Crítica:
Aquarius (Idem / 2016 / Brasil)
Dir.
Kleber Mendonça Filho
No
aniversário de Lúcia, uma socialite de
70 anos, dois de seus sobrinhos-netos leem textos que narram a admirável trajetória
da tia-avó, em frente aos emocionados parentes, aglomerados no apartamento do
edifício Aquarius, na orla de Boa Viagem, Recife. O olhar de Lúcia parece
perdido. Há algo de melancólico em seu semblante. Ela mira uma cômoda, que não
parece guardar nada de especial, até que vemos flashes de tórridas cenas de sexo sobre o tal móvel. Um sorriso se
desenha em seu rosto.
Essa
cena, nos minutos iniciais de Aquarius,
novo filme de Kleber Mendonça Filho, delineia a passarela por onde o longa andará: na linha de sombra entre o passado e o presente, o próprio ambiente
físico enquanto extensão simbólica de nosso organismo biológico. É uma terna
observação das relações intra e interpessoais, sem pudor, sem frescura, tendo o
afeto como denominador comum. É um olhar crítico sobre o Brasil e o diálogo com
sua própria História. Um filme sobre Clara (Sônia Braga), uma crítica musical
aposentada de quem uma imobiliária tenta tirar o apartamento no edifício
Aquarius, no qual ela é a última residente, para construir algum insosso
exemplar de arquitetura moderna.
A
câmera de Mendonça Filho e sua equipe desliza com calma sobre o citado
apartamento, com atenção singular a cada objeto, pois reconhece que neles existem
histórias, conglomerados de sentimentos e acidentadas trajetórias. Clara sente
isso, tanto é que, sem apresentar comportamento pedante de rechaçar novas
tecnologias, insiste em manter um grande acervo de mídia física em casa, LPs e
livros. São como “mensagens na garrafa”, diz ela. E é nesse mesmo apartamento
que o fantasma de uma empregada negra passeia entre residentes e visitantes:
sua memória e o que ela significa para a identidade do Brasil se mantém viva
nos dias de hoje. São diálogos entre o presente e o passado, algo que o roteiro
de Mendonça Filho explora a partir de discursos imagéticos que dizem muito sem
nenhuma fala, como no momento em que alguém tira foto de uma velha fotografia,
e tenta clareá-la com um aplicativo de smart-phone.
É
a integração cotidiana que imprime história a esse ambiente físico, que lhe
garante uma digital particular. Compreendendo isso, os realizadores passeiam
com a câmera por uma série de encontros sociais envolvendo laços afetivos,
diálogos sem nenhuma teleologia a não ser demarcar as relações entre aquelas pessoas.
É aqui também que Aquarius se torna
um filme rebelde que não deveria soar rebelde. E é justamente na compreensão
disso que está a sabedoria dos realizadores.
Resgatando a citada lembrança sexual de Lúcia,
há, na primorosa chupada que sua versão jovem recebe, tanto afeto, tanto bloco
construtor de identidade e memória, quanto os fofos textos escritos por seus
sobrinhos-netos. Há sincera tranquilidade entre os personagens do filme ao
falar sobre sexo, homossexualidade, sobre seus próprios corpos, sobre desejo,
tesão. São sentimentos naturais, mais naturais do que qualquer falso moralismo
que pregue o amor casto necessariamente heterossexual, e o momento em que Clara
vê o sobrinho e a namorada se esfregando em um aconchegante sexo matinal, tem
em seu terno sorriso mais humanidade do que se ela se horrorizasse qual uma
retrógrada senhora conservadora faria. Entre diversos outros aspectos, Aquarius é um filme político ao falar
sobre o corpo, ao falar sobre o físico.
E
Aquarius é um filme intimista ao
falar sobre Clara. Abarcando a protagonista em todas as contradições que a
fazem humana, o roteiro e a poderosa composição de Sônia Braga desenham Clara
como uma figura visceral. É a mulher que sente tesão vendo uma orgia, sente
vontade de dançar um forró, sente falta dos filhos, deleita-se com seus
netinhos e que delicia-se dançando aos sons de seus amados vinis em casa,
sozinha. Seu comportamento varia de rude
para assertiva, sensível para forte, amorosa para grossa, sendo talvez cada uma
dessas definições uma afronta a quem realmente é Clara.
Melhor
seria dizer que Clara (Claras, talvez) são seus cabelos, esses que foram
raspados na época de sua luta contra o câncer de mama nos anos 70, e que em
2016 apresentam-se frondosos, enormes, exibidos com gosto por ela, sendo cada
momento em que os solta (ou prende), receptáculos de significados emocionais.
Seus cabelos são símbolos de sua trajetória, de sua construção identitária,
assim como o edifício Aquarius é uma extensão de seu organismo biológico, numa
comparação metafórica na qual o roteiro imerge no terceiro ato, cujo título (O Câncer de Clara) e desdobramentos
versam sentidos conotativos e denotativos a partir da construção visual da
narrativa.
Todas
essas são reflexões suscitadas pelo filme, mas que não se sustentam em um mundo
onde o capitalismo selvagem a tudo consome, define e reduz. Há o questionamento
sobre a possibilidade de mesclar o biológico/social/histórico/psicológico em
uma configuração na qual as delimitações físicas perdem idiossincrasias em nome
do dinheiro e da reprodução frenética de redes comerciais tais como algum
Burger King, McDonalds ou Starbucks. Como um Atlantic City Plaza. Não há “Novo Aquarius”, pois o que faz o
edifício Aquarius único são as histórias e fantasmas marcados em suas paredes,
não o nome. A velocidade e ferocidade do sucateamento das estruturas hoje em
dia em troca do padrão de beleza e praticidade estabelecidos pelo capitalismo
castram a possibilidade de construções psicológicas cheias de raízes.
Contudo,
a nível político, existe sim uma pungente demarcação ontológica tradicional no
país. É impossível ignorar o caráter histórico sobre o qual se ergue o Brasil
moderno: antigas estruturas agrárias familiares, a corrupção, o coronelismo, se
mantém como antes, sob uma fachada esterilizada de capitalismo moderno. Mais
explicitamente do que em O Som ao Redor,
seu filme anterior, Kleber Mendonça Filho tece reflexões sobre as redes de
articulação sociais por trás de cada movimento brasileiro. O Estado, a Igreja e
a Mídia são pontos nevrálgicos das engrenagens que fazem funcionar o país,
sendo o sangue das famílias latifundiárias que datam da época das Províncias o óleo
que as lubrificam. “É algo bem brasileiro mesmo”, diz Clara, indignada, em
certo momento da projeção. Não é a toa que Diego (Humberto Carrão) obedeça
estereótipos marcantes enquanto jovem capitalista louco para fazer dinheiro:
estudou nos EUA, tem ligação com a Igreja e tem sangue de família com ligações
latifundiárias históricas. E é branco.
E
o que podem indivíduos fazer mediante tal quadro? E mais importante: como tecer
história, como mesclar físico e psicológico em um mundo que exige alva
padronização? Aquarius não responde
nada disso, mas nos propõe uma catarse suficiente para começarmos a pensar, e
quem sabe agir.
É
poesia política.
Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 09/09/2016

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