente, renegou sua religião e
adotou o budismo. Ou seja, como pensariam os jesuítas protagonistas, a
renegação de Ferreira seria equivalente à loucura de Kurtz no livro de Conrad
ou na adaptação de Francis Ford Coppola (Apocalipse
Now).
Scorsese
é um veterano do Cinema que possui o mais absoluto controle sobre seu trabalho.
A imersão de Rodrigues (Garfield) e Garupe (Adam Driver) em solo japonês é
acompanhada por uma exploração do espaço diegético tão imersiva que nos coloca
ao lado de seus personagens, como criaturas minúsculas em um território imenso,
hostil e sombrio. A respiração pesada, ressaltada pelo design de som, realça o perigo de serem descobertos pelos homens do
inquisidor japonês, e os personagens conversam apenas em um tom de voz baixo,
segredando confissões e planos. Somos prontamente levados a nos identificar com
os padres, tendo os japoneses “pagãos” como criaturas das sombras que
significam ameaça constante para aquelas “pobres e honradas figuras que buscam
semear a palavra de deus”. Nas mãos de um cineasta mais descuidado, estaria
preparado o terreno para se fazer uma defesa acrítica do cristianismo ao
simplesmente vilanizar os japoneses. Mas Scorsese foi sábio demais para se
deixar levar por isso.
O modo como aproxima de sua temática divide
características curiosas com o seu O Lobo
de Wall Street. Tal como em seu filme anterior, há um olhar distanciado do
autor, onde a visão de Scorsese não se entrega facilmente, principalmente
quando a trama encontra caminhos tão complexos e contraditórios que torna
complicado distinguirmos exatamente qual seria o posicionamento do diretor e
co-roteirista nisso tudo. É preparado um palco onde os personagens, tais quais
seres humanos de carne e osso, seguem se debatendo em seu mundo ao sabor da
ordem natural dos conflitos. A visão do autor se dá de maneira mais contida,
qual deus olhando para suas criaturas sem tocar nelas. Ela se imiscui de uma
forma que ultrapassa o que se dá prontamente ao espectador, se escondendo por
trás de todos os conflitos e caos.
As
ações e reações nesse palco naturalmente colocam em xeque os lados do conflito,
já que discussões entre os japoneses e europeus são perpassadas por problemas e
contradições em diversas formas. Ultrapassa o ridículo a insistência e desrespeito
dos cristãos em impôr sua fé a torto e a direito, o que já gerou alguns dos
maiores genocídios da história da humanidade. A falta de auto-crítica deles não
é ignorada pelo filme, onde os padres são colocados contra obstáculos mais
intensos do que simplesmente educar “almas pagãs” e serem punidos por isso: sua
falta de interesse ao compreender a língua japonesa, por exemplo, volta-se
contra eles de tal forma que lhes passa despercebida dentro de sua arrogância.
Ao mesmo tempo, nada justifica as atitudes dos japoneses que, plenamente
cientes da natureza puramente retórica de seus conflitos com os cristãos, e do
pertencimento ao reino humano de tudo aquilo que é humano, mantém-se firmes em
um jogo de poder e humilhação que deixa uma série de cadáveres pelo caminho (e
ainda é fascinante que o cineasta mostre momentos onde os japoneses demonstram
culpa ou frustração diante de suas próprias atitudes).
Scorsese
aponta sua câmera para esses eventos com distanciamento o suficiente para permitir
que as complexidades e contradições de cada cultura se desvele. Nesse aspecto,
cada membro do elenco é eficaz em aludir à confiança em sua própria cultura e
comunidade. Há, no entanto, destaques valiosos: o tom jocoso da performance de
Issei Ogata como o inquisidor Inoue, ou Tananobu Asanu como o intérprete,
refletem a segurança em suas lutas simbólicas, ao passo em que a entrega
visceral de Andrew Garfield ao papel de Rodrigues é essencial para que possamos
compreender os tormentos pelos quais o personagem passa e está disposto a
passar.
Rodrigues
é, aliás, um personagem scorsesiano por
excelência: a violência com que se entrega às suas crenças acaba por revelar
fissuras grotescas em si mesmo, no caso, um homem que, nas profundezas de sua
fé, parece enxergar comparações orgulhosas entre ele mesmo e Jesus Cristo, como
se houvesse correspondentes entre sua trajetória de pregação e a de seu messias,
sendo fascinante como, ao encarar de frente esse orgulho, sinta-se culpado e
pecador. Os personagens de Scorsese não costumam gostar do que veem quando
miram o espelho. O visual de Rodrigues, que reflete a constrangedora visão
ocidental do Jesus branco de cabelos lisos, dá conta da comparação e do viés do
personagem, ao mesmo tempo em que o roteiro insiste em traçar paralelos entre
sua trajetória e a do próprio Cristo, numa sutil ironia dentro dos ditames do
destino de cada um e como suas respectivas palavras são semeadas no território
da Judéia e agora no Japão.
Esses
paralelos ressaltam o fato de que Silêncio
é um filme de imagens. Sobre o poder destas dentro da construção de uma
cultura e da individualidade. É também um filme sobre cegueira, sobre o que o
filósofo Tzvetan Todorov tanto falou dentro da questão da alteridade, a
dificuldade de se compreender outra cultura sem pretender assimilá-la ou – pior
– submetê-la à sua própria. A ironia se dá novamente no inverossímil paralelo
entre a imagem e a cegueira, em como elas se dão as mãos dentro da obra. O
silêncio, aqui rico em significados, talvez seja o portador de um lamento mais
profundo do que o silêncio de deus: é o lamento pela disputa que atravessa os
séculos, onde seres humanos de culturas e vivências diferentes insistem em
ignorar as dimensões abissais dos símbolos, do pensamento construído dentro de
linguagens completamente diferentes. O que sobra, se não o ódio e tempestades
do ser, é a chacota. Por isso, Kichijiro (Yôsuke Kubosuka) é a figura mais
complexa e humana do filme: perdido no meio do caos retórico, mas sem
consciência deste, é movido por forças antagônicas que o punem de todos os
lados.
Mas
é chafurdando dentro das contradições do cristianismo, de toda a construção
humana caótica que foi erigida em cima da figura de Jesus Cristo, que Scorsese
busca encontrar sua essência, uma espécie de pureza que olhos menos delicados podem
ignorar, e de onde vem a fé que sustenta esse filme. O cineasta, que já entrou
para um seminário para eventualmente largá-lo e dedicar-se ao Cinema, contempla
um Cristo que ultrapassa as dimensões culturais, as regras arbitrárias e
punitivas do catolicismo, e encontra um Amor genuíno e personificado em sua
figura. A vivência de Silêncio é
profundamente espiritual nesse sentido. As relações dos personagens com seu
deus caminham da imposição cultural para uma vivência íntima que só diz respeito
à criatura e criador, a diretor e sua espiritualidade.
Silêncio
é, assim, uma reflexão bem construída, imersiva nas profundezas dessa fé. Um
tratado da relação de Martin Scorsese com sua própria espiritualidade, ainda
mais quando levamos em conta a importância dessa obra para o diretor, que está
na luta para realizá-la há quase quarenta anos. Mel Gibson, por mais talentoso
que seja (e de fato é), poderia aprender com a humildade de seu colega, que
revela muito mais dos ensinamentos originais de Cristo do que a carnificina e
xenofobia que um Até o Último Homem ou
A Paixão de Cristo demonstram.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 10/03/2017

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