Crítica:
Logan (idem / 2017 / EUA)
Direção: James Mangold
Sentimentos
de ódio sempre permearam o universo dos X-Men. E não é para menos: muitos de
seus personagens foram brutalmente invadidos e explorados pela humanidade, que
sempre se julgou algo superior simplesmente por se adaptar ao ambiente de uma
forma X e não Y. Paralelos temáticos brotam com facilidade: a conquista das
Américas, a colonização africana, o Apartheid, a homofobia... mas parte do
charme dos filmes da série sempre foi tentar propôr a esperança, a reflexão de
que, no fundo, era possível uma convivência pacífica e respeitosa entre
mutantes e humanos.
O
fato de Logan nos propôr um 2029 onde
humanos arrasaram os mutantes é assim, no mínimo, sintomático. Afinal, a
atmosfera que cercou o recente X-Men
Apocalipse foi de otimismo (inocência?) suficiente nas novas discussões
acerca de direitos iguais e empoderamento das “minorias” para o que o longa
deixasse de lado os questionamentos sociais que faziam parte daquele universo e
se focasse somente na ação. Esse último filme do Wolverine nasce ciente de
outra atmosfera política: a extrema direita avança com força, grupos religiosos
fundamentalistas crescem, e Donald Trump é presidente dos EUA. Imaginar um
futuro minimamente otimista dentro desse quadro seria, infelizmente, um tanto
pueril.
Assim,
Logan é um filme amargo. Não há
catarse, não há grandes conclusões sobre a natureza da sociedade. O que temos
são sentimentos decantados, que brilham por instantes fugazes, mas apenas com
uma luz fraca. No fim é isso: a causa foi perdida. Charles Xavier, com seu
sonho a lá Martin Luther King Jr., estava errado; seu parceiro de xadrez, Erik
Lehnsherr, o Magneto, acertou muito mais com seu pessimismo espelhado em
Malcolm X.
Sabendo-se
um filme inserido no contexto de uma saga acompanhada por milhares de pessoas, Logan é uma experiência cinematográfica
que se ancora na nossa relação arraigada com os personagens. Mas, diferente dos
filmes da Marvel Studios ou da DC, não se trata da necessidade de sabermos tudo
o que rolou nos filmes anteriores, numa sequência de causa-efeito, para
compreendermos o que acontece aqui. Se trata mais de um conhecimento tácito que
temos de Logan (Hugh Jackman) e Xavier (Patrick Stewart), e como provavelmente
sentem-se numa atmosfera tal como nos é apresentada. Dessa forma, o diretor e
co-roteirista James Mangold se permite uma atitude um tanto ousada para um
filme “blockbuster”: aposta em diálogos que apenas margeiam o que os
personagens estão sentindo ou realmente querem dizer um ao outro. Confia mais
no espectador para decifrar, mesmo que não detalhadamente, o que está sendo
dito.
Aliás,
Logan aposta mais no silêncio e na
sugestão para conduzir sua narrativa. Mesmo a trilha sonora de Marco Beltrami
aparece pontual, sem chamar atenção demais e deixando que as relações entre os
personagens, e entre nós e eles, fale mais alto. Muitas informações importantes
para nos contextualizar são dadas de forma indireta, e mesmo incompletas,
permitindo que preenchamos sozinhos o espaço. Algumas são simplesmente
ignoradas. O que aconteceu no primeiro surto de Xavier, ou mesmo a doença
deste, por exemplo, não são tão importantes quanto as consequências desses
eventos para aquele universo e seus personagens. Há um respeito bonito nessa
abordagem: nunca invadimos o espaço que pertence àquelas pessoas, mas somos
forçados a entrar com cuidado.
