quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Crítica: Animais Noturnos



Crítica:

Animais Noturnos (Nocturnal Animals / 2016 / EUA)

Direção: Tom Ford

A musicista Amanda Palmer certa vez disse que os ingredientes da criação artística são experiências de vida, jogadas dentro de um liquidificador. Quanto mais rápida a velocidade desse liquidificador, mais difícil se torna distinguir os ingredientes em sua forma original dentro do “gaspacho” final. Pensando nisso, dragões e mulheres-peixe-mutantes podem ser símbolos lapidados de pessoas na vida real ou uma aventura de horror caótica pode ser filha de uma bucólica viagem ao interior. O mesmo argumento vale para aquele que aprecia o produto artístico: sua própria história de vida se mistura nesse liquidificador existencial quando busca compreender o trabalho de outra pessoa.

Animais Noturnos é metalinguístico na medida em que é Arte falando do processo artístico (do fazer e do apreciar), mergulhando nos espaços interpessoais dos quais brotam as luzes que compõem as fendas da construção final. À medida em que Susan (Amy Adams) adentra no romance escrito pelo ex-marido Edward (Jake Gylenhaal), encontra pedaços deste último em meio ao “gaspacho”, e esse encontro a lança em um diálogo com ele e, simultaneamente, com ela mesma.

Compreendendo que o espaço onde ocorre a ação é mais emocional do que físico, Tom Ford desenvolve uma narrativa pesadamente calcada na montagem, como recurso que permite viajar entre as histórias e os personagens de forma orgânica. As ligações subjetivas são traçadas através de um cuidadoso uso do raccord (sejam sonoros, de movimento ou de olhar) e fusões, compondo paralelos constantes entre o romance de Edward, a vida atual de Susan, e as lembranças desta. É como se incorporássemos Susan e lêssemos o livro através de seus olhos, relembrando as memórias despertadas pela leitura ou sentindo sensações semelhantes às do protagonista do romance, Tony Hastings (também Gylenhaal), simulando o processo de identificação entre leitor e personagem.

Animais Noturnos, aliás, consegue ser um exemplo de filme que sabe ficar na linha de sombra entre o que seria realidade e o que é ficção, fazendo uma caminhada incerta entre os dois, que, paradoxalmente, admite a única verdade que talvez os ligue: nada ali é concreto, tudo é ambíguo. Não podemos fazer afirmações confiáveis sobre possíveis interpretações justamente por estarmos enviesados pelo olhar de Susan, sendo, nesse aspecto, admirável que ela enxergue Tony Hastings com o mesmo corpo de Edward: desde ai, a ligação entre os dois através da figura de Gylenhaal se torna um viés. É também difícil não ver tanto “Edward” no romance, ainda mais diante das informações que temos sobre ele e por só o conhecermos através de memórias ou de seu trabalho, o que, no entanto, de novo nos lança na questão dos possíveis vieses de Susan.

O que presenciamos é o produto de uma espécie de elaboração emocional que levou anos para ser feita, que ainda não está pronta, e jamais estará. Tudo o que vemos fica no ambíguo território de ser um exorcismo dos próprios demônios, uma (ou duas) auto-análises, uma tentativa de vingança e, também, a nostalgia como boia. Em certo momento, Edward diz algo sobre a escrita ser uma forma de manter vivas coisas que eventualmente morrerão. É meio como guardar realidades em potes e coloca-las em uma prateleira. Mas o ato de ler (como o de escrever) sangra, pois é o mesmo que resgatar essas realidades por alguns momentos, ou mesmo realidades que não estavam a priori no trabalho do autor e que, como leitores, as inserimos.

Essa ambiguidade entre todas as possíveis verdades sobre o que Animais Noturnos está realmente mostrando é conservada cuidadosamente por Ford a partir da construção de símbolos sutis. Às vezes, o fato de dois personagens terem traços femininos e olhos claros é mais do que o suficiente para nos cutucar. Outras, uma palavra-chave que ecoa esporadicamente ao longo de toda a narrativa é, ao fim, martelada com tanta brutalidade que fica difícil não a vermos como uma tela onde diversos referentes são vomitados. Ao mesmo tempo, o fato de ser um filme com tamanha economia na forma como passa suas informações torna questionável o quanto realmente vemos do que está sendo dito e o quanto deduzimos a partir de nosso particular viés pessoal. A metalinguística do roteiro, assim, se torna ainda mais elegante e extrapola os temas do filme para nossa própria realidade através de sua estrutura. Forma e conteúdo se casam.

