terça-feira, 7 de março de 2017

Crítica: Logan


Crítica:

Logan (idem / 2017 / EUA)

Direção: James Mangold

Sentimentos de ódio sempre permearam o universo dos X-Men. E não é para menos: muitos de seus personagens foram brutalmente invadidos e explorados pela humanidade, que sempre se julgou algo superior simplesmente por se adaptar ao ambiente de uma forma X e não Y. Paralelos temáticos brotam com facilidade: a conquista das Américas, a colonização africana, o Apartheid, a homofobia... mas parte do charme dos filmes da série sempre foi tentar propôr a esperança, a reflexão de que, no fundo, era possível uma convivência pacífica e respeitosa entre mutantes e humanos.

O fato de Logan nos propôr um 2029 onde humanos arrasaram os mutantes é assim, no mínimo, sintomático. Afinal, a atmosfera que cercou o recente X-Men Apocalipse foi de otimismo (inocência?) suficiente nas novas discussões acerca de direitos iguais e empoderamento das “minorias” para o que o longa deixasse de lado os questionamentos sociais que faziam parte daquele universo e se focasse somente na ação. Esse último filme do Wolverine nasce ciente de outra atmosfera política: a extrema direita avança com força, grupos religiosos fundamentalistas crescem, e Donald Trump é presidente dos EUA. Imaginar um futuro minimamente otimista dentro desse quadro seria, infelizmente, um tanto pueril.

Assim, Logan é um filme amargo. Não há catarse, não há grandes conclusões sobre a natureza da sociedade. O que temos são sentimentos decantados, que brilham por instantes fugazes, mas apenas com uma luz fraca. No fim é isso: a causa foi perdida. Charles Xavier, com seu sonho a lá Martin Luther King Jr., estava errado; seu parceiro de xadrez, Erik Lehnsherr, o Magneto, acertou muito mais com seu pessimismo espelhado em Malcolm X.

Sabendo-se um filme inserido no contexto de uma saga acompanhada por milhares de pessoas, Logan é uma experiência cinematográfica que se ancora na nossa relação arraigada com os personagens. Mas, diferente dos filmes da Marvel Studios ou da DC, não se trata da necessidade de sabermos tudo o que rolou nos filmes anteriores, numa sequência de causa-efeito, para compreendermos o que acontece aqui. Se trata mais de um conhecimento tácito que temos de Logan (Hugh Jackman) e Xavier (Patrick Stewart), e como provavelmente sentem-se numa atmosfera tal como nos é apresentada. Dessa forma, o diretor e co-roteirista James Mangold se permite uma atitude um tanto ousada para um filme “blockbuster”: aposta em diálogos que apenas margeiam o que os personagens estão sentindo ou realmente querem dizer um ao outro. Confia mais no espectador para decifrar, mesmo que não detalhadamente, o que está sendo dito.

Aliás, Logan aposta mais no silêncio e na sugestão para conduzir sua narrativa. Mesmo a trilha sonora de Marco Beltrami aparece pontual, sem chamar atenção demais e deixando que as relações entre os personagens, e entre nós e eles, fale mais alto. Muitas informações importantes para nos contextualizar são dadas de forma indireta, e mesmo incompletas, permitindo que preenchamos sozinhos o espaço. Algumas são simplesmente ignoradas. O que aconteceu no primeiro surto de Xavier, ou mesmo a doença deste, por exemplo, não são tão importantes quanto as consequências desses eventos para aquele universo e seus personagens. Há um respeito bonito nessa abordagem: nunca invadimos o espaço que pertence àquelas pessoas, mas somos forçados a entrar com cuidado.

Dizendo-se pouco (ao menos verbalmente), os efeitos dramáticos aumentam na tela. Quando diante do túmulo de um amigo, Logan, repetindo mecanicamente que “aqui parece um bom lugar, tem água”, como se essa afirmação significasse alguma coisa, começa a chorar como uma criança, e parte para a destruição irracional de seu carro. Um discurso sobre a importância de seu amigo talvez não tivesse tanta força: afinal, conhecemos a relação dos dois o suficiente para entender parte da dor de Logan. De forma semelhante, nunca é explícita a forma como a garota Laura (Dafne Keen) trás luz à vida de Xavier, mas, conhecendo bem esse último, compreendemos e somos tocados com a forma desastrada como ele encontra a possibilidade de repetir um antigo Xavier em um contexto onde isso seria basicamente impossível.

Os personagens de Logan são assim extremamente complexos. Nunca estão numa luz total e fogem de qualquer catarse típica que o cinema norte-americano insiste em impor em seus filmes. Se comportam como criaturas quebradas, brinquedos que não mais funcionam porque já estão defeituosos e sem cuidados há tempos. O sofrimento de Logan é contínuo, e mesmo sua relação com Laura não soa totalmente redentora: é apenas um fardo compartilhado em silêncio com alguém jovem demais para separar o puro ódio provindo da exploração alheia de qualquer coisa que seja. Mas não imagino que teria forma mais amável de dizer sobre essa relação do que percebermos a persistência de Logan em se manter numa missão que considera infrutífera, mesmo que afirme constantemente a estupidez da mesma.

Assim é que a inserção dos quadrinhos dos X-Men dentro de seu próprio universo ganha tons de ironia. As glórias lá retratadas apenas servem como um espelho quebrado onde Logan se enxerga, mas não suporta mais se ver. É até por isso que funciona tão bem o diálogo do filme com o clássico western Os Brutos Também Amam. Lá também o protagonista, Shane, nunca tinha seu passado explícito, mas sua dor atual era o suficiente para mover o filme, assim como sua ânsia por se ancorar em alguma relação. A tragédia de Logan é justamente saber de antemão o que Shane só descobriu (ou confirmou) no fim do longa de George Stevens: qualquer relação sua termina em tragédia, e sua resistência física sobre-humana só serve para obrigá-lo a presenciar o fim de todos e ainda ter que se enxergar depois disso. Sua destruição corporal, uma metamorfose grotesca quase cronenberguiana é, assim, o berro de ajuda mais desesperado que Wolverine deu em toda sua trajetória no Cinema. O mais trágico é que conhecemos Logan o suficiente para compreender que ele não aceitaria tal ajuda por mais que clame por ela. Talvez sua aceitação gradual da presença de Laura seja uma compreensão “inconsciente” de sua necessidade de contato.

É, assim, um filme niilista o suficiente para nos negar mesmo o mais leve conforto no final, e manter-nos no escuro quanto a questões essenciais sobre a trama. Parte do que ancora uma narrativa sempre às margens como essa é justamente a abordagem dialógica de Mangold com outros gêneros. O western, que já acostumamos como sendo o tipo de filme perfeito para se tratar de redenção em um ambiente onde essa é totalmente desadaptativa, é evocado pela árida fotografia ou mesmo por planos específicos que emulam duelos. O road movie é aqui trazido com excelência por já estarmos acostumados com a estrada como lugar perfeito onde se daria o auto-conhecimento e aproximações interpessoais. Mas tudo isso, desde a redenção até o auto-conhecimento, nos é negado ou é entregue de forma incompleta, insatisfatória, no fim das contas, e a âncora se revela uma ilusão. O tapete nos é puxado, desamparando-nos em nosso comportamento habitual de espectador calejado de histórias.

Assim, Logan é uma obra que insiste em nos entregar resíduos tóxicos a todo momento. Mas creio que nada seria mais justo. O que mais incomoda, dói, machuca, é sabermos que é isso o que os jovens X-Men que acompanhamos em Primeira Classe por fim encontrarão. Mas, mediante o atual estado do mundo, teria como imaginar algo diferente?

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 04/03/2017


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