Crítica:
Café
Society
(Idem / 2016 / EUA)
Dir. Woody Allen
É
fácil cansar de Woody Allen. O mesmo jazz
bebop na trilha sonora, os atores dizendo suas falas na
mesma entonação característica, os enquadramentos que buscam apenas acompanhar
o movimento dos personagens, as piadas intelectualizadas... mesmo os temas se
repetem, e não é raro que o realizador os trate com alguma preguiça em inovar. Por
isso mesmo também é fácil esquecer que o mesmo Woody Allen é capaz de se
aprofundar em histórias que a princípio pareçam enfadonhas, mas que tenham
muito a dizer sobre os movimentos humanos, sua aleatoriedade e contradição.
Café Society
é uma dessas obras que vem para nos lembrar disso, ao contar a história de Bob
(Jesse Eisenberg) e o complicado triângulo amoroso que se forma entre ele, seu
tio Phil Stern (Steve Carell) e a apaixonante Vonnie (Kristen Stewart). O mais
gostoso é que se trata de um filme que conquista aos poucos: flerta com o clichê,
com o romântico banal e já tão explorado por Allen, gradualmente destorcendo nossos
narizes céticos quanto às doçuras da paixão.
É
no desfile de personagens complexos que o realizador consegue ser tão
interessante. A contradição é o que move essas figuras, que hora são
apresentadas de uma forma apenas para que ajam diferentemente em outro
contexto. Isso confere uma humanidade invejável a cada um deles, e vamos
sacando quem eles são de uma forma mais profunda, porque parecem menos personagens
e mais pessoas comuns se relacionando. O elenco invejável contribui lindamente
para o processo, e de uma Blake Lively a um Steve Carell, Jesse Eisenberg a
Kristen Stewart, cada um confere um brilho peculiar a seus personagens, suas
intimidades, apresentando um conforto admirável ao compor suas personalidades.
Os movimentos românticos assim fluem com naturalidade, e não entender o que se
passa na cabeça dos personagens apaixonados faz parte do processo de suspirar
com o filme: amor é assim mesmo.
Parece
que a própria câmera compreende isso, tendo aqui um Woody Allen mais lírico e
ambicioso do que costuma ser em termos de estética. Ainda que continuando com
os mesmos enquadramentos e movimentos de câmera que mais servem de palco para
os diálogos do que como parte efetiva da história, a fotografia de Vittorio
Storato adentra nos pormenores das interações, dizendo bastante com closes no rosto dos personagens, travellings que terminam em
enquadramentos que acompanham o fluxo dos diálogos, ou detalhes na iluminação
que revelam intimidades. Em um exemplo dessa última afirmação, dois momentos da
produção apresentam o rosto de Kristen Stewart escurecendo ou brilhando ao
virar levemente sobre seu pescoço, numa tentativa da personagem de esconder uma
emoção que avulta aos olhos do espectador, através da fotografia.
Há
algo a ser dito a partir dos rumos que a história toma, as ironias e as
reviravoltas que se desenham. O Tempo, implacável em sua sucessão de
contingências que se reorganizam e nos obrigam a readaptação, a tudo muda. As
pessoas por quem nos apaixonamos não são as mesmas, se renovam, e pode ser que
entrem em contradição com tudo aquilo que nos fez olhar para elas em primeiro
lugar. Mas cada pessoa é um ambiente para que nos comportemos diferentemente, e
uma das magias de reencontrar uma paixão é justamente o fato de que,
independentemente do quanto mudamos, voltemos a nos comportar da exata forma
como antes na presença desse alguém, assim como a antiga paixão, ao estar
sozinha conosco, volta a ser aquela/e que era antes. As pessoas também são
lugares, são condições às quais nos adaptamos.
Os
rumos de Café Society versam sobre
encontros, desencontros, partidas e chegadas. Adeuses que jamais se dizem e
sentimentos que se renovam, justamente porque as condições mudaram. Woody
Allen, quando deixa de focar na enfadonha subtrama mafiosa do filme, cria uma
obra que respeita a confusão dos sentimentos, que respeita a própria
contradição enquanto essência humana.
Pode
ser diferente. Na verdade, pode ser que nós mesmos enquanto ambiente nos
desgastemos, deixando de despertar qualquer sentimento na outra pessoa, e
vice-versa. Pode ser que não. O caso é que o recorte de Allen em Café Society é doce o suficiente para
amaciar nosso cinismo, entregando-nos um sublime travelling final, o próprio
encontro/desencontro sentimental em imagem.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 11/09/2016

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