Crítica:
Capitão América: Guerra
Civil
(Captain America: Civil War / 2016 /
EUA)
Direção:
Anthony & Joe Russo
Por
mais que seja divertido reclamar dos filmes da Marvel há que se admitir que
pelo menos existe atenção por parte da produtora em levar em conta algumas das
críticas mais frequentes aos seus filmes. Se antes falava-se sempre da falta de
espaço ao desenvolvimento individual dos personagens, já desde talvez Os Vingadores: A Era de Ultron cada
herói ganhou mais tempo e estofo emocional. E se houve bastante reclamação
voltada para a desconsideração do número absurdo de mortes civis que as brigas
entre heróis e vilões com certeza causavam, desde Capitão América: Soldado Invernal começou um movimento de
preocupação em justificar tematicamente essa “higienização” das cenas de ação
por motivos de censura.
O
que nos trás a Guerra Civil, onde os
realizadores tem a sacada de pegar justamente a questão envolvendo essa última crítica
aos filmes anteriores para usá-la como motor principal da narrativa.
Curiosamente, o recente Batman Vs.
Superman teve a mesma ideia frente às críticas feitas ao Homem de Aço de 2013. Mas as comparações
terminam aqui. Se o último filme de Zack Snyder acaba se revelando uma bagunça nonsense com ares de Michael Bay, o novo
filme da Marvel trilha um caminho bem mais coeso, muito embora abandone
qualquer sinal da ambição temática que introduziu para guiar rumos bem mais confortáveis.
Como
sinopses e trailers já revelaram, a destruição e as mortes de inocentes
contingentes às tentativas de “salvar o mundo” por parte dos Vingadores já não
poderia ser ignorada pela ONU ou mesmo pelos próprios heróis, que passam a ser
assombrados por seus feitos. E aqui ocorre a tal cisão no grupo que leva à
guerra civil. O roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely começa
investindo na trama sobre a tentativa de colocarem os Vingadores sob controle governamental,
e desvela um caminho interessantíssimo para seguir daí. Obviamente, existem
diversas questões a serem tratadas quanto ao assunto, tematicamente: a
tentativa de retirar o caráter privado da organização dos heróis é
compreensível mas certamente levantaria uma série de problemas envolvido
simplesmente em transformarem os Vingadores em alguma espécie de objeto sujeito
à ONU. Como se posicionar frente a essas questões e os sacrifícios necessários
se um acordo desse tipo fosse assinado? Quais os argumentos de cada lado do
embate entre os heróis? E como encaram a responsabilidade por seus erros
colaterais?
Questões
que o roteiro não chega a explorar. Ao invés disso, uma trama envolvendo
novamente o Soldado Invernal toma conta da narrativa, e abafa a questão da
alteração da privatização da agência. Mas a disputa “ideológica” firmada entre
Tony Stark (Robert Downey Jr.) e Steve Rogers (Chris Evans) continua, e é
curioso pensar que ela poderia ser bem resolvida na base do diálogo. Se
simplesmente houvesse sequer tentativa de Rogers dialogar com Stark e explicar
a urgência da situação onde acaba envolvido, sobre a existência de mais
soldados invernais controlados pela “Hidra” e que são ameaça pulsante, e toda a
necessidade redirecionamento da ação para isso... bem, continuaria seria sem
graça (ainda há o abandono da trama mais complexa), mas ao menos haveria maior
coerência narrativa. Infelizmente, já sabemos que uma configuração assim não
poderia acontecer na Marvel. O que fica é a sensação de personagens que não
estão se entendendo e preferem conversar na base da porrada.
O
que serve de pretexto pra diversas cenas de ação, enquanto a trama vai simplificando
até o limite do simplismo. Novidade nenhuma no cinema da Marvel (vide Capitão América: Soldado Invernal), onde
a aparência de complexidade na trama serve mais como verniz para algo bem
irrisório. Aqui pode haver a boa intenção ao introduzir um tema complexo, mas larga-lo
na metade da trama, ainda mais tendo um vilão que, no fim das contas, pouco
altera efetivamente os rumos da narrativa, tira de Guerra Civil uma série de pontos que o enriqueceriam enormemente. E
se o roteiro busca nas motivações do vilão uma tentativa de atar as pontas do
roteiro com a discussão iniciada, o remendo ainda fica frouxo diante do filme
como um todo.
Ao
menos no outro ponto citado no primeiro parágrafo o longa decepciona menos. Há
espaço razoável para desenvolvimento de personagens aqui, além de introduzir outros
nesse universo de forma dinâmica e interessante, apesar de, analisando
friamente, servirem apenas de amostras de possíveis novos filmes envolvendo
esses heróis. Independente disso, Homem-Aranha, Pantera Negra e Homem Formiga
(personagem bom de um filme-título ruim) são adições refrescantes ao universo,
sendo ainda uma lufada de ar fresco na cara não precisar ver de novo a história
de origem do Aranha para poder aproveitar suas acrobacias e seu carisma. No
elenco já estabelecido, os atores continuam aproveitando o espaço que tem para ao
menos reafirmar o carisma e individualidade de seus personagens, com um
destaque talvez para Robert Downey Jr., que aqui confere um peso dramático
ímpar à Stark e dá dimensão a seus dilemas, mesmo lidando com uma trama ingrata
que o obriga, logo na sua primeira aparição em cena, ao absurdo de uma terapia
em público para apresentar a nova tecnologia desenvolvida pela Stark
Industries.
E
ainda, apesar de todos os “poréns” de Guerra
Civil, talvez seja um filme que valha a pena conferir ao menos para se
divertir com cenas de ação que sabem explorar a coordenação dos poderes dos
heróis quando agindo em grupo, ou o uso de suas habilidades especiais para
quando lutam um contra o outro, e confesso ter genuinamente adorado o momento
em que Homem Formiga entra na armadura de Stark para atingi-lo de dentro para
fora.
De
qualquer forma, diferente de um filme dos X-Men,
por exemplo, acovarda-se diante da possibilidade em fazer um filme excepcional
com discussões temáticas ambiciosas para se submeter ao fato de que qualquer fã
dos quadrinhos vai delirar, com trama rica ou não. No fim, acabou sendo apenas
mais um filme bem esquecível.
Lucas Wagner Alves Ribeiro Nunes
Goiânia, 07/05/2016

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