Mas, se existe uma linha contínua em Animais Noturnos, ela é vermelha. Cor associada à violência e à sensualidade, nada mais ideal para ser o cerne estético de um filme que diz tanto sobre o amor, ou o que é sentido quando se fala de amor. O vermelho brota em momentos específicos no longa, ademais marcado por melancólicos cinza e azul, ou algum amarelo aversivo ao olhar. Começando nas peças artísticas de Susan (e seria fascinante pensar seu interesse pelos corpos divergentes da estética socialmente aceita no Belo associado à própria auto-imagem da protagonista), a cor passa a integrar o imaginário do romance e traços que ligam elementos da vida real e da ficção, sendo particularmente notável como dois enquadramentos trazem o vermelho junto a específicos corpos nus, tanto no livro como na “vida real”. A presença da cor não admite muitos desvios conotativos, até mesmo pelo fato de Ford literalmente mergulhar Susan e Edward numa poderosa iluminação vermelha logo depois de uma briga intensa. Seria uma exceção dentro da abordagem estética do cineasta, mas uma exceção que acaba sendo utilizada com certa coerência.

Talvez a cola que torne o todo de Animais Noturnos tão coerente seja o desenvolvimento repleto de nuances de seus personagens, com um elenco atento às possibilidades de dar peso às figuras que constroem a partir de contrastes: Amy Adams mostrando uma Susan-jovem-apaixonada/Susan-envelhecida-cínica; Gylenhaal consegue comover como um jovem romântico e um pai enfrentando o inferno; Aaron Taylor-Johnson, numa performance poderosa qual uma força da natureza, cria uma figura com diversas tonalidades sombrias; e Michael Shannon coroa o filme com mais uma criação inesquecível, complexa ao nos surpreender com facetas inesperadas em seu personagem e sua composição.

São personagens multifacetados que, produtos da ficção ou não, sempre percorrem territórios incertos em si mesmos, com a exceção ficando com Taylor-Johnson, talvez. A compreensão dessas camadas dos personagens é lindamente demonstrada no momento em que Susan se prepara para um encontro: a dúvida sobre como se apresentar é um talvez o mais lindo instante de encontro consigo e com o outro que um diretor sensível e delicado como Tom Ford (lembremos que ele dirigiu o belo Direito de Amar) entrega.

Pensar Animais Noturnos é complicado na medida em que exige que sintamos a confusão do processo artístico, do apreciador e daquele que produz. É admitir que não há terreno sólido onde pisar, que o Caos é princípio básico, junto à incerteza e os vieses. De toda forma, ainda precisaríamos de dois vieses essenciais: Tom Ford e Austin Wright (o autor do livro que deu origem ao filme). Me indago sobre que pedaços deles encontraríamos nesse gaspacho.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 16/02/2016



Um comentário:

  1. Adorei como fizeram a historia por que não tem nenhuma cena entediante. O personagem de Michael Shannon é o melhor, ele fez um ótimo trabalho. Eu vi que seu próximo projeto, Fahrenheit 451 será lançado em breve. Acho que será ótimo! Adoro ler livros, cada um é diferente na narrativa e nos personagens, é bom que cada vez mais diretores e atores se aventurem a realizar filmes baseados em livros. Acho que Fahrenheit 451 sera excelente! Se tornou em uma das minhas histórias preferidas desde que li o livro, quando soube que seria adaptado a um filme, fiquei na dúvida se eu a desfrutaria tanto como na versão impressa. Acabo de ver o trailer da adaptação do livro, na verdade parece muito boa, li o livro faz um tempo, mas acho que terei que ler novamente, para não perder nenhum detalhe. Sera um dos melhores filmes lançamentos acho que é uma boa idéia fazer este tipo de adaptações cinematográficas.

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