Dizendo-se
pouco (ao menos verbalmente), os efeitos dramáticos aumentam na tela. Quando
diante do túmulo de um amigo, Logan, repetindo mecanicamente que “aqui parece
um bom lugar, tem água”, como se essa afirmação significasse alguma coisa,
começa a chorar como uma criança, e parte para a destruição irracional de seu
carro. Um discurso sobre a importância de seu amigo talvez não tivesse tanta
força: afinal, conhecemos a relação dos dois o suficiente para entender parte
da dor de Logan. De forma semelhante, nunca é explícita a forma como a garota
Laura (Dafne Keen) trás luz à vida de Xavier, mas, conhecendo bem esse último,
compreendemos e somos tocados com a forma desastrada como ele encontra a
possibilidade de repetir um antigo Xavier em um contexto onde isso seria
basicamente impossível.
Os
personagens de Logan são assim
extremamente complexos. Nunca estão numa luz total e fogem de qualquer catarse
típica que o cinema norte-americano insiste em impor em seus filmes. Se
comportam como criaturas quebradas, brinquedos que não mais funcionam porque já
estão defeituosos e sem cuidados há tempos. O sofrimento de Logan é contínuo, e
mesmo sua relação com Laura não soa totalmente redentora: é apenas um fardo
compartilhado em silêncio com alguém jovem demais para separar o puro ódio
provindo da exploração alheia de qualquer coisa que seja. Mas não imagino que
teria forma mais amável de dizer sobre essa relação do que percebermos a
persistência de Logan em se manter numa missão que considera infrutífera, mesmo
que afirme constantemente a estupidez da mesma.
Assim
é que a inserção dos quadrinhos dos X-Men
dentro de seu próprio universo ganha tons de ironia. As glórias lá retratadas
apenas servem como um espelho quebrado onde Logan se enxerga, mas não suporta
mais se ver. É até por isso que funciona tão bem o diálogo do filme com o
clássico western Os Brutos Também Amam.
Lá também o protagonista, Shane, nunca tinha seu passado explícito, mas sua dor
atual era o suficiente para mover o filme, assim como sua ânsia por se ancorar
em alguma relação. A tragédia de Logan é justamente saber de antemão o que
Shane só descobriu (ou confirmou) no fim do longa de George Stevens: qualquer
relação sua termina em tragédia, e sua resistência física sobre-humana só serve
para obrigá-lo a presenciar o fim de todos e ainda ter que se enxergar depois
disso. Sua destruição corporal, uma metamorfose grotesca quase cronenberguiana é, assim, o berro de
ajuda mais desesperado que Wolverine deu em toda sua trajetória no Cinema. O
mais trágico é que conhecemos Logan o suficiente para compreender que ele não aceitaria
tal ajuda por mais que clame por ela. Talvez sua aceitação gradual da presença
de Laura seja uma compreensão “inconsciente” de sua necessidade de contato.
É,
assim, um filme niilista o suficiente para nos negar mesmo o mais leve conforto
no final, e manter-nos no escuro quanto a questões essenciais sobre a trama.
Parte do que ancora uma narrativa sempre às margens como essa é justamente a
abordagem dialógica de Mangold com outros gêneros. O western, que já
acostumamos como sendo o tipo de filme perfeito para se tratar de redenção em
um ambiente onde essa é totalmente desadaptativa, é evocado pela árida
fotografia ou mesmo por planos específicos que emulam duelos. O road movie é aqui trazido com excelência
por já estarmos acostumados com a estrada como lugar perfeito onde se daria o
auto-conhecimento e aproximações interpessoais. Mas tudo isso, desde a redenção
até o auto-conhecimento, nos é negado ou é entregue de forma incompleta,
insatisfatória, no fim das contas, e a âncora se revela uma ilusão. O tapete
nos é puxado, desamparando-nos em nosso comportamento habitual de espectador
calejado de histórias.
Assim,
Logan é uma obra que insiste em nos
entregar resíduos tóxicos a todo momento. Mas creio que nada seria mais justo.
O que mais incomoda, dói, machuca, é sabermos que é isso o que os jovens X-Men
que acompanhamos em Primeira Classe
por fim encontrarão. Mas, mediante o atual estado do mundo, teria como imaginar
algo diferente?
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 04/03/2017

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