sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Crítica: Aquarius


Crítica:

Aquarius (Idem / 2016 / Brasil)

Dir. Kleber Mendonça Filho

No aniversário de Lúcia, uma socialite de 70 anos, dois de seus sobrinhos-netos leem textos que narram a admirável trajetória da tia-avó, em frente aos emocionados parentes, aglomerados no apartamento do edifício Aquarius, na orla de Boa Viagem, Recife. O olhar de Lúcia parece perdido. Há algo de melancólico em seu semblante. Ela mira uma cômoda, que não parece guardar nada de especial, até que vemos flashes de tórridas cenas de sexo sobre o tal móvel. Um sorriso se desenha em seu rosto.

Essa cena, nos minutos iniciais de Aquarius, novo filme de Kleber Mendonça Filho, delineia a passarela por onde o longa andará: na linha de sombra entre o passado e o presente, o próprio ambiente físico enquanto extensão simbólica de nosso organismo biológico. É uma terna observação das relações intra e interpessoais, sem pudor, sem frescura, tendo o afeto como denominador comum. É um olhar crítico sobre o Brasil e o diálogo com sua própria História. Um filme sobre Clara (Sônia Braga), uma crítica musical aposentada de quem uma imobiliária tenta tirar o apartamento no edifício Aquarius, no qual ela é a última residente, para construir algum insosso exemplar de arquitetura moderna.

A câmera de Mendonça Filho e sua equipe desliza com calma sobre o citado apartamento, com atenção singular a cada objeto, pois reconhece que neles existem histórias, conglomerados de sentimentos e acidentadas trajetórias. Clara sente isso, tanto é que, sem apresentar comportamento pedante de rechaçar novas tecnologias, insiste em manter um grande acervo de mídia física em casa, LPs e livros. São como “mensagens na garrafa”, diz ela. E é nesse mesmo apartamento que o fantasma de uma empregada negra passeia entre residentes e visitantes: sua memória e o que ela significa para a identidade do Brasil se mantém viva nos dias de hoje. São diálogos entre o presente e o passado, algo que o roteiro de Mendonça Filho explora a partir de discursos imagéticos que dizem muito sem nenhuma fala, como no momento em que alguém tira foto de uma velha fotografia, e tenta clareá-la com um aplicativo de smart-phone.

É a integração cotidiana que imprime história a esse ambiente físico, que lhe garante uma digital particular. Compreendendo isso, os realizadores passeiam com a câmera por uma série de encontros sociais envolvendo laços afetivos, diálogos sem nenhuma teleologia a não ser demarcar as relações entre aquelas pessoas. É aqui também que Aquarius se torna um filme rebelde que não deveria soar rebelde. E é justamente na compreensão disso que está a sabedoria dos realizadores.

 Resgatando a citada lembrança sexual de Lúcia, há, na primorosa chupada que sua versão jovem recebe, tanto afeto, tanto bloco construtor de identidade e memória, quanto os fofos textos escritos por seus sobrinhos-netos. Há sincera tranquilidade entre os personagens do filme ao falar sobre sexo, homossexualidade, sobre seus próprios corpos, sobre desejo, tesão. São sentimentos naturais, mais naturais do que qualquer falso moralismo que pregue o amor casto necessariamente heterossexual, e o momento em que Clara vê o sobrinho e a namorada se esfregando em um aconchegante sexo matinal, tem em seu terno sorriso mais humanidade do que se ela se horrorizasse qual uma retrógrada senhora conservadora faria. Entre diversos outros aspectos, Aquarius é um filme político ao falar sobre o corpo, ao falar sobre o físico.

E Aquarius é um filme intimista ao falar sobre Clara. Abarcando a protagonista em todas as contradições que a fazem humana, o roteiro e a poderosa composição de Sônia Braga desenham Clara como uma figura visceral. É a mulher que sente tesão vendo uma orgia, sente vontade de dançar um forró, sente falta dos filhos, deleita-se com seus netinhos e que delicia-se dançando aos sons de seus amados vinis em casa, sozinha.  Seu comportamento varia de rude para assertiva, sensível para forte, amorosa para grossa, sendo talvez cada uma dessas definições uma afronta a quem realmente é Clara.

Melhor seria dizer que Clara (Claras, talvez) são seus cabelos, esses que foram raspados na época de sua luta contra o câncer de mama nos anos 70, e que em 2016 apresentam-se frondosos, enormes, exibidos com gosto por ela, sendo cada momento em que os solta (ou prende), receptáculos de significados emocionais. Seus cabelos são símbolos de sua trajetória, de sua construção identitária, assim como o edifício Aquarius é uma extensão de seu organismo biológico, numa comparação metafórica na qual o roteiro imerge no terceiro ato, cujo título (O Câncer de Clara) e desdobramentos versam sentidos conotativos e denotativos a partir da construção visual da narrativa.

Todas essas são reflexões suscitadas pelo filme, mas que não se sustentam em um mundo onde o capitalismo selvagem a tudo consome, define e reduz. Há o questionamento sobre a possibilidade de mesclar o biológico/social/histórico/psicológico em uma configuração na qual as delimitações físicas perdem idiossincrasias em nome do dinheiro e da reprodução frenética de redes comerciais tais como algum Burger King, McDonalds ou Starbucks. Como um Atlantic City Plaza. Não há “Novo Aquarius”, pois o que faz o edifício Aquarius único são as histórias e fantasmas marcados em suas paredes, não o nome. A velocidade e ferocidade do sucateamento das estruturas hoje em dia em troca do padrão de beleza e praticidade estabelecidos pelo capitalismo castram a possibilidade de construções psicológicas cheias de raízes.

Contudo, a nível político, existe sim uma pungente demarcação ontológica tradicional no país. É impossível ignorar o caráter histórico sobre o qual se ergue o Brasil moderno: antigas estruturas agrárias familiares, a corrupção, o coronelismo, se mantém como antes, sob uma fachada esterilizada de capitalismo moderno. Mais explicitamente do que em O Som ao Redor, seu filme anterior, Kleber Mendonça Filho tece reflexões sobre as redes de articulação sociais por trás de cada movimento brasileiro. O Estado, a Igreja e a Mídia são pontos nevrálgicos das engrenagens que fazem funcionar o país, sendo o sangue das famílias latifundiárias que datam da época das Províncias o óleo que as lubrificam. “É algo bem brasileiro mesmo”, diz Clara, indignada, em certo momento da projeção. Não é a toa que Diego (Humberto Carrão) obedeça estereótipos marcantes enquanto jovem capitalista louco para fazer dinheiro: estudou nos EUA, tem ligação com a Igreja e tem sangue de família com ligações latifundiárias históricas. E é branco.

E o que podem indivíduos fazer mediante tal quadro? E mais importante: como tecer história, como mesclar físico e psicológico em um mundo que exige alva padronização? Aquarius não responde nada disso, mas nos propõe uma catarse suficiente para começarmos a pensar, e quem sabe agir.

É poesia política.

Lucas Wagner Nunes
Goiânia, 09/09/2016



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