sábado, 7 de maio de 2016

Crítica: Capitão América: Guerra Civil

Crítica:

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War / 2016 / EUA)

Direção: Anthony & Joe Russo

Por mais que seja divertido reclamar dos filmes da Marvel há que se admitir que pelo menos existe atenção por parte da produtora em levar em conta algumas das críticas mais frequentes aos seus filmes. Se antes falava-se sempre da falta de espaço ao desenvolvimento individual dos personagens, já desde talvez Os Vingadores: A Era de Ultron cada herói ganhou mais tempo e estofo emocional. E se houve bastante reclamação voltada para a desconsideração do número absurdo de mortes civis que as brigas entre heróis e vilões com certeza causavam, desde Capitão América: Soldado Invernal começou um movimento de preocupação em justificar tematicamente essa “higienização” das cenas de ação por motivos de censura.

O que nos trás a Guerra Civil, onde os realizadores tem a sacada de pegar justamente a questão envolvendo essa última crítica aos filmes anteriores para usá-la como motor principal da narrativa. Curiosamente, o recente Batman Vs. Superman teve a mesma ideia frente às críticas feitas ao Homem de Aço de 2013. Mas as comparações terminam aqui. Se o último filme de Zack Snyder acaba se revelando uma bagunça nonsense com ares de Michael Bay, o novo filme da Marvel trilha um caminho bem mais coeso, muito embora abandone qualquer sinal da ambição temática que introduziu para guiar rumos bem mais confortáveis.

Como sinopses e trailers já revelaram, a destruição e as mortes de inocentes contingentes às tentativas de “salvar o mundo” por parte dos Vingadores já não poderia ser ignorada pela ONU ou mesmo pelos próprios heróis, que passam a ser assombrados por seus feitos. E aqui ocorre a tal cisão no grupo que leva à guerra civil. O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely começa investindo na trama sobre a tentativa de colocarem os Vingadores sob controle governamental, e desvela um caminho interessantíssimo para seguir daí. Obviamente, existem diversas questões a serem tratadas quanto ao assunto, tematicamente: a tentativa de retirar o caráter privado da organização dos heróis é compreensível mas certamente levantaria uma série de problemas envolvido simplesmente em transformarem os Vingadores em alguma espécie de objeto sujeito à ONU. Como se posicionar frente a essas questões e os sacrifícios necessários se um acordo desse tipo fosse assinado? Quais os argumentos de cada lado do embate entre os heróis? E como encaram a responsabilidade por seus erros colaterais?

Questões que o roteiro não chega a explorar. Ao invés disso, uma trama envolvendo novamente o Soldado Invernal toma conta da narrativa, e abafa a questão da alteração da privatização da agência. Mas a disputa “ideológica” firmada entre Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Steve Rogers (Chris Evans) continua, e é curioso pensar que ela poderia ser bem resolvida na base do diálogo. Se simplesmente houvesse sequer tentativa de Rogers dialogar com Stark e explicar a urgência da situação onde acaba envolvido, sobre a existência de mais soldados invernais controlados pela “Hidra” e que são ameaça pulsante, e toda a necessidade redirecionamento da ação para isso... bem, continuaria seria sem graça (ainda há o abandono da trama mais complexa), mas ao menos haveria maior coerência narrativa. Infelizmente, já sabemos que uma configuração assim não poderia acontecer na Marvel. O que fica é a sensação de personagens que não estão se entendendo e preferem conversar na base da porrada.

O que serve de pretexto pra diversas cenas de ação, enquanto a trama vai simplificando até o limite do simplismo. Novidade nenhuma no cinema da Marvel (vide Capitão América: Soldado Invernal), onde a aparência de complexidade na trama serve mais como verniz para algo bem irrisório. Aqui pode haver a boa intenção ao introduzir um tema complexo, mas larga-lo na metade da trama, ainda mais tendo um vilão que, no fim das contas, pouco altera efetivamente os rumos da narrativa, tira de Guerra Civil uma série de pontos que o enriqueceriam enormemente. E se o roteiro busca nas motivações do vilão uma tentativa de atar as pontas do roteiro com a discussão iniciada, o remendo ainda fica frouxo diante do filme como um todo.

Ao menos no outro ponto citado no primeiro parágrafo o longa decepciona menos. Há espaço razoável para desenvolvimento de personagens aqui, além de introduzir outros nesse universo de forma dinâmica e interessante, apesar de, analisando friamente, servirem apenas de amostras de possíveis novos filmes envolvendo esses heróis. Independente disso, Homem-Aranha, Pantera Negra e Homem Formiga (personagem bom de um filme-título ruim) são adições refrescantes ao universo, sendo ainda uma lufada de ar fresco na cara não precisar ver de novo a história de origem do Aranha para poder aproveitar suas acrobacias e seu carisma. No elenco já estabelecido, os atores continuam aproveitando o espaço que tem para ao menos reafirmar o carisma e individualidade de seus personagens, com um destaque talvez para Robert Downey Jr., que aqui confere um peso dramático ímpar à Stark e dá dimensão a seus dilemas, mesmo lidando com uma trama ingrata que o obriga, logo na sua primeira aparição em cena, ao absurdo de uma terapia em público para apresentar a nova tecnologia desenvolvida pela Stark Industries.

E ainda, apesar de todos os “poréns” de Guerra Civil, talvez seja um filme que valha a pena conferir ao menos para se divertir com cenas de ação que sabem explorar a coordenação dos poderes dos heróis quando agindo em grupo, ou o uso de suas habilidades especiais para quando lutam um contra o outro, e confesso ter genuinamente adorado o momento em que Homem Formiga entra na armadura de Stark para atingi-lo de dentro para fora.

De qualquer forma, diferente de um filme dos X-Men, por exemplo, acovarda-se diante da possibilidade em fazer um filme excepcional com discussões temáticas ambiciosas para se submeter ao fato de que qualquer fã dos quadrinhos vai delirar, com trama rica ou não. No fim, acabou sendo apenas mais um filme bem esquecível.

Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes

Goiânia, 07/05/2016

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